A Peregrina
21 Minha Pequena Luz
Notas iniciais
*Narrativa em Primeira Pessoa*
Haldir nos guiou pelo reino, tudo era deslumbrante. Toda a construção do lugar tinha sido feita respeitando a natureza, aquela era uma arquitetura de árvores e luz. Começamos a subir por níveis diferentes, por escadarias tão lindas que quase não pareciam reais, por todo lado eu vi elfos olhando curiosos na nossa direção, mas ninguém disse nada. Até que finalmente Haldir parou em uma espécie de terraço... Na mesma hora senti uma energia boa me tocando gentilmente, batendo no meu coração e alma como se fosse ondas de bondade. Fechei os olhos e me deixei levar por essa energia, ela parecia cada vez mais forte... Ouvi o arfar de Erick ao meu lado e abri os olhos. Por um segundo achei que o Viajante estivesse na minha frente, mas não era Ele. Eram dois elfos que desciam uma escadaria.
Minha boca se abriu em um “O”, nunca tinha visto mulher mais linda que Lady Galadriel, sim, porque só podia ser ela a criatura que descia aquela escadaria acompanhada por Lorde Celeborn. Os dois eram seres de pura luz. E toda Luz era sagrada para os Guerreiros do Viajante.
Olhei de esguelha para Erick e vi que ele estava tão pasmo quanto eu. Pelo visto ele também podia sentir o poder do Viajante naquela mulher. Os dois elfos chegaram ao fim da escadaria e Celeborn falou.
_O inimigo sabe que vocês entraram aqui. Qualquer esperança em segredo que vocês tinham foi desperdiçada. Nove estão aqui, mas dez saíram de Valfenda. Digam-me onde está Gandalf, pois desejo muito falar com ele. Não consigo mais vê-lo de longe. — Percebi que Celeborn não considerou a presença de Erick já que ele não fazia parte da Sociedade.
Antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, Galadriel se pronunciou. Sua voz era a melodia mais doce que eu já tinha ouvido, na mesma hora senti meu coração se aquecer com aquele som. Nem a voz de uma Entonadora de Pandora chegava perto daquela melodia.
_Gandalf, o Cinzento, não passou as fronteiras dessa terra. Ele caiu nas Sombras. — Olhei curiosa na direção de Galadriel... Como ela podia saber disso? Era quase como se ela ouvisse nossos pensamentos...
_Ele foi tomado por Sombra e Chama: um Balrog de Morgoth. Pois entramos desnecessariamente nas redes de Moria. — Legolas completou a resposta e pude ver como havia dor na sua voz, todos ainda tínhamos o coração pesado pela perda de Gandalf. Não sei bem porque, mas senti que devia consola-lo, então coloquei minha mão sobre seu braço e o apertei gentilmente. Legolas virou os olhos para mim e agradeceu de forma silenciosa.
Logo depois vi como Gimli tinha ficado triste pelas palavras de Legolas. Senti que o anão devia se culpar pelo que tinha acontecido em Moria, mas eu sabia que a culpa pela morte de Gandalf era exclusivamente minha.
Ao voltar o olhar para frente vi que Galadriel olhava para minha mão no braço de Legolas e na mesma desfiz meu gesto e abaixei o olhar.
_Nenhum dos feitos de Gandalf em vida foi desnecessário. Nós ainda não sabemos seu propósito inteiramente. — Galadriel virou seus olhos para Gimli e continuo. — Não deixe o grande vazio de Khazad-Dûm preencher seu coração, Gimli, filho de Glóin. Pois o mundo tornou-se cheio de perigos. E em todas as terras, amor agora se mistura com dor. — Na última frase ela olhou diretamente nos meus olhos e senti meu rosto tomar uma coloração levemente avermelhada. De alguma forma eu sabia que aquelas palavras se tornariam verdades na minha vida.
_O que acontecerá com a Sociedade? Sem Gandalf, a esperança está perdida. – Celeborn perguntou a sua mulher.
_A demanda está por um fio. Desviem um pouco do caminho e falharão, mas vocês ainda tem um Anjo os acompanhando. Dois na verdade. — Galadriel sorriu gentilmente para Erick e para mim. Toda a Sociedade voltou seu olhar para nós, me senti nervosa imediatamente. Não gosto de ser o centro das atenções.
_Minha senhora, perdoe minha ousadia, mas eu não estou acompanhado essa Sociedade e nem zelando por eles. Apenas sigo Bleumer. — Ao meu lado Erick deu um passo para frente e falou de uma forma firme, logo depois inclinou sua cabeça em sinal de respeito à Galadriel.
Senti meu corpo gelar com as palavras de Erick. Pelo Viajante, ele não tem noção de nada, não?! Já perdi as contas de quantas vezes Erick nos meteu em problemas por falar demais! Olhei preocupada na direção da elfa e já esperava algum tipo de retaliação, quando ela simplesmente riu baixinho, se divertindo com as palavras de Erick.
_Está perdoado, Erarich Von Tesartir. Sua sinceridade é admirável, ela será colocada à prova antes do que você espera. — Galadriel respondeu e depois olhou benevolente para todos. — Vocês podem ficar alguns dias no nosso reino. Aqui a paz de espirito ira acalmar vossos corações. E que seja abençoado o tempo que passarem aqui. Descansem.
Haldir fez um gesto e todos começamos a segui-lo até que a voz de Galadriel me deteve.
_Bleumer, há muito que gostaria de conversar com você. Me acompanharia em uma caminhada? — Olhei um pouco nervosa para a elfa, sabia que nada de ruim me aconteceria estando com ela, mas até agora nunca tinha sido separada da sociedade... Acho que Legolas percebeu meu olhar e adivinhou meus pensamentos por isso disse.
_Vá. Nenhum de nós vai a lugar nenhum sem você, Bleumer. — Ele sorriu levemente para mim antes de virar e ir embora com os outros. Erick ainda deu um último olhar na minha direção, mas também foi embora com todos.
_Aceito caminhar com a senhora. Seria um honra. — Fiz uma pequena reverência para a mulher na minha frente. Galadriel apenas sorriu e se virou, foi andando até uma outra escadaria e começou a descer. E eu a segui, descemos até voltar ao chão e depois ela me guiou pelas arvores. Tudo em silêncio. Me perguntei até quando ela ficaria em silêncio, afinal qual o sentido de uma caminhada para conversar se ninguém fala nada?
_Você tem uma mente tão afiada quanto sua espada, criança. — Parei de súbito e olhei surpresa para a figura de Galadriel. Sua voz tinha ecoado em minha mente. Como aquilo era possível?!
_O que foi essa voz que ouvi na minha cabeça, minha senhora?
_Eu posso projetar meus pensamentos na mente de outras pessoas. — A voz dela continuava doce e cálida, mas agora estava fora da minha cabeça.
_Entendo... — Mentira, não entendia como aquilo era possível. E mais uma vez a elfa riu. — Você também pode ler meus pensamentos?
_Posso. — Senti meu rosto queimar de vergonha! Não acredito que pensei tantas besteiras e que ela leu tudo isso. Oh, não! Ela ainda esta lendo isso! Calma, Peregrina, Calma. É só não pensar em nada... Mas não pensar em nada já não é pensar em algo?! Vou ficar louca assim!
No meio da minha agitação e briga interna não percebi Galadriel ao meu lado até ela tocar meu ombro. Olhei assustada para sua aproximação, mas ela apenas sorria.

_Se você ficar mais tranquila, posso prometer não ler seus pensamentos. — Ela me disse e eu balancei a cabeça concordando. Aquilo era um alívio!
_O que minha senhora queria falar comigo?
_Há muito vi que uma garota chegaria à Terra-Média quando nós mais precisaríamos... Ela viria de longe em uma armadura negra, mas por dentro sua luz resplandeceria infinita pelos céus. Essa garota teria uma missão. E para o bem ou para o mal ao fim chegaria essa missão.
_Bom, pelo visto eu sou essa garota, mas não entendo o porquê de querer contar isso para mim.
_O que quero dizer é que você carrega um fardo muito pesado, quase tão pesado quanto o de Frodo. Chegara um momento em que você precisara escolher entre o fácil e o duvidoso. E sua escolha poderá trazer inúmeras consequências para a Terra-Média. — Galadriel passou a mão suavemente pelo meu rosto e senti uma bondade descritível me invadindo.
_Que escolha é essa? Como posso escolher o certo, minha senhora? — Tudo aquilo era confuso demais para mim. Nunca achei que tinha alguma importância, muito menos que minha escolha poderia trazer tantas consequências. Aquilo era incabível.
_Nem os mais sábios poderiam responder isso. Cabe apenas a você decidir. — Sua mão se afastou do meu rosto e foi até meu peito, a ponta dos delicados dedos dela param em cima do meu coração. — Meu conselho é que quando a hora chegar você escute seu coração. Ouça bem e ele nunca falhara em lhe mostrar o caminho certo, minha criança.
Abaixei minha cabeça tentando absorver todas as palavras de Galadriel. Deixando que elas entrassem na minha alma. Até que uma pergunta que martelava na minha cabeça finalmente saiu pela minha boca.
_Posso perguntar o porquê de sentir como se o Viajante estivesse aqui comigo quando a senhora está por perto? Erick também sentiu o mesmo.
Lady Galadriel deu alguns passos para longe, até parar e me olhar. Sua voz era incrivelmente gentil.
_Suspeito que seja porque seu Viajante é Luz e todos os elfos daqui amam a Luz mais que tudo. Talvez vocês, Anjos, possam sentir esse amor pela Luz das estrelas e lembrem do seu Viajante. — Balancei a cabeça em concordância. Fazia sentido aquilo, afinal o Viajante é o Bem, e aquele reino era repleto de bondade.
_Agora vá e junte-se aos seus amigos. Descanse, minha pequena Luz. — Senti meus lábios se esticarem em um sorriso ao ouvir a forma como Galadriel me chamou. Meu coração se encheu de alegria. Fiz outra reverência e voltei pelo lugar que tinha vindo.
Andei por alguns corredores e subi algumas escadas até perceber que estava completamente perdida. Fala sério! Qual o caminho certo? Essa arquitetura élfica pode ser muito bonita, mas é confusa! Respirei fundo e sentei no chão no meio de algum corredor, fechei os olhos e tentei fazer o que a elfa me disse: Ouvir meu coração para achar o caminho certo.
Ouvi... Ouvi... Ouvi... E nada do caminho certo aparecer magicamente na minha frente.
_O que está fazendo? — Alguém me perguntou, mas não prestei muita atenção, ainda tentava ouvir meu coração.
_Ouvindo meu coração para achar o caminho certo.
Fiquei mais algum tempo de olhos fechados até me irritar.
_Meu coração deve estar com defeito, ele não me diz nada! Bela porcaria de conselho! — Abri os olhos e então vi que quem falara comigo antes e ainda estava em pé na minha frente era Haldir. Dei um pulo para trás pelo susto.
_Seu coração está com defeito? — Haldir me perguntou e pude jurar ver um sorriso passando pelos seus lábios. Enquanto isso ele me oferecia a mão para levantar.
_Acho que sim. Ele não está me guiando. — Respondi enquanto segurava sua mão e me erguia. Pude notar como sua mão era macia, mas logo depois a soltei.
_O que quer dizer? — Acabei por contar uma parte do que Galadriel me disse e no fim Haldir riu. Riu de verdade. Tenho que admitir que sua risada era agradável de se ouvir. — Creio que Lady Galadriel não estava se referindo a ouvir o coração para achar o caminho em uma situação tão simples como essa. Mas sim quando você tiver que decidir algo realmente importante. — Haldir disse enquanto me analisava.
_Eu sei... Mas achei que essa historia de ouvir o coração podia ser usada em qualquer situação. Acabei me perdendo, o que esperava que eu fizesse? — Murmurei. Já podia sentir minhas bochechas ficando vermelhas de constrangimento. Odeio isso.
_Já pensou em perguntar para alguém o caminho certo? Não seria mais fácil? — A voz de Haldir tinha um toque de ironia. O que me irritou. Por fim decidi lhe dar as costas e voltar a procurar o caminho certo sozinha. — Onde vai? — Logo ele estava me acompanhado por ai. E eu me permaneci em silêncio, o ignorando.
Até que Haldir segurou meu braço e me fez parar gentilmente.
_Me desculpe se eu a ofendi. — Sua voz parecia sincera.
_Tudo bem. Eu fico irritada facilmente. — Acabei sorrindo de leve, mas logo depois puxei meu braço de volta. Haldir entendeu meu gesto e me soltou.
_Deixe-me leva-la até onde seus companheiros estão. — O elfo ofereceu e o que eu podia fazer? Mesmo não querendo aceitar ajuda por causa do meu orgulho, sabia que não ia conseguir chegar até onde todos estavam tão fácil, então resolvi aceitar.
_Tudo bem. — Haldir começou a andar e eu o segui. Descemos algumas escadas e pude ver a Sociedade ao longe. Finalmente! Mesmo não querendo admitir estava ansiosa para ver Legolas e Erick de novo. Claro, também queria ver o resto da Sociedade, mas...
_Pronto. Está entregue. — Haldir parou a poucos metros de onde todos estavam e eu vi que Legolas e Erick na mesma hora começaram a caminhar na minha direção.
_Obrigada pela ajuda, Haldir. Como posso retribuir? — Perguntei educadamente. Ele me olhou dentro dos olhos e me surpreendeu com suas próximas palavras.
_A cada instante você fica mais interessante. Vou pensar em uma forma de você me retribuir. — Haldir falou calmamente e eu senti meu rosto ficar totalmente vermelho. O que?! O que ele quis dizer?! Tentei balbuciar qualquer coisa, mas nada saiu. Até que Legolas e Erick chegaram até mim e eu agradeci mentalmente por isso.
_O que esta acontecendo aqui? — Erick perguntou em um tom cortante.
_Estou atrapalhando algo? — Legolas também perguntou na mesma hora, mas seu tom era mais contido.
_Já estava de saída. Já disse tudo que queria a ela. — Haldir fez uma mensura com a cabeça e se retirou.
_Eu devia retribui-lo dando um soco na cara dele. — Como sempre Erick sendo sociável. E o mais incrível foi que Legolas concordou com a cabeça.
_Ei! Desde quando vocês dois concordam com algo?! — Olhei chocada para eles. O que esta acontecendo aqui?! O que perdi?!
_Bom, eu queria enterrar uma flecha nele, mas não seria um ferimento mortal, claro. — Legolas me respondeu e acho que meu queixo chegou até o chão. O que é isso?! Desde quando Legolas é hostil com outras pessoas?! Que porcaria é essa?!
_Enfim. Vamos treinar agora, Bleumer. Vou tentar liberar sua Segunda Origem. — Erick me olhou e deu seu típico sorriso torto. Na mesma hora senti uma empolgação vibrando pelo meu corpo! Finalmente!
_Onde podemos treinar? — Me virei e perguntei animada para Legolas.
_Não sei, não conheço esse reino. É a primeira vez que venho aqui. — Legolas respondeu um pouco sem graça e eu achei fofo seu jeito.
_Nem para dar uma informação a fadinha serve. Deixa que eu pergunto para algum elfo. Me espere aqui, Bleumer. — Erick disse e logo depois deu as costas e sumiu pelo mesmo lugar de onde vim. Voltei meus olhos para Legolas e vi que ele estava irritado.
_Ignore o que Erick disse. Às vezes ele é um idiota, mas no fundo ele é uma pessoa muito legal e divertida. — Tentei usar uma voz mais suave, às vezes eu sabia ser gentil. Mas o elfo só pareceu se irritar mais. Qual o problema dele?!
_Já notei como você parece sempre defender seu amigo. Você o considera muito. — Legolas não olhava nos meus olhos enquanto falava, na verdade, olhava para qualquer lugar menos para mim.
_Bom, ele é meu amigo de infância. Claro que o considero muito. Erick é muito importante para mim. — Sorri ao terminar de falar. Talvez se Legolas entendesse quanto eu gostava de Erick, ele pudesse se tornar amigo do outro Anjo também. Então eu teria meus dois amigos juntos.
Mas ao fitar o elfo, vi que ele parecia ainda mais irritado e um pouco magoado. Legolas abriu e fechou a boca várias vezes, como se quisesse falar algo, até que disse de súbito enrolando todas as palavras.
_O quanto sou importante para você? — Agora foi minha vez de abrir e fechar a boca sem conseguir produzir nenhum som. Como poderia responder aquilo? Eu sabia que o amava e que estava me apaixonando por ele. Não sou idiota para não perceber isso. Embora fosse curioso eu ama-lo primeiro antes mesmo de me apaixonar completamente. Meu amor por Legolas era quase fraternal, queria protege-lo a qualquer custo, admirava o guerreiro que ele era, ficava nervosa quando ele não estava por perto e ainda mais nervosa quando ele estava muito perto, mas esse amor começava a mudar... Eu começava a admira-lo como homem. E com isso vinha a paixão. A paixão que eu tentava sufocar de qualquer jeito. Então como poderia explicar tudo isso para ele?
Legolas me olhava ansioso por uma resposta, mas nada saia da minha boca até que a voz de Erick me deu um susto e me fez pular.
_Bleumer! Achei um lugar para treinarmos! Venha! — Virei e vi que o Anjo acenava para mim do alto da escada pela qual eu vim. No mesmo instante fui até ele, quase correndo, estava desesperada para fugir da pergunta de Legolas.
Mas é claro que o elfo não iria desistir tão fácil, logo pude ouvir seus passos leves me acompanhando. Pelo visto Legolas queria observar o treino.
Erick nos guiou por um labirinto de corredores até que chegamos em uma área plana e espaçosa. Não tinha nenhuma árvore, casa ou elfos por perto. Aquele lugar era perfeito para um treinamento intenso.
_Ok, Bleumer, vou preparar tudo para iniciarmos nosso treinamento. Por enquanto vá se aquecendo. — Erick me olhou sério e sua voz era firme. Eu estava recebendo uma ordem. Automaticamente fiquei séria e concentrada. Erick não gostava de brincadeiras durante um treino e eu também não. Por sempre o ter respeitado como guerreiro e por já ter aprendido muito com Erick, aceitava receber comandos dele nessas horas.
Respirei fundo e tirei meu manto, precisaria de liberdade para me movimentar. Me afastei alguns passos de Legolas que apenas estava parado assistindo tudo e comecei a me aquecer. Primeiro alongamentos e uma corrida leve, depois tentei limpar minha mente de tudo que era trivial. Logo Erick me chamou e quando olhei ele tinha preparado uma grande tigela com água, não sei onde ele arrumou isso, e ao lado uma pequena fogueira ardia. Sorri brevemente, Erick sabia que eu podia controlar os elementos, mas não podia cria-los do nada, como sempre tinha Ar e Terra envolta de mim, eu podia invoca-los a qualquer momento, mas para chamar a Água ou o Fogo, eu precisava de uma fonte desses dois elementos. Erick tinha providenciado isso para mim.
Caminhei até o centro do espaço e Erick me seguiu. Agora estávamos um de frente para o outro.
_Vamos ver o quanto melhorou nesses últimos cem anos. Primeiro, quantas coisas consegue carregar no seu Espaço Alternativo? — Erick me perguntou sério e eu respondi prontamente.
_Sessenta objetos.
_Bom... Muito bom, mas não é o bastante. Se sua Segunda Origem for libertada poderá levar mais de cem objetos consigo e talvez consiga reequipar armaduras inteiras. — Acho que meus olhos brilharam ao ouvir aquilo. Mal posso esperar para liberar logo esse poder! — Você consegue invocar os quatro elementos ao mesmo tempo?
_Claro. — Acho que minha voz saiu um pouco arrogante e Erick sorriu zombeteiro. Só para mostra-lo como eu estava mais forte, invoquei os quatro elementos. Abri minhas mãos, me concentrei e chamei um por um, em poucos instantes eu tinha quatro esferas elementais flutuado em minhas mãos.
_Ótimo... Pode invoca-los sem precisar dizer o nome do elemento. Você evoluiu muito desde a última vez que treinamos, Bleumer. — Sorri de verdade com o elogio. Era bom ser reconhecida de vez em quando. Olhei rapidamente na direção de Legolas, queria saber se ele tinha ouvido eu ser elogiada e se estava feliz por mim, um pensamento idiota, claro, mas não pude evitar. O elfo ainda estava parado no mesmo lugar com os olhos cravados em mim, então ele balançou a cabeça e sorriu. Quase dei um ridículo pulinho de alegria.
_Preste atenção em mim! Você está treinando! — A voz de Erick estava irritada e eu me recriminei por me deixar levar por pensamentos bobos. Ele estava certo. Eu tenho que prestar atenção no que estou fazendo.
_Desculpa. Então, o que vamos fazer agora? — Dissipei as esferas e aguardei o próximo comando. Erick pareceu ponderar até decidir o que faríamos.
_Antes de tudo preciso saber se você inconscientemente acessou a Segunda Origem enquanto estava em perigo na montanha. Se fez de fato isso significa que tem um enorme poder dormente dentro de si, então eu poderei liberar esse poder mais facilmente e rapidamente. Se não, vamos ter que passar por anos de treinamento, igual Lupi, o Jardineiro, fez comigo.
_O que? Eu não tenho anos para esperar por isso! Preciso de mais poder para proteger a Sociedade! — Bati o pé no chão. Não tenho anos e anos! Preciso disso para agora.
_Isso não depende de mim. Vamos lutar e você vai tentar libertar esse poder sozinha momentaneamente, se fizer isso eu poderia liberta-la completamente. Venha com tudo para cima de mim porque eu não vou pegar leve. Quero te levar ao limite. — Erick se inclinou até ficar na altura do meu rosto e sussurrou a última frase. Seus olhos estavam violentos, imprevisíveis e belos como uma verdadeira tempestade prestes a cair.
_Também não vou pegar leve. O deixarei inconsciente se necessário, Erick. — O respondi no mesmo tom e o encarei de volta. Alguns metros longe de nós dois pudemos ouvir Legolas respirar fundo, irritado.
_Vamos começar! — Erick gritou e deu um pulo para trás, fiz o mesmo. Nos avaliamos por alguns segundos até eu tomar a iniciativa.
Reequipei Sora e corri até Erick, fingi que ia acerta-lo pela frente, mas no último segundo usei o Ar para me ergue e voar por cima do Anjo, desci minha espada pelas costas de Erick, mas antes que a lâmina pudesse toca-lo, Erick girou o corpo e levantou a mão, usando sua telecinese deteve o movimento de Sora. Eu já esperava por isso, então não me abalei, na mesma velocidade me abaixei e tentei dar uma rasteira nele, mas Erick deu uma cambalhota para trás e colocou distancia entre nós.
_Precisa fazer muito mais do que apenas isso, Peregrina. — Erick usou meu nome de guerreira. Ele estava totalmente sério.
Aquela era uma luta de guerreiro contra guerreira. Anjo contra Anja.
_Nem comecei. — Pisquei o olho para ele, o provocando, e parti para cima de novo.
Tentei um ataque combinado com os elementos, chamei o Fogo e o fiz se espalhar pela lamina de Sora, agora eu tinha uma espada flamejante pronta para queimar e fatiar qualquer um. Dobrei minha força e dirigi um ataque direto contra Erick, tentava o golear no peito, mas ele simplesmente sumiu. Em um segundo não estava mais no mesmo lugar. Percebi tarde demais o que ele tinha feito e quando me virei para vê-lo, Erick já estava em cima de mim. Meus olhos se arregalaram com a surpresa, o Anjo tinha se movido em uma velocidade impressionante, tão rápido que não o vi até ele surgir nas minhas costas.
_Você está lenta demais. — Erick sussurrou na minha orelha e assim que eu virei o corpo para tentar acerta-lo, senti como se uma mão invisível me empurrasse para longe. Era a telecinese dele. Aterrissei alguns metros à frente, já pronta para atacar de novo.
Por causa da distração acabei perdendo o controle sobre o Fogo e logo ele estava queimando minha espada, tive que larga-la no chão ou queimaria minhas mãos. Que bela porcaria!
_Você ainda não controla bem o fogo. Tem medo dele. — Erick me disse. Cerrei os dentes de irritação. Tinha perdido minha espada temporariamente. Reequipei duas adagas e me preparei para o próximo ataque. — Você não esta se esforçando. Não vai conseguir a libertar a Segunda Origem assim.
_Cala a boca! — Berrei e logo usei o Ar para voar o mais rápido que podia, no meio do voou estiquei minhas adagas gêmeas e tentei cortar Erick de todas as formas, mas ele sempre desviava. Eu voava em círculos, tentava ataques por baixo, por cima, pela direita e esquerda, mas não conseguia atingi-lo. No máximo ele usava a telecinese e desviava uma lâmina.
Gritei de frustração e aumentei a velocidade o máximo que podia. Meus braços não passavam de borrões, mas Erick sempre conseguia desviar de tudo e nem parecia estar se esforçando para fazer isso. Até que ele segurou meu braço no meio do movimento e me puxou para perto de si, colando nossos corpos. A essa altura minha respiração já estava pesada pelo esforço, mas agora estava mais difícil de respirar por causa da aproximação com Erick.
_Atacar com raiva não é uma escolha inteligente. Você nunca vai conseguir encostar uma lâmina em mim. Estou muito mais forte que você. Desista. — Ele murmurou tudo no meu ouvido, com sua voz naturalmente rouca e eu senti um arrepio passar pelo meu corpo... Não! Pisquei os olhos algumas vezes e voltei a mim.
_Não vou desistir!– Aproveitei a proximidade dos nossos corpos e fiz algo que Erick não esperava, usei minha própria cabeça para da uma cabeçada nele. Por ser pego de surpresa Erick foi atingido em cheio, mas aquilo não pareceu doer quase nada nele. Em mim, por outro lado, já sentia um filete de sangue escorrendo do ponto machucado na minha cabeça.
_Vai ter que fazer mais do que isso, Peregrina. — Erick me disse e logo depois senti um soco na minha barriga. Não tive como me defender, nem vi o ataque. O soco me fez dar alguns passos para trás e eu tossi brevemente, mas logo me ergui.
_Bleumer! — Olhei para o lado e vi Legolas correndo na minha direção, estava tão concentrada na luta que não lembrei que ele ainda estava ali. Ele vinha correndo e sua feição era uma mistura de preocupação e raiva. — Como ousa bater nela?!– Legolas esbravejou para Erick.
_Pare, Legolas. Eu não desejo machucar de verdade ela, mas estamos treinando aqui. Bleumer não é frágil. Ela é uma guerreira e quer ficar mais forte. Respeite seu desejo. – Erick respondeu de um modo firme, Legolas parou no meio da corrida e me olhou. Vi que no azul dos seus olhos ainda existia preocupação... Preocupação por mim.
_Erick está certo. Isso é um treino. Não interfira, elfo. — Tentei soar decidida, mas acho que acabei sendo grossa. Legolas me olhou longamente antes de recuar e voltar para seu lugar onde cruzou os braços com força, como se tentassem se prender ali...
Voltei minha atenção para Erick que me olhava esperando o próximo ataque. Dei alguns pulos para trás e comecei a pensar em uma forma de invocar esse poder adormecido. Mas não conseguia pensar em nada.
_Cansou, meu Anjo? — Erick me perguntou ironicamente e eu só senti mais raiva. Depois de tudo isso já estava claro que Erick tinha se tornado muito mais forte do que eu, mesmo assim nunca admitiria isso. Eu estava usando toda minha força e ele estava apenas brincando. Em nenhum momento Erick me atacou de verdade, nem seu soco fora forte o suficiente, porque agora eu podia entender que se ele quisesse essa luta já tinha acabando há uma hora. Eu não era párea para seu poder e só estava gastando energia vital. Isso só me levou até o limite da raiva.
_Você não esta lutando com tudo! Esta pegando leve! Vamos! Venha com tudo! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. Era um misto de frustração com raiva.
_Me desculpe por não está lutando com tudo, mas se eu fizer isso vou acabar a matando. — A voz de Erick não tinha nenhum um toque de arrogância ou superioridade. Aquela era apenas uma certeza. Uma certeza que infelizmente eu reconhecia agora. Ele era poderoso demais, mas talvez eu pudesse ser mais esperta... Um plano totalmente irresponsável se formou na minha cabeça.
_Se com minha morte eu puder derrota-lo então assim eu o farei! — Gritei de volta e me pus de joelhos no chão, juntei as duas mãos.
Erick me olhou sem entender nada, como se eu tivesse ficado maluca.
Até que abri a boca e comecei a conjurar...
_Vasculhai os céus e abri-os bem
Pelo brilho de todas as estrelas do céu, faz-te presente em mim...
Quando viu o que eu tentava fazer, Erick ficou extremamente pálido, toda a cor sumiu do seu rosto. Sua face se transformou em uma imagem de puro terror e medo. Sua boca se abriu em um berro poderoso onde só uma palavra pode ser ouvida.
_NÃO!
Sentia uma energia poderosíssima se acumulando em mim ao mesmo tempo em que ia me sentindo vazia. Era uma sensação estranha, mas eu continuei conjurando.
Ó Viajante, escutai-me, eis que sou a regente da Luz das estrelas...
Erick vinha correndo desesperando na minha direção, em milésimos de segundos já estava em cima de mim, tapando minha boca para que eu não terminasse de recitar, mas aquilo não era necessário. Meu plano tinha dado certo. Aproveitei o desespero de Erick e sua aproximação, para encostar minha adaga no seu coração. Um gesto e eu poderia perfura-lo. Tirei sua mão da minha boca e disse.
_Ganhei, Erick. — Ele primeiro me olhou sem entender, depois olhou para baixo e viu a adaga apontada para si.
_O q-que...? — O corpo inteiro dele tremeu e Erick se deixou sentar no chão, sua expressão era de do mais puro alívio. Não o entendi.
Logo vi Legolas correndo para perto de mim. Provavelmente querendo descobrir o que tinha acontecido.
_Eu ganhei. Fui mais esperta e o fiz abaixar a guarda. — Respondi para o Anjo.
_Abaixar a guarda? Abaixar a guarda?! Você tem noção do que fez?! — Erick virou seus olhos para mim e vi como ele estava furioso.
_Você só esta assim porque perdeu para mim! — Devolvi no mesmo tom e vi os olhos do Anjo brilharem em fúria.
_EU ACHEI QUE VOCÊ IA SE MATAR! — Erick berrou na minha cara e na mesma hora congelei. Ele nunca tinha me tratado assim. — Qual seu problema?! Você estava começando a conjurar o ataque Uranometria! VOCÊ É LOUCA?! — Então ele agarrou meus ombros e me levantou, depois começou a me sacudir enquanto gritava a plenos pulmões. — Quase se matou apenas para ganhar de mim?! VOCÊ É IDIOTA?! Você podia ter morrido! — Seu aperto de ferro em meus ombros só aumentava e aquilo já estava doendo. Erick parecia fora de si, todo seu corpo tremia de raiva, nervosismo ou alívio por eu não ter morrido. Não sei por qual motivo exatamente.
_Eu não ia conjurar de verdade! Não ia chegar até o fim! Só queria abaixar sua guarda! — Eu gritei de volta. Mas só vi uma tempestade assustadora nos olhos de Erick. — Me larga!
Nessa hora Legolas me arrancou das mãos de Erick e me colocou atrás de si. No mesmo movimento deu um soco no rosto do Anjo.
_Não fale com ela dessa forma! Não vou permitir que a machuque! — A respiração de Legolas era pesada e artificial, ele parecia consumido pelo ódio. Ódio de Erick.
O elfo se postou bem em frente ao Anjo. Era como ver duas forças da natureza prestes a entrar em guerra. Já Erick limpou o sangue do rosto, proveniente do soco de Legolas e o fitou com ira.
_Peça que ela lhe conte o que acabou de fazer aqui e veremos se você ainda vai ser tão compassível com ela! — Erick praticamente rosnou as palavras e saiu do local a passos largos e pesados. Logo depois sumindo de vista.
Eu e Legolas ficamos alguns instantes em silêncio. Então ele se virou e olhou para meus ombros.
_Sua pele... — Olhei para baixo e vi as marcas vermelhas das mãos de Erick na minha pele. Não liguei para aquilo, mas Legolas passou a ponta dos seus dedos cuidadosamente pelo local, como se temesse que eu sentisse dor.
_Está tudo bem. Isso não é nada.
_Bleumer, me conte o que é Uranometria e o que você fez aqui. — Todo o calor e paz que estava sentindo com o toque de Legolas no meu ombro sumiu quando ouvi suas palavras.
Ergui o olhar e apenas vi determinação nos seus olhos cristalinos. Legolas não deixaria aquela passar, mas como eu poderia explicar o que aconteceu? Tenho certeza que ele ficaria mais do que irritado comigo.
Era mais do que isso, tive medo de decepciona-lo. Medo de ele brigar de verdade comigo como Erick tinha feito.
Engoli em seco algumas vezes.
Respirei fundo.
Olhei nos olhos de Legolas e abri a boca para explicar...
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