2 dias antes ...

Nicollie

Estávamos todos na cozinha assentados à mesa. Era uma segunda-feira, como outra qualquer. Minha mãe e tio Alex conversavam, enquanto eu e Sophia nos distraíamos em uma divertida guerra de comida.

Sophia tem sete anos, e cabelos ondulados de um intenso loiro pérola que chega às pontas em belo tom platinado e olhos azuis. Tio Alex, não é muito diferente da filha, cabelos no mesmo tom, porém extremamente lisos que caem sobre o rosto, o que me faz rir a cada jogada de cabelo que ele dá para retirar os fios dos olhos, fazendo-o parecer aqueles atores de filmes mexicanos tentando seduzir a mocinha.

— Meninas parem com isso! – tio Állex disse, ao fingir estar bravo.

— Estamos apenas brincando, papai! – Sophia o encarou relutante.

— Eu sei filha, mas quem arrumará toda essa bagunça se você e a Nicollie vão para escola? — Sophia de imediato olhou para minha mãe, que balançou o ombro em discordância.

— Nem olhe para mim Sophia. – ela disse, colocando os copos vazios sobre a pia.

— Está bom, já paramos. – deu-se por vencida. Inevitavelmente, sorrio da situação.

— Agora vá escovar seus dentes rapidinho, estamos atrasados. – tio Állex a incentiva pegando-a ao colo e pondo-a no pé da escada. – Vai, rapidão.

Sophia sobe as escadas correndo em direção ao banheiro, e restam apenas nós três na cozinha, conversando sobre a tão sonhada formatura da conclusão do ensino médio ao fim do ano que mamãe insiste para que eu não participe. Contudo, um som monstruoso feito por uma porta sendo jogada bruscamente contra a parede, faz com que nós corramos instintivamente em direção a ele, dissipando o assunto.

Paralisada diante da porta, com a respiração completamente irregular, forcejando-se a sugar todo ar que lhe era possível, estava Anny.

— Vocês precisam tirar ela daqui. – Anny disse assim que conseguiu ar suficiente. – Agora!

— Eles a acharam? — tio Állex perguntou apreensivo.

— Sim! Carlos está frustrado por precisar de uma herdeira para assumir o trono da realeza oficialmente e mobilizou todos os agentes da SlyX para procurarem por el... ela. – disparou, mas parou quando sentiu seus pulmões inertes pela falta de oxigênio. Porém, uma arfada bastou para que ela continuasse – Fui informada há poucas horas que eles já têm a localização de vocês, e meu Círculo quem fará a apreensão!

— Isso é impossível! – minha mãe estava perplexa – Como ele nos encontrou?!

— O que está acontecendo? – perguntei, não entendendo nada do que eles estavam falando. Porém, fui ignorada.

Tio Állex passou a mão entre os fios loiros do cabelo e andou de um lado para o outro, titubeante.

— Fomos tão estúpidos! – ele gritou, ao lançar um vaso de flores ao chão. – É claro que ele descobriria! Tamanha ignorância nossa em pensar que enganaríamos Carlos até ela se Alterar! – tio Állex aumentava o tom da voz a cada palavra proferida, algo que me deixou um tanto atônita. Nunca o havia visto daquela forma.

No entanto, nada estava me deixando assustada quanto ao assunto do qual falavam. Por que eu herdaria o trono? Trono? O Carlos de quem estavam falando seria o Rei Carlos? Não, isso não faz o menor sentido.

— Por que vocês estão assim? – a preocupação começou a tomar conta de mim, e o desespero se estalando pouco a pouco no meu corpo. – Mãe, do que estão falando?

— Depois te contaremos tudo Nic. Mas agora precisamos te tirar dessa cidade! – Anny falou. – E precisamos que você coopere, deixando as perguntas para depois. Até todos vocês estarem seguros.

Minha mente a essa altura virou um composto de confusão e medo. Todos à volta estavam visivelmente apavorados e agindo como se não fossem os mesmos. Pelo menos não os que conhecia até o café da manhã, há uns 3 minutos.

— Você soube por quem? – tio Állex perguntou à Anny.

— Irá começar com sua crise de confiança agora Állex? Já expliquei, meu Circulo teve ordem direta para fazer a apreensão de vocês, tentei atrasar o máximo que pude, mas soube a pouco que eles tinham a localização de vocês. – ela disse, e virou-se em seguida para minha mãe – A SlyX está atrás dela Alice, sozinha não consigo protegê-la, não por muito tempo.

— Eles querem capturá-la para ter certeza que ela contribuirá com Coroação. – minha mãe disse, reflexiva.

— Ninguém sabe que estou aqui – Anny disse – E mesmo não tendo quem me monitore, não posso demorar.

— Não consigo pensar em nada. Porque você não ligou quando soube? TERIAMOS MAIS TEMPOS PARA FUGIR! – tio Állex gritou totalmente descontrolado e consumido pela raiva.

— Você é doido Állex? – Anny se irritou – Eu estaria me entregando à morte! Ou você acha que eles não desconfiariam quando meu celular fosse recolhido no Dia de Eliminação, e rastreassem a ligação?!

— O que vamos fazer? – mamãe os interrompe – Eles não irão apenas levar a Nicollie, nos levarão também para sermos julgados.

Me levar… É muita informação em pouco tempo, meu cérebro estava tentando absolver e assimilar as coisas. E tio Állex completamente fora si, tomado de uma raiva que eu nunca vira antes, estava me deixando mais apavorada, ou sei lá o que estou sentido! A realidade é que a cada segundo recebo uma outra informação e para ser sincera não estou sendo capaz de organizá-los de forma racional, não com esses gritos e coisas voando pela

— Exatamente por isso que vocês precisam se recompor e pensar em alguma coisa, Alice. – Anny disse – Eu não tenho muito tempo, preciso voltar.

Caminhei até minha mãe que estava encostada da lateral do sofá, com as mãos pressionadas na testa, num esforço de arquitetar algo.

— Mãe, o que está acontecendo? – perguntei com a voz mais calma que consegui emitir, tentando obter alguma resposta por parte dela.

— Nic sem perguntas agora, por favor, meu amor, te explicaremos tudo depois. – meu tio pediu, e mamãe apenas balançou a cabeça em concordância.

— Papai? – Sophia entrou na sala, com a mochila na costa. – Tia Anny? – ela correu de encontro com os braços já abertos da tia Anny que a recebeu.

— Oi princesa – tia Anny a apertou contra seu corpo em um abraço.

— Nic, Sophia, por favor, subam para o quarto e coloquem em uma mala apenas o necessário para uma saída de alguns dias. – tio Állex ordenou.

— Mas…

— Sem perguntas por agora, lembra Nic? – ele disse e não tive outra escolha senão direcionar-me ao quarto junto à Sophia, que insiste em argumentar que não pode faltar na escola por causa do aniversário de uma amiguinha que ela e as outras haviam planejado, ou algo assim. Minha mente estava muito turbulenta para dar ouvido a coisas desse tipo. Apenas expliquei a ela que a viagem era muito importante e que não faltariam oportunidades para ela preparar um outro da próxima vez. Ela, como sempre, não engoliu a ideia, porém silenciou-se.