A Praça
1 A praça
– Bota a culpa no Careca, seu delegado! – Esbravejou o prefeito Golias.
Era arriscado culpar uma pessoa sem provas concretas, mas isso aliviaria o medo das pessoas, a tensão e, consequentemente, seu mandato seria lembrado por ter sido bem rigoroso com relação à segurança pública. Ou foi o que pensou o prefeito.
Careca era um mendigo inofensivo que só sabia pedir dinheiro. Era gago e ninguém conversava com ele. Era alto e magro, moreno e calvo. Era mais conhecido pelo seu mau humor do que pela sua condição de mendigo.
Essa seria uma boa jogada de Golias. O coitado do Careca não ia contratar um advogado e, além do mais, nem saberia se defender da acusação de maneira coerente.
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– Meu povo, minha vida, meus amores! Estou hoje aqui, em cima deste palanque, para dizer boas notícias que recebi da delegacia. Pois é, o mistério dos desaparecimentos nas praças principais foi solucionado! Ontem prenderam o culpado e ele será julgado o mais rápido possível. Eu disse pra vocês, que quando eu entro pra resolver, dá tudo certo. Gostaria de agradecer ao delegado Robson que,assim como eu, não teve um sono proveitoso desde o primeiro desaparecimento.
E aquela multidão aplaudia e gritava toda ao mesmo tempo: “GOLIIIAS, GOLIIIAS, GOLIIIAS...”; mas, assim como tudo que é mal resolvido,a verdade sempre aparece lá na frente.
As famílias das pessoas desaparecidas estavam reunidas debaixo de uma das árvores da praça central principal. Ainda pareciam tensos a cada palavra proferida pelo prefeito, lógico, pois queriamencontrar os corpos. A mãe de um dos jovens que fora assassinado caminhou até em frente ao palanque e, lá de baixo,pediu o microfone. Nesse momento o prefeito ficou um pouco nervoso, pois via no rosto da mãe aquele ar de desconfiança.
– Seu prefeito, meus parabéns por capturar o assassino, só que achar o corpo do meu menino é tão importante quanto isso – ela falou, e, então, todos os familiares das pessoas desaparecidas começaram a gritar:
– Justiça! Queremos justiça! – E aquela gritaria continuava. O prefeito olhou atentamente a mãe de um dos jovens e disse em alto e bom tom:
– Interrogaremos o meliante até ele dizer onde estão os corpos e falarei com a juíza pra aplicar a lei de maneira severa a esse cidadão, porque ele feriu cada um dos cidadãos dessa cidade com seus atos bárbaros!
Me lasquei!,pensou o prefeito Golias. Como é que eu vou encontrar os corpos se nem sei se o assassino é o Careca? Se nem tem provas que o criminoso é ele?
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Jómade era uma cidade pequena, típica do interior brasileiro, onde todos se conheciam por nome ou apelido. Qualquer coisa que ocorresse na rua era motivo de fuxico e, portanto, essa série de mortes estava deixando os moradores preocupados. Todas as pessoas iam dormir cedo e ninguém ficava na rua. Desde o primeiro desaparecimento, a cidade começara a ficar mais deserta e sombria.
Antes desses ocorridos, as praças eram lotadas de pessoas, principalmente jovens, que iam lá para paquerar. Normalmente tinham de doze a quinze anos, mas os desaparecimentos ocorriam em horários variados. No total foram onze desaparecimentos, sendo cinco mulheres e seis homens.
A cidade tinha dez praças pequenas na periferia e cinco principais no centro, sendo quatro dessas principais em volta da central, que era a maior. Em todas, havia jardins com tipos variados de plantas que davam um aspecto charmoso e exótico à cidade. Na área central de cada praça havia uma árvore alta e antiga com folhas largas e grossas.
A planta das praças era antiga, mostrando até os rabiscos das árvores africanas que as adornavam no centro. Eram altas e robustas, eraramente ficavam com aspecto seco. Diziam os mais velhos que, logo após serem fincadas na terra de Jómade, as árvores tinham começado a trazer prosperidade à agricultura.
Goliasjá tinha feito de tudo pra tentar localizar o assassino, botando câmeras e vigias. Pensava o criminoso que não tinha condição de ser uma só pessoa, pois, todas as vezes que os sequestros ocorriam, as câmeras se moviam e focavam direções inusitadas ou que sua programação simplesmente não poderia captar (embora estivessem sempre lá, intactas, no dia seguinte), e os vigias sempre adormeciam sem nenhum motivo aparente quando dos desaparecimentos. A certa altura, os cidadãos moveram um abaixo-assinado para que o prefeito determinasse toque de recolher para as pessoas que ainda insistiam em perambular pelas ruas à noite.
Não pensou Golias que sua estratégia de acusar o Careca duraria apenas quatro dias. Então, desapareceu outra menina, completando doze sequestros sem nenhum vestígio do crime. Agora a chapa esquentara para o delegado Robson e para Golias, pois haviam incriminado uma pessoa indefesa sem nenhum tipo de prova. Vou acabar na cadeia! É ou eu ou o delegado! Esseera o único pensamento de Golias.
Mas como quando se tem poder as coisas se resolvem mais fácil, Golias tirou o Careca da cadeia, pediu-lhe desculpas publicamente e deu-lhe roupa, dinheiro e comida, prometendo até moradia, como meio de reparar a calúnia da acusação.
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A revolta dos familiares dos desaparecidos aumentou cada vez mais com o prefeito, acusando-o de descaso. A única alternativa que lhe ocorria era contratar investigadores. Então foi feito. Contratou quatro, e designou cada um para um serviço.
A primeira investigadora a chegar a Jómade era uma mulher que aparentava ter cinquenta anos e era bem convincente e persuasiva. Seu papo era interessante e pra ela foi designado o trabalho de conversar com as pessoas, procurando estórias com brechas, depoimentos e álibis contraditórios e possíveis suspeitos. Seu nome de profissão era Teresa.O segundo investigador era um homem idoso chamado Hugo, que ficou encarregado de articular os seus colegas de trabalho para os pontos principais da investigação, ao passo em que o terceiro era um jovem de dezoito anos, chamado Jass, que ficou encarregado de conversar com os amigos dos desaparecidos e analisa-los em busca de algum comportamento suspeito ou fora do comum. O quarto investigador era umhomem que tinha seus trinta e cinco anos e ficou encarregado de investigar as áreas perto dos locais onde os desaparecimentos haviam ocorrido. Seu nome era Tom.
O prefeito agora ficara mais aliviado, porque julgava que as coisas tomavam rumo para dar certo. Uma hora ou outra vai acontecer outro desaparecimento, mas, dessa vez vamos pegar o safado.
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E as investigações começaram a todo o vapor. Teresa conversava com as pessoas fazendo laços de amizade e tentando de alguma forma tirar informação de algum suspeito. Conversou também com os vigias das praças principais, mas não conseguia nada. Sempre alguém desconfiava de outra pessoa apenas por inimizade, ou por inveja ou até mesmo para despistar alguma informação importante. Ela sabia que o seu papel na investigação era o mais difícil, pois a todo o momento tinha que ser imparcial para absorver as pistas importantes.
Teresa descobriu que os desaparecidos tinham idades semelhantes e que, até o momento, o número de desaparecidos era igualmente dividido entre rapazes e moças. Tentou avaliar se alguma garota teria tido relacionamento com estranhos ou se, desde o início dos casos, houvera pessoas se mudando ou turistas na cidade. Se os desaparecimentos tinham a ver com a classe social, aparência física ou status, mas nunca encontrava padrão. Rapazes e moças desapareciam sem obedecer a qualquer nexo causal palpável. “Sem nexo” era única maneira que Teresa podia definir o caso.
O sequestrador tem que ser muito ninja pra fazer tudo isso sem deixa vestígio, pensava ela, cogitando até quadrilha de vendedores de órgãos ou traficantes de menores.Alguma coisa tinha que ser feita, mas o que?, indagou Teresa...
Jass fez amizades com todas as meninas da cidade, pois tinha o seu charme e um jeito galã. Jogou bola com os meninos pra se enturmar, e no final das contas descobriu apenas que os desaparecimentos ocorriam sempre à noite, pouco antes do toque de recolher. Não era, de fato, uma informação muito útil ou conclusiva. Algumas garotas comentaram com ele que os desaparecimentos geralmente se davam em noites de grande ventania.
Hugo ficara encarregado de dizer aos outros investigadores aonde devem direcionar suas investigações. Após um mês de estudo do caso, chegou à conclusão que, para uma pessoa executar o crime tão bem, precisaria conhecer bastante a cidade e as praças, com seus altos e baixos, becos e ruas sinuosas e irregulares. O sequestrador só podia ser alguém da cidade, ou que tivesse vivido lá por muito tempo. Ele pensava nisso com tal certeza que pediu ao prefeito os mapas da cidade.
O prefeito não hesitou. Para ajudar nas investigações, entregaria os mapas de bom grado. Ao procurar os documentos, encontrou arquivos antigos, empoeirados e esquecidos, que datavam de antes da construção da prefeitura, mostrando planos, rabiscos e desenhos das primeiras ruas e inclusive das praças da cidade, com as árvores em destaque, em torno das quais a cidade fora construída.
Analisando os mapas, Hugo não pôde deixar de notar que Jômade tratava-se, aparentemente, de uma cidade planejada, embora parecesse não fazer sentido, dada a irregularidade das construções e da arquitetura geral.
Mais tarde, junto com os demais pesquisadores, quando Hugo percebeu que os desaparecimentos haviam ocorrido de forma simétrica quanto ao número de mortes e localização, ficou assustado. Que pessoa mais doentia… louca!, era a única coisa que conseguia pensar. Duas vítimas para cada praça principal em torno da central, e quatro nesta última. Era a primeira e única pista concreta que alcançavam desde o início da investigação. È muita coincidência. Ai tem coisa, tenho certeza, Hugo pensou. Tom tem que ver isso.
Tom ficou surpreso com a notícia. Porém, ninguém mais tinha pista nenhuma e, após um último esforço dos investigadores baseando-se nos fatos recém descobertos, toda vontade mostrou-se infrutífera e, como passados quatro meses desde o último desaparecimento, o prefeito deu por encerradas as investigações. Sem provas e sem recursos, não tinha como continuar.
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Passados dois anos, o caso acabou parecendo se resolver por si só. Mesmo negando todas as acusações, o delegado Robson foi condenado. O motivo, o assassinato de um jovem chamado Abreu, dezessete anos, ocorrido na praça central. Tornou-se, então, o principal suspeito dos desaparecimentos dos jovens, pois o seu crime foi doloso e com uma testemunha ocular.
Sem mais vestígios, o delegado foi acusado por todos os desaparecimentos, pois nunca encontraram o corpo de Abreu. Em seu testemunho, Robson confessou apenas um assassinato e que deixou o corpo ao lado da árvore na praça principal.
Com seus esforços, Golias conseguiu ser reeleito prometendo em seu segundo mandato mais infra-estrutura à cidade, começando com a revitalização das praças, pois com o passar do tempo, iam ficando cada vez mais abandonadas.
Quando o trator arrancou as raízes das árvores principais, poeira subiu para todo lado. Ossos e pedaços de pele presos às raízes se confundiam com a terra, e assim parte de uma historia mal resolvida se perdia no tempo, para sempre sem resposta.
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