A Primeira Maldição
3 A Pedra dos Sonhos
Ally, ainda em choque, foi encontrada por Kubrick:
—Des...—ela hesitou ao ver o rosto dele preocupado. Claro, afastar-se do grupo para chorar foi completamente estúpido e idiota, não deveria deixar seus sentimentos abalarem-na a ponto de ser inconsequente e arriscar sua vida, afinal havia muitas pessoas que se preocupavam muito com ela—Desculpa.
Os dois abraçaram-se até serem interrompidos pelo som de galope do cavalo de Alek, que se juntou a eles. Prenderam o homem adormecido e retornaram ao abrigo da floresta.
Quando chegaram à clareira e foram recebidos pelos outros, o sequestrador da princesa foi amarrado a um tronco e desencapuzado:
—Por que fez uma coisa dessas, Alen? Pensei que fosse leal à nossa família.—A princesa falou desapontada, já que o homem amarrado costumava fazer parte da guarda do castelo e sempre conviveu com a menina.
—Disseram que seu pai não teria chances contra todo o exército do mestre, muito menos contra as forças que ele segue. Prometeram não me machucar e algum dinheiro para trazer você. Precisa entender, eu não tive opção.
—Parecia ter muitas opções enquanto me ameaçava.
Alen abaixou a cabeça sem responder.
—Majestade—Mestre Ernst, um nobre sábio conselheiro da corte, interveio- Sei que ele é culpado por traição e tenho repugnância pelo que ele fez com você, também estou ciente que a punição de um traidor é a morte. Mas nesse momento, creio que ele possa ter informações crucias das quais podemos tirar proveito, aconselho a mantê-lo como prisioneiro apesar do crime cometido.
Ally decidiu que precisava de algum tempo para pensar na questão, estava exausta e não queria tomar uma medida impulsiva, por isso ordenou que o homem fosse mantido preso e prometeu uma sentença definitiva até o fim do dia. Ela foi até o interior da caverna, deitou-se no chão pedregoso e encarou o pingente que ainda brilhava levemente. O que era aquilo? Por que seu pai nunca lhe contou nada sobre ele? Ela deslizava a pedra entre os dedos quando adormeceu e começou a sonhar.
Em seu devaneio, a menina vislumbrou Venyard de eras no passado, quando os deuses passavam sua eternidade a caminhar pela terra e nenhum humano ainda tinha ousado dar um primeiro suspiro na sempre fresca brisa que acariciava os verdes e brilhantes campos que estavam sendo enfeitados a mão com flores pelo capricho de Primavera. Ally contemplou a divindade enquanto ela deitava sobre a terra sementes de lírios que brotavam e desabrochavam em vivo carmesim sob um gesto delicado de seus dedos. De todas as flores, a mais bela surgiu com pétalas negras, era peculiar e única. A deusa, embora imortal, ainda era jovem e inocente. Olhou com estranhamento a planta, mas logo distraiu-se e correu para se divertir com as criaturas que vieram ao recém plantado jardim.
Vários dias se passaram e, mesmo depois de todo o jardim ter murchado, o lírio negro ainda estava intocado e tão perfeito quanto no dia em que foi plantado. Até que ele chamou a atenção de um jovem imortal, que o arrancou da terra e o levou para sua amada, ela recebeu a planta venenosa com alegria e inocência. Pouco tempo se passou até que ela começasse a sofrer os efeitos do lírio, definhou antes do sol repousar e no próximo dia já não acordou.
O jovem ficou confuso enquanto assistia impotente o destino de seu amor sendo selado, afinal, o que acabara de acontecer? Por que ela não acordava como fazia em todas as manhãs? Ela nunca abriu os olhos novamente e ele foi o primeiro que conheceu a morte. Seus gritos agonizantes de luto, culpa e dor ecoaram pelas terras recém criadas e fizeram Ally acordar assustada, sobre a pedra da caverna, com seu colar em mãos. O que tinha acabado de acontecer? Ela sabia que não tinha sido um sonho normal, foi real demais.
A menina, ainda perplexa, percebeu que Mestre Ernst estava ao seu lado. Ele, assim que ela acordou, começou:
—Majestade, a decisão deve ser tomada logo, não podemos hesitar agora.
—Eu sei, mestre. Sei que tenho falhado bastante com o meu papel, mas não vou deixar que esses erros se repitam.
—É compreensível que esteja em luto e abalada, mas quero que saiba que pode indicar alguém para tomar essas decisões por você. É muita responsabilidade.
Ernst então saiu e a deixou refletindo por mais algum tempo.
Enquanto a princesa não aparecia, os outrora nobres do castelo debatiam entre si sobre as atitudes dela. Senhorita Ada dizia abertamente:
—Ela é uma criança frágil, seu pai está morto, a menina não tem a habilidade de nos liderar.
—Desde os treze anos dela, Morgan nos deixou muito claro que ela estava pronta para assumir em caso de necessidade, vamos confiar em seu legado.—insistiu Alek.
—Ela está em choque e só chora!—intrometeu-se o pequeno Tory.
—Basta!—gritou Kubrick—Ela é a princesa, não vou tolerar que digam essas deslealdades.
—Ela nunca seria capaz de dar uma pena adequada ao traidor!—teimou Ada— Vai colocar todos nós em perigo por...—Ela então parou quando Kubrick lançou-lhe um olhar de reprovação.
Todos pararam de discutir quando Ally saiu do abrigo da caverna. Ela começou:
—Alen sempre foi um grande amigo meu, de meu pai e provavelmente de muitos daqui, sei que ele teria muito a nos contar sobre nosso inimigo. Mas devo dizer que prefiro não confiar em informações de um traidor. Tem algo a dizer em sua defesa, Alen?
—Piedade, majestade, juro que contarei a verdade.
—Já percebemos que seus juramentos não são confiáveis, para mim sua honra já está eternamente manchada. — Ela disse com frieza na voz.
—Eles vão receber o grande Mestre! Duncan vai estabelecer a nova sede do império no castelo Farren, todos falaram disso. Agora, por favor, tenha piedade, imploro.—Ele abaixou a cabeça para a garota.
—Mais algo a dizer?-Ela manteve seu tom autoritário que as pessoas não estavam acostumadas a ouvir.
Ele apenas manteve-se em silêncio.
Ally encarou a situação do homem com pena e decretou:
—Sendo assim, é com grande pesar que removo todas as condecorações do exército Farren do outrora grande guardião Alen Hemsmith.—ele tinha vergonha estampada na face—E também o sentencio à pena de morte pelo crime de traição à coroa.
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