Já estava quase amanhecendo quando Agatha finalmente se deu por satisfeita e ordenou que parassem de quebrar tudo. O fogo ainda consumia o local onde antes havia sido a sede dos Calibres e já estava quase se alastrando para as casas ao lado. Sem que a Princesa Sparta percebesse, Laura parou ao seu lado.

— Acho melhor chamarmos os bombeiros.

Agatha conseguiu tirar os olhos das incríveis chamas que pareciam dançar.

— Acontece que sou eu quem manda aqui e não me lembro de ter mandado alguém chamar os bombeiros.

— Você vai deixar o fogo se alastrar até consumir a favela inteira?

— Talvez eu deixe. – Agatha segurou a cabeça de Laura com as duas mãos e virou-a com violência na direção do fogo. – Olha só como as chamas dançam. Você não iria querer interromper uma coisa tão linda, não é?

A filha de Zeus a empurrou.

— Você é louca!

Antes que a herdeira de Cronos pudesse falar alguma coisa, Laura virou as costas e se afastou, empurrando todos os que estavam na frente.

Rafael se aproximou de Agatha.

— Ta tudo bem?

— Tudo ótimo. Laura só é um pouco sensível demais. Vá contar todos os mortos depois junte todos e traga para cá. Vou joga-los no fogo.

Rafael assentiu.

— Mas o que você vai fazer com aqueles dois?

Aqueles dois a quem Rafael se referia eram a garota e o ex líder dos Calibres. Eram os únicos da antiga gang que tinham ficado vivos. Nem mesmo a Princesa Sparta sabia por que tinha os deixado viver. Algo dentro dela disse que eles poderiam ser úteis futuramente.

— Onde eles estão?

Agatha o seguiu até uma casa, não muito longe da sede em chamas. As janelas estavam quebradas e as paredes pichadas com as iniciais do Circulo Mortal em preto e vermelho. Ao lado da porta arrombada estavam dois homens montando guarda para que os prisioneiros não fugissem.

A Princesa Sparta passou por eles e entrou. Os moveis estavam despedaçados e jogados em todas as direções. Havia tanto sangue no chão que a garota quase escorregou. Do outro lado da sala, jogados no chão, amordaçados e amarrados um de costas para o outro estavam seus prisioneiros.

— Obrigada Rafael. Eu assumo daqui.

Ela se agachou para olhar para eles. Os dois ergueram seus olhos para Agatha. A princesa Sparta quase havia se esquecido de como a garota estava machucada.

Agatha havia mandado seus gangsters massacrarem todos, torturarem e matarem a vontade... Mas ela proibiu terminantemente o estupro devido ao que aconteceu com Jade, sua irmã gêmea.

Com delicadeza, a Princesa Sparta tirou as mordaças dos outros dois jovens.

— Eu ordenei que deixassem vocês vivos e nem ao menos sei por que eu fiz isso. Têm um minuto para me convencer de que realmente merecem isso.

Agatha sacou sua arma e a engatilhou, esperando que eles falassem. A garota pareceu ser a mais corajosa dos dois e foi quem falou primeiro.

— Nós sabemos quem você é, Princesa Sparta.

A herdeira de Cronos ficou confusa, mas não deixou nada disso transparecer.

— Claro que sabem. Eu sou a garota que destruiu a gang de vocês.

— Você é a herdeira de Cronos. – O rapaz a encarava com seus olhos castanhos.

A Princesa Sparta de repente se sentiu desconfortável e se levantou, começando a andar de um lado para o outro.

— Não precisa se preocupar só nós dois sabemos disso.

Ela parou na frente do ex líder e chutou seu rosto com força. A garota que estava amarrada às costas dele começou a gritar.

— Você está louca? Não pode bater nele!

— E por que não? – Agatha puxou os cabelos negros da garota para trás e enfiou o cano de sua arma na cara da menina. – Me dê um motivo ou eu mato você.

Ela demorou um pouco para falar.

— Ele é filho de Zeus.

Lentamente a Princesa Sparta soltou os cabelos da outra menina e se virou para o filho de Zeus. O jovem estava zonzo e provavelmente iria desmaiar. Agatha tirou a faca da cintura e cortou as cordas que seguravam os dois.

— Me desculpe. – Delicadamente ela ergueu o rosto dele com as mãos e usou a própria manga de sua blusa de frio para tentar limpar um pouco do sangue que saia da boca do príncipe.

— Tudo bem. – Ele estava com dificuldade para falar e agora parecia confuso. – Vai me matar?

— Por que eu te mataria?

— Bom, eu sou filho de Zeus. O deus que queria matar sua irmã e você desde que nasceram. O deus que mandou seus assassinos atrás de vocês duas dois anos atrás e...

— Como é que é? – Agatha largou o rosto dele e se ergueu.- Você está tentando me dizer que foi Zeus? Foi o seu pai quem mandou fazerem aquelas atrocidades com a Jade?

— Sim. Sinto muito.

A Princesa Sparta sentiu uma raiva imensa crescer dentro dela. Com um movimento rápido ela grudou no pescoço do filho de Zeus com as duas mãos, o puxou para cima com uma força indescritível e em seguida bateu-o contra a parede.

— Não sente nada! Como você poderia me entender?

Fazendo força para conseguir respirar e falar através do aperto esmagador da herdeira de Cronos, o rapaz falou:

— Eu te entendo. Zeus matou minha mãe.

Agatha piscou e a raiva dentro dela começou a diminuir. Percebeu que ela havia erguido o jovem de modo que seus pés não tocavam o piso de azulejo. Lentamente afrouxou o aperto no pescoço do filho de Zeus e o colocou no chão de novo.

Ela não sabia o que responder àquilo então tomou a decisão mais fácil e se virou para a outra garota que no momento olhava boquiaberta para o filho de Zeus.

— E você? Tem alguma coisa familiar em você, mas eu não consigo identificar o que.

Quando a garota voltou seus olhos negros e profundos na direção da Princesa Sparta a ficha dela caiu e antes mesmo que a garota falasse Agatha já sabia a resposta.

— Eu sou filha de Hades.

— Claro que é.

A herdeira de Cronos dedicou um minuto pra digerir toda aquela informação. Então um filho de Zeus, uma filha de Hades e a herdeira de Cronos estavam na mesma sala. Sua cabeça rodou.

— Levantem-se, vocês vêm comigo.

Os dois se puseram de pé com um pouco de dificuldade.

— Você ainda não sabe nossos nomes. Eu sou Felipe e essa aqui era a minha vice.

Agatha se virou para a filha de Hades. Ela não estava impressionada por conhecer o filho de Zeus já que conhecia Laura a dois anos. Agora... a filha de Hades a intrigava.

— E você, como se chama?

— Julia.

A Princesa Sparta ergueu uma sobrancelha e um sorriso irônico apareceu em seus lábios. A filha de Hades deixou de ser pálida para corar levemente.

— Vai, pode zoar.

Agatha riu.

— Você acha que eu vou falar “meu nome é Julia”? Talvez mais tarde.

Julia sorriu.

— Até que você não é a psicopata maníaca que eu pensei que seria.

A herdeira de Cronos voltou seus olhos verdes escuros para a outra semideusa.

— E quem disse que eu não sou?

Agatha ignorou o olhar de medo da filha de Hades e apontou para a porta que dava para a rua.

— Depois de vocês.

Quando foram atravessar a porta, os dois guardas ergueram as mãos para barrar o caminho dos dois prisioneiros e teriam nocauteado eles se a Princesa Sparta não tivesse entrado na frente.

— Parou. Eles estão comigo.

Um dos homens gaguejou antes de responder.

— Laura... Ela disse para não deixa-los sair em hipótese alguma.

Agatha fixou seus olhos no homem. Ela estava começando a perceber o poder que tinha em seu olhar. Era só a herdeira de Cronos cravar seus belos olhos em alguém que a pessoa perdia toda a confiança.

— O que Laura é?

— A vice.

A Princesa Sparta deu um passo à frente e encarou o homem por baixo.

— E o que eu sou?

— A líder.

— Bom garoto. Agora saia da frente antes que eu crave um bala no meio dos seus olhos.

O homem deu um passo para o lado e Agatha puxou Felipe e Julia para continuarem andando.

Enquanto se dirigiam para o local onde o Circulo Mortal estava alojado, o filho de Zeus parecia nem ao menos prestar atenção na destruição e morte à sua volta. Ele não tirava os olhos de Agatha.

— O que foi príncipe?

Ele piscou.

— Faz tempo que não me chamam de príncipe.

— Apesar de você ser o filho do Rei?

— Sim, eu sou um príncipe... Mas ninguém da gang sabia. Só a Julia.

— Você quer me fazer uma pergunta. – aquilo havia sido uma afirmação. – Faça.

— Por que “Princesa” Sparta? Você não é filha de Zeus para ser chamada de princesa.

— No Circulo Mortal a maioria dos gangsters tem apelidos para não usarem seus nomes verdadeiros. Foi Laura quem escolheu esse apelido para mim. Laura é aquela garota que te trouxe até mim. Outra filha de Zeus.

Felipe riu.

— Ah claro. Bem que eu senti algo famili... Ei, ela é a garota que Zeus mandou os pégasus perseguirem e matarem?

Agatha se lembrou da primeira vez em que havia visto Laura. A filha de Zeus havia entrado no seu quarto no exato momento em que Zeus ia estrangular a herdeira de Cronos. Assim que as duas saíram da casa em que Agatha morava em outra favela, um grupo de pégasus pareceu no céu e perseguiram as duas semideusas que estavam no HB20 da mãe de Laura.

Elas haviam capotado e carro e caído dentro de um córrego. Elas correram dos servos de Zeus até Apolo aparecer e dar cabo de todos eles.

Agatha voltou à realidade.

— Sim, é ela. Ela pensou nesse nome seguindo o preceito de que eu sou uma sparta, uma bastarda. Eu sou filha de dois irmãos e... bem, minha mãe fez um voto de castidade eterno e foi quebrado e causou o meu nascimento então isso piora tudo.

— Ainda não explicou o “princesa”.

— Isso nem eu sei. Talvez por eu ser herdeira de Cronos que antes era o rei.

— Se você é herdeira do antigo rei e ele já morreu... Você não é uma princesa, é uma rainha.

Agatha parou e olhou para Felipe.

— Rainha... Não, eu não sou uma rainha. Seu pai ainda está vivo.

Dizendo isso, ela continuou a andar.