A Primeira Neve
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Era tarde da noite, mas ele caminhava pela rua. A noite era fria, estavam no auge do inverno e apesar disso não havia neve em nenhum lugar visível. Mesmo não tendo carros na rua, ele parou quando o sinal de pedestres se fechou. Ele se encolhia dentro do sobretudo negro, tentando se esconder do frio mesmo sendo quase impossível.
A luz mudou de vermelho para verde e quando deu o primeiro passo, seu celular tocou. Ele o atendeu, sem deixar de andar:
— Alexi? – ela o chamou.
Ele parou de andar e olhou para cima, procurando ajuda ou talvez o céu ou até as estrelas.
— Você está aí? – ela voltou a falar e mais uma vez ele não respondeu.
Não havia estrelas no céu, só nuvens pesadas. Talvez fosse nevar, mas Alexi estava temeroso quanto a isso. As crianças ainda esperavam ansiosamente pela primeira neve, assim como ela.
E ele sabia, se nevasse, ela o ligaria.
— Eu queria te ver – sua voz calma diz. – Você me deve uma...
— O que você quer? – ele perguntou quase que grossamente.
— Batata frita – Alexi quase podia imaginá-la sorrindo, quase.
— O médico disse que você não podia comê-las.
— Eu não conto se você contar.
Ele olhou ao redor pela rua vazia, relembrando-se quantas vezes ela tinha lhe dito aquelas palavras.
— Certo.
Alexi apertou firmemente o saco de batatas fritas do Mc’Beth’s (eram as preferidas dela). Ele abriu lentamente a porta do quarto 301. O monitor cardíaco apitava levemente mostrando ondas, ora grandes ora estáveis. Era um quarto de hospital. Um quarto comum, tirando elae claro, todas as flores e cartões de melhoras. Falando nela...Ele direcionou o olhar para a cama mas esta estava vazia. Alexi franziu o cenho, então olhou para o seu segundo lugar preferido.
E ela estava lá, sentada na cadeira de rodas, encarando a cidade através do vidro. Por um segundo ficou em silêncio, observando sua postura. Ele não gostava de estar ali, não queria estar ali, não queria ver ela...
— Evcha – a chamou, seria melhor acabar logo com as coisas.
Ela se virou e sorriu. Mesmo com a pouca iluminação ele via seus olhos brilhantes. Não queria admitir, mas tinhas sentido saudade dela, assim como ela dele.
— Está nevando! – Eve disse alegremente com sua voz falha.
Ele olhou para fora e disse sem emoção: — É
— Ksenia passou por aqui, ela disse que está tudo indo nos conformes – falou, tentando mover a cadeira de rodas para perto dele. – Ela disse que... Batata frita!
Finalmente ela tinha notado o saco gorduroso na mão dele. Alexi respirou fundo, absorvendo o cheiro forte de água sanitária – Jesus! Ele odiava aquele cheiro – e a encarou.
— Eu quero comer lá fora! — Eve disse.
— Está frio lá fora – ele replicou.
Ela o encarou brevemente, agarrou o saco de batatas fritas e guiou a cadeira até a cama. Ele só a observava sem se mover.
— Ei! – ela disse alto e raivosamente, assim que conseguiu se sentar na cama, agora se encaravam com a mesma altura. – Não venha me visitar com essa cara de cú! Parece que você não está realmente aqui.
Alexi a olhou assustado, ele tinha aquela cara desde a primeira vez que veio vê-la no hospital.
— Isso faz com que eu me sinta pior, seu filho da puta!
Agora ele a olhava com outros olhos. Desde que tinha estado doente eram sorrisos fracos, ligações respeitosas e falas mansas... Aquela não era sua Evhca. Mas com um simples xingamento, ela recuperou um pouco de quem era. Eve não era Eve sem um xingamento.
— Nós vamos comer lá fora – ela proferiu, como uma rainha mandando em seus súditos.
Ele sorriu se aproximando:
— Eu não conto se você não contar.
Alexi vagava pelos corredores escuros do hospital carregando Eve em seus braços enquanto ela empurrava o carrinho do monitor cardíaco com uma mão.
— Seu falar que estou pesada, eu te esfolo! – ameaçou.
— Eu ia dizer que precisa comer mais— ele diz num tom humorado. – Talvez, se comesse um Döner por dia.
— Ou um saco de batatas fritas! – fala prontamente.
Mas na verdade, ela estava leve. Muito leve. As pernas antes rígidas pareciam gelatina. Ela parecia não pesar nem uma grama.
— Ficar no hospital é horrível – ela enterrou a cabeça em seu pescoço. – To quase mandando a nutricionista do hospital dar a bunda na esquina, ela é muito chata!
Ele sorriu. Naquele momento um peso saiu de seus ombros, talvez ela não estivesse tão doente assim quanto os médicos tinham lhe dito.
Talvez ela estivesse bem. Ela era uma pessoa forte, era capaz de mandar sua doença para longe. Estava voltando a ser quem era, sem o rosto pálido e os lábios quebradiços. Ele pensou que tudo ficaria bem.
Eve podia ser chata, ser conhecida como a ponta de ferro, podia praguejar mais que um marinheiro e gostar incondicionalmente de comida francesa. Mas do mesmo jeito, ela era um ser humano, ela era frágil; e provavelmente, estava a ponto de quebrar.
Ela não iria melhorar, aquilo era só ele se iludindo.
Havia aquele banco no pequeno jardim do hospital, que ela sempre usava quando queria pensar. Bem... Usou-o até começar a desmaiar pelos corredores e ter sua liberdade confinada à cadeira de rodas.
Alexi a deixou no banco e a encarou. Ela estava com aquele mesmo sorriso sereno e descontraído enquanto olhava ao redor. Eve estendeu a mão para cima, tentando capturar alguns flocos. Ela adorava a neve.
E assim com a neve, ela era tão linda.
— Estava me perguntando se esse seria um inverno verde – murmurou e depois o encarou. – Como está a orquestra?
Alexi desviou o olhar e se afastou um pouco.
— Eu não sei.
Ele tinha largado a orquestra. Claro. Não tinha cabeça naquele momento para reger nada.
— Você está desmotivado – ela abriu o pacote ainda quente de batatas fritas. – Como eu pensei.
Como eu me concentraria com você aqui e não lutando contra o mundo ao meu lado? Ele queria gritar.
Alexi era um famoso maestro. Era novo, mas certamente atraia atenção com as misturas de músicas clássicas modernas e antigas que fazia. Sempre foi conhecido por ser inexpressivo. Afinal, era músico por ter sido uma tradição passada pela família, não era exatamente sua paixão – e também não é como se fosse melhor em outra coisa. Mas quando ele a conheceu... Aquela figura brilhante no palco, que surgiu flutuando por cima da névoa artificial e mesmo sendo uma das figurantes, atraia mais atenção para si do que a protagonista. Algo na música ganhou sentido para si. Ele não soube descrever aquela sensação de quando a viu, parecia verão novamente quando ele tinha as sessões de Jazz com a família.
Ele se lembrava com perfeição o dia em que a encontrou pela primeira vez. Ela era a Rainha dos Espíritos em Giselle. A protagonista era sem graça, parecia ter medo das outras pessoas, mas quando ela entrou em cena, com aquele olhar decidido de quem mataria o Príncipe logo após, o coração de Alexi bateu mais rápido e a orquestra respondeu aos seus batimentos.
A música ganhou cor a partir daquele ano. As notas saltavam na frente dos olhos de Alexi como nunca antes. Ele era o maestro e se orgulhava daquilo. Sua regência fazia as pessoas chorarem na plateia e de bônus era o primeiro espectador, num local especial, só dele, antes da primeira fileira de cadeiras no teatro.
Eve ajeitou-se no banco, levando-a mais perto para a figura de primeira bailarina que costumava ser. Ela tinha aquele olhar decidido, que usava em cima do palco, como se soubesse o desfecho das coisas. Como se tudo fosse dar certo...
— Eu estou aqui – ela disse confiante. – Você não está sozinho.
— Mas em breve você pode não estar – Alexi respondeu amargamente.
Ela levou uma batata à boca e ele encarou suas pernas. Ele usava uma calça de pijama, e da onde estava, nem parecia que suas pernas tinham sido esmagadas por um carro. Alexi sabia que suas pernas eram tudo para si, assim como seu ouvido era tudo para ele. Ela podia estar no palco com um braço quebrado, mas não com as pernas quebradas.
Um motorista tinha atropelando-a quando voltava para casa, estragando todos os planos que tinham para aquele ano. Não podiam mais ir esquiar, não podiam mais ir patinar no gelo, não podiam mais viajar para alguma cidade pequena e histórica.
Foi um pesadelo.
Porém, depois de se recuperar, Eve começou a desmaiar. Aparentemente, o motorista não tinha só estragado suas pernas, mas também o seu encéfalo. Eram desmaios no início, depois, suas pernas pararam de responder.
Então virou um inferno.
— Eu vou passar por uma cirurgia – revelou lentamente, não sabia como ele lidaria com a informação. Alexi olhou-a espantado, o médico tinha lhe dito antes que talvez fosse impossível para ela. – Eu vou lutar como se estivesse no palco, como se fosse a Odette fugindo do Rothbarth. Eu vou resistir com vontade, até não conseguir mais.
Ele ainda a encarava atônito.
— Você não vai lutar? – ela o perguntou. Ele era famoso, contudo ainda precisava lutar se quisesse ser reconhecido. – Somos bons em lutar, não somos?
Sim, eles eram. Muito bons.
— Faz duas semanas que não vou ao ensaio – ele apertou os olhos depois olhou o chão. Ele nem sabia que músicas tinham sido escolhidas ou se já tinha sido substituído.
— Tsc – ela fez um barulho com a boca. – Está desistindo.
Ela não gostava daquilo. Alguém com capacidade e sonhos tão grandes não podia simplesmente desistir. Ela não tinha desistido e iria mostrar para ele. Rapidamente, como muitas vezes antes, ela desligou o monitor cardíaco e desconectou os cabos dos eletrodos em seu tórax. Apoiando-se com força no banco, ela deu um impulso e pôs-se de pé. Alexi a olhou atônito enquanto graciosamente, ela prepara a quinta posição dos pés.
Aquela era uma sequência de passos que ele nunca tinha visto antes. Ela ia para a esquerda com um chase, depois um padebouré, então subia na ponta dos pés e rodava... Ele teve vontade de chorar. Parecia que ela estava bem novamente. O movimento de seus braços estava meio rígido e as pernas meio desleixadas, entretanto para Alexi, ela estava perfeita.
Perto do fim, ela passou a cantarolar uma música. E o coração de Alexi se partiu em pequenos pedaços. Ele sabia aonde aquela coreografia pertencia: a nova peça de inverno, que ia estrear em dois dias. A música era de sua composição, e ela deveria fazer o papel principal. Eles se empenharam tanto nos últimos dois anos para conseguir aquilo.
— Viu – disse ofegante depois do pequeno salto que encerrou a sequência. – Eu estou me esforçando, você deveria se esforçar também.
Seu sorriso era fraco e suas pernas tremiam muito pelo esforço. O pequeno jardim, parcialmente coberto de neve tinha sido marcado pelos seus passos. Havia um pé solitário em um canto, a marca de seus pés em outro e um prefeito círculo onde fez os giros.
Eve foi ao chão. Ela sabia que suas pernas não iriam aguentar muito, mas ela estava lutando por ele. Só por ele. Alexi ajoelhou-se ao seu lado no chão nevado e a abraçou.
— Você deveria lutar, idiota. Se debater, como um peixe fora d’Água. Eu ainda quero ouvir você tocar Clair de Lune para mim, ou observar suas costas enquanto rege – ele olhou para baixo, para a cabeça encostada em seu peito. – Há tantas coisas que eu ainda quero fazer...
— Eu também – ele murmurou, passando a mão pelos cabelos castanhos escuros e macios dela.
— Pode não fazer sentido, mas eu estou com medo, Alexi – ela apertou sua camisa e soluçou. – Com tanto medo...
Ele olhou para baixo incrédulo. Em todos os cinco anos que se conheciam, Eve nunca tinha chorado em sua frente. Ele tentou consolá-la apertando-a, mais e mais, contra si e passando a mão em suas madeixas, tirando a neve que tinha se acumulado.
— Por favor, não me deixe sozinha. Não mais.
Aquilo o atingiu como um tiro. Ele era tão idiota. Tinha ignorado-a pelos últimos meses, fugido dela. Eve podia ser a primeira bailarina, xingar mais que um marinheiro, ter uma personalidade péssima e mesmo assim, ela era como qualquer outro ser humano. Entretanto naquele momento, era bela. Bela quando subia no palco, quando o encorajava, quando lutava por si, quando dançava. Ela era tão linda.
Linda, no meio da neve.
— Eu não conto se você não contar – a morena disse fracamente.
Alexi não precisava de explicação, ele já entendia tudo. O banco, as batatas fritas, o choro e a dança eram só deles.
Só nosso.
Era tarde da noite, mas ele caminhava pela rua. A noite estava fria, estavam no início da primavera e apesar disso, ainda havia neve caindo do céu. Mesmo não tendo carros na rua e o sinal de pedestres estar aberto, ele parou no meio fio. Ele se encolhia dentro do sobretudo negro, tentando se esconder do vento, mesmo sendo quase impossível. Alexi tirou o celular do bolso quando a luz do sinal ficou vermelha e o encarou, até o sinal abrir novamente.
Ela tinha ligado-o uma vez, por que não podia liga agora? Estava paranoico. Nevava levemente pela cidade, talvez a última vez naquele ano.
Ele sabia, se nevasse, ela o ligaria. Mas aonde ela estava?
O maestro deu o primeiro passo em direção ao outro lado da rua, mas parou assim que viu um jornalista se preparando para filmar algo, num local não muito longe de onde estava. Um poste, logo após o sinal, cercado de flores e desenhos.
— Sabe o que dizer certo? – o câmera-man perguntou ao jovem jornalista.
— Sim – disse nervosamente. – Essa vai ser a primeira coisa que as pessoas saberão quando acordarem.
Alexi permaneceu ali parado, no meio da rua, observando o trabalho deles. A câmera se iluminou e uma forte luz cobriu o jornalista. Ele levou o microfone aos lábios e disse:
— Estamos aqui, no local do trágico acidente de Evia Abelovic, para dar uma notícia triste. A primeira bailarina eslovaca do Teatro Bolshoi faleceu agora na madrugada, devido a complicações em sua cirurgia. Os médicos informaram que a bailarina teve falha múltipla dos órgãos em uma cirurgia que lhe garantiria de volta o movimento das pernas...
Alexi os encarou com um olhar vazio. Ele estava voltando do teatro, indo direto para o hospital. Indo direto para ela. Era a primeira vez em meses que ai por livre e espontânea vontade.
— Como muitos sabem, Evia Abelovic foi atropelada neste local quando voltava do treino a onze meses atrás. Evia quebrou as duas pernas e logo após sua recuperação ela perdeu o movimento das pernas. Até agora, com a sua morte confirmada muitos fãs prestaram suas homenagens, deixando flores e cartazes no local em que sofreu o acidente.
Eles foram até rápidos, talvez estivesse amanhecendo, ele não sabia. Seu transe foi quebrado quando uma mulher deixou uma rosa branca na base do poste. Rosas brancas eram as preferidas dela.
Seu celular tocou e ele atendeu sem olhar o identificador de chamadas.
— Senhor Alexi Ulanova? – uma mulher disse do outro lado da linha. – Aqui é do hospital Vlad Mirae, infelizmente, a paciente...
— Eu sei – ele disse pesadamente e desligou.
Não nevava mais.
Talvez aquela tivesse sido a última neve do ano.
Alexi sabia, Eve tinha ido com a neve.
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