A Princesa e o Pássaro

2 Capítulo 1- A Promessa de Inverno


Aquele era o primeiro dia de inverno em todo o império. O frio formara uma fina camada de gelo do lado de fora das janelas do castelo e tornava cada vez mais longas as noites de sono da princesa Jenna.

A garota, mesmo com seus saudáveis 17 anos, sentia seu corpo tão debilitado quanto de velhas senhoras quando o inverno se manifestava. Seus ossos pareciam tremer e ranger violentamente, seus órgãos pareciam congelar dentro de si, e uma grande dor corria pelas veias. Apesar do desconforto, era o único momento em que o sofrimento do corpo era predominante. Sua alma tornava-se leve a parecia voar enquanto permanecia deitada, fazendo-a cair nos sonhos febris de quando era criança.

Sonhava estar em uma floresta escura, onde se ouvia apenas o farfalhar das folhas e ranger dos galhos das árvores, quando Jenna acordou com alguém batendo em sua porta. Percebeu que dormira mais do que costumava. “Meu pai...”. Resistindo ao sono, a menina disse:

– Quem é? – sua voz soou estranha em seus ouvidos.

– Sou eu, querida – era Minus, pai da princesa. As palavras do homem, mesmo vindas de fora e pronunciadas com certa ternura, retumbaram por todo o quarto – Trouxe seu desjejum, e... uma surpresa.

Assim que o imperador abriu a porta do quarto, Jenna viu um sorriso, mesmo fraco, no rosto do pai. “Ele parece bem hoje”, pensou. Minus entrou, segurando uma bandeja com o café da manhã da menina em uma mão e algo embrulhado na outra. Posicionou-se em frente à filha, que ainda tentava acostumar seus olhos à claridade que vinha da porta aberta. Era um homem forte, de ombros largos e membros compridos. Seu cabelo crespo ruivo unia-se à barba densa, dando uniformidade ao rosto disforme nas maçãs do rosto e nariz, que se projetava em duas curvas para frente.

Então, a princesa disse, com sua voz pesada de sono:

– Bom dia – esboçou o melhor sorriso que conseguiu. O pai retribuiu serenamente. – Que horas são?

– Algo bem próximo de meio-dia. Aceita o desjejum?

– Sim, por favor – sentou-se na cama e o pai colocou a bandeja sobre sua perna. Nela havia queijo, pão, uvas e vinho quente. Enquanto comia, o pai a observava, ainda com o sorriso no rosto.

Quando Jenna terminou o desjejum, seu pai sentou-se na cama, afundando no grosso colchão na armação maciça de madeira. Nesse momento, o sorriso do homem desaparecera. Ele falou:

– Amanhã é seu aniversário, filha, e pensei em poder finalmente cumprir a promessa que fiz.

A princesa, confusa com as palavras de Minus, disse:

– Promessa? Pai, nunca pedi que prometesse algo... Não entendo...

– Eu sei Jenna, mas essa promessa não foi selada com você, – fez uma pausa – foi com sua mãe.

O choque no rosto da menina era visível. Nunca, em toda sua vida, ouvira a mãe pedir a Minus que prometesse algo a ela. Lembrava-se da família traída, morta pelos próprios amigos mesmo tendo dito “eu prometo” ao seu pai. Odiava promessas, assim como Jenna.

O rei continuou sua fala:

– Sei que é inesperado, por ser uma promessa vinda de sua mãe, mas – fez uma pausa, como se estivesse pensando se realmente era o certo a se falar – foram suas últimas palavras.

O choque de Jenna transformou-se em medo. Seu peito doía de tão rápido que seu coração batia, e os músculos de suas pernas retesaram-se violentamente. A menina tentou falar, mas nenhum som saía de sua boca. “Aquele dia... eu deveria ter ficado... deveria ter ouvido...”. Minus, percebendo o desespero da filha, segurou, com uma das mãos, suas mãos trêmulas e, com uma voz fraca, obrigou-se a continuar falando:

– Ela disse... que deveria protegê-la do perigo, do mal... escondido... e me fez prometer que entregaria isso a você. – estendeu a outra mão à menina, mostrando o objeto embrulhado em um papel manchado e rasgado, amarrado por uma fina corda de linho. Jenna, soltando-se da enorme mão do pai, segurou o embrulho tremulamente. Ele continuou – Era o livro que ela mais lia desde que você nasceu.

Desajeitadamente Jenna desfez o nó do embrulho, desdobrando o papel endurecido até finalmente ver o livro, com sua capa marrom e escritos dourados que diziam “A Travessia: da Criação à História dos Homens”. O exemplar estava intacto, como se os anos não tivessem agido sobre ele. A menina não conseguia tirar os olhos dele, agora menos desesperada, enquanto Minus a observava.

Passou os dedos pela capa de couro. “Não deveria ter saído do castelo... deveria ter ficado...”, pensou. Finalmente o abriu, revelando o primeiro capítulo do exemplar, “A Criação”. No topo da página, havia algo escrito, as letras de sua mãe, dizendo: “em voz alta”. Pegando fôlego, Jenna começou a ler, com a voz carregada de tristeza e cansaço:

“Antes das grandes colinas surgirem, da luz despertar monstros e almas, a escuridão envenenava as terras vazias e o ar acima delas. Não havia vida, somente o peso do frio e a escuridão impenetrável, quando surgiu o primeiro raio de luz. Seu calor queimou o solo rachado, crescendo chamas poderosas. Delas nasce a primeira Dádiva da Criação, a Primeira Ave, Adiáforos. A Esperança.

O calor do fogo alimentou seu corpo e as chamas transformaram-se nas penas. Suas lágrimas de dor caíram na terra apodrecida e libertaram-na da morte. Seus gritos sofridos transformaram o ar sulfurado em algo puro e aqueceram a eterna noite fria. Entretanto, toda a luz desapareceu, deixando o pequeno Adiáforos abandonado na escuridão. Deixado na terra curada, ainda incapaz de voar, sofria de solidão e medo da noite eterna que vivia. Sentia a dor do vazio em seu peito crescer a cada dia.

Longas e dolorosas eras passaram-se e a Primeira Ave suportou a terrível tortura do sofrimento, tornando-se capaz de resistir às dores do coração. Suas asas, agora imponentes, ergueram-no pelo ar, cortando rápida e violentamente a escuridão com seu voo poderoso.

À medida que voava, as chamas ressurgiam, sendo alimentadas pela última esperança em seu coração. Sua luz intensa rompeu a fortaleza escura do mundo e emergiu até o ponto mais longínquo, formando uma grande estrela. Sua luminosidade lutava impotentemente com a escuridão próxima. Dela, surge a Segunda Dádiva da Criação, a Segunda Ave, Khun. A Liberdade.

De onde a estrela estava o pássaro recém-nascido caiu de encontro com a escuridão, porém suas asas ainda eram fracas, assim como seu coração. Suas penas brancas tornaram-se negras quando foi engolido pela noite densa. Adiáforos voou em sua direção e segurou-o pelas pequenas pernas.

Quando o colocou no chão, viu que ele não resistira ao peso da escuridão e pereceu. Como ele, a estrela lentamente sucumbia à noite, perdendo força e esperança. Desesperado, Adiáforos originou a Terceira Dádiva da Criação, a Ressurreição. Com suas lágrimas caindo de seus olhos até seu irmão, fez a luz retornar, assim como a vida de Khun. Enfim, os olhos da Segunda Ave reabriram.

Apesar de vivo, o pequeno pássaro estava fraco. Então, a Primeira Ave banhou seu pequeno irmão com suas chamas, que beijaram seu corpo frágil freneticamente, fazendo Khun emergir, porém não mais como filhote. A imponência de sua existência era notável, mesmo as penas negras camuflando-o na escuridão.

A estrela brilhava intensamente, afastando cada vez mais a escuridão de si. A Segunda Ave voou ao encontro com a ela, unindo-se à sua luz. Então, expandiu-se subitamente, destruindo a grande muralha de escuridão por toda a extensão das terras. O céu mostrou-se como um azul límpido e o chão um solo desigual e roxo.

A escuridão reprimida concentrou-se em uma massa negra disforme, que se modelou até a forma oval. Dela, emerge a Quarta Dádiva da Criação, a Terceira Ave, Torus. O Equilíbrio.

Nascido da noite eterna, Torus foi purificado pela luz de seu irmão Khun. Libertada da escuridão, a Terceira Ave tornou-se branca como a neve e imponente como seus irmãos.

Então, os Primeiros Grandes Reis voaram pelo céu iluminado pela grande estrela, acima das terras vazias. Enfim, a Quinta Dádiva da Criação é feita, a Vida. O mundo começava a ser criado. As colinas erguiam-se, enquanto as florestas e bosques nasciam da chuva das nuvens densas no céu. Regiões tornaram-se lamacentas pelo excesso de água, formando os pântanos. Outras secaram e racharam pela falta dela, surgindo os desertos. Todos os ambientes foram criados.

Enfim, das paisagens e elementos naturais criados, os Protetores nasceram. Os primeiros espíritos do mundo despertavam, destinados a protegerem seus lares, continuarem a criação da vida e preservarem tais deveres aos seus filhos. Assim, a Luz prevaleceu por todo o reino.”

Quando terminou, olhou para o pai. Os olhos do homem estavam vermelhos e fixos ao chão. “Não foi só em mim que doeu... As cicatrizes dele também voltaram a sangrar, e por minha culpa”, pensou Jenna. Subitamente, Minus ergueu a cabeça e, sem dirigir seu olhar à filha, levantou e saiu do quarto a passos largos. A menina foi novamente deixada sozinha com seus pensamentos, acorrentados no passado, na morte de sua mãe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.