A Princesa Sparta: A Possessão
8 Os prisioneiros - Agatha
Já estava quase amanhecendo quando Agatha finalmente se deu por satisfeita e ordenou que parassem de quebrar tudo. O fogo ainda consumia o local onde antes havia sido a sede dos Calibres e já estava quase se alastrando para as casas ao lado. Sem que a Princesa Sparta percebesse, Laura parou ao seu lado.
— Acho melhor chamarmos os bombeiros.
Agatha conseguiu tirar os olhos das incríveis chamas que pareciam dançar.
— Acontece que sou eu quem manda aqui e não me lembro de ter mandado alguém chamar os bombeiros.
— Você vai deixar o fogo se alastrar até consumir a favela inteira?
— Talvez eu deixe. – Agatha segurou a cabeça de Laura com as duas mãos e virou-a com violência na direção do fogo. – Olha só como as chamas dançam. Você não iria querer interromper uma coisa tão linda, não é?
A filha de Zeus a empurrou.
— Você é louca!
Antes que a herdeira de Cronos pudesse falar alguma coisa, Laura virou as costas e se afastou, empurrando todos os que estavam na frente.
Rafael se aproximou de Agatha.
— Ta tudo bem?
— Tudo ótimo. Laura só é um pouco sensível demais. Vá contar todos os mortos depois junte todos e traga para cá. Vou joga-los no fogo.
Rafael assentiu.
— Mas o que você vai fazer com aqueles dois?
Aqueles dois a quem Rafael se referia eram a garota e o ex líder dos Calibres. Eram os únicos da antiga gang que tinham ficado vivos. Nem mesmo a Princesa Sparta sabia por que tinha os deixado viver. Algo dentro dela disse que eles poderiam ser úteis futuramente.
— Onde eles estão?
Agatha o seguiu até uma casa, não muito longe da sede em chamas. As janelas estavam quebradas e as paredes pichadas com as iniciais do Circulo Mortal em preto e vermelho. Ao lado da porta arrombada estavam dois homens montando guarda para que os prisioneiros não fugissem.
A Princesa Sparta passou por eles e entrou. Os moveis estavam despedaçados e jogados em todas as direções. Havia tanto sangue no chão que a garota quase escorregou. Do outro lado da sala, jogados no chão, amordaçados e amarrados um de costas para o outro estavam seus prisioneiros.
— Obrigada Rafael. Eu assumo daqui.
Ela se agachou para olhar para eles. Os dois ergueram seus olhos para Agatha. A princesa Sparta quase havia se esquecido de como a garota estava machucada.
Agatha havia mandado seus gangsters massacrarem todos, torturarem e matarem a vontade... Mas ela proibiu terminantemente o estupro devido ao que aconteceu com Jade, sua irmã gêmea.
Com delicadeza, a Princesa Sparta tirou as mordaças dos outros dois jovens.
— Eu ordenei que deixassem vocês vivos e nem ao menos sei por que eu fiz isso. Têm um minuto para me convencer de que realmente merecem isso.
Agatha sacou sua arma e a engatilhou, esperando que eles falassem. A garota pareceu ser a mais corajosa dos dois e foi quem falou primeiro.
— Nós sabemos quem você é, Princesa Sparta.
A herdeira de Cronos ficou confusa, mas não deixou nada disso transparecer.
— Claro que sabem. Eu sou a garota que destruiu a gang de vocês.
— Você é a herdeira de Cronos. – O rapaz a encarava com seus olhos castanhos.
A Princesa Sparta de repente se sentiu desconfortável e se levantou, começando a andar de um lado para o outro.
— Não precisa se preocupar só nós dois sabemos disso.
Ela parou na frente do ex líder e chutou seu rosto com força. A garota que estava amarrada às costas dele começou a gritar.
— Você está louca? Não pode bater nele!
— E por que não? – Agatha puxou os cabelos negros da garota para trás e enfiou o cano de sua arma na cara da menina. – Me dê um motivo ou eu mato você.
Ela demorou um pouco para falar.
— Ele é filho de Zeus.
Lentamente a Princesa Sparta soltou os cabelos da outra menina e se virou para o filho de Zeus. O jovem estava zonzo e provavelmente iria desmaiar. Agatha tirou a faca da cintura e cortou as cordas que seguravam os dois.
— Me desculpe. – Delicadamente ela ergueu o rosto dele com as mãos e usou a própria manga de sua blusa de frio para tentar limpar um pouco do sangue que saia da boca do príncipe.
— Tudo bem. – Ele estava com dificuldade para falar e agora parecia confuso. – Vai me matar?
— Por que eu te mataria?
— Bom, eu sou filho de Zeus. O deus que queria matar sua irmã e você desde que nasceram. O deus que mandou seus assassinos atrás de vocês duas dois anos atrás e...
— Como é que é? – Agatha largou o rosto dele e se ergueu.- Você está tentando me dizer que foi Zeus? Foi o seu pai quem mandou fazerem aquelas atrocidades com a Jade?
— Sim. Sinto muito.
A Princesa Sparta sentiu uma raiva imensa crescer dentro dela. Com um movimento rápido ela grudou no pescoço do filho de Zeus com as duas mãos, o puxou para cima com uma força indescritível e em seguida bateu-o contra a parede.
— Não sente nada! Como você poderia me entender?
Fazendo força para conseguir respirar e falar através do aperto esmagador da herdeira de Cronos, o rapaz falou:
— Eu te entendo. Zeus matou minha mãe.
Agatha piscou e a raiva dentro dela começou a diminuir. Percebeu que ela havia erguido o jovem de modo que seus pés não tocavam o piso de azulejo. Lentamente afrouxou o aperto no pescoço do filho de Zeus e o colocou no chão de novo.
Ela não sabia o que responder àquilo então tomou a decisão mais fácil e se virou para a outra garota que no momento olhava boquiaberta para o filho de Zeus.
— E você? Tem alguma coisa familiar em você, mas eu não consigo identificar o que.
Quando a garota voltou seus olhos negros e profundos na direção da Princesa Sparta a ficha dela caiu e antes mesmo que a garota falasse Agatha já sabia a resposta.
— Eu sou filha de Hades.
— Claro que é.
A herdeira de Cronos dedicou um minuto pra digerir toda aquela informação. Então um filho de Zeus, uma filha de Hades e a herdeira de Cronos estavam na mesma sala. Sua cabeça rodou.
— Levantem-se, vocês vêm comigo.
Os dois se puseram de pé com um pouco de dificuldade.
— Você ainda não sabe nossos nomes. Eu sou Felipe e essa aqui era a minha vice.
Agatha se virou para a filha de Hades. Ela não estava impressionada por conhecer o filho de Zeus já que conhecia Laura a dois anos. Agora... a filha de Hades a intrigava.
— E você, como se chama?
— Julia.
A Princesa Sparta ergueu uma sobrancelha e um sorriso irônico apareceu em seus lábios. A filha de Hades deixou de ser pálida para corar levemente.
— Vai, pode zoar.
Agatha riu.
— Você acha que eu vou falar “meu nome é Julia”? Talvez mais tarde.
Julia sorriu.
— Até que você não é a psicopata maníaca que eu pensei que seria.
A herdeira de Cronos voltou seus olhos verdes escuros para a outra semideusa.
— E quem disse que eu não sou?
Agatha ignorou o olhar de medo da filha de Hades e apontou para a porta que dava para a rua.
— Depois de vocês.
Quando foram atravessar a porta, os dois guardas ergueram as mãos para barrar o caminho dos dois prisioneiros e teriam nocauteado eles se a Princesa Sparta não tivesse entrado na frente.
— Parou. Eles estão comigo.
Um dos homens gaguejou antes de responder.
— Laura... Ela disse para não deixa-los sair em hipótese alguma.
Agatha fixou seus olhos no homem. Ela estava começando a perceber o poder que tinha em seu olhar. Era só a herdeira de Cronos cravar seus belos olhos em alguém que a pessoa perdia toda a confiança.
— O que Laura é?
— A vice.
A Princesa Sparta deu um passo à frente e encarou o homem por baixo.
— E o que eu sou?
— A líder.
— Bom garoto. Agora saia da frente antes que eu crave um bala no meio dos seus olhos.
O homem deu um passo para o lado e Agatha puxou Felipe e Julia para continuarem andando.
Enquanto se dirigiam para o local onde o Circulo Mortal estava alojado, o filho de Zeus parecia nem ao menos prestar atenção na destruição e morte à sua volta. Ele não tirava os olhos de Agatha.
— O que foi príncipe?
Ele piscou.
— Faz tempo que não me chamam de príncipe.
— Apesar de você ser o filho do Rei?
— Sim, eu sou um príncipe... Mas ninguém da gang sabia. Só a Julia.
— Você quer me fazer uma pergunta. – aquilo havia sido uma afirmação. – Faça.
— Por que “Princesa” Sparta? Você não é filha de Zeus para ser chamada de princesa.
— No Circulo Mortal a maioria dos gangsters tem apelidos para não usarem seus nomes verdadeiros. Foi Laura quem escolheu esse apelido para mim. Laura é aquela garota que te trouxe até mim. Outra filha de Zeus.
Felipe riu.
— Ah claro. Bem que eu senti algo famili... Ei, ela é a garota que Zeus mandou os pégasus perseguirem e matarem?
Agatha se lembrou da primeira vez em que havia visto Laura. A filha de Zeus havia entrado no seu quarto no exato momento em que Zeus ia estrangular a herdeira de Cronos. Assim que as duas saíram da casa em que Agatha morava em outra favela, um grupo de pégasus pareceu no céu e perseguiram as duas semideusas que estavam no HB20 da mãe de Laura.
Elas haviam capotado e carro e caído dentro de um córrego. Elas correram dos servos de Zeus até Apolo aparecer e dar cabo de todos eles.
Agatha voltou à realidade.
— Sim, é ela. Ela pensou nesse nome seguindo o preceito de que eu sou uma sparta, uma bastarda. Eu sou filha de dois irmãos e... bem, minha mãe fez um voto de castidade eterno e foi quebrado e causou o meu nascimento então isso piora tudo.
— Ainda não explicou o “princesa”.
— Isso nem eu sei. Talvez por eu ser herdeira de Cronos que antes era o rei.
— Se você é herdeira do antigo rei e ele já morreu... Você não é uma princesa, é uma rainha.
Agatha parou e olhou para Felipe.
— Rainha... Não, eu não sou uma rainha. Seu pai ainda está vivo.
Dizendo isso, ela continuou a andar.
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