–Atenção, atenção todos! Preparem suas emoções, pois o maior espetáculo da Terra está prestes a começar!

Foi ali. Lembro-me de cada detalhe daquele dia, as tendas listradas de preto e de um branco já sujo pelo chão de terra vermelha. Era um lugar praticamente deserto, passavam pela rua de barro apenas alguns poucos carros de vez em quando, deixando na estrada a marca de seus pneus há muito tempo já gastos. Eu era apenas uma criança nascida em uma cidade perdida no mapa pelo seu tamanho quase insignificante, um menino de nove anos de idade, fugindo novamente do orfanato onde fora deixado alguns anos antes pelos próprios pais, enrolado em jornais e dentro de uma caixa de papelão. Alguns dias antes lembro-me de ter acordado no meio da noite por algum motivo inexistente ou insignificante, era uma daquelas noites nas quais o destino nos escolhe para pensar no real significado de conceitos que, naquela época, eu ainda era completamente leigo. Por entre um pensamento e outro, ouvi um barulho de ferro batendo em algo lá fora e fui correndo para janela. Qual foi a minha surpresa quando, ao observar aquele monte de panos e bastões de ferro no chão, avistei uma placa onde se lia “Fenix Circus”. Lembro-me claramente de ter vigiado o circo pela janela do orfanato desde que ele havia se instalado ali e ter conseguido sair naquele dia por uma casualidade que fez com que eu não fosse vigiado pelos funcionários. Saí correndo do lugar que eu nunca chamaria de “casa”, faminto e apenas com as roupas do corpo, para me encontrar com o show de tendas em preto e branco que tanto me atraía. Esperei até que todos entrassem para ver a apresentação. Cinco minutos depois de o espetáculo ter começado, passei por debaixo das correntes enferrujadas e me dirigi até a entrada do circo. A sensação foi inesquecível, aquele medo do desconhecido misturado com a ardência de liberdade que senti, em conjunto com a magia que aquele circo emanava. Foi ali, foi rastejando por debaixo da tenda, foi quando vi aquele homem de bigode russo e cartola esguia anunciando as apresentações que eu tive certeza. O circo era o meu lugar.

Quando o espetáculo acabou, ao mesmo tempo em que meu senso de responsabilidade estava me dizendo para sair correndo daquela tenda gigante e voltar para o orfanato, havia uma força invisível me impedindo de sair debaixo da arquibancada onde havia me escondido. Eu estava tão fascinado com aquela imponente figura do mestre de picadeiro de bigode russo parado no meio do palco que mal me dei conta de que todos já tinham saído e estávamos sozinhos na tenda. Ele enrolou o bigode. Olhou a hora no relógio de bolso dourado. Retirou um pequeno espelho do bolso das calças. Olhou-se e arrumou o chapéu. Guardou o espelho. E olhou para mim. Essas cenas nunca mais seriam esquecidas e eu tentaria reproduzi-las por anos a fio, para sentir-me mais parte daquelas listras brancas e pretas. Mais parte do meu lugar.

–Você, garoto! O que faz aí embaixo?

Uma confusão imensurável me abateu naquele instante, olhei em volta, ainda com a esperança de ele não ter me descoberto e, sem ver ninguém mais além de mim, simplesmente entreabri os lábios na menção de falar algo e fechei-os novamente, sem explicações para dar.

–Vem cá. Qual é o seu nome?

–Ahnnn... É Daniel, senhor. Mas pode me chamar de Dan. –eu disse, um tanto quanto apavorado

Ele me estendeu a mão, eu a peguei e saí debaixo da arquibancada. O homem era três vezes maior do que eu, esguio e completamente intimidador visto daquele ângulo.

–Então, o que o senhorzinho faz aqui? Certamente não pagou a entrada... Não é?

Neguei com a cabeça, constrangido. Em um gesto de consolo, ele colocou um dos braços sobre os meus ombros e foi me conduzindo para a parte de trás da grande tenda.

–Você veio com alguém, Dan?

–Não tenho ninguém para vir comigo...

Ele deu um sorriso estratégico.

–Ótimo.

Foi o que bastou.

Dez anos depois meu cargo já era outro. A vida havia aumentado meu fardo sem nem dar tempo para eu ter percebido. O circo foi a casa que o orfanato nunca conseguiu ser para mim, e o mestre de picadeiro, Rick, foi o mestre e tutor que aqueles funcionários nunca foram. Eram nove horas da noite daquele dia, quando veio a mim mais um chamado do chefe para comparecer à sua sala.

–Boa noite, Rick.

–Você sabe que até que estejamos a sós, eu sou o Mr. Brightside. –dei meu sorriso de sempre, já acostumado com a situação corriqueira.

–Então... “Mr. Brightside”, -enfatizei — o que tem para mim hoje? –sentei-me na cadeira que ele havia indicado a sua frente.

–Um circo chamado “The Giant” se instalou há dois dias a três quadras daqui. Preciso que você dê um “jeitinho” nele para mim. — sorriu- E precisa ser rápido, pois partiremos para Nova York em menos de uma semana.

–Deixa comigo. E, Rick... Quando vai me contar onde você arranja tanta gente para trabalhar aqui? Ontem mesmo chegaram dois gêmeos loiros, que devem ter por volta de uns dezessete anos, e uma garota ruiva e cheia de sardas um pouco menor do que eles. O Bob me disse que são funcionários novos. Onde você acha tanta gente?

–Outro dia a gente conversa sobre isso, Dan. Por hora, só preciso que dê as “boas vindas” àquele novo circo e também que pendure a nova faixa de “Circo Não Inflamável” que está no contêiner. Um dos gêmeos a deixou mais chamativa para o público. Ele está sempre sorrindo, ao contrário do outro, que tem a cara amarrada. Dá pra diferenciá-los por isso. Acho que esse irá se tornar um bom garçom para os artistas quando tiver mais tempo de circo, porque você sabe, Bob não gosta de pessoas pessimistas, –ele riu- coisas de palhaço... Enfim, lá no contêiner tem fósforos e gasolina também, para o caso de você precisar de mais. Deixei mais uma caixa de cigarros de presente, pelo seu bom trabalho. E acho melhor você ir, sabe como é, um mestre de picadeiro tem muitos afazeres quando não está no espetáculo.

Dei uma risada baixa e fraca e fechei a porta. O contêiner do qual Rick havia se referido não ficava muito longe dali e eu já havia decorado o caminho para chegar até lá. Tirei uma pequena lanterna do bolso, que sempre andava comigo, para me auxiliar por conta da falta de luz daquela rua e da escuridão da noite. Quando cheguei, a faixa não estava lá. Olhei em volta pelo espaço, procurando-a ou a alguém para me ajudar a encontrá-la, mas estava sozinho. Peguei o galão de gasolina que Rick havia deixado para mim ali, coloquei a caixa de fósforos e de cigarros no bolso das calças e me dirigi para a entrada do circo, atento a tudo e a todos, porque se aquela faixa sumisse, a culpa seria colocada em mim.

Saindo do contêiner, logo avistei a entrada do circo, onde a faixa deveria ser pendurada e levei um susto ao ver um vulto passar por ali. A pessoa foi se aproximando, enquanto meu cérebro já estava na defensiva caso as intenções da pessoa comigo (ou com o circo) não fossem das melhores. Quando chegou perto, percebi um garoto loiro, um dos gêmeos novatos, com as mãos imundas e um sorriso ingênuo nos lábios.

–Ei, quem é você? – perguntei. Ele abriu o sorriso ainda mais e limpou a mão suja nas calças antes de estendê-la para mim.

–Mike, prazer.

Recusei o cumprimento.

–Dan. –disse, meio desconfiado com aquele garoto

Ele olhou para o portão, depois olhou para mim e perguntou:

–Você já viu como o portão fica com a nova faixa?

–Você já pendurou?

–Aham. Vem ver! –ele olhou pra mim com um sorriso e se dirigiu ao portão. Fui atrás.

A faixa era preta, com letras gigantes e bem desenhadas com tinta branca que diziam “Fenix Circus” em cima e, logo abaixo, com uma tinta vermelha vibrante lia-se “O Circo Não Inflamável”.

–A faixa ficou boa, melhor do que a outra. Você que pintou? -perguntei

–É... Ficou mesmo. Há quanto tempo você está preso aqui? –Ele me perguntou e dei uma risada cínica

–Preso? Eu “moro” aqui –enfatizei- há dez anos!

–Hmm... Que bom pra você. Mas fico feliz de pelo menos estar preso num lugar seguro. Digo... Você sabe que estão queimando todos os circos por aí, não sabe? Pelo menos aqui é um circo não inflamável e me sinto feliz de poder manter minha irmã e meu irmão seguros aqui comigo.

–Que bom pra você. –eu disse, confuso por não entender metade das coisas que Mike havia dito anteriormente e querendo apenas terminar aquela conversa para continuar meu trabalho. O que ele está pensando? Se ele se sente preso por ter que trabalhar aqui, ele que vá trabalhar em outro lugar! Afinal, ninguém é obrigado a nada.

–Tudo bem então... Mas se conseguir fugir, me avisa antes, tá?

Balancei a cabeça em um gesto de confusão, sem saber exatamente se tinha entendido a pergunta. Meio desconcertado, ergui a mão em um gesto de despedida e fui embora apressado, havia ainda muito trabalho a fazer.

O caminho foi silencioso, como já era esperado, com apenas a luz da lua, a estrada de terra vermelha e o mato que se estendia pelas beiradas da rua para guiarem o meu percurso. Três quadras e uns dez minutos depois, tendas vermelhas e amarelas relativamente grandes se estenderam à minha frente. Tudo estava completamente apagado, o que significava que aquela noite, certamente, não era noite de espetáculo. Foi fácil passar por cima das correntes que fechavam a entrada e distinguir qual era a tenda principal. Quando entrei, me surpreendi com a precariedade daquele lugar. Para um circo pouco maior do que o nosso, eu imaginava algo mais elaborado, mas era tão simples que quase fiquei com pena de destruir aquela tenda. Espalhei a gasolina no desenho de uma mandala nas entranhas de um dos picadeiros mais simples que eu já havia visto, deixando o galão vazio cair pelo meio. Acendi o fósforo e o deixei cair em um dos cantos do picadeiro enquanto corria para o lado oposto para assistir de longe a dança das chamas que se erguiam perigosamente silenciosas. Acendi um cigarro e andei calmamente para a rua de onde eu havia vindo. Dei a primeira tragada e limpei a poeira das roupas. Enquanto voltava para o Fenix Circus, olhava para trás de minuto em minuto e às vezes até parava um pouco na rua para apreciar as chamas que eu havia criado enquanto fumava. Amanhã teríamos bastante trabalho, pois todos os espectadores que iriam para o circo “The Giant”, agora iriam para o nosso. Também estava um tanto ansioso pela festa que eu planejava dar, pois em menos de uma semana eu completaria 20 anos, vinte anos de puro circo, trabalho e fogo correndo nas veias, e um circo a menos na concorrência para comemorar.

Notas finais
Espero que tenham gostado do primeiro capítulo, e deixem comentários aqui pra mim ;)