Notas iniciais
Nunca estamos longe o bastante para que ninguém perceba o que há de errado. As vezes se descobre, como quem tropeça no erro e lá está, e pra sempre permanecerá.
A vida é um saco. Sendo mais específico: minha vida é um saco. Não por ser tediosa, nem por não ter coisas acontecendo comigo, porque tinham coisas acontecendo comigo, só que coisas ruins. E parecia que alguém sempre fazia questão de me lembrar, de que não importa o quanto tudo vai mal, sempre dá pra piorar.
— Inacreditável! – sentei ao lado dele, coloquei a mão na cabeça. – Quer dizer que esse drama todo: você, seu irmão perturbado e eu, é por isso?
Ele acenou positivamente com a cabeça, olhando o asfalto. Pegou um graveto seco e começou a risca-lo, formando um desenho qualquer no chão coberto de folhas.
— Eu sinto muito, é... – eu havia me esquecido... Como era mesmo?
— Ryan!? – ele respondeu erguendo uma das sobrancelhas.
— Isso! Ryan! Eu sabia. Eu sinto muito Ryan, mas eu não gosto de você. – ele me olhou sério. – Quero dizer, não que eu te odeie, não muito... Mas você entende, não é? Eu não sou gay.
Ele sorriu. Parecia já esperar que isso acontecesse. É sempre desse jeito, mesmo prevendo alguma situação e, por sorte ou azar, ela acontecer, não dá pra deixar de se sentir assim, meio enganado, meio contente.
— Eu entendo. Eu só achei que... Depois daquele dia lá na sala... Você me olhando, eu pensei que... Deixa pra lá, eu sabia. Odeio pensar demais sobre essas coisas. Sobre você. – achei aquilo muito ridículo, a situação era ridícula. Não queria ficar sentado com ele, falando sobre o que achava de mim, sobre como era estar frustrado, como a vida se prova enganadora. Me sentia culpado, mesmo que tudo fosse alheio a mim, mesmo que nós não tivéssemos responsabilidade sobre as coisas do tempo e destino.
— Eu só fiquei te olhando porque você ficava me olhando. Você parecia tipo um stalker muito sinistro, eu só encarei de volta... – a voz dele, porque ele parecia tão real pra mim naquele momento? Ele se expressa de um jeito tão diferente, como se a dor lhe pertencesse de fato, como se a aceitasse e fizesse dela sua.
"Os homens encaravam seus medos do mesmo modo que olhavam suas mulheres e conversavam com eles da mesma maneira a qual suas vozes trovejavam no céu, numa noite de estrelas que caiam no vazio."
Li isso num livro há algum tempo. Desde então, me senti como os homens daquela história, porque eles não eram corajosos, nem fortes, nem benevolentes, eles eram apenas ordinários que viviam na margem da existência e não tinham medo. Seus medos não eram inimigos, eles não tentavam vencê-los e nem os medos destruíam aos homens, pois ambos precisavam um do outro para existir. Agora eu não tinha mais medo, abracei todos eles como abraçaria meus amigos, assim caminhávamos juntos a algum tempo.
Ryan parecia fazer o mesmo com sua dor. Queria conseguir conviver com a minha assim, da mesma maneira. Mas eu sofria sem igual, e muito disso nem era por mim, eu sofria pela minha mãe, minha irmã, minha avó, sofria por pessoas que provavelmente se lembrariam do que eu fui por muito tempo. Tento fazer com que se esqueçam de mim, mas comecei a cair na real, não é tão simples.
— Eu sei que isso parece idiota! Foi mal, é que... Eu precisava saber, só isso. – ele disse. Não parecia conformado de todo, mas não demonstrava raiva. Vai ver entendia essas coisas da vida melhor do que eu pensei. – Mas... podemos ser amigos, né?
— Ryan, eu... Não, não podemos. Acho que seria melhor se nem nos víssemos mais, você não pode falar comigo de novo, tem que esquecer tudo isso. É uma pena tudo que aconteceu com você, mas não acho que isso vá dar certo de alguma maneira. – ele olhou pra mim, meio paralisado, tentei ser o menos sacana possível, mas não consegui.
— Como assim? Porque não? – disse se levantando.
— Não me peça pra explicar, por favor, é complicado demais.
— Ooh, então esse é mais um dos motivos pra ser um completo babaca com todo mundo? Ou senão, “como minha vida é difícil, olhem só”? Por que você sempre faz tudo desse jeito tão complicado, já tentou facilitar alguma coisa?
— Cala essa boca! Você nem devia estar aqui, isso tudo só tá acontecendo por culpa do seu irmão esquizofrênico, mesmo quando aquele bastardo não está presente consegue estragar as coisas. Nem sei porque eu continuo aqui tentando conversar, você só aumenta minha dor de cabeça. – falei meio exausto e exaltado, já meio que ofegando. Virei as costas para sair, mas ele me segurou pelo braço.
— Tem que ter um porquê!! TEM QUE TER UM PORQUÊ! – ele gritou.
— EU ESTOU MORRENDO! – olhei pra ele com raiva. Ele soltou meu braço. – SATISFEITO AGORA! – engoli seco, minha língua colava no céu da boca.
— O que? Como assim? – disse juntando as sobrancelhas. Suspirei, reparei que eu estava quase chorando, estava cansado, estava cansado de me sentir cansado, cansado de fazer tanto esforço.
— Eu tenho um tumor maligno no lóbulo temporal...
— Onde? – me olhou meio confuso e exasperado. Então me sentei novamente no meio-fio e ele do meu lado.
— É onde a gente guarda nossas memórias, resumindo tudo. Descobri há algum tempo, está avançando mais rápido do que o normal. E hoje eu fiquei sabendo que o tratamento não está adiantando muita coisa.
— Mas então você...
— Sim... Eu vou morrer! – eu ri. As pessoas sempre tiveram tanto medo da morte, esse era um medo que não me afetava mais. A morte é só isso, morrer. Pra quem morre é um alívio, sofre mesmo é quem fica, quem lembra, quem sente. — Uma das poucas coisas que um filho quase-morto pode dar é um pouco de normalidade. Acho que ajuda um pouco minha mãe, não sei, ir à escola e fazer essas coisas que garotos fazem. Ela ainda tem esperança de que eu me cure.
Eu sofria tanto, ficava mais triste por ela, só pra no fim fazer com que sobrasse um pouco de consolo. Eu sempre comparava: minha morte pra ela versus a morte dela pra mim, sempre pensava no quanto sofreria se eu a visse morrer, no quanto eu sentiria sua falta, no vazio que fica das coisas insubstituíveis. Devia ser quase a mesma coisa pra ela.
— Você não tem? – ele perguntou. E eu também me perguntava isso, se eu tinha ainda alguma esperança. Acho que tinha, mas nenhuma delas era de que eu pudesse viver o bastante para me formar, namorar, fazer um filme, escrever um livro ou algo assim, tinha esperança em outras coisas.
— Minha chance de sobreviver é de 32,4%. Não chamo isso de esperança e sim de estatística, mas minha mãe acredita, então tento fingir que acredito também.
— Puta merda! Isso só pode ser uma piada de muito mal gosto! – agora ele parecia desolado, falava consigo mesmo. Até que deu uma risadinha, olhou pra cima e voltou a ficar sério.
— Um dos sintomas de estágios mais avançados é dor de cabeça constante, que você só faz mais constante ainda, e perda de memória de curto prazo. Eu posso nem lembrar o que a gente conversou aqui, você entende agora? – ele balançou a cabeça afirmativamente, ainda olhando para o alto, para as folhas que caiam.
Eu não sabia no que acreditar. Não acreditava mais em ninguém, as pessoas falavam num idioma estranho pra mim agora, era como se eu já estivesse morto. Mas era tudo um paradoxo, porque existiam essas linhas infinitas pelas quais se estendiam minha vida, fazendo com que eu pensasse as vezes que poderia acontecer qualquer coisa, eram muitas possibilidades, tantas que eu me perdia em raciocínios o dia todo. Acho que sempre fui inadequado para a vida, sempre me apertei nessas brechas de existência, sempre pulando de razão em razão, de motivo em motivo, vivendo um pouco, para morrer logo em seguida. Dessa vez definitivamente, acho. E aquela conversa me pareceu ser a última de que fosse lembrar, “as últimas palavras de alguém que não se lembra mais delas”. É triste, mas se sofre por muita coisa nessa vida, o pior não é morrer, o pior de tudo é deixar saudade, deixar o cheiro e o corpo, as impressões nas vidas das outras pessoas.
— Eu quero fazer isso da melhor maneira possível, que por acaso é a pior maneira possível. Não quero te fazer crer em alguém que eu não sou. Não sou o menino mal humorado que todo mundo odeia, nem o filho que vai se curar, nem o garoto que vai namorar você... Ou ser seu amigo. Eu não sou nada disso Ryan.
— Eu não entendo. Porque sempre acontece essas coisas? – ele me perguntou sincero, curioso.
— Eu não sei, também não entendo.
— Sabe, as vezes eu te odeio. – ele disse baixo, bem perto de mim. Vi sua boca recortada na luz da tarde, e o nariz se dilatando num suspiro profundo e lento. – Te odeio só as vezes, te odeio quando é mais fácil só te odiar, quando é mais fácil do que gostar de você.
Eu ri do que ele disse, fazia muito sentido. Por alguns instantes eu quis ficar mais um pouco ali com ele, mas temendo no que isso traria para ele no futuro, “mas agora o estrago já tá feito” pensei, “Acho que não tem problema aumentar a dor só mais um pouco”.
Me senti feliz o bastante para não ficar triste, mas triste o bastante para não ficar feliz. Acho que vou morrer nesse paradoxo.
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