A Princesa e o Vendedor de Gelo
1 A Princesa e o Vendedor de Gelo
Notas iniciais
Era uma vez(...) A bela princesa despertava delicadamente, os cílios escuros emoldurando o rosto sereno que começava a ficar ciente das coisas ao redor.
Ou quase isso.
– Hmmf – limpei a baba no canto da boca..
Eu estava mergulhada em um delicioso sono profundo quando fui acordada por um funcionário do castelo. Essa cena já aconteceu tantas vezes, que nem sei como o meu cérebro não se acostumou a despertar tão cedo! Os meus olhos teimavam em se fechar. Tive que piscar repetidamente para afugentar o sono. Nem um pouco atraente para uma princesa.
– Kristoff está te esperando no salão principal-o funcionário comunicou.
– Obrigada — agradeci, sorrindo, um pouco constrangida por não lembrar o nome dele.
Eu me vesti e tracei o trajeto, descendo as escadas lentamente, o que não era o meu habitual. Sorri um pouco ao lembrar o porquê de toda aquela cautela. Avistei o meu marido e logo disparei:
– Pensei que tivesse dito que grávidas precisam de sono-acariciei minha barriga. — E as ordens de que eu não precisaria ser desperta tão cedo?
– Você é muito folgada — Kristoff me cutucou. — Já era assim antes da criança, agora então...
Reclamei e bati no ombro dele, mas me rendi e ri. A gravidez não havia sido planejada, mas a notícia foi recebida com muito prazer. Lembrei-me dos enjoos estranhos, que fizeram com que eu me retirasse do salão antes de terminar o café da manhã. E de como ele havia me beijado e me rodado. E imaginei as canções de renas que ele certamente cantaria para o nosso bebê. E a reação de trolls, que haviam comparecido ao casamento e chamado a atenção de todos.
Houve grande repercussão em Arendelle, o que, particularmente, me deixava desconfortável. Seria muito melhor criar um bebê sem pressão, sem toda a expectativa de um futuro grande líder que todos esperavam que se tornasse. Talvez a criança puxasse a mãe e fosse um tanto desajeitada... Sorri ao pensar nisso. E então me lembrei das apostas de qual seria o sexo. Na verdade, era bem incômodo escutar os palpites de alguns funcionários! Não era uma aposta boba, era a vida de uma criança!
– A sugestão foi sua — me defendi, sorrindo. — Ah, aliás, o que estou fazendo aqui?
– Você não lembra? O escritor que combinamos de encontrar?
Vasculhei minha memória, mas não encontrei nada. Escritor? Que escritor? Quando havíamos concordado com aquilo?
– Eu te avisei ontem a noite, lembra? Você balbuciou um sim, sonolenta e... pensando bem, acho que você deve ter dormido — explicou, meio sem graça.
– Por que vamos encontrar um escritor? — Eu realmente estava confusa. Talvez ele quisesse que adotássemos seus livros na enorme biblioteca do castelo. Era por isso que eu havia sido acordada?
– Ah, tudo bem — resmunguei. — O que ele quer, exatamente?
– Nem eu sei direito — Kristoff comentou. — Sua irmã que autorizou o que quer que ele tenha pensado. Devemos nos encontrar naquela sala com máquinas de escrever, naquele corredor perto da biblioteca.... Sabe onde é, certo?
Assenti e ele me guiou para o tal local.
***
Quando chegamos, Elsa estava falando alguma coisa com o escritor, parecendo muito compenetrada. Ele estava dividido em ouvi-la e anotar em uma folha de papel. Foi só depois que minha irmã ergueu o olhar para mim e sorriu.
– Este é August Booth. Te contei outro dia, que ele pretendia escrever um romance com base no que vivemos?
Lembrava. Confesso que nunca dei muita importância ao fato. Na época, era só uma possibilidade e já fazia tanto tempo que o assunto ressurgir me pegou desprevenida.
– O sr. Booth terminou o livro e quis me consultar. O livro realmente me agradou e não vejo problemas em deixá-lo publicar-ela assumiu uma expressão séria-Na época, você não se incomodou... Só conseguimos agendar para hoje e, com a gravidez e tudo o mais, eu sinto muito por não ter te contado antes.
– Tudo bem — sorri. Elsa se desculpava pelas coisas mais simples. — Não tenho restrições contra isso. — Todos esperavam que, como futura mãe, eu deixe de ser tão... eu. A princesinha atrapalhada e ingênua. Por isso, tenho ensaiado o que dizer. Soou muito maduro, de verdade. O único problema era Kristoff prendendo o riso, porque me conhecia bem o suficiente para perceber que aquelas palavras não são as que diria.
August sorriu e, finalmente, parou de encarar o papel.
– Frozen é o título provisório.
– Me parece apropriado — empinei o queixo e tentei falar com a maturidade de quem entende o assunto. No geral, era mesmo verdadeiro. Não conseguia imaginar palavra melhor para descrever o dia da coroação e tudo o que se seguiu depois.-Seremos como um conto de fadas que mamãe já leu para mim?-Quando me chateava com as recusas de Elsa para brincar na neve, eu recorria a minha mãe, que me deixava aconchegar-se nela e lia histórias sobre esperança.
– Aposto que nos conhecerão em um mundo futurista — riu Kristoff. Era bem bizarro pensar naquilo.
– Escrevi um pequeno conto sobre sua irmã. Se chama A Rainha da Neve. E, como sei que o foco de Frozen é o amor entre irmãs, quero escrever um conto romântico baseado em vocês. O simpático vendedor de gelo e a elegante princesa.
– Elegante? A Anna? — fiz careta para Kristoff.
– Não sou?
– Destruiu o bolo da coroação. Tinham um reserva. — Por que contei aquela história para ele? — E as suas tentativas de controlar o trenó? Fico feliz que estejamos vivos.
– O trenó novo que eu te dei? — provoquei.
–Porque o velho foi destruído — ele rebateu.
– O novo é muito melhor. E, por minha causa, você ganhou um título de vendedor de gelo oficial! — empinei o nariz.
– Eu ainda duvido que ele exista — riu e me abraçou.
Percebi o sorrisinho no rosto de Elsa e o jeito discreto com o qual ela se retirou da sala. Era ótimo não ter nenhuma implicância com o Kristoff. Quando o vi coberto de gelo, nem cogitei ter uma relação com ele que não envolvesse a busca pela minha irmã. As nossas primeiras conversas não foram agradáveis. Se me dissessem que teríamos nos beijado algum dia, eu certamente teria rido. Havíamos nos conhecido antes de aprofundar o relacionamento. Ao contrário do... argh.
– Suponho que tenham tido más impressões um do outro.
– Eu o achei rude.
– Eu a achei uma verdadeira desmiolada. Ela queria se casar com alguém que acabou de conhecer!
Tive vontade de perguntar se era ciúmes que detectei. Quem ele era para falar? Não havia feito nem três dias quando nos beijamos pela primeira vez!
– O principezinho galanteador que deixou seu coração congelado. Literalmente. — August rascunhou. O jeito como ele não largava o papel era engraçado. — Eu quero o início do romance de vocês. As implicâncias, a cautela, todo o resto. Algo real.
– Você acha melhor contar qual parte primeiro? Os lobos, o trenó destruído, o monstro de neve gigante, os trolls... — Kristoff começou, assustando o coitado.
August ergueu as sobrancelhas e disse:
– É uma história bem interessante. — Indicou o relógio. — Temos tempo.
E desatamos a falar, contando cada detalhezinho, enquanto o escritor anotava rapidamente. Reviver tudo foi assustador, emocionante e até mesmo divertido. Fiquei satisfeita quando terminamos e recebemos um elogio de August antes de sairmos.
No dia seguinte, ele nos mostrou. Eu tinha medo de ele transformar nossa história em algo completamente diferente, mas fiquei satisfeita. A escrita era realmente boa. Na verdade, o que mais me chamou a atenção foi o final. A princesa e o vendedor de gelo viveram felizes para sempre.
Para sempre. Um termo repleto de romance.A antiga Anna, a imatura, teria ficado eufórica... A nova, que vai ser mãe, apenas se encantou com o final feliz e prometeu que contaria esse conto a criança, para que ela pudesse acreditar no verdadeiro amor... Eu não precisava concentrar meus sonhos em uma única noite, por uma vez na eternidade... Porque, agora, eu tenho a eternidade para sonhar.
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