A Princesa e a Rainha
1 ................... O confronto das guerreiras.
Logo nos primeiros raios da manhã, quando a névoa orvalhada ainda cobria as pastagens verdejantes e os animais acordavam junto com dia, Xena e Gabrielle já despertavam e se punham a arrumar seus pertences e logo que terminassem o desjejum prosseguiriam viagem com destino à tribo das amazonas do leste. Porém esse pequeno afazer doméstico, quase sempre era precedido por uma pequena discussão sobre a divisão das tarefas matinais.
— Xena..., seria pedir muito pelo menos você ir buscar água? — Gabrielle pergunta.
— Ah Gabrielle usa a água do odre, você não vai precisar de tanta água assim. — Xena resmungou sonolenta, enquanto dobrava sua manta.
— Ah não, um simples servicinho desse e você não quer ajudar. — Diz Gabrielle segurando a manta ainda por dobrar. — Eu lavo as nossas roupas, cozinho, lavo a louça e faço tudo sozinha. — Contava nos dedos os afazeres.
— Ah é?! E quem é que caça, pesca, pega lenha, faz a fogueira..., hein? — Xena responde.
— Isso não justifica vo... — Suas palavras foram interrompidas por um sinal de Xena.
— Pssss. — Com o dedo junto aos lábios, Xena se agacha e faz sinal para que Gabrielle se abaixe também.
Com o tempo de convivência a loira aprendeu a não discutir as ordens de Xena, os instintos dela já as havia salvo inúmeras vezes de problemas imensos.
Gabrielle engatinhou para junto de sua parceira. — Que foi? — Perguntou sussurrando.
Sem falar nada, Xena apontou na direção da estrada que se via a certa distância. Da pequena inclinação na floresta, esgueirando-se entre as árvores, Xena caminha agachada seguida por Gabrielle, tentando se aproximar o máximo possível da origem do som. Conforme se aproximavam podiam ouvir mais nitidamente vozes de homens e mulheres misturadas numa confusão de palavras. Quando chegaram mais perto Xena identificou os padrões dos elmos, escudos e armas. Eram romanos. Uma tropa de vinte homens conduzia um número maior de mulheres, amarradas umas as outras pelos pulsos e pescoços. Elas estavam com as roupas rasgadas, sujas, algumas mancavam, cambaleavam e tinham ferimentos que indicavam que haviam travado uma luta corporal, com seus captores.
— Pelos deuses, são Amazonas da tribo de Velasca, nós temos... — Dizia Gabrielle quando foi interrompida.
— Quieta! — Sussurrou Xena.
— Mas nós não podemos... — Gabrielle foi interrompida novamente.
— Pssss.... Vamos esperar eles passarem, quero pegar o último homem e descobrir o que esses romanos imundos estão fazendo em território amazona, fique aqui. — Xena responde sussurrando.
— Não, eu vou com você! — Gabrielle insiste. Xena segurou-a fortemente pelo braço.
— Você vai ficar aqui como estou mandando, não é hora de bancar a menininha teimosa. — Com um tom de voz firme, encarou Gabrielle com um olhar que faíscava a raiva típica de quem não gostava de ser desobedecida.
A guerreira virou-se e começou a caminhar abaixada apressadamente. Com agilidade felina subiu numa árvore frondosa que dava acesso a estrada e aguardou. Gabrielle ficou espreitando escondida na floresta, aguardando que Xena entrasse em ação.
Do alto da árvore Xena observava a comitiva passar logo abaixo dela. Descendo pelo tronco da árvore, ela se agachou num galho mais baixo já com a espada na mão, observando os movimentos dos invasores. A coluna vinha organizada de maneira que seguiam seis homens na frente do comboio. Um deles seguia mais à frente do destacamento, certamente era algum tipo de comandante por suas vestes e postura. As mulheres vinham a seguir escoltadas por quatro soldados em cada lado da fileira, protegendo as laterais e outros seis atrás protegendo a retaguarda. Os dois últimos soldados demonstravam visíveis sinais de cansaço, caminhavam distantes dos demais.
Sem ver o que o atingira por trás, o romano viu uma lâmina afiada sair no meio do seu peito e caiu morto. O outro surpreso com a rapidez do ataque mal teve tempo de empunhar a lança, que foi cortada com um golpe de espada forte e preciso, partindo-a em dois pedaços e antes que pudesse sacar a espada, teve seus movimentos paralisados por dedos que pressionavam dois pontos em seu pescoço. Ele caiu de joelhos, engasgando com a própria saliva, seu nariz começou a sangrar. Tentava chamar atenção de alguém do pelotão que seguia já a certa distância, mas seus esforços eram em vão, o ar começava a faltar. Xena apoiou um joelho no chão ao lado dele.
— Amigo..., — Disse sarcasticamente. — Eu acabei de cortar o fluxo de sangue para o seu cérebro, você tem trinta segundos para me dar algumas informações, senão...
O soldado se debatia tentando respirar, um filete de sangue começava a escorrer da boca, as artérias do seu pescoço estavam inchando, a dor em sua garganta era insuportável, como se o estivessem enforcando, foi ficando com uma tonalidade arroxeada, seu cérebro estava prestes a explodir tamanha a pressão.
— Gaahhrr... — Tentava gritar.
— O tempo está passando... — Xena sadicamente aterrorizava o soldado. — Vai seu filho de uma bacante, diz o que vocês estão fazendo aqui!
— Pompeu captura as Amazonas..., ahhrg..., vai vender como escravas..., comércio de escravos com os piratas... — Gaguejava.
Xena não acreditava no que ouvia, amazonas vendidas como escravas?! — E para onde vão ser levadas?... Fale seu desgraçado! — O soldado estava prestes a perder a consciência. Xena o sacudiu violentamente.
— Porto de Daneses.... Arrghh. — Xena pressionou novamente os mesmos dois pontos no pescoço do soldado desfazendo a paralisia e deu um violento soco no queixo dele que desmaiou instantaneamente.
— Não vou te matar, você deu sorte, hoje estou de bom humor. — Disse. — Levantou-se e disparou a correr de volta para a floresta. Xena manda que Gabrielle arrume imediatamente as coisas.
— Vamos, não podemos perder tempo, temos que ir para o norte antes que as tribos de lá também sejam atacadas. — Xena diz.
— Mas o que aconteceu? — Perguntou Gabrielle.
— No caminho eu explico. — Disse Xena. Gabrielle guarda apressadamente os pertences nas sacolas de viagem. Xena corre até Argo que pastava próximo a uma pedra, colocou as rédeas, ajustou a sela e os estribos, montou de um salto, puxou as rédeas e correu até Gabrielle, que já a esperava. Numa rápida parada, a guerreira se inclinou segurando firme o braço da Barda que subiu na garupa do cavalo, agarrando-se fortemente ao corpo de Xena enquanto disparavam num galope desenfreado por uma estrada paralela. Não podiam correr o risco de serem encontradas por batedores romanos.
Xena instigava Argo para que corresse cada vez mais. O cavalo forte e veloz corria pela estreita estrada abandonada como se fosse o vento, saltando troncos atravessados no caminho sem qualquer dificuldade. Chegaram ao acampamento da Rainha Melosa, conhecida por sua arrogância e ferocidade em combate. Ninguém se atrevia a contrariar suas ordens. O porte dela impressionava, era alta, forte, músculos rígidos, olhar frio e penetrante, capaz de intimidar quem a enfrentasse. Um adorno de couro na cabeça com um grande rubi na testa indicava sua posição na tribo.
Foram cordialmente recebidas e levadas a presença da rainha. Após as saudações Xena informou o que tinha acontecido com a tribo de Velasca e que precisava da ajuda das amazonas do norte para libertar as irmãs da tribo do leste, antes que chegassem ao porto de Daneses.
— Desde a morte de Ephiny a tribo do leste se afastou de nós, porque deveríamos correr riscos e perdas por elas? — Disse friamente a rainha.
— Rainha Melosa... — Irritada, Gabrielle começa a falar quando foi interrompida por Xena.
— Rainha Melosa, não estamos aqui para discutir diferenças tribais entre vocês. — Disse Xena. — Todas as tribos fazem parte da nação Amazona e elas são suas irmãs. Não podemos deixar que sejam vendidas como escravas. Muitas estão feridas e fracas, temos que resgatá-las!
— Você não é amazona, por que se importa com elas? — Perguntou a rainha.
— Gabrielle é rainha amazona por direito à casta da tribo que foi capturada, ela me nomeou sua campeã e pediu minha ajuda..., não é rainha Gabrielle? — Xena virando o rosto, deu uma piscadela para Gabrielle.
— Sim..., sim é claro, Xena nos será de grande ajuda. Ela conhece bem as táticas de combate dos romanos e os detesta tanto quanto nós. — Disse Gabrielle.
Melosa observou que as guerreiras que acompanhavam a conversa, ficaram agitadas com a notícia de suas irmãs de armas serem escravizadas, sem oportunidade de se defenderem de tamanha humilhação. A inquietação tomava conta das amazonas, até que uma jovem amazona, empunhando uma espada gritou: MORTE AOS ROMANOS! PEGUEM AS ARMAS, VAMOS MATAR TODOS ELES!
— MORTE! — Gritaram as demais, e foram repetindo esse brado cada vez mais alto — MORTE!... MORTE AOS ROMANOS! VAMOS VINGAR NOSSAS IRMÃS! — Agora todas gritavam numa só voz.
Subitamente Melosa levantou-se de seu trono no alto de um pequeno tablado. Impondo seu porte e título sem dizer nenhuma palavra, correu os olhos frios e ameaçadores pelo grupo de amazonas, imediatamente elas se calaram. Procurava a jovem que instigara a agitação.
Melosa olhava para os rostos das mulheres encarando-as seriamente, até que fixou os olhos numa jovem, magra, cabelos castanhos longos, com chapéu pontudo.
Melosa desceu lentamente os degraus do tablado e caminhou na direção da agitadora.
— Como é seu nome? — Disse, apontando para a jovem.
Gabrielle fez menção de interferir, Xena sinalizou para que ela não se manifestasse naquele momento. As demais guerreiras se afastaram da jovem amazona, abrindo um espaço cada vez maior. A rainha parou frente à amazona, que estava visivelmente amedrontada com a figura a sua frente. Melosa olhou para a amazona sem dizer uma palavra e de repente desferiu uma violenta bofetada no rosto da jovem que a fez perder ligeiramente o equilíbrio. O silêncio era brutal, a tensão pairava no ar.
— Me diga seu nome. — Disse Melosa, alterando o tom da voz.
— Amarice. — Disse a jovem gaguejando, enquanto esfregava a bochecha atingida.
— Só quem dá ordens aqui sou eu. — Esbravejou a rainha.
Melosa pegou o pequeno chicote de quatro tiras que sempre trazia preso ao cinto e ergueu o braço, a jovem instintivamente se encolheu amedrontada. Com um salto e uma cambalhota em pleno ar, Xena caiu em pé entre Melosa e Amarice, agarrou firmemente o pulso da rainha impedindo que a jovem fosse castigada. Melosa ficou surpresa com a petulância de Xena. A rainha amazona e a princesa guerreira se encaravam seriamente.
— Você esta me desafiando? — Disse Melosa, encarando a guerreira grega com os olhos faiscando de raiva.
— Só quero impedir uma injustiça. — Disse Xena, sem largar o pulso da rainha.
— Você está passando dos limites, não tem o direito de interferir na punição dessa jovem! — Melosa diz irritada.
— Ora, o que essa garota fez de tão grave?! Não leve a sério... — Xena responde.
Com um puxão Melosa se soltou da mão de Xena, sem deixar de encará-la com um olhar furioso. A rainha recuou alguns passos e subitamente desembainhou a espada. Xena também já segurava a espada e ouviu-se o som dos metais se encontrando.
— Xena não! — gritou Gabrielle.
— Fique fora disso Gabrielle, isso é entre nós duas. — Gritou Xena.
Melosa investiu como se estivesse numa batalha contra um inimigo mortal, com fúria e toda sua força. As espadas se cruzavam num embate incansável. A força e a destreza das duas guerreiras eram iguais, esquivavam-se dos golpes com reflexos felinos. As estocadas mortais eram defendidas com agilidade.
— Desista enquanto pode Xena e eu lhe concederei a vida. — Diz Melosa.
— Eu não sou de desistir assim tão fácil. — Xena responde.
— Você não tem chance, nunca fui vencida num combate. — Disse Melosa.
— Sempre existe uma primeira vez. — Xena responde com sarcasmo.
As espadas se chocavam com tanta força, que por vezes podia se ver faíscas saindo das lâminas. Algumas vezes se aproximavam num contato de corpos, que eram imediatamente separados por empurrões, socos ou chutes. Num golpe rápido girando a espada, Melosa feriu o braço de Xena próximo ao ombro. A guerreira grega sentiu o sangue escorrer pelo braço. Houve uma rápida separação das duas guerreiras como se estivessem se avaliando.
Xena sentia o ódio borbulhar em seu sangue, a besta negra emergiu de suas entranhas com uma fúria descomunal. Xena atacou, golpeava sem dar qualquer chance de revide, obrigando Melosa a recuar de costas até o tablado. Tentando evitar tropeçar no degrau, a rainha desvia atenção da luta por uma fração de segundo, Xena aplicou um veloz golpe rasteiro nas pernas de Melosa derrubando-a. Rapidamente Xena pôs o pé em seu peito e a impediu de se levantar e com a espada encostando na garganta de Melosa, disse:
— Isso acaba aqui e agora. Concorda rainha?
Melosa encarando com um olhar de surpresa e ódio fez sinal afirmativo. Xena retirou o pé e ajudou-a a se levantar. As amazonas estavam perplexas, nunca tinham visto sua rainha ser derrotada.
Nitidamente constrangida a rainha amazona oferece a espada a Xena em sinal de submissão. A guerreira grega a olha e chama por Gabrielle que se chega para junto delas.
— Entregue a espada a rainha Gabrielle e jure sua obediência a ela. — Disse Xena.
Melosa humilhada se volta para Gabrielle e oferece a espada a ela, jurando fidelidade.
Gabrielle pega a espada das mãos de Melosa e virando-se para as guerreiras amazonas, empunhando a espada, decreta que não haverá castigo para Amarice. Faz um breve discurso sobre a necessidade das tribos se unirem para manterem a força e o legado amazona. Era preciso a união das tribos para manter uma nação amazona forte e livre.
Após alguns minutos de silêncio, ouviu-se um brado.
— POR UMA NAÇÃO AMAZONA FORTE! — Amarice grita.
— Yeeeehhhaaaaa. — Todas as outras gritaram entusiasmadas levantando suas lanças e espadas.
Xena olhou para Gabrielle e disse sorrindo: — É..., essa vai te dar trabalho.
............. Um ótimo remédio.
Xena tirou o peitoral da armadura e sentou-se na cama, enquanto Gabrielle providenciava água e panos limpos para limpar o ferimento do braço da guerreira.
— Você vai acabar me matando. Tem ideia do quanto me deixou preocupada?! — Disse Gabrielle, enquanto limpava o sangue.
— E o que você queria que eu fizesse? Deixar aquela jovem magricela apanhar por uma bobagem? — Xena responde.
— Não, mas poderia ter tentado dialogar com... — Gabrielle foi interrompida.
— Lá vem você com essa história de dialogar. — Disse Xena.
— Você sempre acha que tudo se resolve rachando algumas cabeças não é? — Gabrielle pergunta.
— Aaaiii, cuidado aí. — Xena reclama olhando para o corte no braço.
— Desculpe... Temos que cuidar disso rápido, antes que piore. Acho que vai precisar de uns pontos. — Diz Gabrielle enquanto examina o ferimento que não é grave.
— O que? Nem pensar, você com essas mãos de marinheiro, vou ficar com cicatriz. — Xena responde.
Gabrielle parou de limpar o ferimento e abaixou a cabeça. Xena percebendo a atitude da loira, perguntou:
— O que foi?
Gabrielle levantando-se da cama, respondeu de cabeça baixa. — Nada.
Xena percebeu que tinha magoado a Barda com seu comentário impróprio. Enrolando desajeitadamente um pano no braço ferido, caminhou até ela e a abraçou pelas costas, percebeu que a loira fungava enxugando o nariz. Segurando Gabrielle pelos ombros a fez virar-se para ela, levantou delicadamente o rosto da loira e viu seus maravilhosos olhos verdes, marejados de lágrimas. Sentiu-se o ser mais desprezível da terra.
— Gabrielle me desculpe..., fui grosseira com você, me desculpe, não tive intenção de te magoar.
Gabrielle abraçou Xena com força, aconchegando-se em seu peito. A guerreira apoiava o queixo em sua cabeça, acariciando seus longos cabelos loiros.
— Me desculpe. — Xena repetiu.
— Tudo bem, não foi nada. — Disse Gabrielle fungando.
— Não, não está tudo bem, eu te magoei e... — Gabrielle interrompeu-a colocando os dedos sobre os lábios da guerreira.
— Não diga mais nada, já disse que está tudo bem, já passou. — Gabrielle insiste.
Xena não sabia como podia existir uma criatura tão meiga e maravilhosa quanto aquela. Enquanto olhava aqueles olhos verdes esmeralda pensava em como era abençoada pelos deuses por essa jovem ter entrado na sua vida. Ela se tornara a luz que a tinha tirado da imensa escuridão de ódio, perversidade e sangue em que vivia mergulhada. Curvou-se e beijou delicadamente os lábios da Barda.
Gabrielle enlaçou o pescoço de Xena num abraço firme e amoroso. A guerreira apertou a jovem mais fortemente em seus braços e o beijo se tornou mais ardente. Seus corações batiam fortemente e seus sentidos se voltaram para os prazeres dos contatos de suas peles e das carícias em seus corpos. Os beijos da guerreira desciam pelo pescoço, orelhas e ombros de Gabrielle, provocando ondas de prazerosos arrepios na pele macia da loira.
— Gabrielle, eu quero você... — Xena sussurrou no ouvido da loira. — Não conseguia mais segurar a onda de desejo que tomava conta de seu corpo e sabia que estava sendo correspondida. Xena sentia seu sexo molhado e seus dedos verificaram que Gabrielle também se entregara a esse êxtase, sentia o sexo quente da loira molhando seus dedos. A forte guerreira subitamente pegou Gabrielle no colo e se dirigiu para cama.
— Xena..., não..., não podemos... — Gabrielle gaguejava. — Você está ferida...
— Não é hora de você lembrar disso..., eu estou bem. — E beijava Gabrielle com ardor, seu corpo transpirava desejo, não tinha mais nenhum pensamento a não ser possuir aquela linda criatura que agora estava em seus braços.
Gabrielle protestou fracamente. Não tinha mais forças para resistir aos encantos daqueles olhos azuis, dos beijos e carícias de sua companheira. Xena colocou-a na cama e foi despindo a jovem Barda, tentando controlar-se para não deixar seu desejo apressar esse momento de encanto, enquanto Gabrielle fazia o mesmo com Xena. A guerreira deslizava as mãos suavemente pelo corpo da parceira examinando cada curva dos seios, ventre e coxas. A cada carícia, Gabrielle gemia baixinho, suspirando. A grega foi descendo as carícias pelo ventre, sentindo a pele arrepiada de sua parceira na ponta da língua. Avidamente já procurava aquele lugar quente, úmido, escondido, onde estava brotando o néctar dos deuses.
Seus corpos se uniram numa sensação inigualável de êxtase total até o clímax onde o tempo pareceu parar; um cansaço reconfortante e incomparavelmente maravilhoso caiu sobre ambas. Xena deitando-se de lado deu um profundo suspiro, beijou a franja molhada de suor de Gabrielle e aninhou a pequena mulher, a sua mulher, em seu peito. Gabrielle, sorriu, suspirou profundamente e disse:
— Sua louca..., você está ferida.
Xena com olhos fechados acariciando os sedosos cabelos de sua Gabrielle, falou:
— Que nada, isso foi ótimo, faz o sangue coagular mais rápido, é um ótimo remédio... — Sorriu feliz. — Agora vamos dormir, temos que acordar bem cedo amanhã. — E beijou a Barda carinhosamente.
Gabrielle termina o curativo, deita-se junto de Xena e murmura: — Xena...
— Huumm. — Xena resmunga.
— Eu te amo. — A loira diz.
Xena abraçou a mulher, aconchegando-a ainda mais ao seu corpo. — Você é minha vida Gabrielle, também te amo. — Adormeceram abraçadas, o sono tranquilo das amantes.
............. O resgate das amazonas.
O dia ainda não havia clareado e o acampamento amazona já estava em alvoroço, as guerreiras preparando os arcos, flechas, espadas, bastões, lanças e punhais.
— Xena, eu quero ir. — Gabrielle diz.
— Não, você fica aqui. — Respondeu a guerreira.
— Mas Xena elas são minha tribo, é minha responsabilidade. Eu sou a rainha. — Disse Gabrielle.
Xena enfia a espada na bainha a suas costas e prende o Chakram na cintura, segura ternamente o queixo de Gabrielle e diz:
— Tem razão você é minha rainha. Vai ser uma batalha feroz, eu jamais me perdoaria se acontecesse alguma coisa com você. Eu não posso desviar minha concentração da luta, você ainda não está pronta para enfrentar uma batalha, entende?!
— Mas... — A frase de Gabrielle é interrompida por Melosa.
— Estamos prontas. — Disse Melosa, chegando junto as duas. — Xena..., você comanda.
— Faça os preparativos para receber as amazonas feridas. — Determinou Xena para Gabrielle.
De um salto a guerreira pulou no lombo do cavalo. — Certo, vamos embora. — Xena gritou. Sessenta mulheres acompanharam Xena e Melosa.
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Velasca era uma guerreira hábil, tinha assumido a liderança da tribo do leste desde a morte de Ephiny. Seguia a frente da fila das amazonas capturadas, tentava não demonstrar para as outras guerreiras o seu abatimento. — Pelos deuses como podia ter caído na armadilha de Pompeu.— Pensava.
Acreditara que com o tratado de paz proposto por ele, elas agora poderiam viver tranquilas em suas terras, sem as constantes ameaças de guerras sem fim. Foram traídas. Seus pensamentos foram interrompidos pelo empurrão de um soldado.
— Vamos suas vadias. Temos que chegar em Daneses amanhã. — Gritou o comandante da tropa.
Mesmo que estivessem armadas a maioria não teria chance de escapar, estavam debilitadas, dias de marcha sem comida, dormindo ao relento sem agasalhos ou fogueiras onde pudessem se aquecer nas noites que ficavam cada vez mais geladas com o inverno se aproximando. Algumas estavam com os lábios feridos e arroxeados pelo frio. Velasca tinha o cotovelo direito muito inchado, o braço estava mole e sem movimentos e os dedos azulados, além de uma grande mancha roxa na testa e um grande corte na sobrancelha direita. Algumas mulheres em pior estado que ela caminhavam cambaleantes ou ajudadas por outras.
Apenas humilhações e maus tratos era o que recebiam dos malditos romanos. Rogava todos os dias aos deuses que tivesse a oportunidade de se vingar de Pompeu.
Uma chuva fina começou a cair, as mulheres se encolhiam com frio, mas os romanos agasalhados com suas grossas mantas de lã nos ombros, não se importavam com o sofrimento delas. A estrada foi se estreitando dentro da floresta. As folhagens das árvores eram densas, escurecendo aquele trecho do caminho. O comandante ordenou que os soldados ficassem em alerta, foi então que perceberam que faltavam dois homens na retaguarda. Ouviu-se um assobio imitando um canto de pássaro. Algum tempo depois novo assobio despertou atenção de Velasca e das outras amazonas. A tropa apertou o passo, os soldados em estado de alerta, empunhavam as lanças prontos para revidar qualquer ataque.
O comandante chamou o segundo homem em comando e diz: — Algo me diz que vamos ter problemas. Atenção redobrada.
— Sim senhor. — Respondeu o homem voltando para sua fileira, avisando o pelotão das ordens do comandante.
Novo canto de pássaro. As amazonas já estavam alertas pressentindo o ataque iminente. As amazonas da tribo do norte se camuflavam nas matas em toda extensão do estreito caminho. As arqueiras escondidas nas copas das árvores estavam todas prontas, aguardando o sinal combinado, as demais guerreiras escondidas entre as árvores e pedras também aguardavam o sinal. De repente o comandante levantando a mão ordenou que o destacamento parasse. No caminho tinha uma mulher parada, montada num magnífico cavalo de cor laranja vivo com patas, cauda e crina brancas. A mulher de cabelos negros e penetrantes olhos azuis apeou do cavalo e foi se aproximando lentamente, armada de uma espada e um disco de metal na outra mão. Sua figura imponente assustou o comandante e seu imediato.
— Onde vocês pensão que vão? — Perguntou a mulher.
— Quem é você? — Perguntou o comandante. — Os soldados imediatamente se posicionaram em defesa.
— Meu nome é Xena e vocês não vão passar daqui, é melhor soltar essas mulheres que ninguém vai se machucar.
O comandante aos risos — Soltar? Você é louca? Nós somos dezoito homens armados e você está sozinha com uma espada e um..., um sei lá o que na mão.
Com um rápido arremesso, o disco voou a velocidade de um raio, ricocheteou numa pedra, cortou a lança do imediato e as plumas do elmo do comandante, voltando para a mão de sua dona.
As fisionomias de espanto do comandante e do segundo homem eram indescritíveis.
— Isso se chama Chakram, agora que vocês já foram apresentados, vou falar só mais essa vez..., soltem as mulheres. — Ordenou Xena, já alterando a voz.
— Ataquem! — Ordenou o comandante aos três primeiros soldados da fileira. — Os outros façam um círculo em volta das prisioneiras, se alguma tentar fugir, matem! — Gritava.
Xena deu um assobio alto e imediatamente as arqueiras dispararam flechas certeiras nos soldados desprevenidos para um ataque das copas das árvores. As flechas entraram em seus peitos, pescoços e costas. Os soldados que não caíram levantavam seus escudos defendendo-se das flechas que choviam na sua direção. As demais guerreiras saíram de seus esconderijos atrás das árvores e pedras e atacaram com ferocidade incontrolável. Os soldados surpreendidos não sabiam se defendiam suas próprias vidas ou se mantinham o círculo em volta das prisioneiras. As amazonas prisioneiras, apesar das mãos e pescoços amarrados, feridas, debilitadas e desarmadas, tentavam ajudar empurrando os soldados, tentando desequilibrá-los para que suas irmãs da tribo do norte pudessem atacá-los de todos os lados.
O comandante e mais dois homens partiram para atacar Xena. Os três homens giravam suas espadas cortando o ar. As espadas se encontraram, o aço tilintava algumas vezes faiscando. A força dos golpes seria suficiente para destroçar corpos com facilidade. Xena se desviava dos golpes com agilidade, conseguiu chutar um homem no peito jogando-o longe. Um soldado armado de lança se posicionou as costa de Xena para atingi-la com um golpe mortal. Com seus sentidos completamente ligados na luta, a guerreira com um salto e cambalhota no ar, pulou por cima do lanceiro, caindo com os pés nas suas costas, derrubando-o e cravando a espada em suas costas.
Xena estava transfigurada, o monstro guardado em suas entranhas emergiu com ódio e fúria incontroláveis. Com a lança do soldado morto, golpeava os três atacantes ora com a espada ora com a lança, estocando, atacando incansavelmente. Os três homens recuavam assustados, nunca tinham visto uma mulher com tamanha força e fúria. Manejava as armas com uma habilidade espantosa, girava a espada no ar com leveza, como se a arma fizesse parte do seu braço. Atacava sem descanso, com um golpe da espada atingiu um soldado decepando parte da perna na altura do joelho, quando o soldado caiu gritando, cravou a lança no peito do homem. Partiu para atacar os outros dois bufando fúria.
O comandante desferiu um potente golpe de espada tentando acertar o ombro da guerreira. O golpe foi desviado por Xena, a espada do comandante encontrou o tronco de uma árvore com tamanho impulso que ela ficou presa. Xena aproveitando da situação deu um violento chute no peito do homem, que se curvou sem ar, em seguida outro chute no queixo, fazendo voar uma massa de dentes e sangue. O homem caiu longe desmaiado com a mandíbula deslocada. Virou-se para o último homem, que assistia a tudo paralisado de pavor, embora ainda empunhasse a espada. O soldado quando percebeu que a guerreira partia para ele, largou a espada e disparou em pânico pela estrada, correndo o mais rápido que podia. Xena teve ímpetos de persegui-lo, mas lembrou-se das amazonas voltando para onde estava a batalha.
O combate estava terminado, com as amazonas vitoriosas. Sobreviveram apenas três soldados, estavam ajoelhados indefesos e cercados pelas guerreiras. Corpos ensanguentados e dilacerados espalhados pelo lugar, perda de vidas dos dois lados, mas os romanos sofreram baixas muito maiores. As amazonas capturadas estavam sendo soltas e amparadas por suas salvadoras. Xena aproxima-se de Velasca que segurava o braço inchado.
— Deixe ver isso. — Xena examina o braço da amazona. — Não está quebrado..., o cotovelo que está deslocado. — Sentou a amazona em uma pedra, com os dedos pressionou um ponto próximo ao ombro de Velasca, adormecendo totalmente o braço, em seguida com um tranco o puxou pelo pulso com violência, ouviu um grande estalo, indicando que o cotovelo voltara ao lugar. Improvisou uma tipoia para Velasca e desfez a dormência.
— Vamos, está tudo bem agora. — Disse a guerreira.
As amazonas amparavam as irmãs feridas e debilitadas. Melosa amparava Velasca enquanto caminhavam retornando ao acampamento. Percebeu que Xena não as acompanhava. Voltou-se e viu a guerreira no cavalo seguindo em direção oposta.
— XENA..., VOCÊ NÃO VEM? — Gritou Melosa.
A guerreira se voltou ligeiramente e sem responder, acenando se despediu.
............. A dor do abandono.
Gabrielle olhava as guerreiras retornarem trazendo as irmãs feridas, ordenou que fossem colocadas na tenda de cura. Procurava ansiosamente por uma guerreira em especial. Olhava as mulheres entrando pelo portão em número cada vez maior, mas da sua guerreira nem sinal. Correu ao encontro de Melosa e Velasca.
— Onde está Xena? — Perguntou.
— Ela não quis voltar. Seguiu a estrada, não sabemos para onde foi. — Responde Melosa.
— Não acredito, não é possível..., vocês estão me escondendo alguma coisa..., ela foi ferida na luta?... ela..., ela está mor..., — Não conseguia completar a frase. Sentia um nó na garganta, uma dor no peito. Os olhos da Barda se encheram de lágrimas.
— É verdade. Ela não quis voltar conosco. — Confirmou Velasca.
Gabrielle estava chocada, não podia acreditar que Xena a tinha deixado. Sempre teve medo que isso acontecesse. Xena sempre dizia que seus caminhos eram diferentes, que a convivência com ela acabaria prejudicando sua existência pura e iluminada..., e agora ela tinha realmente partido.
Gabrielle entrou correndo na cabana, sentada na cama acariciou o lençol onde tinham se amado na noite anterior. Suas lágrimas escorriam pelo rosto abundantemente, seu peito doía, uma dor insuportável de perda, de abandono, de vazio.
— Você..., uma vez me disse que... — Falava gaguejando, não conseguia controlar os soluços. — nem a morte nos... separaria... e agora você me abandonou.
— Eu nunca vou abandonar você Gabrielle. — A jovem Barda deu um pulo da cama ao ouvir a voz e viu a silhueta daquela mulher que era o seu mundo, contra a luz da porta. As duas correram e se abraçaram fortemente, Gabrielle abraçava a guerreira como se quisesse fundir seus corpos num só.
— Xena... Pensei que...você tivesse me abandonado. — As lágrimas já não eram de desespero. Gaguejava enquanto se aninhava no peito quente e aconchegante da guerreira.
Xena levantou aquele rosto lindo para si, enxugou as lágrimas que escorriam, beijou os olhos dela e disse:
— Sua tolinha..., eu nunca te abandonarei, mesmo depois da morte continuaremos juntas. Não chore mais, eu estou aqui.
Gabrielle sorriu com aquele jeitinho todo seu e beijou a palma da mão da guerreira. — Porque você não voltou junto com as mulheres? — Perguntou.
Xena entregou um pergaminho a loira. A surpresa ficou estampada no rosto de Gabrielle. Ela abriu apressadamente o pergaminho, seus olhos brilharam e surgiu o mais lindo e perfeito sorriso que poderia existir.
— É um poema..., um poema de Safo... — A Barda disse surpresa e leu o poema.
“Há um momento quando olho para você
Que eu fico sem palavras
A língua trava
Então um fogo corre sob a minha pele e eu tremo
Empalideço porque estou morrendo de tanto amor
Ou é assim que me sinto.”
— Mas como é que você conseguiu isso? — Gabrielle estava extasiada. Seus olhos brilhavam de felicidade.
Xena não conseguia tirar seu olhar daquela criatura tão amada. Uma luz a envolvia suavemente de tão radiante que estava, sua beleza, sua pele, sua voz, tudo naquela mulher era um convite para os seus sentidos. E ela era sua, somente sua.
— Xeenaaa... — Gabrielle chamou, tirando a guerreira de seu torpor.
— Hum..., ah..., eu tive uma ajudinha da nossa querida Aphrodite. Como ela me devia um favorzinho, pedi que me levasse até Safo e pedi que Safo escrevesse em poema falando do que sinto por você. — Disse Xena visivelmente encabulada. — Você sabe, eu não sou muito boa com palavras.
— Ai querida, adorei a surpresa, esse foi o momento mais feliz da minha vida. — Aconchegando-se nos braços da guerreira, disse com toda paixão que sentia por aquela mulher. — Xena eu te amo, te amo muito.
Xena sentia o coração prestes a explodir de felicidade de saber que seu amor era correspondido com a mesma intensidade. Suas bocas se encontraram num longo e carinhoso beijo. A Princesa guerreira pegou sua Rainha no colo e se dirigiu para cama.
— Posso te fazer uma pergunta? — Perguntou Gabrielle sorrindo. — Uma rainha amazona manda numa princesa guerreira?
Xena riu. — Manda sim..., principalmente para onde vamos agora.
FIM
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