A Princesa Solitária e a Dama de Azul.
1 Preâmbulo - O Retorno do Futuro.
Notas iniciais
Palácio de Trasmendor — Ducado de Whesnkeria
Na calada da noite, um cavalo montado por um estranho encapuzado se aproximava rapidamente do Palácio. O encarregado dos portões logo se apressou e apontou sua espingarda para o homem.
— Você! — Carregou a arma. — Quem é você? O que queres na sede de Trasmendor?
O homem nada respondeu, desmontando o cavalo e parecendo ignorar o soldado armado.
— Rápido! Responda-me! — O homem começou a se preocupar com o estranho encapuzado, de ar sombrio.
O homem parecia tirar algo de uma bolsa, aterrorizando ainda mais o soldado, temendo ser algum explosivo.
— Pare! Ou eu vou atirar! — O soldado já tremia de pavor.
O homem veio caminhando lentamente, era de grande estatura. Quando se aproximou o suficiente para encarar o porteiro do outro lado, tirou o capuz e estendeu-lhe a mão com uma carta.
O encarregado estranhou, abaixando sua arma e analisando a carta. Um simples mensageiro? Oras. Pensou. No entanto, se surpreendeu ao ver o selo de Whenskeria na carta.
— Vossa futura Graça. — Ele se ajoelhou perante ao homem do outro lado dos portões. Este, já estava sem o capuz, revelando cabelos loiros ao luar e uma bela feição de rosto. — Perdoe-me a confusão.
— Abra logo o portão, homem. — O loiro comandou, sua voz era fria e severa, causou calafrios no soldado.
— Si-sim, senhor. — O soldado respondeu. Quando os portões foram abertos, o soldado foi atrás do cavalo para levá-lo aos estábulos, mas o homem o interrompeu.
— Não há necessidade. — Disse, demonstrando humildade, sem intenção alguma de fazê-lo.
— Devo avisar à Vossa graça que chegaste? — Indagou-o o soldado.
— Não. — O grande homem loiro se afastou, adentrando no Palácio.
{...}
Hugh ainda se recordava de sua casa, mesmo após tantos anos. As tapeçarias centenárias, ostentando feras da selva, todas subjugadas por um tigre vermelho, as pinturas nos corredores próximos à biblioteca, tudo ainda era o mesmo.
Nada se ouvia, apenas o silêncio da noite reinava dentro de Trasmendor. Mas tudo isso ia mudar no momento em que o sol nascesse. E assim acontecia, a luz vagarosamente penetrava pelo corredores de mármore branco em que Hugh caminhava.
Enquanto Hugh caminhava, observava a beleza do piso, a riqueza dos detalhes. Estranho, para ele, admirar o piso enquanto tanto havia para se admirar no palácio. Conforme a intensidade de luz aumentava, revelava cada vez mais detalhes. Passaram a ser perceptíveis ao olhar veios vermelhos no mármore branco. Rios de Sangue, pensou. Vermelho e branco, as cores da bandeira de Whenskeria. Definitivamente um toque a mais de quem projetou aquele lugar, um detalhe perceptível somente ao olhar dos mais atentos.
Realmente, a beleza se encontrava nos detalhes, nos imperceptíveis e nos facilmente notados.
Quando tudo era finalmente iluminado pelo sol, passos começavam a ecoar por todos os cantos, o silêncio tinha ido embora e só voltaria à noite.
Servos atarefados começavam a perambular pelos corredores do palácio, limpando as janelas, trocando lenha das lareiras, abanando tapeçarias, o de costume. Hugh tentava evitar ser visto, apenas por preguiça de se explicar.
Somente um lugar, de acordo com suas lembranças, ficaria como sempre esteve: a biblioteca de seu pai. O silêncio era mais prazeroso do que o da noite.
Ali, o silêncio era suposto ser eterno. Era perceptível somente o som de seus próprios passos, devido à imensidão do local.
No centro da biblioteca, uma gigantesca mesa de carvalho negro estava posta e, atrás dela, a cadeira onde seu pai se sentava em reuniões importantes. Passou a mão sobre o almofadado, sentindo a maciez. Quase se sentou, mas foi distraído por outra qualidade dali, a mais importante, na verdade.
Os livros. Estantes se espalhavam em todas as direções, enchiam-se de livros até se perder de vista. Eram tão organizados que realmente despertavam a curiosidade.
Quando Hugh terminou de saciar sua vontade de observar tudo, se sentou na cadeira do pai, dessa vez, sem pensar duas vezes. Decidiu tirar um cochilo, aproveitar o pacífico e tranquilizante silêncio dali.
Mas no momento em que fechou os olhos, foi forçado a abrí-los novamente. “Tec..Tec..Tec”, um barulho inconfundível, reconhecível a quilômetros de distância.
— Onde ele está?! — Sua mãe gritou com para alguém, provavelmente um servo. — Onde ele está!?
— Estou aqui, mamãe! — Hugh gritou, se arrependendo logo após tê-lo feito. — Na biblioteca!
Agora sua paz demoraria a regressar, com toda a certeza. Os passos da mãe se intensificaram, alegando sua aproximação. O silêncio se foi por completo no momento em que as dobradiças da porta rangeram, anunciando sua entrada.
Seu semblante havia mudado, parecia mais séria, mais... Velha. Sua túnica azul turquesa ainda era sua característica marcante, combinava perfeitamente com o tom de seus olhos, mesmo que distante para serem notados.
— Ora, ora! — Ela disse, enfatizando seu sarcasmo. — O bom filho à casa torna! Só que sem avisar os pais, é claro.
Dito isso, ela parou de se aproximar.
— Não queria acordá-los, sinto muito. — Desculpou-se Hugh.
— Pare de se defender com desculpas tão esfarrapadas, garoto. — Ela o provocou. — Queria adiar o inevitável, o confronto de sua velha e cansada mãe.
Hugh apenas sorriu desconfortável com a verdade.
— Então, já que está tão confortável na cadeira de seu pai, conte-me por onde esteve. — Ela pediu, mas num tom tão severo que Hugh sequer contrariou, enquanto ela se aproximava a passos lentos.
— Estive em Ardoa, no Castelo do Duque Resthen, como meu pai tinha ordenado. — Disse a verdade.
— Rá. Não faça-me rir. — Provocou-o sarcasticamente. — Durante sete anos, não ouvi de você, palavras assinadas por seu nome, mas escritas pelo “Senhor das Montanhas”.
Hugh não compreendia, expressando seu desentendimento, sua mãe apenas ignorou-o.
— Quer saber o que aconteceu nesse tempo? — Ela indagou-o, sem deixar espaço para que ele a respondesse. — Pois bem, seu pai adoeceu, tive de assumir o controle e governar. Claro que fiz o trabalho duas vezes, senão três vezes melhor do que ele, mas mesmo assim foi difícil. Precisava assegurar o nosso futuro, o futuro de nosso nome. Precisa de você e de seu irmão.
— Papai adoeceu? Quando? — Interveio Hugh, preocupado.
— Cale-se. — Ela o repreendeu friamente. — Meses depois de sua partida para as Terras das Rosas e da partida de seu irmão para as ilhas de Cabarran, como protegidos, uma doença o atingiu. Severa e áspera, aos poucos, ele se debilitava. Médicos de todos os Cantos, curandeiros do outro lado do mar Ghaleziano, todos, todos tentaram salvá-lo, mas nada. — Lágrimas lutavam para escorrer pela face de sua mãe, mas ela não permitia que elas escapassem. Circundava a mesa enquanto falava, às vezes tamborilando os dedos na madeira. — Seu irmão, óbvio, retornaria no melhor dos navios da frota das Safiras, o orgulho das ilhas. E você, era suposto estar à caminho também, segundo o Duque na época, e chega aqui quase seis anos depois.
— Percebo a ironia nisso. — Hugh comentou, se arrependendo logo depois do olhar de reprovação da mãe.
— “Em uma semana ele chegará, te garanto”. Mandou-me Lorde Filberg. Essa semana já durou cinco anos. O Duque, no entanto, não tinha me garantido nada e disse-me que você já tinha deixado seu castelo. — Uma única lágrima escorreu, mas a frieza aumentava cada vez mais no olhar da Dama de azul. — Mas, ao menos, seu irmão rumou para casa, ao contrário de você. Isso, porém, não foi o suficiente para impedir que ele encontrasse o fundo do mar em seu destino.
Hugh finalmente entendera. Herald estava morto, a tristeza atingiu-o. Há muito que viu o irmão, sequer se lembrava de suas feições. Esse fato doeu-lhe ainda mais.
Sem que percebesse, sua mãe já estava próxima o suficiente para que ele pudesse ver seu rosto. Também mudou muito. Rugas tomaram dela a beleza e manchas na pele preenchiam cada centímetro de seu corpo.
— Eu nunca saí de Ardoa, até que fugi, um mês atrás. — Ele contou para a mãe. — Nunca ouvia ou sabia de vocês, o lugar estava longe de ser considerado Casa, tinha cansado de lá. O Duque mandou gente atrás de mim, mas nunca me pegaram. Eu...
— Vo-Você o quê? — Interrompeu-o, para que absorver a informação. Ela tocou suas próprias bochechas, em sinal de surpresa. — Ele queria ter você sob suas garras, por isso o escondia. Um herdeiro e refém.
Silêncio dominou novamente, mas nada prazeroso desta vez. Após a observação feita pela dama, Hugh tomou a atitude de envolvê-la em um abraço.
Um longo e recíproco abraço. Nele, o garoto percebeu a fragilidade de sua mãe.
— Você também poderia ter morrido, devido à minha ignorância. — A dama se corrigiu. — Ela se arrependeu amargamente da maneira como tinha tratado o filho.
— Não há com o que se desculpar. — Ele sorriu, era tudo o que podia fazer, era tudo o que restava para a mãe. — Também pensei que não se importavam mais comigo, nunca soube das cartas.
A dama de azul percebeu a tristeza tomar os lábios do filho de desfazer o sorriso de seu rosto.
— Olhe em meus olhos. — Ela pediu, ainda continha as lágrimas. — Vês a beleza neles?
O loiro assentiu com a cabeça. Observando o azul turquesa de seus olhos e rapidamente comparando-os ao de sua túnica.
— Apesar de serem calmos e belos, tem sede de poder, sede de vingança.
Aquilo surpreendeu Hugh, uma ameaça que supostamente deveria ser temida por qualquer um. Só lhe cabia sentir pena de seus inimigos, sua mãe os destruiria.
— Mãe? — Ele a interrompeu sem pressa. — E o papai?
Aquela indagação ecoou pelos vãos da biblioteca, sem resposta eminente.
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