A Ponte

1 Capítulo 1


Taemin tinha recém completado nove anos no dia em que viu Jinki pela primeira vez. Ele ainda era um garoto bastante tímido e solitário naquela época e sua mãe ainda não tinha aprendido que ele não seria atacado por outros garotos, ou se tornaria um marginal drogado se fizesse amigos de vez em quando.

Ele estava de férias, e tinha aprendido a se divertir sozinho. E provavelmente até gostava disso. Ele vivia em uma casa enorme – bem, ao menos ela parecia enorme, nos olhos de um garoto de nove anos – onde sempre havia o que fazer. E mais legal ainda era o bosque que havia atrás dela. Taemin podia não ter muitos amigos – o único relativamente próximo dele, Minho, estava viajando no momento – mas havia muito o que explorar por ali.

Claro que sua mãe também não gostava que ele andasse ali sozinho, então ele não necessariamente contava para ela o que fazia e onde estivera a tarde toda. E, de qualquer forma, ele sabia que não iria longe demais. Havia um riacho, e seu pai havia dito que ele simbolizava a divisa das terras deles com... Bem, com “O Vizinho”, embora Taemin não fizesse ideia de quem fosse essa pessoa.

Naquela semana, ele estava suficientemente ocupado andando pelo comprimento do riacho. Era uma paisagem realmente bonita. Algo que ele pensava ser bonito até demais para ser apreciado apenas por uma pessoa. Mas também não era como se ele quisesse levar qualquer um de seus amigos ali – ele tinha um certo ciúme do lugar, já que ficava na sua casa e ele tinha a ilusão de ser o único a saber que aquilo existia. Taemin gostaria de mostrar o lugar a alguém, algum dia. Mas não agora, porque não havia ninguém especial o suficiente. E, de qualquer forma, ele achava que era ridículo levar alguém para ver um rio onde não houvesse sequer uma ponte – então era isso que ele estava fazendo, procurando pela ponte. Porque precisava haver uma ponte em algum lugar.

E, naquele dia, ele a encontrou. Uma pontezinha de madeira, em formato de arco e parecendo muito bem cuidada. Uma pontezinha com um garoto sentado nela. E esse garoto era Jinki.

**********

Taemin parou há alguns metros da ponte, surpreso. O barulho do rio provavelmente tinha evitado que o outro garoto, que estava de costas, o ouvisse chegar. Pensou que deveria correr, sair dali o mais depressa possível. O garoto parecia maior do que ele, embora fosse difícil ter certeza, e Taemin aprendera a não confiar em garotos maiores.

Ao mesmo tempo, ele estava indignado. Havia outro garoto no seu lugar especial! Pior do que isso. Um garoto desconhecido.

Ele balançou a cabeça e decidiu que precisada saber quem era aquele garoto, e o que estava fazendo ali. Afinal, ele podia até mesmo ser “O Vizinho”. Embora ele jamais tivesse considerado que pudesse haver meninos com quem brincar na casa do vizinho. Achava que seus pais deveriam ter-lhe dito, se era verdade. Suspirou e começou a andar na direção do garoto sentado na ponte. Aquele era mesmo um lugar muito legal. E que ele queria que fosse somente dele.

- Oi! – ele disse, assim que chegou próximo o suficiente do garoto, sem saber direito por onde começar. Ele não era muito bom em fazer amizades assim, do nada.

O outro garoto ergueu os olhos para ele, parecendo um pouco surpreso... mas então sorriu. Um sorriso amigável, até onde Taemin entendia do assunto. E Taemin sorriu de volta espontaneamente, apesar de o garoto ser um garoto grande, e Taemin não confiar muito neles.

- Oi! – o garoto respondeu. – Quem é você?

Eu é que pergunto quem é você, e o que está fazendo aqui, era o que ele tinha vontade de responder. Não o fez, porém. Sua mãe havia lhe ensinado a ser educado com as pessoas.

- Meu nome é Taemin – ele disse, subindo na ponte em direção ao garoto. Para uma ponte no meio do nada, até que ela parecia bastante limpa. Então talvez não fosse “no meio do nada”. Talvez O Vizinho cuidasse daquele lugar. Então ele apontou para trás de si mesmo, na direção de onde tinha vindo. – Eu moro pra lá.

- Legal, meu nome é Jinki. Eu não achei que houvessem outros garotos por aqui.

- Você é o meu vizinho?

- Anh?

Taemin sorriu. – Eu quero dizer, você mora pra lá, do outro lado do rio? Meu pai disse que depois do rio as terras são do vizinho.

- Ah, entendi! Não, na verdade eu não moro aqui – Jinki respondeu, e Taemin sentiu um ligeiro desapontamento. Queria ter um vizinho. E estava começando a achar que esse garoto poderia ser legal, mesmo sendo mais velho e, portanto, pouco digno de confiança. – Mas meu avô mora. Acho que ele é o seu vizinho.

Taemin sentou-se ao lado do garoto, olhando para o rio que corria em baixo deles.

- Tem crianças lá?

- Não, a maior parte do tempo – Jinki respondeu, sorrindo. Taemin não entendia direito porque ele sorria tanto, mas decidiu que seria indelicado perguntar.

- Mas agora você está aqui!

- É, mas eu não sou exatamente uma criança! Já tenho doze anos! Quantos anos você tem?

- Nove... hyung – Taemin respondeu, um pouco aborrecido. É claro que o garoto não ia querer ser seu amigo. Era assim que eram os garotos maiores. – Fazem dias que estou procurando uma ponte.

- Por quê?

- Ah... eu só achei que deveria haver uma. E também não tinha mais o que fazer por aqui.

Jinki riu.

- E agora você achou. E ela ainda veio com um brinde: eu.

Taemin olhou para ele e sorriu.

- Quanto tempo você vai ficar aqui, Jinki hyung?

- Todo o verão, eu acho – ele respondeu ficando repentinamente sério.

- Você não gosta daqui?

- Não muito. Eu não tenho amigos aqui. E também não tenho muito o que fazer. Por isso resolvi andar por aí e acabei achando essa ponte.

- Hoje?

- É, hoje. Pena antes de você chegar.

Taemin sentiu uma súbita vontade de rir do fato de eles acharem aquele lugar quase ao mesmo tempo, mas não o fez porque sabia que seria difícil explicar onde é que estava a graça.

- Eu posso ser seu amigo – ele disse, baixinho, nem acreditando que estava dizendo aquilo – se você precisar de um enquanto está aqui.

- É claro! Claro que podemos ser amigos, Taemin! – ele disse, e Taemin ficou umas cem vezes mais aliviado. – Você tem outros amigos que moram por aqui?

Taemin ficou calado. Haviam alguns garotos é claro... mas não que eles fossem seus amigos no sentido total da palavra. Bom, nem Jinki era, se ele parasse para pensar. Fazia dez minutos que eles haviam se conhecido. Minho era provavelmente o único amigo a quem ele convidaria para ir até ali, mas ele estava viajando, então...

- Escuta, na verdade isso não importa. – Jinki disse, após alguns instantes. – Porque esse lugar pode ser só nosso.

Taemin sorriu. – É, nós o descobrimos, então eu acho que sim.

- Eu não sei se quero que mais alguém venha até aqui. Eu já não queria, antes de você chegar, mas você achou esse lugar sozinho. O que você acha?

Era exatamente o que Taemin pensava sobre aquele lugar também. Ele acenou afirmativamente com a cabeça e olhou para cima, satisfeito. Deu-se conta de que logo escureceria, e que precisava ir para casa. Havia passado um bom tempo até achar aquela ponte, e certamente levaria mais algum tempo para voltar. Mas ele não queria ir embora. Não agora que finalmente achava que poderia ter uma companhia.

- Você precisa ir para casa? – o garoto mais velho perguntou.

- Sim – ele olhou para Jinki. – Nós podemos voltar amanhã?

Jinki sorriu.

- Claro! Amanhã, logo depois do almoço, nós poderíamos vir para cá.

- Sabe, para um hyung você até que parece bem legal – Taemin respondeu, sorrindo.

- Não tenha má impressão dos hyungs em geral, Taemin – Jinki disse, rindo. – Eu estou muito feliz que você esteja aqui, eu estava realmente solitário.

Taemin queria dizer que estava solitário também, mas não conseguiu. Nem sempre ele era bom em dizer tudo o que estava pensando, como Jinki parecia ser.

Eles alevantaram-se quase ao mesmo tempo e contemplaram o rio por alguns instantes. Taemin se sentia mais feliz do que estivera as férias todas. Ele tinha que concordar com Jinki, achara a ponte e o brinde que vinha com ela.

- Até amanhã, Taemin – Jinki disse, afastando-se dele. – E não esqueça de vir.

- Eu não vou esquecer. Até amanhã.

É, ele com certeza não esqueceria.

***********

E eles voltaram no dia seguinte, e em praticamente todos os outros dias daqueles dois meses de férias.

Taemin se surpreendeu de quão bem eles se davam, e quão confortável ele se sentia perto de Jinki. Porque era realmente difícil que ele se sentisse assim com mais alguém. Mas Jinki o fazia rir o tempo todo, e eles sempre arrumavam o que fazer.

A princípio, Taemin não queria contar para sua mãe sobre Jinki. Ela sempre implicara com todos os amigos que ele trouxera até sua casa, e ele não achava que seria diferente dessa vez.

Quando faltavam umas duas semanas para o final das férias, porém, Minho voltou de viajem. Minho era um dos únicos amigos que ele tinha, se não o único, com o qual sua mãe parecia não ter problemas. Ela veio lhe dizer que ele havia voltado e que tinha telefonado. Taemin, sem nem pensar direito no que estava fazendo, disse para ela que, se ele ligasse novamente, era para mentir que ele estava doente.

Nesse momento sua mãe percebeu que havia algo errado, e ele acabou tendo que lhe falar sobre Jinki. É claro que ela ficou brava. Taemin sabia que ficaria, mas não podia fazer mais nada.

E depois que ele, pela primeira vez em meses, chorou, bateu o pé e disse que não queria sair para brincar com Minho, queria continuar vendo Jinki, ela acabou aceitando. Contanto que pudesse conhecê-lo, claro.

Taemin levou Jinki para conhecer sua mãe, então. Milagrosamente, ela pareceu gostar dele. E o melhor é que agora eles tinham muitas outras coisas para fazer, na casa dele. Taemin tinha video game e um grande pátio onde eles podiam jogar. Jinki o levou para a casa de seu avô também, que era uma casa muito bonita, e Taemin gostou de todos eles. E ele concluiu, triste, que a mãe de Jinki parecia muito mais simpática que a sua própria.

E eles ainda se encontravam na ponte todos os dias, para decidir o que iam fazer. Taemin descobriu que o avô de Jinki cuidava daquele lugar, e era por isso que ela ainda parecia uma ponte tão bonitinha e limpa, apesar de ficar no meio do nada.

Foram apenas dois meses juntos, mas Taemin não precisou de muito tempo para descobrir que nunca conhecera alguém como Jinki antes. Ele nunca quisera tanto ter alguém por perto sempre, embora no final fosse inútil, já que Jinki voltaria de qualquer forma.

**********

- Eu não queria que você fosse embora – ele disse, embora tivesse que arrumar um bocado de coragem para fazer com que conseguisse falar aquilo.

Entretanto, ele sentia que podia dizer qualquer coisa para Jinki. Eles haviam ficado muito próximos nesses dois meses. Era realmente muito pouco tempo, mas Taemin nem pensava nisso. Ele havia gostado de Jinki desde o primeiro dia e dois meses ou dez anos não pareciam fazer qualquer diferença.

- Eu também não queria ir. Quero dizer. Eu queria, antes, porque achei que minhas férias iam ser a mesma chatice de sempre... e eu estava sentindo falta dos meus amigos...

- Não está mais? – Taemin perguntou, olhando para ele cautelosamente.

Jinki iria embora no outro dia, pela manhã. Ele dissera que voltaria ano que vem, e eles inclusive trocaram os números de telefone, mas Taemin se sentia bastante aborrecido do mesmo jeito. Um ano era muito, muito tempo.

- Estou. Mas eu vou sentir falta de você, também. Queria que você morasse no mesmo lugar que eu.

Taemin contemplou o rio, enquanto balançava os pés para frente e para trás, sentado na borda da ponte.

- Eu também queria.

- Você não ia sentir falta dos seus amigos que moram aqui? – Jinki perguntou. E Taemin não tinha pensado naquilo, mas ele achava que sentiria... talvez não tanto quanto achava que sentiria falta de Jinki, mas sentiria.

- É, o Minho...

O garoto mais velho riu.

- Esse é aquele pra quem você mentiu que estava doente?

Taemin arregalou os olhos.

- Como você sabe disso?!

- Sua mãe me contou, um dia desses, quando você não estava por perto.

- Eu não acredito! – ele sentia que não cabia em sua indignação. – Como ela foi ter coragem de dizer isso?

- Por que você mentiu pra ele? Foi por causa minha?

Taemin não soube o que responder. Tinha sido, mas ele não podia explicar. Não podia dizer que ele não queria passar o tempo que ele podia passar com Jinki com Minho. E muito menos que não queria que eles se conhecessem. Minho era muito mais legal do que ele mesmo. Eles podiam ficar amigos e esquecer que Taemin existia. Como fazer alguém entender o que nem nós mesmos conseguimos entender?

- Tá bom, Taemin, não precisa dizer nada – Jinki acabou continuando, sorrindo. Taemin gostava muito disso nele. Não se sentia obrigado a dizer coisas que sentia vergonha em dizer. – De qualquer forma, fomos nós que combinamos que não levaríamos mais ninguém até aqui.

Se isso tivesse lhe ocorrido antes, era o que ele teria dito.

- Promete que vai voltar ano que vem? – ele disse, cortando o assunto.

- Prometo. E promete que não vai esquecer de vir para cá?

Taemin sorriu. Estava aliviado em ver que Jinki parecia preocupado. Significava que ele se importava também.

- Prometo.

**********

Jinki realmente cumpriu a promessa, por maior que fosse o medo de Taemin de que ele viesse a se esquecer dela, com o tempo.

Durante o ano todo, principalmente quando as coisas pareciam particularmente difíceis, ele às vezes lembrava de Jinki. Conforme o tempo passava, porém, ele já nem mais entendia porque quisera tanto assim que Jinki voltasse no ano seguinte.

Mas lembrou quando eles se encontraram novamente. Porque Jinki lhe fazia sentir bem. Melhor do que qualquer outro de seus amigos.

Porque Jinki gostava tanto quanto ele de jogar video game, e nunca era chato jogar com ele, um adversário à altura. Porque Jinki também era péssimo em futebol e não era competitivo como Minho. Então, mesmo que Taemin fosse menor, às vezes ele tinha alguma chance de jogar alguma coisa, e não ficar só assistindo o outro se exibir com a bola – porque, mesmo que Jinki quisesse fazer isso, ele não tinha habilidade para tanto. E porque Jinki também amava música, como ele.

E Taemin achava que podia contar qualquer coisa para ele — até sobre aquela menina bonitinha que sentava ao lado dele na aula e sobre a qual ele nunca tinha dito uma palavra para ninguém antes de Jinki — e tinha quase certeza que Jinki devia se sentir do mesmo jeito, porque eles conversavam sobre tudo e sobre nada, e dificilmente discutiam.

Ele começou a achar extremamente injusto ter que esperar dez meses para passar só dois com ele, mas Jinki sempre dizia para que não se preocupasse, que ele também voltaria no ano seguinte e tudo ficaria bem.

**********

Numa das tardes, quando Taemin voltou para casa, sua mãe disse que Minho passara por ali, e que ela contara a ele sobre Jinki, porque Taemin não havia dito que não queria que ela contasse.

É claro que ele não havia dito. Ele achava que Minho já tinha viajado, e que ele não fosse aparecer do nada em sua casa. E também achava que sua mãe perceberia que ele não queria que eles se conhecessem, mas tudo bem. Ele já devia ter aprendido que não dava para contar com ela, mesmo.

Ele ligou para Minho naquela noite e o convidou para voltar no dia seguinte, que ele lhe levaria para conhecer Jinki e mais mil outras coisas, como se nada tivesse acontecido. Ainda bem que Minho não era do tipo que ficaria estressado por causa de uma coisa como essa.

E, por mais que Taemin estivesse relutante em aceitar, o dia seguinte foi bastante agradável. Eles não levaram Minho até a ponte – era um lugar só deles, afinal -, mas fizeram várias coisas na casa de Taemin, como massacrar Minho no video game, e serem massacrados por ele no futebol.

Minho e Jinki se deram muito bem. E não esqueceram que Taemin existia, como ele estivera com medo que aconteceria. Mais do que nunca ele se sentiu ridículo por estar pensando daquela maneira, antes. Como se não soubesse quão legais eram os seus amigos.

Apesar disso, quando, no final da tarde, Minho avisou que tinha que voltar para casa arrumar as malas para viajar no dia seguinte, Taemin não conseguiu deixar de sentir uma felicidadezinha no fundo do estômago – embora, ao mesmo tempo, isso também o deixasse péssimo. Ele era assim tão ruim, por estar sentindo ciúmes de algo que não era propriedade dele? E, pior, de algo que não estava acontecendo?

Taemin achava que sim, ele era. Mas não conseguia controlar. De qualquer forma, ele também não entendia. Era o único consolo que lhe restava. Isso e o fato de que as férias estavam apenas começando.

**********

As férias não ficaram no começo para sempre e, quando ele se deu conta, já faltava só uma semana novamente para que Jinki fosse embora.

- Será que você não podia voltar nas férias de inverno? – ele perguntou, sem olhar nos olhos de Jinki. – Nem que seja só por um final de semana?

Jinki suspirou.

- Eu gostaria. Mas não sei. Isso depende dos meus pais, e eu normalmente passo as férias de inverno na casa do meu outro avô. Ou em casa. Você poderia ir para lá.

Era uma ótima ideia. Pena que sua mãe nunca deixaria.

- Lá pode não ter essa ponte – ele falou, bem baixo. O barulho do rio, que já havia se tornado uma espécie de trilha sonora ali, abafava ainda mais a sua voz, tornando improvável que Jinki fosse o escutar.

Mesmo assim, ele pode. Ele sempre conseguia, quase como que se soubesse o que Taemin diria antes mesmo que lhe saísse da boca.

- Tem razão. Acho que é por isso que as coisas são como são. – Jinki parou por um momento e, então, alcançou a mão de Taemin, ao lado da sua, e a segurou. Taemin olhou para aquilo, um tanto quanto surpreso, mas não tentou afastar-se. – Nós podemos nos ligar sempre que estivermos com vontade de conversar. O que você acha?

É claro que podiam. Taemin olhou bem nos olhos dele e sorriu, de modo que, para Jinki, não pudesse haver dúvidas de que ele aceitaria qualquer coisa para que não perdessem o contato.

**********

No ano seguinte, eles começaram a trocar e-mails também, ao invés de somente telefonar um para o outro. Isso os deixou mais próximos do que nunca, embora ainda não fosse o suficiente.

Não era como se Taemin não gostasse dessa forma de comunicação, mas ainda preferia que pudesse falar pessoalmente com Jinki sempre que quisesse. E também porque não era a mesma coisa quando eles não estavam naquele lugar. Não era a mesma coisa sem a ponte.

No verão em que Taemin fez 12 anos, ele tomou um susto ao ver quanto Jinki havia crescido e ficado mais alto do que ele. Porque ele considerava Jinki – junto com Minho – como seu melhor amigo. Por menos que parecesse, aquele era o quarto verão que eles passavam juntos. O verão em que Jinki lhe confessou o quanto gostava de cantar. O verão em que ele cantou para Taemin, e ele achou aquilo o máximo. Jinki tinha uma voz linda.

Apenas não conseguia acreditar que Jinki pudesse se sentir da mesma forma que ele sobre a proximidade que tinham, embora Jinki lhe dissesse que sim, o tempo todo. Mas ele não conseguia entender o motivo. Porque Jinki era mais velho que ele. Porque ele tinha tantos outros amigos. Porque ele era sempre tão legal, e tão espontâneo, de um jeito que Taemin nunca conseguiria ser.

E, afinal, eles só se viam durante dois meses do ano todo. E Jinki ia fazer 16 anos no final do ano, enquanto Taemin mal tinha feito 12. A diferença de idade entre eles nunca parecera tão grande e intransponível antes, e, anos depois, Taemin olharia para trás e perceberia que jamais ela voltaria a ser tão grande.

Era como uma barreira, algo que Taemin tentava de novo e de novo ultrapassar, mas não conseguia. E o pior é que Jinki vivia lhe dizendo que, se existia uma barreira, era Taemin quem tinha inventado ela. E continuava ligando, conversando com ele e dizendo que o considerava um de seus melhores amigos. Mesmo.

Taemin ainda não entendia. Porque se ele fosse Jinki, não achava que iria querer chamar alguém como ele mesmo de melhor amigo. Talvez da boca para fora. Para ter com quem passar o verão. Mas não de verdade.

Mas ele não gostava de falar sobre isso com Jinki, porque ainda era melhor nem dar ideias. O mais velho deveria ter seus motivos. E era só isso.

Enquanto Jinki não se afastasse dele, estava tudo bem.

**********

No verão seguinte, grande parte dessa má impressão que Taemin tinha pareceu se dissipar. Muito provavelmente porque o tempo passava e ele tinha ideia de que Jinki não era mais obrigado a ficar na casa de seu avô para as férias – e, no entanto, continuava voltando mesmo assim. O que provavelmente só significava que ele estivera errado em achar que Jinki não o considerava amigo de verdade. Um dos melhores, ele dizia. Os outros dois eram Kibum e Jonghyun, e Jinki falava bastante neles. Taemin não queria falar sobre os outros amigos dele, mas também não queria não falar, por que isso fazia Jinki sorrir. E ele gostava de qualquer coisa que fizesse Jinki sorrir.

Numa tarde daquelas, quando eles estavam sentados na ponte e Taemin observava distraidamente o rio passar em baixo deles, Jinki disse que eles, inclusive, haviam lhe dado um apelido: Onew.

Taemin, que estava se sentindo especialmente alegre naquele dia, sorriu para ele. Fora um ano complicado, aquele. Na escola, em casa, em tudo. Era maravilhoso estar de férias e esquecer que teria que voltar para aquele inferno dali a dois meses.

- Por quê? – Taemin perguntou, intrigado, e desviou os olhos do curso do rio para olhar para Jinki – Por que eles te chamam de Onew?

- Ah... – Jinki riu um pouco. – Eu não gosto muito do meu nome, na verdade.

Taemin arregalou os olhos. Nem imaginava aquilo.

- Sério? – não entendia porque ele não gostava de Jinki. Taemin sempre gostara. – Então eu devia te chamar de Onew também? Ou te dar algum outro apelido? Jinki, você devia ter me dito isso!

Mas Jinki só sorriu e, olhando para ele, passou a mão de leve pelo contorno de seu rosto. Taemin sentiu a pele do local se arrepiar, mas não protestou. Era a melhor sensação que ele sentira em meses.

- Não – o mais velho respondeu, e baixou a mão. – Eu não sei por que, mas gosto de como ele soa quando é você quem diz.

Primeiro, ele sentiu uma felicidade fora do comum. Ele já estivera feliz o dia todo, mas aquilo era alguma coisa maior. Não sabia se era o jeito como Jinki tinha lhe tocado, ou se era o que ele tinha dito, ou se era a expressão nos olhos dele. Mas havia alguma coisa. Alguma coisa que lhe deixara totalmente nas nuvens.

Mas ele nem teve tempo de pensar em sorrir, porque, imediatamente após aquilo, ele sentiu algo que não parecia nada com o sentimento anterior. Era um medo aterrorizante. Porque ele acabara de se dar conta de que gostava de Jinki do jeito errado. Não sentia nada que fosse sequer remotamente parecido com aquilo por nenhum de seus outros amigos. Nem por Minho.

Porque jamais quis tanto que Minho gostasse dele, jamais precisou ver Minho tão desesperadamente, e jamais quis que Minho lhe tocasse do jeito que Jinki lhe tocara há pouco.

Não que Minho fizesse algo assim. E se fizesse, ele ia achar a coisa mais ridícula do mundo, e rir e dizer para ele parar de ser tão gay... mas ele jamais diria algo assim para Jinki, porque eles sempre foram desse jeito. Desde o começo. Como se fosse a coisa mais natural do mundo... e era. Até aquele momento, pelo menos. Até Taemin ter se dado conta de que havia algo errado.

Taemin desviou o olhar do dele e fitou novamente o rio, boquiaberto. Naquela hora, nem passou pela sua cabeça disfarçar o choque. Aliás, mais nada conseguia passar por sua cabeça. Ele nunca... nunca havia pensado desse jeito no assunto.

- Taemin? Você ficou chateado? – Jinki chamou, e parecia estar a quilômetros de distância.

- Claro que não! – ele conseguiu responder e, de alguma forma, sorrir. Mas não conseguia olhar para Jinki. Não ainda – De qualquer forma, eu gostei de Onew. Combina com você.

Apesar de não estar olhando para Jinki, ele sabia que o outro deveria ter sorrido. Ele sempre sorria, o tempo todo, e Taemin sempre sentia as pernas um pouco moles quando esses sorrisos eram dirigidos para si mesmo. Porque quando Jinki sorria, não era só a boca dele, era todo ele que sorria junto.

Mas ele deve ter acabado por perceber que havia algo errado com Taemin, porque ficou calado. E também não adiantava esconder. Jinki sempre sabia. Eles passaram alguns minutos – Taemin tinha certeza de que foram realmente minutos, não segundos que pareciam minutos – olhando para o rio. Ele não sabia direito o que dizer. Se havia alguma coisa para ser dita.

- Num e-mail, você disse que estava passando por problemas na escola – Jinki retomou a fala, sutilmente. – Com outros garotos. Está tudo bem agora, Taemin?

- Ah... Sim. – ele sorriu um pouco. – Eu acho que eles não gostam muito de mim. Eu falei que queria ser dançarino, numa aula... e, depois, eles ficaram me enchendo por causa disso.

- E o que aconteceu? Eles pararam?

Ele sorriu, desta vez aberta e sinceramente. Embora ele ainda sentisse uma espécie de aperto no peito, o pior da sensação já havia passado.

- Minho me defendeu. E ele é filho do treinador e tudo, então os outros garotos meio que tem medo dele.

Jinki pousou a mão no braço de Taemin. Ele sentiu uma vontade inexplicável de se afastar dessa vez, mas não o fez.

- Eu acho ótimo que ele faça isso por você... e eu tenho certeza de que faria o mesmo, se eu estivesse aqui... Mas você não pode deixar que eles zombem de você. Precisa tentar se defender sozinho, Tae.

- Não fale comigo como se eu fosse só um garotinho, Jinki – ele respondeu, sério, mas ainda olhando para o rio. Ele sentia que aquilo estava incomodando Jinki, mas não sabia o que fazer.

- Eu não estou fazendo isso. Hey – Taemin se obrigou a olhar para ele, desta vez. – Quantas vezes eu vou precisar dizer pra você que você é meu amigo mesmo, independente de você ser mais novo do que eu?

- Eu sei disso... – eles pararam alguns instantes, se olhando. – Onew.

Jinki acabou rindo disso, e Taemin riu também. Era bom sentir que as coisas podiam voltar ao normal. Como se ele já estivesse esquecendo o que acabara de sentir.

- Eu quero ver você dançar, Taemin. Não vá dar bola pra esses garotos. Não se é realmente o que você quer fazer.

Taemin sorriu.

- Você vai ter que cantar pra mim, então. – Taemin respondeu – De novo.

- Tá certo. E depois a gente monta um grupo.

Taemin riu e inclinou as costas até deitar na ponte. Estava começando a se sentir feliz novamente, do mesmo jeito que se sentia no começo da tarde. Olhou para as frestas de céu que eram visíveis entre a copa das árvores e, mais do que nunca, achou que aquele lugar era lindo.

**********

Naquela noite, deitado na cama, ele voltou a pensar em Jinki e no que tinha sentido naquela tarde. Ele sabia o que era, mas não conseguia colocar em palavras. Ao invés disso, ficava lembrando da voz de Jinki quando ele dissera “gosto de como ele soa quando é você quem diz”.

- Jinki... – ele tentou, em voz alta, e se sentiu imediatamente ridículo. Não havia nada de diferente na sua voz, não como Jinki dissera. E era absolutamente fora de cogitação deitar na cama e ficar insone pensando em outro garoto. Mesmo que fosse Jinki. Se alguém descobrisse... se ele descobrisse...

Taemin bufou e enterrou o rosto no travesseiro. Não queria pensar naquilo. Como ele deixara aquilo acontecer? Ele só queria que tudo desse certo, mas agora até a única parte da sua vida que parecia certa estava dando errado também. Preferia que Jinki nunca tivesse dito aquilo, e que ele nunca tivesse se dado conta de nada.

Porque por mais que ele não quisesse colocar aquilo em palavras, eles já estavam prontas, e martelavam na sua cabeça sem parar.

Ele gostava de Jinki. Pior que simplesmente gostar, achava que estava apaixonado por ele. E agora, o que ele ia fazer com aquilo?

Notas finais
N/A: Minha irmã fez um fanart liiindo pra essa fic *---*
Se ela me der permissão, vou colocar como capa, mas preciso antes falar com ela. Vou postar o próximo capítulo provavelmente ainda amanhã x3