A Princesa Sparta: A Possessão

4 A maldição de Zeus - Felipe


O filho de Zeus se esforçava para não dormir enquanto todas aquelas pessoas vinham, uma a uma, pedir-lhe para ajuda-las. Até parece que o líder da gang sabe fazer mágica.

— Minha senhora, eu já lhe disse milhares de vezes: eu não posso fazer seu filho sair do hospital. Ainda não aprendi a fazer milagres. Próximo!

— Não! Eu imploro... – Felipe ergueu a mão e dois de seus capangas pegaram a velha pelos braços e a tiraram da sala de audiências.

O filho de Zeus passou a mão por seus cabelos lisos e castanhos, arrepiando-os ainda mais. Era preciso ter a paciência de Jó para lidar com aquele bando de pessoas choronas.

Um homem de aparentemente meia idade se pôs de frente à cadeira do líder. Algo dentro de Felipe formigou e ele soube que aquele homem trazia alguma coisa interessante para lhe dizer.

— Senhor, o Circulo Mortal está planejando outro ataque.

As feições de Felipe endureceram. Ele se lembrou da ultima batalha que teve com o Circulo Mortal naquela mesma favela. Seu melhor amigo, Vitor, havia sido morto naquele dia e ele jurou pelo Rio Estige que iria descobrir o nome da mulher, que era a representante do Circulo Mortal em São Paulo, e matá-la. Fora ela quem havia matado Vitor.

— Que venham. Espero que aquela puta ainda esteja no comando... Ou melhor ainda, espero que Capão levante a bunda de sua poltrona em Santos e venha me encarar.

O homem coçou a barba grisalha.

— Se a mulher a quem se refere for Letícia... lamento informar que ela foi pega pela policia e esta presa.

Felipe se ergueu da cadeira.

— Como assim?

Julia segurou seu braço e tentou fazê-lo se sentar novamente.

— Ficar nervoso não vai adiantar.

— Como eu vou matá-la se ela estiver presa?

— Você conhece a justiça do Brasil. Logo ela será solta e você terá sua vingança.

Ele virou o rosto para encarar a filha de Hades. Seu grande cabelo preto como a noite estava amarrado em um rabo de cavalo e seus olhos, igualmente pretos, estavam focados no filho de Zeus.

— Você tem razão. – Felipe se afastou da cadeira. – Chega por hoje. Estou cansado.

O filho de Zeus se dirigiu até a porta do outro lado da sala e saiu. Julia foi atrás dele.

Os dois subiram as escadas e foram para o quarto. Assim que Julia entrou, Felipe fechou a porta.

— Acha que ela vai demorar para ser solta?

— Talvez. Só se pegar um juiz honesto.

Ela se aproximou e o beijou. Quando o filho de Zeus foi perceber, Julia já o estava puxando para a cama e arrancando sua camisa. Ela parou o beijo para descer a boca até seu tanquinho. Felipe tinha o corpo bem definido pra um jovem de dezenove anos.

A filha de Hades abriu sua calça e enfiou a mão dentro, massageando seu membro lentamente. Felipe não aguentou esperar muito tempo e a jogou na cama, terminando de arrancar suas roupas.

A cama já estava rangendo devido ao uso continuo que os dois semideuses devam à ela. Dessa vez não foi diferente. Felipe e Julia transaram com tanta intensidade que mais de uma vez o filho de Zeus teve certeza de que a cama iria desmoronar. Felizmente isso não aconteceu.

Depois de terem se satisfeito, ficaram deitados um ao lado do outro.

— Se Zeus desconfiasse disso, eu estaria morta.

— Por que? Fui eu quem deu em cima de você primeiro.

Era verdade. À alguns meses atrás, Felipe havia percebido que o que sentia por Julia era mais que uma amizade, mas para o bem dos dois eles decidiram manter isso escondido. Se Zeus ou Hades descobrissem, seria o fim.

— Acha que ele vai se importar com isso? É bem mais fácil matar a mim do que a você.

Felipe se lembrou de Hades contando como Zeus havia mandado seus servos atrás de Laura, sua própria filha.

— Talvez não.

Julia se levantou e se vestiu. Ela sempre fazia aquilo. A filha de Hades não sabia nada sobre romantismo e se levantava logo depois de ter o que queria.

— Preciso ver como andam as coisas. Te mantenho informado sobre o que conseguir descobrir do ataque do Circulo Mortal.

Sem nem esperar uma resposta, ela saiu. Felipe se espreguiçou e levantou-se. O fato de Julia ser daquele jeito era perfeito. Ele não gostava dela de verdade, apenas sentia tesão. Era bem melhor se satisfazer com uma do que com varias.

Ele se vestiu e desceu para a sala de audiências já vazia. Saiu para a rua.

Todos estavam tratando de seus assuntos rotineiros. Os outros Calibres (membros da gang de Felipe) estavam ocupados em seus postos, o filho de Zeus os cumprimentou com um aceno de cabeça.

Subiu ainda mais a rua. Os bares estavam com o movimento normal, tudo parecia no lugar. Exceto a águia que estava pousada em cima do muro à esquerda.

Felipe já sabia do que se tratava e assentiu para o animal. A águia voou para trás do muro e o rapaz a seguiu. Assim que pulou o muro e tocou os pés no chão, percebeu que a águia havia desaparecido e em seu lugar estava um homem de cabelo e olhos castanhos vestindo um terno cinza.

— Boa tarde, pai.

Zeus resmungou algo que pareceu ser um cumprimento.

— O que foi dessa vez?

Felipe já estava cansado das aparições repentinas de Zeus. A cada dia ele parecia estar ainda mais mal humorado e algo crescia em seu olhar. Seria loucura?

— Preciso que você venha comigo para o Olimpo.

O rapaz sentiu o chão sumir sob seus pés.

— Oi?!

— Não se faça de idiota, você entendeu o que eu falei.

— Entendi... Mas... Como assim?

Zeus começou a andar de um lado para o outro.

— Aquilo virou um inferno. Não posso confiar em mais ninguém. Preciso de alguém de confiança por perto, vou acabar enlouquecendo dessa maneira. Nem mesmo Hera...

Felipe cerrou os punhos.

— O senhor já devia tê-la jogado no Tártaro a muito tempo.

Zeus o ignorou. Eram comuns a desavenças entre seus filhos e Hera.

— Ela nunca foi boa em esconder coisas. Suspeito que ela esta tramando algo.

— Não seria a primeira vez. Lembra do lance de Hefesto?

— Sim, mas dessa vez é algo realmente grande.

Felipe começou a prestar atenção.

— Como assim?

Seu pai demorou um pouco para responder. Parecia tentar descobrir até em que ponto podia confiar em Felipe. O rapaz pensava a mesma coisa ao olhar para Zeus. Lembrou-se do dia do enterro de Vitor e do fantasma de sua mãe que apareceu na igreja dizendo para ele não confiar em Zeus. Depois desse dia Felipe nunca mais a viu.

— Ela some de repente e quando volta trás sempre desculpas idiotas e inaceitáveis. Já mandei a seguirem, mas toda vez que meus servos vão atrás dela, Hera sempre está onde diz que estava.

— Talvez ela não esteja fazendo nada de errado afinal.

— Ou talvez esteja recebendo informações de Hermes que a avisa quando vão segui-la.

— Isso que da deixar aquele cara saber de tudo que acontece.

Zeus fez um gesto com a mão, como se espantasse uma mosca.

— Voltando ao que interessa: você vem comigo.

— Não posso.

— Como é? Esta recusando tornar-se um deus?

O semideus pensou um pouco sobre o assunto.

— Estou. Lá no Olimpo eu estaria no seu reino... Aqui é o meu. Não posso abandona-lo.

Um trovão ecoou alto o suficiente para fazer as crianças, que estavam na rua do outro lado do muro, gritarem.

— Essa é sua palavra final?

— S-sim...senhor.

— Pois bem. Eu te amaldiçoou Felipe, filho de Zeus, e digo que essa sua gang não durara nem mais um mês. Não importa o que aconteça, esse seu “reino” será despedaçado tão rápido que você nem ao menos chegará a ver.

Zeus começou a brilhar e Felipe fechou os olhos. Quando os abriu, estava sozinho de novo. Voltou para a rua, as crianças ainda brincavam agora que o susto do trovão havia passado. Olhou em volta e viu todas aquelas pessoas que amava. Viu seus comparsas e sentiu um nó no coração. Sabia que a maldição de um deus não podia ser detida.

Sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas e caiu de joelhos na calçada. Em menos de um mês tudo que ele amava seria destruído.