A Preço de Fogo
3 Let Burn Down
Notas iniciais
“Incêndio em The Giant Circus
Terceiro circo incendiado esse mês, a polícia ainda está à procura de suspeitos e investiga motivos para a ocorrência desses atentados”
Com um cigarro nos lábios e a vida passando pela pequena janela do trem, eu folheava o jornal, impresso há exatas 24h desde o fogo que se estendeu “por acaso” no The Giant. Naquela noite, há 48 horas atrás, nosso circo estava lotado, com murmúrios e cochichos sobre o incêndio e a vantagem de se ter um circo “Não Inflamável” perto de casa. Afinal, nossa tática havia dado certo. Como sempre. O The Giant Circus era grande, mas pela pobreza daquele espaço, pensei que talvez não nos rendesse tanto dinheiro extra, felizmente eu estava errado. Há tempos não vendíamos tanta pipoca como no show de duas noites atrás e o Fenix praticamente preencheu todos os lugares. Vendemos mais ingressos na hora do que antecipado e o espetáculo foi um sucesso. Ainda recordo-me de quando Rick me informou sobre essa ideia e, na época, eu ainda tinha medo do novo.
“-Dan, fiquei refletindo muito ontem depois do espetáculo sobre como estamos perdendo dinheiro. Quando as pessoas finalmente se deram conta de que esse ramo do circo rendia um bom dinheiro, nossa concorrência começou a aumentar. E muito. Praticamente em todas as cidades nas quais nos instalamos tem outro circo que já está lá ou se instala no mesmo período. Nós estamos perdendo clientes e, consequentemente, dinheiro. E você sabe o que eu mais odeio?
–Que as pessoas tirem o que é seu... –pensei mais um pouco, ainda incerto de minha resposta- e perder dinheiro também!
–Exato. Agora me responda: o que aconteceria se só existisse o nosso circo?
–Só existiria a nossa apresentação.
–Gosto dessa sua esperteza! Assim, todo o dinheiro viria para a gente. Daniel, você gosta deste circo?
–Aqui é a minha casa.
–Ótimo, era isso que eu queria ouvir! Quero que você preste bastante atenção no que vou te dizer agora, pois você é a única pessoa nesse lugar inteiro que confio para uma tarefa dessas, porque no fundo, você é o único além de mim pra quem este lugar realmente importa. Agora ouça, quando estivermos em uma cidade com concorrência, quero que você saia no meio da noite, em um dia que não tenha espetáculo, e acabe com ela. Dan, sabe por que o nome do nosso circo é Fenix?
Balancei a cabeça em negativa.
–Porque a Fenix renasce das cinzas. E é exatamente isso o que vamos fazer: das cinzas do fogo que se espalhará nos outros, nós renasceremos todas as vezes, vendendo nosso circo como ‘Não Inflamável’, em todo o nosso esplendor.”
Eu tinha catorze anos naquela época e ainda não sabia o significado da palavra “esplendor”, mas tudo me pareceu tão bonito que aceitei, sem pestanejar. Fiquei com um pouco de medo nas primeiras vezes, de ser pego ou sair queimado, mas logo peguei o jeito e hoje somos, graças a mim, um dos maiores circos dos Estados Unidos e o maior em quantidade de espectadores, que vêm buscando segurança em nosso ambiente que garantimos ser à prova de fogo. No fundo, são todos um bando de idiotas.
Estávamos em um trem, viajando para Nova York por causa do meu aniversário. Há três anos Rick resolveu dividir o circo em dois, pois afirmava que assim o dinheiro viria em maior quantidade. Quando disse para ele que gostaria de dar uma festa de 20 anos, ele me disse que nos levaria para lá, que era a cidade onde o outro circo estava instalado. Disse também que faríamos o primeiro espetáculo conjunto e a festa seria depois. Eu estava com um nível super elevado de ansiedade, fumando mais cigarros do que o de costume no trem durante a viagem. Nunca os dois Fenix se encontraram e, durante uma das bebedeiras de Bob, o palhaço, ele me contou, sem querer, que o circo de Nova York tinha as melhores e mais lindas prostitutas, o que seria ótimo, considerando que eu já havia enjoado das nossas por conviver tanto tempo com as mesmas. Já havia dito para Rick que precisava renovar, pois enquanto ele viajava entre os dois circos com toda aquela postura de Mr. Brightside e tinha as prostitutas dos dois circos só para ele, nós tínhamos que nos contentar com as mesmas mulheres há mais de três anos. No fundo, também somos homens de carne e osso à procura de um pouco de prazer.
Algumas horas depois, já era noite e nós desembarcamos em frente ao Fenix 2º. Quando desci do trem, fiquei abismado com o tamanho e esplendor daquele lugar pois, diferentemente do nosso, que viajava sem parar, aquele era um circo fixo, com maior capacidade de manter-se sempre limpo e com mais investimentos em estruturação e beleza. O circo era bem planejado, com tendas pretas e brancas grossas, intercaladas por finas listras vermelhas. A bilheteria era de um vermelho vibrante, com vidros para proteção e correntes novas, enquanto as nossas já estavam quase esfareladas de tanta ferrugem. Deixei o cigarro cair no chão enquanto ia adentrando aquele local, junto com Rick e os outros artistas do circo. Éramos uma equipe gigantesca, principalmente com a grande quantidade de funcionários tirados sei lá de onde pelo mestre de cerimônias todo mês. Achava que talvez a quantidade de acomodações não fosse suficiente para tanta gente, mas depois de ver a grandiosidade e magnificência daquele lugar, tive certeza de que isso não seria um problema. Enquanto todos os outros artistas iam se preparar para a apresentação, resolvi aproveitar esse tempo para curtir um pouco. Estava cansado da viagem e precisava relaxar. Eram quase nove horas e imaginei que tomar um banho seria ótimo para um bom proveito da noite que se seguiria.
Procurei por Rick um bom tempo, para saber onde poderia me acomodar e, depois de explorar aquele lugar quase por inteiro, encontrei-o do lado de fora do camarim, onde todos se preparavam para o espetáculo. Ele estava apoiado na porta e pareceu não me ver. Logo uma garota loira veio ao seu encontro. Ela estava de cabelos molhados e apenas uma toalha de banho enrolada no corpo. Pensei que talvez fosse uma prostituta qualquer vindo bajular o patrão, mas ela esticou os braços e, ao enrolá-los em seu pescoço, o beijou. E não foi um beijo qualquer, foi um daqueles que só se dá entre quatro paredes e estranhei. Eu estava de longe, não poderia afirmar com certeza, mas ela me parecia muito mais nova do que ele. Mr. Brightside enrolou os dedos nos cabelos dela que caiam até a cintura e separou o beijo. Eles conversaram por alguns instantes. Ela sorriu e foi embora, enquanto ele adentrou a sala dos artistas e fechou a porta atrás de si. Rick nunca havia me contado nada sobre manter um relacionamento com alguém e aquela cena me pegou de surpresa. Ele era quase um pai para mim e nunca havia me escondido nada. Quis tirar aquela história a limpo e resolvi seguir a garota, já que ele deveria estar muito ocupado se preparando para anunciar o início do show ao público. Corri atrás dela e, vendo um monte de portas enfileiradas como se fossem pequenas casas geminadas, ainda cheguei a tempo de ver uma das maçanetas girar e fechar a porta. Entrei sem pestanejar, vermelho de raiva por Rick ter me escondido um segredo tão grande. Quando abri o quarto, a garota de antes estava de costas para a porta, com a toalha branca, antes enrolada em seu corpo, agora a seus pés. Ela virou-se para mim, sem pudor algum e, com uma tranquilidade enorme, disse:
–Não estou em horário de trabalho, mas se pagar bem posso dar um jeito.
Há muito tempo eu não via uma mulher com um corpo tão escultural completamente nua na minha frente, mas pelo choque da situação, eu não sabia se a agarrava ali mesmo ou se pegava a toalha do chão e dava para ela se cobrir. Seus olhos eram grandes e escuros como a noite, olhos de criança, de gente que sonha alto. Ela deve ter percebido minha confusão mental, pois virou-se, abriu o guarda roupa e colocou uma lingerie vermelha, o que me ajudou a pensar melhor. Seus cabelos eram loiros, quase brancos, e caiam em cachos grandes pelas costas. A moça foi até uma mesinha do lado da cama, olhou-se no espelho e, enquanto passava maquiagem, disse:
–Quem é você e o que quer comigo, já que não vai me comer?
–Eu... Na verdade, eu queria saber se você tem algo com o... –pensei rápido e mudei de assunto- Quer dizer, quantos anos você tem?
–18. Isso interfere em algo?
–Sim... Quer dizer, não! Não. É só que eu vi vocês se beijando e ele não me disse nada e você é gostosa pra caralho... –enrubesci repentinamente quando me dei conta que pensei em voz alta.
Ela olhou pra mim, sorriu e veio em minha direção. Aproximou-se de meu ouvido e sussurrou:
–Prazer, Marilyn.
Senti-me estremecer. Há muito tempo não tirava tempo pra me divertir, metade pela quantidade de trabalho e metade por estar enjoado das mesmas prostitutas do circo, o que me fazia praticamente virgem de novo. Ela encostou o corpo no meu e eu já estava começando a pensar com a cabeça de baixo quando a beijei e a joguei na cama atrás de nós. Não controlei o que eu fazia, foi tudo muito no automático e maravilhoso. Ela sabia se virar na cama melhor do que qualquer mulher que eu já havia transado antes. Só fui pensar por mim mesmo quando tudo aquilo acabou e eu cai na cama, exausto. Olhei para o lado e ela me encarava, com um sorriso de satisfação nos lábios, daqueles de quem quer tudo de novo.
–Quem é você? –ela perguntou
–Daniel, do circo “instável” — ela deu uma risada fraca, ao mesmo tempo em que meu ego ia às alturas por ter pegado uma mulher daquela.
–Porque entrou aqui?-suspirei antes de responder
–Eu vi você e o Rick... –me corrigi-...quer dizer, Mr. Brightside, e vocês pareciam mais do que apenas um patrão e sua prostitutazinha que se comem de vez em quando. Só que ele nunca me contou nada sobre manter um relacionamento e estranhei, –sussurrei para mim mesmo- porque ele nunca me esconde nada.
–Então você é o famoso Dan? –os olhos dela brilharam como quando se descobre algo novo ou quando se tem uma ideia genial. Apostei na primeira opção.
–Ele fala de mim? –meu ego estava numa escala que só subia. Ela afirmou com a cabeça.
–Ele te elogia muito, diz que você é o responsável pelo sucesso do circo. Mas não se sinta muito especial, porque se ele realmente te contasse tudo, duvido muito de que você estivesse aqui agora.
–Por que todos vocês tem algo contra ele? Ele foi como um pai pra mim a minha vida inteira!- eu levantei enquanto quase gritava essas palavras. Meu rosto ia ruborescendo de raiva.
Marilyn se levantou e colou-se no meu corpo, acariciando meu pescoço. Sussurrou:
–É verdade que ele te deixa sair sem nenhum aparelho de segurança?
Sai do estado de raiva e meu cérebro ia começar com aquela sensação de confusão de novo, mas ela acariciava meu corpo de um jeito impressionantemente eficaz, que me fez sentir como se ela pudesse guardar meus segredos, como se eu pudesse realmente confiar nela. Nota: eu precisava aprender essas técnicas.
–Saio só para trabalhar. Não tenho muita necessidade, o circo tem tudo que eu preciso.
Ela se afastou de mim para me olhar nos olhos.
–Cara, ele fez uma lavagem cerebral legal em você.
–Do que você tá falando?
Ela esticou o braço direito para mim e, bem na dobra do braço havia um pontinho preto, quase imperceptível. Passei a mão em cima e senti algo como um retângulo minúsculo sob sua pele.
–O que é isso?
–Um chip subcutâneo que consegue controlar nossa localização através de um dispositivo do qual só Rick tem acesso. –ela respirou fundo- Olhe em volta! Todos os funcionários e artistas desse circo foram recolhidos em algum lugar no meio da rua, passando fome e frio. E o gentil Mr. Brightside chega com cara de rico e te oferece a porra de um trabalho, casa, comida e roupa lavada. Quem nessas condições não aceitaria isso? E quando você se dá conta ele já tirou seu futuro, a pessoa que você mais amava e sua inocência de você!
Nesse momento, lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, e seus olhos ficaram vermelhos. Eu senti como se, naquele momento, eu fosse seu confidente, a única pessoa que sabia que ela não era a mesma da imagem que passava, e o único que tinha a chance de consolá-la. A envolvi em meus braços e ela retribuiu o abraço agarrando a minha cintura. Foi estranho descobrir que eu não fui a única pessoa com problemas na infância e naquele momento, eu acabei também consolando a mim mesmo. Nossos corações batiam em uma altura quase perceptível para os ouvidos, compassados no mesmo ritmo. Quando parei de ouvir seu choro, olhei em seus olhos e ouvi-a murmurar “obrigada” antes de encontrar seus lábios novamente.
Naquela semana que antecedeu minha festa de aniversario eu e Marilyn nos encontrávamos todos os dias, escondidos de Rick. A cada dia ela me contava algo ou me mostrava um lugar novo no circo. A cada dia eu ficava mais horrorizado com as atrocidades que o homem que foi um pai para mim a vida toda foi e era capaz de fazer. No último dia antes da celebração de meus 20 anos, ela me levou a um lugar que chamava de “repouso dos anjos”, uma porta escondida em um quarto escuro, com uma escada que levava até um cemitério de corpos que foram enterrados vivos. Enquanto ela contava a história de sua infância e de como seu irmão foi amado por ela, peguei em sua cintura e a beijei sem aviso prévio. Foi ali. Foi naquele momento que eu percebi que o destino nos reservava muito mais do que uma simples fuga daquele inferno.
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