A Personagem
12 Jamie
Notas iniciais
JAMIE
– É só uma picadinha... – dizia a mulher que me espetava com uma agulha para retirar meu sangue.
Eu simplesmente ODEIO fazer exame. Motivo? Tem agulhas, mulheres cínicas que dizem “só uma picadinha” quando já estão na quarta tentativa de achar uma veia boa e, o pior, mostra como a minha saúde está péssima.
– Só mais uma picadinha – a mulher ainda não havia encontrado uma veia boa. Revirei os olhos.
– Parece uma seção de acupuntura. – falei sem emoção.
“Seja um pouco mais educada, por favor, Jamie?”
Não é você que está sendo espetado como uma almofadinha de agulhas, seu metido. – pensei. Já havia aprendido a responder ao escritor por pensamento.
– Vamos tentar o outro braço, ok?
Foram oito tentativas até a mulher conseguir retirar meu sangue. Eu estava tonta e, por um milagre, estava com fome. A mulher me entregou um sanduíche e mandou esperar sentada numa cadeira para o próximo exame. Dei algumas mordidas e minha fome foi embora. Abandonei o sanduíche na bandeja.
“Nervosa?”
Você está preocupado comigo?
“Você é uma de minhas personagens, tenho que me certificar que está bem.”
Você não se preocupou com isso quando estava tentando me separar do Edu.
“Ahn, Jamie, você n...”
– Jamie Kanoah? – chamou uma enfermeira.
– Sim?
– Por aqui.
Segui a mulher vestida de branco enquanto ela andava calmamente por corredores olhando para uma prancheta com a minha ficha médica. Ela parou de súbito e quase tropecei nela.
– Sala 304, senhorita. – disse apontando a porta aberta mais a diante.
– Obrigada. – disse num sussurro quase inaudível.
Caminhei até a sala 304, a porta estava aberta, então entrei.
– Jaaaaaaaaam! – gritou Marcos Oliver, meu médico. Ele é um cara de no máximo 35 anos, cabelo negro, pele branca e olhos incrivelmente azuis. Admito: achava-o muito bonito, além de muito divertido e um excelente médico.
“Ele pode te chamar de Jam e eu não? Achei ofensivo.”
Shiu, você. Ele não fica implicando comigo como você faz, isso vale alguns pontos.
– E aí, Marquitos. – falei enquanto abria um sorriso. Ele levantou da sua cadeira e me deu um abraço apertado.
– Faz tempo que não aparece por aqui, o que foi? Estava sem tempo de vir ser “agulhada” por mim? – ele fingiu estar magoado.
– Ei, nem vem com essa! Você me deixou nas mãos de enfermeiras que acham que eu vim para uma seção de acupuntura!
Ele riu.
– Deixe- me ver esses braços.
Estendi os braços para frente, em cada um havia um algodão mal colocado em cima das tentativas de retirada de sangue.
– Ai! – disse Marcos. – Vem aqui, vou fazer um curativo melhor nisso.
Ele me indicou uma maca e eu sentei. O homem procurou em algumas gavetas algodões, fita microporosa e uma tesoura. Com cuidado, fez os curativos em meus braços.
– Obrigado – sussurrei.
– Então, Jam, quais as confissões do mês? – ele me olhou calma. Olhei para o chão. — Jamie? – disse um pouco mais sério.
– Uma...semana? – disse, já esperando uma bronca.
“Duas semanas.”
– Sem nada? Nem um sanduíche? – balancei a cabeça – Tomou os remédios, pelo menos? – balancei a cabeça novamente – Jamie!
– Foi mal. – disse olhando pro chão – Tive alguns problemas.
– Sam? Edu?
– Edu. A gente terminou.
– Ah! Jam, ahn, sinto muito. O que aconteceu?
– Um mal entendido. Bobagem.
“Não parecia bobagem há duas semanas, não é?”
Isso é sua culpa! Se eu fosse você ficava quietinho aí.
“Eu não estou contra você, Jamie.”
Você é hilário.
– O que ele fez pra vocês voltarem?
– Espera aí, como você sabe que nós voltamos?
– Ué, você está aqui, não está? O que quer dizer que ele convenceu você a vir.
– Acho que eu tenho falado demais com o meu médico. – disse séria e depois rimos.
– Ok, vamos fazer logo esses exames pra você poder ir pra aula, não é?
– Ah, não! Nem pense que eu vou pra escola depois de ser feita de almofadinha de costureira! O senhor vai me dar um atestado, sr. Oliver!
Ele riu e bagunçou meus cabelos ruivos.
– Claro que vou, Cherry Jam¹, não se preocupe!
–--
A semana foi estranhamente tranquila e passou muito rápida. Sem brigas, sem ordens do escritor e, até mesmo, sem diálogos com ele. Como eu disse, estranhamente calma. Então, fui buscar o resultado dos meus exames e ouvir a bronca do Marcos. Edu insistiu por duas horas para ir junto, até que acabei cedendo.
Marcos estava com um olhar estranho, parecia confuso, preocupado e... feliz?
Ele sentou calmamente em sua cadeira após de cumprimentar Edu e me dar um abraço. Tinha em mãos uma pasta com os resultados e a balançava sem saber o que falar.
– Você está me assustando, Marcos, o que tem de errado ai?
– Nada. – falou ele, simplesmente.
– Como assim “nada”? – perguntou Edu, tirando as palavras da minha boca.
– Nada. – repetiu o médico – Absolutamente nada de errado níveis de açúcar, hemácias, sistema imunológico, tireóide... Tudo normal, tudo dentro dos padrões.
– Como assim? – indaguei – Está me dizendo que minha tireóide está normal e que eu saí do estágio II de anemia para “totalmente saudável”?
– É exatamente o que estou dizendo.
Ok, ele está zoando com a minha cara.
Edu me olhou assustado.
– Marcos, ela passou duas semanas sem comer! – falou ele assustado.
– Duas, é, Jamie?
– Ops. Talvez eu tenha omitido uma semana do relatório... – falei sorrindo.
O doutor riu.
– Marcos! – censurou Edu.
– O que foi? – perguntou assustado.
– Você só pode estar brincando!
– Não, Edu! Não mesmo! Eu até pedi para eles refazerem e o resultado foi esse. Olhem vocês mesmos, comparem com o último exame. – ele nos entregou uma pasta com várias folhas. Eu as peguei e analisei-as rapidamente.
– Meu Deus. – falei, boquiaberta. – Você não está brincando.
– Jamie, você está saudável. – falou Marcos com um grande sorriso enquanto Edu me puxava para um abraço.
“Pode me agradecer mais tarde, Jam.”
Foi você?
“E quem mais seria, Jamie? Eu disse, eu não estou contra você.”
Nunca pensei que diria isso... Mas, obrigado. De verdade, escritor.
“Não há de quê.”
Ok, talvez eu esteja enganada, talvez você, não seja tão horrível como eu pensava.
Houve um grande silêncio, na minha mente, com a conversa do escritor e no consultório, com Edu e Marcos.
“Jamie?” – o escritor chamou depois de um grande silêncio, quando eu e Edu já estávamos saindo da clínica.
O que foi?
“Meu nome é George. Pode me chamar de George.”
¹ Cherry Jam, apelido usado por Marcos, provém do apelido já conhecido de Jamie – Jam – que, em inglês, significa geléia; cherry significa cereja, que é associado a cor dos cabelos de Jamie que se assemelham a cor de geleia de cereja.
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