A Princesa Perdida

1 A Família Aristóteles Amadeus


Era uma vez... Não, acho que isso não é um conto de fadas, então... Num reino mais distante do que qualquer outro que já se pôde imaginar, vivia um rei com sua esposa e filha. Antes da chegada de um mordomo mais estranho do que todos os outros, eles viviam felizes, sem problemas com o povo ou com os empregados. Infidelis não era uma pessoa em quem se poderia confiar seus segredos, na primeira oportunidade usava as palavras do rei para colocar cada vez mais o povo contra ele.

Ariana era a princesa , filha do rei e da rainha, mas não sei se poderia chamá-la de princesa. Ariana, todos os dias, saía para praticar arco e flecha na Floresta Negra sob o medo que seus pais tinham de de que ela fosse raptada ou comida pelo terrível dragão que voava pelos arredores, espalhando medo e terror. Ela não se importava;tudo o que queria era que algum dia dessem valor a sua prática de arco e flecha exaustiva.

Também no castelo, viviam sob a proteção e segurança do rei as Faxineiras Enlameadas. Isso mesmo! Faxineiras Enlameadas, o que quer dizer que ao invés de limparem somente sujavam todo o castelo. O rei, mesmo sabendo o que acontecia para o castelo ficar tão sujo assim não fazia nada, pois naquele tempo arranjar faxineiras boas não era algo que todo mundo conseguia.

Ele até que teve sorte, olhando por outro ângulo: tinham-se notícias de reinos diferentes e distantes de que algumas faxineiras mastigavam frutas podres e depois cuspiam fazendo rastros no chão.

Sua esposa, a Rainha Cristal, era muito bonita e paquerada pelos homens do povoado. Seus longos cabelos pretos e lisos escorriam até a base da cintura e estava sempre carregado de flores e formado em uma trança perfeita. Mas tinha um defeito que só o rei não enxergava: a falta de inteligência. Até um porco sabia mais coisa do que ela. O fato de ser tão amorosa e boa com as pessoas fazia a pouca inteligência parecer minúscula e passar despercebida.

Nos arredores do castelo ficava uma floresta mais perigosa do que todas as outras. Diziam que criaturas arrepiantes andavam à procura de vítimas para satisfazerem suas necessidades. Lobisomens, bruxas, gnomos e corujas eram encontrados recentemente por caçadores da região ou por aventureiros amadores. Grandes criaturas perambulavam todas as noites, assustando viajantes e fazendo com que caçadores queiram cada vez mais um bom motivo para procurá-los. As peles dos lobisomens fabricava poderosas poções de cura e renascimento, e isso deixava essas criaturas peludas como o alvo dos caçadores.

Gnomos possuíam uma importante fonte de comunicação entre os reinos, e estavam entre os mais procurados pelos caçadores por terem pêlos mágicos nas orelhas e nas pontas dos dedos das mãos. Esses pêlos, ao misturados com pó do chifre de unicórnio, transformavam-se em uma poção que ao tomada, deixava a pessoa invisível e isenta de qualquer perigo que a Floresta das Trevas poderia oferecer.

Como já falei as utilidades dos unicórnios, não será preciso falar algo mais; além de ajudarem na Poção do Sumiço , o rabo quando cortado simetricamente em três partes iguais alcança propriedades tão mágicas que nem mesmo os Maxos conseguiam entender.

Maxos(ou Mauxos) são as pessoas que possuem propriedades poderosas, descendem de grandes e renomados magos e feiticeiros que viveram no século XII entre os países da Grã-Bretanha e da Alemanha.

Bruxas maléficas se escondiam atrás das árvores preparando poções e recitando profecias para qualquer um que por ali passasse. Algumas realmente eram crueis e impiedosas, fazendo o mal e agredindo a natureza e os seres vivos; enquanto outras eram falsas e mais idiotas do que os bobos da corte do Reino de Piadas, incapazes de ferir alguém.

Bruxarope era uma dessas, mesmo sem ninguém saber. Sabia preparar poções e inventar profecias sobre princesas e seus finais, sejam eles tristes ou não, mas era tão charlatã como uma vidente ou leitora de mãos de esquinas. Morava em uma casa na árvore na parte mais pitoresca da floresta e mesmo assim não assustava nem um sapo ou uma mosca-vagalume, tanto que sua bola de cristal fora comprada na loja do Reino de Barganha, Bruxaria e Feitiçaria barata.

A Floresta Negra era habitada ainda por criaturas muito piores. Lobisomens uivavam para a lua todas as noites à espreita para conseguirem alimentos fáceis. Matavam qualquer um e eram tão enfadonhos quem em toda a história nenhum caçador jamais conseguiu matá-los ou pelo menos chegar perto sem serem comidos, machucados, decapitados, destroçados ou mastigados.

Devido a esse problema com os lobisomens os gnomos se escondiam nas melhores árvores e nos melhores túneis debaixo da terra, para que nunca fossem encontrados pelas criaturas peludas.

Os reinos eram tão distantes entre si que necessitavam de mensageiros- gnomos, águias e flamingos- para trocarem ideias e acordos.

Claro que na Floresta Negra existiam tantos outros monstros, mas eles serão apresentados no decorrer desta história.

Hoje, vivo num lugar tão distante que nem mesmo a mente humana pode alcançar, mas onde a imaginação corre solta como se todos pensassem ao mesmo tempo e na mesma coisa. Uma terra em que habitam coisas fora da realidade, tão mágicas e poderosas que você explodiria em mil pedacinhos se pensasse nisso.

Não tenha medo, os monstros daqui não conseguem ultrapassar o limite mágico entre a realidade e a fantasia. Um fino e enevoado véu de sonhos impede que os monstros dizimem toda a vida na Terra- o que acredito que já teria acontecido se esse véu não existisse. Ele se chama O Véu da Fronteira, e ninguém, exceto eu, sabe onde fica. Posso estar aí, vivendo entre vocês, comprando pão na padaria e salgadinho no mercado, porém, não há como suspeitar disso. Sou uma garota comum, com dois olhos, uma boca, um nariz e duas orelhas; posso atravessar o Véu quando quiser, mas ao mesmo tempo não posso ir por vontade própria.

Mas acredite: essa história realmente aconteceu, e qualquer coisa relatada aqui, é de perfeito conhecimento por minha parte. Só tome cuidado com uma coisa: NUNCA confie em mordomos que se dizem fiéis... e você vai descobrir o porquê.

Esta história começará a ser contada num belo dia de verão, quando os pássaros já ameaçavam se recolher e as folhas deram os primeiros sinais de que cairiam, avisando da chegada do outono. Lindos sabiás e beija-flores voavam livremente por cima dos campos de girassol e atravessavam as nuvens, assobiando como um coro de vozes que ecoava no céu azul bronzeado pelo sol da manhã.

Ariana estava em seu quarto, remexendo na bolsa à procura do arco e flecha. Quando o encontrou, depois de horas revirando todo o aposento, depoisitou-o sobre a escrivaninha coberta por um pano, do outro lado do quarto. Tinha na cabeça a ideia de mudar a estrutura do instrumento há dias, mas só agora é que tinha os materiais necessários.

–Ah, é hoje.-suspirou, observando as tintas e os pinceis ao lado do arco, prontos para serem usados, quando sua mãe lhe chamou; sobre resmungos e chutões fortes no pé da cama ela desceu as escadas correndo na direção da sala de jantar. Ao chegar no cômodo viu que sua mãe preparava a mesa para o almoço. Era certeza de que teria alguma coisa a se comemorar, e essa coisa não era, sem dúvidas, a nota excelente que Ariana tirou no arco e flecha.

Ela estudava na E.P.A.F., Escola dos Praticadores de Arco e Flecha, no povoado do Reino Selvagem, ali ao lado, escondido dos pais, para que não soubessem que andava gastando o tempo no prático de arco e flecha ao invés de estudar para Etiqueta Real.

–Chamou, mamãe?-perguntou, ofegante só pelo fato de descer as escadas, e olhando para sua mãe, sem fôlego.

–Chamei querida.-confirmou, ajeitando os talheres ao lado de cada prato.-Preciso que você vá ao bosque para colher algumas maçãs e um pouco de mamão.

–Quem receberemos esta manhã?-perguntou, enrolando a ponta dos cabelos dourados com os dedos e jogando de lado enquanto sua mãe decorava a mesa com lindos castiçais de vidro que ia pegando de um armário próximo.

–Os duques de Fortuna e o filho deles.-respondeu, se referindo ao nome do reino onde os visitantes viviam.

Ariana fungou de frustração.

–Aqueles dois bobos que gostam de me perguntar constantemente se tenho alguma queda pelo filhinho ridículo deles?-resmungou, revirando os olhos para assombro da mãe.

A rainha, Cristal, olhou para o alto das escadas para ter certeza de que o pai de Ariana não as ouviria conversando. Não gostava nem de pensar no que aconteceria caso o rei Luis VII ficasse sabendo que a filha chamara um dos filhos mais renomados das Terras Perdidas de ridículo.

–Respeito a eles, minha filha. Lembra de quando nos apoiaram na época em que os condes de Trapaça furtaram as moedas que tínhamos no cofre?-perguntou, convicta.

–Claro, mãe. Setecentos frazels roubados, que seriam investidos na melhoria do reino e nas condições dos moradores do povoado... lamentavelmente, foi muito dinheiro para a mão daqueles idiotas.

Frazels eram as moedas feitas de madeira da árvore mais alta de todo o reino, a Árvore da Humildade. Ela crescia a cada pedaço de madeira arrancado com humildade, e assim, de certo modo ensinava as pessoas a tratarem a riqueza, a natureza e a vida com humildade e honestidade, nunca esbanjando em coisas à toa.

Depois de um breve silêncio, no qual Cristal aproveitou para terminar de arrumar a mesa e colocar as coisas em seus devidos lugares, Ariana falou, lembrando da Época dos Furtos- como fora chamada devido a grande quantidade de dinheiro roubado pelo Reino de Trapaça.

–Mas lembra também de quando soltaram os Gritilhos dentro do castelo, e todos os funcionários enlouqueceram depois que entraram no ouvido de cada um que encontravam?-Cristal ficou assombrada com isso, pois nem havia dado muita importância ao episódio que acontecera há cinco anos.

–Mas aquilo foi um acidente. Quando você mostrou a eles o quadro que havia feito do Jantar de Inauguração do Fígado de Troll, eles se assustaram e acabaram por esbarrar no cercado por puro acaso.-Cristal tentava se convencer do que falara, mas parecia que não estava resoluta de acordo com o que esforçava para acreditar.-O quadro causara uma terrível lembrança de um outro Jantar de Inauguração lá no Reino de Alimentícia, onde molho de tomate caíra no vestido novo de jantar da condessa.

Ariana simplesmente a olhou, não lá muito convencida das explicações da mãe.

Depois de alguns minutos se encarando, a rainha voltou a mexer na mesa e terminar de arrumar tudo após ter dito:

–Agora vamos acabar logo com isso.

E então, as duas arrumaram a mesa do almoço o mais rápido possível. Por fim, ao terminarem de lustrar a última colher e limpar o último prato, o rei apareceu no topo da escada, austero e implacável como sempre. As feições antes atraentes eram apagadas pela amargura e rancor que transbordava toda vez que via a filha. Ariana acreditava que ele guardava algum terrível segredo do passado, que o atormentava dia após dia.

Vestia um maravilhoso traje bordado a ouro e coberto pela capa vermelha clichê a qual todos os reis usavam. Foi falando e cuspindo resmungos ao descer as escadas, apoiando no corrimão.

–Cristal, pediu que as cozinheiras fizessem aquele ensopado preferido do duque de Fortuna?

–S-sim, querido... -ela respondeu, nervosa e com a cabeça baixa olhando para as mãos cruzadas sobre a barriga.

–Muito bem. Ariana -chamou com sua voz de tempestade.- , pediu a Infidelis para providenciar uma carruagem aos duques?

–Claro, papai. -Ela estava mentindo. Nunca se lembrava de cumprir algo que seu pai pedia, mas mesmo assim respondeu convicta como uma cumpridora leal de promessas.

O rei não elogiou a filha, dirigiu-se à mesa, sentando na ponta para esperar os convidados, que a qualquer hora apareceriam. Como Cristal percebera a mentira de Ariana, saiu apressadamente do aposento e entrou na cozinha, pronta para avisar Infidelis da ordem do rei. Depois de alguns minutos, o rei falou, virando-se para Ariana, de um modo tão tranquilo que era como se aquilo não tivesse importância.

–Sua melhor amiga, aquela medíocre, a tal de Arab... Arabesca...

–Arabella, pai! -intrometeu, para fúria do rei.

–Não importa o nome. -bradou.- Recebi uma carta do Strauss, o mordomo, de que ela se casará com o príncipe do Reino de Tormentas.

Ariana ficara tão boquiaberta que mal conseguia respirar, quanto mais proferir uma palavra. O coração tamborilava febrilmente sobre o peito, e parecia que seu cérebro pesava dez quilos. Ficara tão espremida entre as palavras que falar foi quase sufocante.

–O-o q-quê? -engasgou, gaguejando.

O rei levantou da cadeira impaciente, e, indo até o aparador que ficava a um canto no fundo, tirou de dentro de uma gaveta um pequeno pedaço de pergaminho. Entregou-o a Ariana, que começou a ler, as mãos tremendo exageradamente.

Querida amiga,

Sinto muito em lhe falar que nossa infância completa foi pro beleléu.

Me casarei com o Dionisel no próximo sábado, e preciso, mais do que tudo, de sua companhia nesse momento "tão importante para mim" como meu pai disse.

Que droga! Não vejo motivo para isso.

Não posso escrever mais, Ghoulliver, meu urso de estimação, está pedindo comida e se ele não comer você já sabe o que acontece.

Amorosamente, à minha eterna amiga.

Ariana leu e releu várias vezes para ter certeza de que o que estava escrito era real. O rei praguejava e emitia críticas sobre a maneira de como tratarem a situação.

–Vocês, adolescentes, são tão ridículos; fazem uma tempestade em copo d´água por uma coisa tão simples e sem graça.

Ariana resolveu não discutir com o pai, quando isso acontecia, ficava trancada no quarto por dias seguidos. Ainda com a carta em mãos subiu as escadas em direção ao quarto, onde ficou até que os duques de Fortuna dessem o primeiro sinal de que haviam chegado para o Almoço-Mais-Entediante-do-Mundo.

Notas finais
O que Ariana fará diante do conteúdo da carta? Como ficará sua reputação após toda essa confusão?Isso você só descobrirá no próximo capítulo de: A Princesa Perdida!