A Pior Noite Da Sua Vida
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Nunca na vida presenciara uma noite tão horrível. Noite egoísta, que não estava-lhe rendendo nada de bom.
Os prantos e reclames do céu não lhe deixavam dormir. Os mosquitos – pesadelos-alados – lhe segredavam nos ouvidos o tempo inteiro, zumbindo como senhoras de idade sem mais o que fazer. Por fim, os polos norte e sul resolveram marcar suas presenças, enviando ventanias de bater os dentes.
Uma noite “de merda como nenhuma outra”, era a que Judar estava vivendo.
Se ao menos tivesse uma companhia a quem pudesse compartilhar o sofrimento de uma noitada no deserto não estaria tão azedo. Pensando na imensidão do deserto, questionou-se porque estava lá, afinal. Principalmente sem barraca, meio de transporte ou roupas.
As sobrancelhas negras se uniram num único e extravagante franzir: e quando foi mesmo que ele saiu do palácio?
Alguma coisa não estava certa...
Começou a refletir. O que estava errado naquela situação? Era o deserto? Estar pelado? Sentia pontadas na nuca que pareciam lhe dizer “tá tudo uma merda”, mas não seria possível que tudo estivesse de fato uma merda. Seria muita desgraça para uma pessoa só, não é mesmo?
Repentinamente, cerrou os olhos. Quando os abriu, notou com uma insana insatisfação que nada havia mudado na circunstância. Piscou outra vez – com uma crença irracional de que, ao piscar com força, alguma hora alguma coisa iria mudar. Nada de novo. Piscou, dessa vez mantendo os olhos fechados por cerca de vinte segundos, (ou foram vinte minutos?), antes de abrir. Quando olhou ao seu redor, observou cheio de contentamento que já não estava mais no deserto. Deixou questões insignificantes iguais a “que merda acabou de acontecer?” para depois.
Ainda estava deitado, só que dessa vez, estava confortavelmente estirado num divã. As mãos e pés estavam quentes e o silêncio era quase comovente de tão profundo. Judar se permitiu um sorrisinho de canto. A vida que ele tanto merecia!
Sua alegria não tardou a sumir quando ouviu vozes conhecidas e irritantes chamando por seu nome. Só podia ser o reizinho e a meretriz sardenta. Fantástico.
Ergueu-se a contragosto do divã e buscou uma rota de fuga, mas o aposento não tinha nem sequer uma porta; estava preso. Berrou de raiva. De forma teimosa, pôs na cabeça dura que, se encarasse com vontade bastante, alguma saída surgiria como num passe de mágica. Forçou sua vista ao máximo para todos os cantos e notou – finalmente! – uma janela pequenina na parede ao seu lado.
Pulou a janela, sem nem crer que conseguira atravessar algo tão pequeno. A queda foi curta e Judar aterrissou de pé sem dificuldades. Ao seu redor, reparou, estava uma cidade grande e moderna, algo bem digno.
Ajeitou as vestes suntuosas, nem sequer ponderando sobre quando as pôs, e foi dar uma volta pela urbe. Estava cercado por pessoas elegantemente trajadas e variadas barracas comerciais. Mesmo a grande multidão a sua frente não o impedia de caminhar com majestade.
Vagou por algumas horas – ou segundos? – sem destino, até que chamou-lhe a atenção uma corda azul espremida por entre as pernas de madames alguns metros à sua frente. Ela não parecia pertencer àquele lugar. Nem entre as tais pernas e nem à cidade em si. A cordinha não era soberba o bastante, assim por dizer. Não tinha a mínima ideia do que era aquela corda, mas, incompreensivelmente, decidiu por decidir que a queria. Acelerou o passo, se aproximando sorrateiramente do objeto. Surpreso, se deu conta de que, mesmo sem desviar o olhar por um segundo sequer, a corda azul tinha dobrado a distância entre eles, surgindo por entre os joelhos de alguns rapazes à frente. Cordinha insolente.
Tentou chegar até ela novamente, mas, quando alcançou os rapazes, a cordinha já tinha triplicado a distância. Tentou de novo e de novo, e o resultado era sempre o mesmo: a maldita corda ia cada vez mais longe. Impaciente, começou a correr e, depois de um tempo de perseguição acirrada, reparou que já estava arfante. A corda continuava em movimento e a multidão se mostrava cada vez mais densa. Quanto mais tentava, mais difícil parecia tentar alcançar a tal corda. Já não conseguia nem ao menos enxergar um fiapo azul à distância até que anuiu ser o momento de desistir. Quem precisava de uma corda estúpida? Judar, com certeza, não!
Qual não foi sua contradição quando, ao olhar para o lado e notar que a corda estava parada bem ali, dentro de um beco, Judar tomou a toda velocidade sua direção. Viu-se a sós com o item de sua procura. Tanta era a intensidade com a qual Judar fuzilava a cordinha que corria o risco desta entrar em combustão.
“Agora não me escapa” pensou.
Aproximou-se do seu alvo; notou que a corda estava presa a alguma coisa. Parecia um tipo de boneco ou manequim. Estava mais para uma criança, na verdade. Algo estalou na sua mente. Constrangido, percebeu então que a cordinha, na verdade, era um trança.
A criança virou-se de frente para ele. Era um menino. Tinha enormes olhos azuis e um sorriso bobo irritante. Judar tinha certeza que conhecia aquele fedelho de algum lugar, mas não sabia exatamente de onde.
“Ei, quem é você?” perguntou.
O menino não respondeu, só alargou ainda mais o sorriso. Judar, estranhando a própria intolerância, ficou puto com aquilo. Retribui o gesto com sarcasmo, exibindo seus trinta e dois dentes de pura maldade, – um sorriso demoníaco –, decidido a punir a criança pela audácia de lhe provocar. Aproximou-se e apertou-lhe as bochechas, esticando-as sem parar, ao ponto das maçãs do rosto chegarem às orelhas. Sentiu um prazer quase sádico ao ver os olhos azuis lacrimejando de dor.
Frustrante foi que, mesmo assim, o menino não disse nada. Nem grunhir, grunhiu. Judar, então, sentiu-se determinado a fazê-lo gritar, berrar e soluçar sem parar, só por diversão. Na sua cabeça zanzou as mais diversas e criativas maneiras de fazer o menininho prantear de tanta dor. Decidido isto, com velocidade, para que sua presa não escapasse, largou o rosto do fedelho e ergueu o tal pelos calcanhares, experimentando uma brincadeira clichê, mas que nunca ficaria desgastada. Foi tão fofa a forma em que ele agitava os braços, em desespero, tentando alcançar o chão!
“Você aí! O que está fazendo com o garoto?!”
Olhou para trás, um senhor de idade – e provavelmente a origem do grito áspero – estava se aproximando com uma cara muito pouco amigável. Atrás dele vinham senhoras, senhores, rapazes e moças, todos encarando Judar com olhares acusadores.
Judar decidiu que era um bom momento para cair fora. Rápido, de preferência. Mesmo querendo “brincar” mais, largou o menino e saiu correndo; nem observou direito a forma adorável com a qual o pivete esfregava as bochechas com uma expressão doída.
Sendo encurralado pela multidão e isento de alternativas, Judar tomou a direção até o fim do beco. Com entusiasmo, viu que a passagem deixou de estar bloqueada e pensou estar com sorte. Pelo lado negativo, porém, deu início a uma corrida descalça por sobre a areia quente do deserto, sendo perseguido por cidadãos furiosos e com disposição a matar e berrar.
“Monstro! Aberração!”
“Pedófilo!”
“Bruxo das trevas!”
“Molestador de criancinhas maquiavélico!”
“Ave Fênix!”
“Morra! Morra! Morra!”
Os gritos, até os mais bizarros, ecoavam em seus ouvidos. Judar viu pedras sendo arremessadas consecutivamente em sua direção e, depois de alguns quilômetros de corrida, mal conseguia desviar. Sabia que em breve não aguentaria mais fugir. O peito retumbava em desespero enquanto o tempo corria e, ao mesmo tempo, se arrastava vagarosamente.
Ia ficando fatigado e mais fatigado. Os cidadãos se aproximavam com velocidade. Pedras, então, o atingiram. Os gritos ecoavam mais fortes. Subitamente ele foi engolido pela aglomeração e tudo ao seu redor escureceu. O sol foi tapado.
Começou a cair no nada. Caía, caía, caía...
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“AAAAAAAAAARREEEEE!”
Judar acordou com o coração disparado. Suava frio. O berro secou sua garganta e notou pela cor de seus braços que estava pálido como nunca antes em sua vida.
Que merda de sonho foi aquele?
Notas finais
Por sinal, quem aí conseguiu enxergar um shounen-ai básico?
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