Dizem que cidades turísticas são curas milagrosas para corações partidos. "Vá para um lugar onde ninguém te conhece", "Viva uma aventura", eles dizem. Bom, aqui estou eu, em uma cidade que sempre ouvi dizer ser o ápice do charme e do rejuvenescimento, mas a única aventura que vivi até agora foi tentar não me afogar na poça de autocompaixão que se tornou o meu quarto de hotel.

Quinze anos. Esse é o tempo que leva para um castelo de areia se tornar uma fortaleza de concreto, ou pelo menos era o que eu pensava. Quinze anos de um casamento que eu juraria ser "maravilhoso" — adjetivo que agora me soa tão ingênuo quanto um conto de fadas barato. E então, o ponto final. Não foi um grito, não foi uma mala jogada pela janela. Foi um "plim". Uma notificação na tela do celular.

“Eu te amo muito, mas preciso ir.”

Simples assim. Como quem avisa que o pão acabou, que algo na casa quebrou ou que vai se atrasar para o jantar. Ele me deixou. E me deixou com um vazio que nem o frigobar mais caro conseguiria preencher – acredite em mim, eu tentei.

Lá fora, o tempo parece ter decidido entrar em simbiose com o meu estado de espírito. Um temporal horrível castiga a janela do quarto desde que cheguei. O céu está de um cinza tão profundo que parece que o sol pediu demissão e também foi embora sem dar explicações. Eu vim para espairecer, para respirar, mas estou presa entre quatro paredes, encarando a mesma mensagem no celular e me perguntando: em que ponto da estrada eu errei o caminho? Em que momento os nossos "maravilhosos anos" se tornaram "insuportáveis" para ele? Em que momento deixou de existir um “nós”?

Na manhã seguinte, decidi que já chega. Se o mundo vai acabar em água, que acabe comigo estando no conforto da minha própria casa.

Conseguir um táxi foi uma epopeia digna de nota. A estação de trem era perto demais para os taxistas quererem a corrida em meio ao caos, mas longe o suficiente para eu não querer chegar lá parecendo um cão de rua molhado. Por milagre, um motorista apressado me aceitou.

A estação era grande demais para uma cidade tão pequena, mesmo que turística. Era um colosso de concreto que abrigava dois trilhos de trens em uma extremidade e várias plataformas de parada de ônibus na outra. Era o tipo de lugar que exalava partidas e encontros, mas hoje só exala irritação. O saguão estava entupido de gente, um formigueiro humano em pânico por causa dos atrasos.

— Atenção — a voz metálica nos alto falantes da plataforma anunciou — devido às condições climáticas da madrugada, o trem com destino à capital sofrerá um atraso por tempo indeterminado.

Respirei fundo, sentindo o mau humor borbulhar. Nem para fugir de uma tragédia eu estava dando sorte. Com a paciência no limite, saí da estação em busca de qualquer coisa que me tirasse daquele fluxo de pessoas ansiosas.

Foi quando vi o estabelecimento logo na saída. Era um prédio curioso: embaixo, uma lanchonete com cara de refúgio; em cima, o que parecia ser uma pequena pousada, daquelas que você só encontra em filmes independentes. Entrei. O calor e o cheiro de café torrado me atingiram como um abraço que eu não recebia há muito tempo.

— Bom dia! Pode se sentar onde preferir — disse um garçom com um sorriso que parecia genuíno demais para uma quinta-feira chuvosa. — Temos o cardápio na mesa, mas se estiver com pressa, pode usar a máquina de autoatendimento ali no canto para cafés e snacks.

Agradeci com um aceno e abri o menu, tentando focar em nomes de sanduíches para não pensar na minha vida desastrosa.

Foi então que o sino da porta tocou.

Um homem entrou. E o meu corpo, que até então parecia uma carcaça fria e sem vida, decidiu me trair. Senti uma energia estranha, um frio na barriga que começou suave e subiu pela minha espinha como um choque elétrico, fazendo minha respiração pesar. Levantei os olhos involuntariamente e lá estavam: um par de olhos castanhos tão magnéticos que me fizeram perder o ar por um segundo. Este homem era dono de traços perfeitos, fortes e marcantes, do tipo que se vê em filmes de grandes bilheterias ou pelas capas de revista da GQ, mas jamais em uma cidade do interior.

Senti meu rosto arder de vergonha pela minha própria reação e rapidamente voltei a encarar o cardápio, como se ler "Ovos Mexidos" e “Misto Quente” fosse a coisa mais importante do mundo.

Pelo canto do olho, observei-o ir direto para a máquina de autoatendimento. Ele ficou de costas para mim. Alto, costas largas, uma postura impecável, daquelas que não pedem licença para existir e suas roupas denunciavam um porte atlético por baixo do casaco. Ele pegou o café, colocou uma das mãos no bolso da calça com uma naturalidade tão sedutora que chegava a ser irritante, tirou uma nota e a depositou na caixinha de gorjetas dos garçons.

Antes de sair, ele girou o corpo. Ele percebeu. Ele sabia que eu o estava devorando com os olhos. Com um meio sorriso de lado que desarmaria um exército, ele levantou o copo de café em um brinde silencioso na minha direção e saiu.

Fiquei estática, acompanhando-o com o olhar através da vidraça até vê-lo caminhar de volta para a estação de onde eu acabara de fugir.

Minha mente deu um nó. Voltei para o cardápio, mas as palavras agora eram grandes borrões.

"Clara, você está ficando burra ou o quê?", me perguntei em pensamento. "Há dez minutos você estava se sentindo o resto do lixo por ter sido descartada por um marido após 15 anos juntos. E agora... isso? Esse frio na barriga por um estranho com um copo de café? Ah, francamente!"

Sim, a vida gosta de debochar da gente.

O garçom voltou, esperando o meu pedido. Eu fechei o cardápio com uma ponta de ironia amarga no coração. Já que eu teria que ficar plantada naquela estação por horas, era melhor fazer valer a espera.

— Por favor, pode me trazer uma cerveja bem gelada — eu disse, e antes que ele se afastasse, completei: — E uma água com gás, com duas rodelas de limão.

Afinal, depois dos 30 a gente não pode se dar ao luxo de ser tão rebelde assim sem pensar na hidratação e na azia do dia seguinte.


Notas finais
Após 15 anos de silêncio criativo, finalmente a chama reacendeu. Nunca imaginei que o desejo de escrever voltaria, especialmente depois de tanto tempo sem sequer um rabisco em um caderno qualquer. Este primeiro capítulo não é apenas o início de uma história; ele representa o fim de um longo período de estagnação e o começo de uma jornada que eu, sinceramente, estava com saudades de viver. Se alguém me dissesse, há alguns meses, que eu voltaria a escrever, provavelmente teria rido, achando impossível. Mas aqui estou, tirando a ferrugem das engrenagens da minha mente criativa, e aos poucos, aprendendo novamente a caminhar por esse caminho. Sei que estou apenas reaprendendo a arte de contar histórias, então, peço um pouco de paciência com essa autora que está redescobrindo seu próprio ritmo. Agradeço de coração por estarem aqui para acompanhar esse retorno. E, como sempre, feedbacks são mais do que bem-vindos! Eles são essenciais para esse processo de evolução e criatividade.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.