A Primeira Peça

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Essa história foi criada para o desafio de Heróis e Vilões de 2014.

Chloe olhou a data do jornal enquanto caminhava pelo seu imenso jardim, surpresa com o quanto aqueles meses haviam passado rápido e devagar, ao mesmo tempo. A saudade é capaz de criar ilusões na cabeça das pessoas. Parecera ontem quando ela beijara seu marido e partira para uma longa “excursão de negócios”. Pelo menos esse era o nome que usavam com Gabriel, seu filho adolescente, que não podia sequer sonhar em entender o que sua mãe estava indo fazer. Havia tanto tempo que não o abraçava...

Caminhando em direção à porta, ela repensava em como trilhara aquele caminho, até aquele momento. Assumir o nome de seu marido fora uma decisão que, naquela época, parecera mais simples. Apenas alguns anos depois ela percebeu que tinha assumido muito mais do que um nome poderoso. Tinha assumido um estilo de vida. A família Queen era dona de uma das maiores empresas do país, que movimentava bilhões de dólares e que, desde de o declínio da LexCorp, buscava tomar conta do globo.

“Governo informa que novo toque de desligar se estenderá de 20h às 8h” dizia a manchete do jornal. Ela estava voltando à vida normal e a vida normal estava parando de funcionar durante metade do dia. Mesmo ali, em seu reduto, sentia-se perdida e ainda sem saber o que fazer. A notícia do jornal não a preocupava mais do que aquela trazida na bagagem.

Clark não dava as caras em Star City desde antes da viagem, ocupado demais vigiando o resto do mundo. Ela não o culpava. Na verdade, aquilo fora seu próprio conselho. Eles tinham o arqueiro verde, o resto do mundo não. Ela preferia assim. Os membros da Liga estavam espalhados, cada um cuidando do pedaço do globo que lhe cabia, enquanto Clark cuidava de todo o resto. Clark e ela.

Era estranho perceber como o mundo mudara. Quando ela era nova e a ideia de existirem super-heróis começou a lhe fazer sentido, parecia o mundo havia encontrado alguém para mantê-lo seguro para sempre. A raça humana poderia finalmente dormir tranquila. E assim o fez, mesmo que o pai de Clark tivesse alertado sobre o perigo que morava nos próprios humanos.

Não foram necessários muitos anos para que a crise de energia explodisse. Primeiro foram os combustíveis fósseis. Em seguida, a água do planeta começou a escassear. Precisava-se de mais energia e os rios começaram a secar, devido ao processo de gradativa destruição ambiental. Algo tão sutil que nem mesmo os super-heróis conseguiram controlar.

Durante alguns anos apostou-se em energia nuclear, mas esse caminho era perigoso demais para os seres humanos. Com a crescente demanda, os acidentes começaram a acontecer com uma frequência alarmante. Ela ainda se lembrava de como Arthur mergulhara na pesquisa, e como a sua morte, depois da explosão no Irã, fizera com que Clark e os outros percebessem os perigos daquele caminho.

Ele tinha medo de que as pessoas buscassem usar a água do mar como fonte de energia. Ela poderia ser usada em novos projetos de hidroelétricas, mas isso acabaria com a vida marinha, e, ultimamente, alteraria tanto o sistema climático do planeta que acabaria por prejudicar o seu já delicado equilíbrio. A morte de Arthur motivou Clark e os outros a intensificassem a defesa do mar, pelo menos até que os ideais de Aquaman fossem comprovados cientificamente.

Pensou-se também na energia eólica, mas ela nunca fora uma solução viável como fonte primária, logo, a fonte de energia com maior potencial para salvar a humanidade era o Sol. Os níveis de produção de energia solar, porém, ainda estavam longes de ser suficientes. A tecnologia ainda precisava de décadas para evoluir, e eles não tinham tanto tempo assim.

O novo toque de desligar significava que nenhum tipo de energia elétrica poderia ser fornecido no horário determinado. Significava que a demanda continuava crescendo e a produção continuava a evoluir em um ritmo muito mais lento. Alguém precisava revolucionar o planeta, do mesmo modo que ele fora revolucionado quando Clark assumiu o posto de Super-Homem.

E foi para isso que ela havia se reunido com Cisco e Caitlin, na Suíça. Para pesquisar um modo de salvar o planeta. De recarregá-lo.

Chloe não tinha conhecimento científico para ajudar os dois gênios que Barry lhe havia apresentado, mas fora ela a peça central de toda a investigação. Os dados de que precisavam não poderiam ser encontrados em livros, e seu trabalho durante meses foi mergulhar em todos os cantos digitais do planeta em busca das informações necessárias a seus dois pesquisadores. Além disso, era ela quem financiava a pesquisa, e ela não deixaria que seus resultados ficassem nas mãos dos dois cientistas, por mais que gostasse deles.

— Cheguei – desabafou a mulher, ao abrir a porta dupla de madeira e olhar para sua casa. – Felicity, eu quero o Oliver.

Uma voz feminina digital respondeu prontamente.

— Ligando para Oliver Queen.

Chloe tinha um orgulho especial de “Felicity”. Ela era basicamente a consciência digital de sua casa – que também servia de base operacional para o arqueiro-verde. Em parte, a energia que mantinha Felicity “viva” foi o primeiro passo da pesquisa que ela desenvolvera para tentar salvar o mundo. E era ela, também, o motivo pelo qual Clark evitava a mansão de sua mais antiga amiga.

Em poucos segundos uma imagem digital de Oliver, de terno e gravata, em seu escritório, se materializou ao seu lado. Ela sentia tanta falta de olhar para ele...

— Como foi?! – ele perguntou, em tom urgente.

— Nós conseguimos – ela disse, sem sorrir, enquanto via seu marido bufar a alguns quilômetros de distância. A expressão do homem era um misto de alívio e apreensão.

— Então... É mesmo possível?

— Sim, o Cisco estava certo... Nós podemos salvar o mundo.

Um segundo de silêncio se passou entre eles, enquanto olhavam um nos olhos do outro, sem saber o que dizer em seguida.

— Vou para casa. Quero ver você.

— Não! Por favor, não... Você não vai ajudar aqui, e isso só vai te atrapalhar aí. Falta menos de uma hora para a cidade ligar e você precisa aproveitar o tempo que temos. Isso pode ser complicado.

— Espera, então... nós vamos mesmo seguir em frente? Você tem certeza?

Chloe suspirou. Se ainda tivesse seus vinte anos, estaria a beira das lágrimas, mas a vida lhe tornara uma mulher madura, experiente, capaz de tomar a decisão necessária, não importasse qual fosse. Ou pelo menos era isso em que ela gostava de acreditar. Nunca tivera tanto medo do próximo passo.

— Claro que não, Olie... É claro que não tenho certeza.

— Então vou para casa para podermos discutir isso melhor.

— Passamos cinco meses discutindo isso antes de eu viajar, Oliver. Não vai ser de hoje para amanhã que as coisas vão mudar... Concordamos em manter isso em segredo e concordamos que, se em algum momento, tivéssemos que decidir entre contar ou não ao Clark, seria eu quem tomaria a decisão.

— Eu sei, mas, Chloe...

— Olie, não precisa vir aqui para me dizer nada. Se eu realmente decidir seguir por esse caminho, nós vamos precisar do dinheiro dos Wayne para fazer disso algo global. Nem eles nem nós conseguiríamos fazer isso sozinhos. Você tem que começar a pensar em termos de contrato para negociar com Bruce.

— Tudo bem... – cedeu Oliver, sabendo que não poderia tomar aquela decisão pela mulher. Ela entendia muito mais do Super-Homem do que ele jamais poderia sonhar em entender. – Eu amo e confio em você.

Ela sorriu enquanto seu marido voltava a desaparecer.

Quando Chloe começou a dedicar esforços para estudar o campo da energia, ela o fez em escalas pequenas, começando por sua própria casa. Tentou imaginar a força mais poderosa que ela conhecia, para então usar daquela energia para manter a casa funcionando. Naturalmente, pensou em Clark e, não muito tempo depois, lembrou-se de que a energia dele vinha da maneira como suas células alienígenas absorviam a radiação solar.

Então percebeu que, talvez, pudesse usar a kryptonita para amplificar a energia solar. Em um primeiro momento, manteve sua hipótese sob segredo, até que ela se provou verdadeira. Quando contou a isso para Clark, ele rapidamente começou a procurar maneiras de reunir uma quantidade de kryptonita suficiente para salvar o mundo.

O problema é que o material era raro na Terra, e não existia mais em lugar nenhum do universo. A fonte, afinal, havia explodido. O programa espacial terrestre foi inteiramente direcionado para a busca da kryptonita pelas galáxias, mas a tecnologia humana ainda era muito limitada, mesmo com todos os seus avanços recentes.

Chloe, nesse meio tempo, protestava contra essa inciativa. Ela tinha a mais plena consciência de que quanto mais kryptonita estivesse disponível na Terra, mais perigoso esse planeta seria para Clark. E ela não tinha tanta fé na humanidade sem a liderança do Super-Homem.

Clark, porém, era inabalável. A única coisa que o fazia hesitar era Lois, mas, no final, Chloe sabia que se ele tivesse que sacrificar a própria felicidade pelo bem do planeta, sua prima acabaria solteira ou viúva. Lois sabia dos riscos que estava assumindo quando se casou.

Entretanto, ambas continuaram a dormir tranquilas, sabendo que o mais provável era que nunca conseguissem encontrar kryptonita o suficiente para alimentar todo o planeta.

Até e Chloe receber um telefonema de Caitlin, mencionando que havia desenvolvido uma teoria sobre como criar Krytonita com elementos do ar, da agua e alguns outros descobertos recentemente, com a expansão do programa espacial. Cisco se mostrou terrivelmente contra desenvolver uma tecnologia que poderia expulsar o Super-Homem da Terra — ou, mais provavelmente, matá-lo — todavia, uma vez que Chloe sabia que havia um caminho, ela não poderia deixar de explorá-lo.

Assim, depois de alguns meses de pesquisa na Suíça, os três conseguiram desenvolver uma maneira acessível de produzir kryptonita, sem que ninguém, além de Oliver, soubesse.

Chloe se encontrava, naquele momento, em uma posição em que estava muito habituada a ficar, mas onde nunca se sentira confortável: tinha todas as cartas na mão e precisava decidir o que fazer.

Cisco dizia que ela deveria destruir a pesquisa para salvar Clark, apostando na fé que tinha nele para salvar o mundo de alguma outra maneira. Caitilin dizia que eles já poderiam salvar o mundo, e que Clark não hesitaria em fazer o necessário. Chloe concordava, com ambos. Ela queria desesperadamente salvar a sociedade, mas sabia que não podia cobrir trinta por cento do planeta com kryptonita e colocá-la a disposição de todos os inimigos de Clark. Ela tinha fé, afinal, de que era ele quem levaria a humanidade ao seu destino, como Jor-El havia previsto.

Se ligasse para Cisco, ele destruiria a pesquisa, sem deixar qualquer rastro da pesquisa e de seus resultados, mesmo para Caitlin. Se ligasse para Clark, ele a obrigaria a começar a produzir. Eles eram, ambos, irritantemente previsíveis.

Ela via a cadeia de eventos que aquela decisão iria desencadear antes mesmo de tomá-la. Eram como duas fileiras diferentes de peças de dominó disposta a sua frente. Ela só precisaria derrubar a primeira peça, para que todo o resto caísse da maneira como estava prevista. Chloe sabia que, quando a última peça da fileira caísse, ela seria uma heroína ou uma vilã, dependendo de qual peça escolhesse derrubar primeiro.

A única coisa que não podia prever, independente da decisão que tomasse, era qual das duas posições assumiria.

Finalmente, ela tomou uma longa inspiração antes de dizer:

— Felicity, ligue para o C...

Notas finais
Espero que tenham gostado da leitura. Espero vocês nos comentários.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!