A Pequetita
1 A pequetita
Notas iniciais
Eu era nova demais até para entender onde estava. Mas uma das primeiras memórias que tenho da minha infância é de estar numa festa, chorando inconsolável no colo do meu pai.
O motivo? Estavam tocando a música A Pequetita, sucesso da dupla sertaneja Duduca & Dalvan, e eu queria cantá-la com o meu pai... Em cima do palco.
Talvez a minha mente de criança ainda não fosse capaz de entender que, bom, eu não era a estrela da noite. Mas, poxa, aquela era a nossa música! Nós sempre a cantávamos juntos. Ela se encaixava direitinho com a nossa família: "A caçulinha boneca", "uma grandinha na escola", "mais um baixinho sapeca". E eu era a pequetita; eu precisava cantar a parte do "Vou cuidar, papaizinho"...
Hoje sei que, naquele momento, devíamos estar numa das festas da corporação da Polícia Militar. Porque essa era a profissão do meu pai: policial militar. À noite ele perseguia os bandidos, mas, durante o dia, eu brincava de amarrar marias-chiquinhas no cabelo dele. Eu amava fazer isso enquanto ele dormia!
E eu achava o máximo quando ele ia nos buscar na escola com o carro da polícia! Ficava um monte de criança olhando sem entender nada, pensando que eu tinha sido presa!
O Natal era a minha época favorita. Todos os anos, íamos celebrar na casa do tio Pedro e da tia Maria, a matriarca da família. Geminiano, contador de histórias e amante de modões sertanejos, o meu pai sem dúvida era uma das alegrias da festa.
Quase todos os nossos primos iam para lá. A maioria deles já eram adultos, trabalhavam, andavam de moto, mas nós brincávamos com eles mesmo assim. À meia-noite, abríamos os presentes e ficávamos com a tia Maria até acabar a Missa do Galo, depois íamos para a casa da tia Dalva, que ficava em outra cidade. Os filhos dela eram da nossa idade, então ficávamos jogando Banco Imobiliário com eles até dar a hora de ir embora sem que o jogo tivesse acabado...
A tia Dalva e a tia Maria não se falavam. Tudo porque, quando a tia Dalva veio para São Paulo, a tia Maria não a quis acolher em sua casa; afinal, ela era casada, não ficava bem deixar uma moça solteira ir morar com ela e com o marido, era demais para os padrões conservadores da época. Então a tia Dalva foi morar com um rapaz, e a minha avó, ao saber disso, morreu de desgosto no sertão do Pernambuco. Agora, a briga das duas era para saber qual delas era a mais culpada pela morte da mãe.
Isso durou até os meus dez anos, quando fomos passar o Natal num lugar totalmente diferente: o sertão pernambucano.
Fomos de carro, com o doido do meu pai dirigindo a cento e quarenta quilômetros por hora. Dois dias inteiros para cruzar, sem GPS nem nada, o interior do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, lugares que eu só tinha ouvido falar nos livros da escola, até chegarmos num pedaço do Brasil que eu não conhecia...
O chão era de terra rachada, e o cenário coberto de uma vegetação seca, com uma típica casinha de sapê bem ali, no meio do nada.
Eu, uma menina da cidade, brinquei até cansar naquele pedaço de mundo. Dormi na rede, comi tatu, subi num umbuzeiro, andei no lombo dum jumento, vi um pé de algodão pela primeira vez. Vi uma cobra comendo um ovo num pé de mandacaru, vi o meu tio matar a cobra com um pedaço de pau, conheci mais um mundaréu de primos e tios. Hoje sei que conhecer as minhas raízes foi uma das experiências mais incríveis da minha vida.
Na casa do meu avô não havia banheiro, e muito menos chuveiro, então a parte que eu menos gostei foi a de usar o mato e tomar banho no rio. Ou seja, privacidade zero. E eu também não aguentava nem o cheiro da buchada de bode, um prato típico daquela região; então, quando serviam a iguaria, eu acabava comendo só arroz. Mas o meu pai precisava ter feito essa viagem; afinal, o meu avô já estava velho, e o meu pai não queria que ele partisse desta vida sem conhecer os netos.
Mal sabia ele que aquela era a última vez que veria o pai…
Apenas três meses depois, estávamos na nossa casa na periferia da Capital paulista assistindo à televisão. O meu pai tinha saído para trabalhar; eram umas nove da noite quando a campainha tocou, e vimos que era um policial.
Ele não trazia boas notícias. Numa troca de tiros com bandidos, o meu pai foi alvejado com um tiro na cabeça. Ele não resistiu.
A partir daí, nossa vida mudou para sempre. A nossa família, que era grande, ficou pequena; perdemos o contato com quase todos, pois já não tínhamos motivo para celebrar o Natal na casa da tia Maria, que acabou. Tudo perdeu o sentido.
A minha mãe ficou desnorteada, sozinha e responsável por criar três filhos na pré-adolescência. Desmaiava, tinha crises de pânico, de ansiedade, de medo, de depressão. Ela precisava de apoio psicólogo, mas isso nunca aconteceu; afinal, eram os anos noventa, não era comum alguém se tratar com um psicólogo, a não ser que fosse um doente mental. Em vez disso, ela recebeu vários convites para visitar várias igrejas, e foi assim que ela encontrou o consolo na sua fé. Cada um se apega ao que tem.
Talvez, se isso não tivesse acontecido, nós teríamos continuado a celebrar o Natal. A tia Maria e a tia Dalva não teriam voltado a se falar, pois passaram a se encontrar novamente no dia dos finados, que, aliás, era o único dia em que recebíamos visitas dos parentes. Isso até a minha mãe se cansar e pedir para que não viessem mais.
A tia Maria, que não era de levar desaforo para casa, claro, quis brigar com a minha mãe, acusando-a de estar ficando louca e fanática religiosa. Talvez ela tivesse razão, mas eu iria com a minha mãe onde quer que ela fosse. Eu era apenas uma criança, e essa era a promessa que eu inocentemente tinha feito ao meu pai, enquanto cantávamos a música da dupla sertaneja Duduca & Dalvan:
Tchau, tchau, pequetita, tchau, tchau,
Cuida bem da mamãe pra mim.
Tchau, tchau, pequetita, tchau, tchau,
"Vou cuidar, papaizinho, sim, sim!"
Hoje as minhas tias se falam, mas a minha mãe não fala com nenhuma das duas. O ranço fala mais alto.
Depois que crescemos, eu e os meus irmãos começamos a reencontrar os nossos primos pelo Facebook, uns dez anos depois desse ocorrido. Vimos que não havia motivo nenhum para termos nos afastado. Hoje temos um grande grupo dos Primos no Whatsapp, e nos falamos por lá todos os dias. Participam dele quase todos os primos e tios, tanto os de São Paulo quanto os de Pernambuco, e sempre que dá a gente marca de se encontrar.
E eu continuo cuidando da mamãe até hoje...
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