A Princesa Sparta: A Possessão

7 A queda dos Calibres - Felipe


Já havia se passado mais de uma semana e a maldição de Zeus não havia se concretizado. Felipe já estava cansando de acordar temendo que aquele fosse o ultimo dia de sua gang. Estava cansado de dormir pensando que o dia seguinte seria o ultimo.

Uma semana e ainda nada. Ele sabia ser impossível parar a maldição de um deus, mas mesmo assim reforçou todas as defesas da favela e não permitiu que ninguém da gang saísse. Quando Julia veio questiona-lo sobre isso, o filho de Zeus lhe contou sobre a conversa que teve com o senhor do Olimpo. Julia havia tentado tranquiliza-lo dizendo que seu pai poderia mudar de ideia. Felipe quase se atreveu a ter esperanças.

Uma semana e nada havia acontecido até agora. Ele observava do telhado da sede o grande comboio de carros que se aproximava.

— São eles?

Julia estava incerta. Realmente havia algo de diferente no ataque do Circulo Mortal. Eles pareciam estar dirigindo os carros com um padrão pré-estabelecido e...haviam panos pretos e vermelhos pendurados nas janelas dos carros e no bagageiro das motos.

— São. Parece que agora eles estabeleceram cores.

— E estão mais organizados também. Quem quer que esteja no comando, deve ser melhor que Letícia.

Felipe tremeu de raiva.

— Quem quer que seja vai morrer essa noite.

Dizendo isso ele virou as costas para a aproximação dos inimigos e desceu as escadas. Ao sair da sede Felipe percebeu que todos estavam aflitos. Aquilo não era do feitio dos Calibres.

— Calma pessoal. Nós vamos acabar com eles como fizemos da outra vez!

A afirmação do líder foi seguida por vários gritos de aprovação. Já confiantes, os Calibres se dividiram e foram para cada entrada da favela. Para o espanto de todos, os gangsters do Circulo Mortal pararam seus carros em fila indiana bem na entrada principal. Dessa vez não haviam peruas para impedir a entrada.

— Como assim eles vão atacar direto pela frente? – Julia fez um gesto de desdém – Quem esta no comando agora deve ser bem burro.

Sem dar aviso prévio, sem nenhum pronunciamento do atual representante, sem nem ao menos um tiro de aviso os carros aceleraram e subiram rasgando a entrada da favela.

Alguns Calibres pularam à frente e começaram a atirar mirando nos pneus, mas foram atropelados e em seu lugar ficaram corpos amassados e poças de sangue. Um a um os carros entraram e abriram suas portas fazendo chover inimigos de dentro.

Felipe percebeu que todos estavam vestidos com jaquetas de colegial preta e vermelha. Aquelas cores deveriam realmente significar alguma coisa.

Antes que pudesse perceber, os tiros começaram. Rapidamente Felipe sacou sua arma e se agachou atrás de um carro para se proteger. Sempre que via uma brecha, o filho de Zeus se erguia e atirava em um inimigo.

De repente ouve um estalo e uma casa do outro lado da rua começou a pegar fogo. Os gangsters do Circulo Mortal gritaram de exultação e atacaram com força renovada. Felipe assistiu quando um homem pegou uma serra do porta malas do carro e começou a cortar o braço de um Calibre enquanto outro segurava o braço do pobre homem preso ao chão.

Felipe fez menção de se levantar para acabar com aquela crueldade, mas parou quando uma garota do Circulo Mortal começou a atirar coquetéis molotov e acabou acertando dois Calibres que gritaram de dor e começaram a se debater no chão.

Aquilo parecia um verdadeiro inferno. Uma Calibre foi arremessada por uma janela e em seguida uma gangster rival pulou para a rua e enterrou uma faca entre os olhos da outra que já parecia estar morta.

Felipe olhou em volta. Os gangster do Circulo Mortal estavam praticando verdadeiras atrocidades. Viu Julia lutar contra dois homens simultaneamente, ela não iria aguentar por muito tempo. O filho de Zeus correu em sua direção para ajuda-la, mas antes que pudesse chegar lá, um gangsters especialmente forte e grande saltou na sua frente e jogou-o ao chão com uma joelhada. Ele ergueu um pedaço de ferro que estava em sua mão direita.

— Adeus.

A última coisa que Felipe viu foi o grande pedaço de ferro descendo em sua direção.

Felipe sentiu-se afundar na escuridão cada vez mais profunda. Sentiu seu próprio corpo se desmaterializando. Sabia que em breve estaria sendo acolhido pelos braços abertos de Hades.

Tudo era uma profunda escuridão até que algo começou a brilhar a sua frente. Esse algo começou a criar forma e o Filho de Zeus reconheceu Alice, sua mãe.

— Meu filho.

Felipe ficou atordoado. Sempre que Alice aparecia ele precisava que Julia servisse de interprete entre os dois. Felipe somente conseguia enxergar a sua mãe, mas dessa vez ele conseguia ouvi-la.

— Eu morri.

Aquilo não havia sido uma pergunta, mas sua mãe respondeu.

— Não. Você é mais forte do que parece.

A forma de Alice se aproximou ainda mais dele que pode vislumbrar as feições do rosto da mãe. Lembrou-se do triste dia em que havia voltado da escola e encontrado sua mãe caída, morta no chão da cozinha. Então Zeus apareceu e disse que era seu pai.

— Zeus... Eu disse para não confiar nele.

— Sinto muito. Eu nunca iria imaginar que ele pudesse fazer algo assim comigo, seu próprio filho.

— Nunca duvide do que um deus é capaz. Eu também achava que Zeus nunca iria me machucar.

Felipe ficou atônito.

— E quando ele te machucou?

Alice demorou um pouco para responder.

— Zeus me matou.

Sentindo uma fúria repentina, mais forte do que alguma vez já tivesse sentido em sua vida, o filho de Zeus tentou se levantar. A única coisa que conseguiu foi soltar um gemido de dor.

— Não se mexa. Você não morreu por bem pouco.

— Por que nunca me disse isso antes? Por que me deixou continuar chamando aquele assassino de pai?

Os olhos da mãe de Felipe se entristeceram.

— Agora você o considera um assassino? E quando ele mandou matar uma das herdeiras de Cronos? Aquilo não foi assassinato? E quando ele mandou seus servos atrás de Laura? Não foi uma tentativa de assassinato?

O semideus se calou. Sua mãe tinha razão. Hades havia falado dessas atrocidades de Zeus, mas Felipe nem ao menos se importou.

— Por que ele fez isso?

— Ele queria ter um filho corajoso. Zeus quis despertar a raiva dentro de você. Ele costuma fazer isso com seus filhos.

Felipe se lembrou de alguns mitos gregos que provavam a verdade das palavras de sua mãe. Zeus sempre fez seus filhos passarem por coisas ruins para se tornarem fortes.

— Ele vai pagar mãe. Ele vai pagar pelo que fez com a gente.

— Sim ele vai. A herdeira de Cronos, a Princesa Sparta deve se erguer e tomar o que é seu por direito.

A forma de sua mãe começou a desvanecer. Felipe tentou estender a mão para toca-la, mas não conseguiu fazer seus braços lhe obedecerem. A escuridão voltou a se assentar em sua volta.

Felipe sentiu a água entrar pela sua boca e o seu nariz. Por puro reflexo ele abriu os olhos e se sentou. Sentiu uma corrente de dor percorrer todo o seu corpo. Soltou um gemido e tornou a se deitar. Tudo estava muito claro, seus olhos só captavam vultos.

Novamente jogaram um balde de água sobre sua cabeça.

— Ele vai morrer. – uma voz masculina falou.

— Talvez. – respondeu uma voz feminina. – Joguem mais água na cabeça dele.

De novo despejaram uma torrente de água gelada no rosto do filho de Zeus. Felipe tossiu e fez força para se virar de bruços. Cuspiu toda a água no chão.

— Viu só? Ele acordou – era a voz feminina quem falava. Felipe levou um chute nas costelas que o fez virar novamente de barriga para cima. – Vamos ver se ele ainda consegue falar.

Um vulto se agachou, aproximando-se de Felipe. Aos poucos os olhos do semideus conseguiram focar na garota que o encarava. A primeira coisa que ele viu foram os olhos castanhos da moça, os cabelos lisos e compridos eram da mesma cor e caiam-lhe sobre os ombros. Ela estendeu dois dedos.

— Quantos dedos tem aqui?

Felipe abriu a boca para falar, sentiu sua garganta em carne vida.

— Dois.

— Que bom, ele não ficou retardado. Coloquem-no de pé.

O jovem sentiu braços fortes erguem-no rudemente do chão e coloca-lo de pé. Quando o soltaram ele quase caiu, mas foi novamente segurado pelos homens.

A garota que havia falado com ele aplicou-lhe um soco em seu estomago. Felipe se dobrou de dor e teria caído no chão se não estivesse sendo cruelmente amparado.

— Isso é por mexer com o Circulo Mortal.

O filho de Zeus ergueu o rosto. No olhar da garota ele viu algo familiar. Seus próprios olhos eram daquela cor, neles haviam a mesma autoridade e orgulho.

— Você... É você que é... – falar doía muito, mas ele precisava saber. – a representante...

— Não, não sou eu. Eu sou apenas a vice. Tragam ele, vamos leva-lo, ela vai decidir o que fazer.

Os homens que estavam segurando Felipe o empurraram pela porta. Na rua o filho de Zeus viu a pior cena que poderia imaginar. Haviam corpos espalhados por todo o lugar. Carros e casas estavam pegando fogo. Fios de eletricidade estavam cortados e jogados pelas calçadas. O filho de Zeus passou pelo corpo de uma moça que havia sido enforcada por um daqueles fios.

As lagrimas aos seus olhos. Não conseguia acreditar que aquilo havia realmente acontecido. Ele preferia ter morrido com os outros a ter sobrevivido só para ver o tamanho do estrago que o Circulo Mortal havia causado.

Lembrou-se do verdadeiro culpado pela sua desgraça: Zeus. Sua mãe havia o alertado par anão confiar em Zeus, mas ele não lhe deu ouvidos. Agora tudo que ele amava estava destruído pelas mãos do Circulo Mortal. Sua mãe falou sobre a herdeira de Cronos se erguer e acabar com Zeus.

Felipe não fazia ideia de quem era essa garota. No ano anterior Hades havia aparecido naquela mesma favela para fazer-lhe uma proposta: trazer a herdeira de Cronos para a gang e treina-la. Claro que Felipe havia recusado, mesmo depois de Hades ter contado toda a historia e ter relatado como Zeus havia mandado assassinos para capturar as duas irmãs. O filho de Zeus se recusou e disse que jamais apoiaria a bastarda. Agora ele se arrependia por seu ato tolo.

Ele foi empurrado, arrastado e chutado por todo o caminho até onde costuma ser a sede. Tudo estava em chamas. Um grupo de gangsters do Circulo Mortal estava conversando e rindo em frente às chamas. Eram quatro. Três homens e uma garota que estava de costas para ele e de frente para o fogo.

Demorou um pouco para Felipe perceber que havia um corpo jogado de lado na calçada. Ele reconheceu Julia, ela estava amarrada e amordaçada. Seu rosto estava todo machucado e mancado de sangue. A filha de Hades estava morta ou desmaiada e não chegou a vê-lo.

A garota de olhos castanhos parou ao lado dele.

— Você perguntou se eu era a representante. Achei que você gostaria de conhecer a líder de verdade. Ela quem vai decidir o seu destino.

A garota assobiou e a outra, que estava de costas e encarando o fogo até então, se virou. Ela saiu de perto das chamas e se proximou. Felipe pôde ver a cor verde escura em seus olhos. Sua pele era branca como mármore e levemente pintada por sardas. Era difícil dizer a cor dos seus cabelos, pois, quando as chamas se moviam e lançavam sua luz sobre a garota, eles brilhavam com um brilho acobreado. Ela era tão linda que o filho de Zeus perdeu o fôlego.

-Obrigada Laura – sua voz tinha um tom musical que fez Felipe se esquecer de toda a dor que sentia. Os olhos verdes escuros da garota eram dotados de uma frieza intensa. – Ouvi vocês falarem algo sobre líder. Eu sou a representante do Circulo Mortal em São Paulo. Eu sou a Princesa Sparta.