A Personagem
8 Eduardo
Notas iniciais
EDUARDO
No caminho para casa, eu já imaginava a bronca que eu ia levar da minha mãe quando chegasse. Quando vi a simples casa amarela com um quintal não muito bem cuidado, contei até três e entrei. Minha mãe estava sentada na poltrona da sala me esperando.
– Eduardo Collins! – ela gritou.
Fudeu, pensei.
– Oi, mãe.
– Onde você estava?
– Numa festa.
– Que merda de festa termina às oito da manhã?
– Mãe, a festa era na casa da Sam e eu dormi lá pra não ter que voltar pra casa no meio da noite.
Ela me encarou como se tivesse “visão raio-X de mentiras”, o que eu não duvido que ela tenha mesmo.
Minha mãe sempre foi muito super protetora comigo. Antigamente, nós não éramos próximos como somos hoje e isso se deve por um único motivo: a morte do meu pai.
Em geral, quando alguém próximo a você morre, você se isola do mundo e decide que não quer comentar nada sobre o assunto com ninguém. Como deixar um machucado sarar usando Band-Aid: demora mais e deixa uma cicatriz mais feia, mas, mesmo assim, é mais cômodo do que ficar olhando para ferida todos os dias. Deixando ela exposta a todos.
Comigo e com a minha mãe isso não aconteceu. Dois anos antes da morte do meu pai, descobrimos que ele teve um caso com outra mulher. Eles brigaram por dias sem pausa, ficaram noites em claro brigando e quebraram várias peças da casa, até que um dia eles pararam. Não se acertaram, mas pelo menos estavam convivendo de forma pacífica. Eles ainda se beijavam e falavam coisas melosas, mas não eram a mesma coisa de antes. As brigas haviam diminuido, mas não acabaram.
Minha mãe começou a ir a um psiquiatra e eu comecei a perceber que ela não estava nada bem. Foi nesse tempo que se aproximamos. Começamos a conversar e ela me contava o que estava pensando e deixava-a despejar a raiva que estava sentindo em mim. Ficamos nisso por quase um ano, então ela começou a melhorar. Meus pais estavam felizes novamente e já não brigavam mais, tudo ia muito bem...até o dia do acidente.
Meu pai capotou o carro. Ficou em coma por uma semana no hospital e então teve uma parada respiratória. Eu achava que minha mãe iria voltar ao péssimo estado que ficou algum tempo antes, porém isso não aconteceu, o que fez nós nos tornarmos cada vez mais amigos. Talvez, eu a tenha mantido sã. Gosto de pensar, na verdade, que superamos as coisas bem melhores estando juntos.
Meu único arrependimento nisso tudo é ter sentido tanta raiva do meu pai. Por praticamente um ano, eu não queria vê-lo nem pintado de ouro, agora faria de tudo para poder lhe desejar um simples “boa noite”.
– Ahh! – suspirou minha mãe desfazendo a cara feia e tirando-me do meu divaneio – Agora que você terminou com a Jam, está querendo ir a festas e passar a noite fora... sem ao menos me avisar.
– Em primeiro lugar, eu e a Jam voltamos, em segundo, eu deixei uma mensagem na sua caixa postal, você que não ouviu. – menti sabendo como minha mãe era péssima quando o assunto é aparelhos eletrônicos.
– Aqui não diz nada. – disse ela olhando, confusa, o celular que acabara de pegar.
– Ai, mãe! – revirei os olhos rindo – Você se preocupa demais comigo, sério, eu sei me cuidar melhor do que você imagina.
– Ei, eu sou sua mãe, é claro que vou me preocupar! – ela sorriu e ficou me olhando por alguns segundos, como se estivesse imaginando como eu cresci tão rápido – Você está cheirando a cerveja, vai tomar um banho, fedorentinho.
– Sim, senhora! – falei e subi para o meu quarto.
Abri a porta e vi minha bagunça exatamente igual a como eu havia deixado: cama de casal desarrumada, com cobertor azul escuro atirado no chão, junto com folhas de papel amassado (tentativas mal sucedidas de desenhos ou notas de músicas) e roupas sujas, meu violão parecia a única coisa que estava em seu devido lugar, pelo menos uma coisa no lugar certo! Cheguei à conclusão que eu precisava arrumar aquela bagunça... Depois.
Peguei roupas limpas – uma cueca azul, calça de pijama e camiseta preta e fui tomar banho.
Percebi, enquanto a água quente me encharcava, que, magicamente, eu não estava de porre e nem com dor de cabeça. Milagres acontecem!
Comecei a lembrar da noite passada, da briga, da conversa com a Jamie, da noite que eu e ela tivemos naquele quarto colorido... Jamie já é linda de qualquer jeito, mas quando tirou a roupa... Deuses, que menina perfeita!
Percebi que, sem querer, acabei ficando excitado com as lembranças. Não pude deixar de sorrir. Aquela ruivinha me deixava louco.
Depois do banho, fui para o meu quarto e “arrumei” a cama para poder deitar lá. Olhei para fora da janela por um instante e, de repente, o cansaço ganhou e eu já estava sonhado.
“Você não deveria estar com ela, não deveria ter dormido com ela.” – dizia uma voz no meu sonho, aparentemente familiar.
– Do que você está falando? – perguntei.
“Não pode escolher as atitudes assim, não deve sair do roteiro. Tem que se afastar dela, rápido. Ela está afetando, está dando errado... ELA ESTÁ MUDANDO VOCÊ!”
A voz parecia brava e nervosa, e estava começando a me assustar.
– Você está falando da Jamie? O que ela está mudando?
Antes que a voz pudesse responder o sonho mudou.
Jamie estava sentada em um sofá grande, no que parecia ser uma sala de um psicólogo. Ela ainda estava com a roupa de noite passada, mas os cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo. Ela olhava para um homem de uma maneira divertida, como se eles estivessem brincando do jogo do sério e a Jamie estivesse perdendo, caindo na risada gradativamente. O homem (que eu imaginava ser um médico psiquiatra) encarava a garota ruiva com curiosidade.
– Você disse que viu meu inconsciente, Srta. Kanoah?
– Senhorita? Sério? Isso não é nem um pouco profissional para um psicólogo. Pensei que você queria que fôssemos... – ela fez uma pausa – amigos. – disse a última palavra com uma pontada de desdém.
– Ok, ok, Jamie, então. – ele a olhou com desaprovação, então repetiu a pergunta: — Você disse que viu meu inconsciente, Jamie?
– É, vi. Na verdade, vi de muitas pessoas nessa cidade. – ela deu uma risadinha – Acha que eu sou maluca, não é?
O médico respirou fundo e fez algumas anotações em seu caderno.
– Porque você está aqui, Jamie?
– Ideia da minha mãe.
– Como assim?
– Ela disse que talvez alguém como você, que lida com gente, assim... meio maluca, poderia saber alguma coisa que possa me ajudar.
– Ajudar com o quê?
– Aparentemente, com nada. Você está sendo inútil, acho que foi um erro ter escolhido você, mas obrigado pela atenção, Sr. Smith. – dito isso, ela levantou e saiu pela porta, deixando o médico confuso e pasmo olhando para o nada.
Acordei assustado. Não sabia muito bem o que tinha sido aquilo, mas sabia que era estranho. Peguei meu celular e olhei a hora, onze horas. Ótimo, tinha dormido duas horas, que mais pareceram dois minutos. Ainda estava cansado. Sentei na cama e liguei para Jamie. Tocou cinco vezes até ela atender.
– Oi, feioso. – disse a garota.
– Oi, feiosa. – respondi – Onde você está?
– Em casa, acabei de sair do banho.
– O que você tá vestindo? – perguntei, com intenção de provocar a garota.
– No momento, uma toalha muito sexy do Ursinho Pooh. – ela riu.
– Parece realmente bem sexy. – falei e ficamos em silêncio por um tempo. – Então, onde você foi essa manhã?
– Ah... – ela falou desanimada, como se soubesse que a pergunta iria ser feita, mas, ainda assim, queria evitá-la. – Eu fui ao médico.
O que eu havia sonhado não saia da minha cabeça, mas, tinha que acreditar que fora apenas um sonho.
– Fazer exames? – perguntei.
– Não exatamente.
– O que então?
– Bom, eu... na verdade eu fui num psicólogo. Minha mãe acha que eu deveria ir para conversar um pouco sobre... bom, você sabe...
– Na verdade não sei, não. O que é Jam? – meu coração batia forte. O que teria sido aquele sonho?
– Conversar sobre “eu não querer comer e viver de chá de pêssego”. – a garota imitou a voz da mãe. Eu ri, um pouco aliviado.
– Isso é bom, não é?
– É... – falou, insegura. – Pode ser.
Um silêncio horrível permaneceu na linha, até que eu o quebrei.
– Jam, você gostaria de “ver um filme comigo”? – sim, eu realmente falei “ Jam, você gostaria de, abre aspas, ver um filme comigo?, fecha aspas”.
– O que as aspas significam?
– Significam que nós estamos morrendo de sono e com certeza vamos dormir enquanto ainda passam os trailers.
Ela pareceu pensar por um instante.
– Ok, parece uma ótima ideia. Chego ai em meia hora. Pode escolher o filme.
– Qualquer um? – perguntei.
– Qualquer um.
– Ok. – estava desligando quando a garota me chamou.
– Ah, Du... Eu posso ir de pijama?
– Você pode vir até enrolada na toalha do Ursinho Pooh, se quiser. – eu ri e desliguei.
Jamie chegava em meia hora. Melhor arrumar a bagunça.
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