A Paz
1 Capítulo Único
Notas iniciais
"A paz invadiu o meu coração. De repente, me encheu de paz, como se o vento de um tufão arrancasse meus pés do chão onde eu já não me enterro mais"
— Gilberto Gil
O silêncio; como o vento soprava com mais calma e a temperatura era mais agradável; o rosa das flores nas árvores daquele quintal; a visão de um passado que nunca realmente foi deixado para trás; Emma não sabia porquê havia escolhido aquele lugar, mas era para lá que ia sempre que sentia-se sufocada. Na verdade, quando pensava sobre isso sentia que aquele lugar a havia escolhido antes de tudo, como um chamado, ela apenas foi guiada até ele.
A ironia daquela situação a faria rir se não se sentisse tão miserável. Ela, que passou a infância tentando sair de lares adotivos, agora, que havia encontrado os pais, fugia para um. Dentro de seu fusca amarelo e comendo uma rosquinha parcialmente mofada que havia sido esquecida no porta luvas, Emma encarava o letreiro no alto do casarão: Orfanato de Storybrooke.
Ela conseguia se lembrar de todos os tristes momentos que viveu quando era levada de lar para lar, a solidão que sentia e os traumas que lhe acarretou. Ainda assim, estar ali era mais confortável do que estar em casa com sua família. Na infância a miséria era apenas dela, hoje ela era refletida em todos que a cercavam. Havia Hook forçando uma ligação que ela simplesmente não sentia; Snow pressionando para que desse o próximo passo naquele relacionamento, parecendo não enxergar que era algo falido mesmo antes de começar; e David sendo contra absolutamente tudo. Até mesmo Henry a empurrava em uma direção que ela não deseja, pelo simples fato de acreditar que ela sabe o que faz e, pior, que sempre é a coisa certa.
Enquanto seus pensamentos viajavam de um problema para o outro, sua concentração foi cortada por alguém que atravessava a calçada com rapidez. Seu cérebro não levou mais que poucos segundos para reconhecer aquele corpo, era Regina entrando no casarão. Como tudo que envolve a morena, aquilo despertou a curiosidade de Emma. Imediatamente ela saiu do carro e seguiu a mulher. Quando entrou na casa, o ângulo de visão que recebeu não lhe permitia ver Regina, então ela caminhou tentando fazer o mínimo de barulho, mas foi abordada por uma funcionária. Ela apenas apresentou o distintivo e perguntou por Regina. Seguiu o caminho indicado, por um corredor que parecia tão antigo quanto o próprio universo, até deparar-se com um grande jardim e uma quadra de esportes onde muitas crianças brincavam. Como uma fita VHS rebobinando, sua mente a levou para os momentos de recreação nos orfanatos em que cresceu. Ela simplesmente não conseguia fazer o mesmo que as outras crianças e ignorar o abandono por algumas horas enquanto as preenchiam com diversão. Ela sentava-se em um canto, o mais distante possível, e fantasiava situações em que seus pais a buscavam, arrependidos de tê-la deixado quando ainda era um bebê.
Quando sentiu os olhos arderem com as lembranças, indicando que o choro estava próximo, ela balançou a cabeça de um lado para o outro, piscou algumas vezes e voltou sua atenção para o que estava acontecendo diante de si. Passou os olhos por todo o ambiente buscando por Regina e a encontrou sentada na sombra de uma mangueira, com várias crianças ao seu redor. Com um livro em mãos, a rainha falava, fazia gestos e caretas, atitudes que arrancavam doces gargalhadas das crianças. Absolutamente hipnotizada com a cena, Emma não percebeu quando uma das freiras que supervisionavam a recreação parou ao seu lado.
— Talvez não tão má assim.
A sheriff saltou com o susto, mas acompanhou o olhar da mulher até onde Regina estava. Quando percebeu que estava sozinha novamente, voltou alguns passos e escondeu o corpo atrás da porta, prendendo também o cabelo para que ele não a denunciasse. Passou a próxima hora apenas observando a cena mais surpreendentemente amável que presenciou em toda sua vida.
Após a encenação de duas histórias, as crianças começaram a se dispersar até que apenas uma permaneceu junto de Regina. Uma menina, que provavelmente ainda não tinha dois anos, arrastou-se até o colo da morena. Emma aproveitou a distração da rainha ao brincar com os fios cacheados da criança para aproximar-se.
Quando Regina percebeu a presença da loira, seus olhos arregalaram-se em surpresa. Ela esperou que algo fosse dito, mas ao invés disso Emma apenas sentou-se ao seu lado e se concentrou no jogo que se iniciava na quadra. Ficaram longos minutos sem nada dizer, apenas apreciando a paz daquele momento, até que a voz da loira cortou o ar.
— O que isso significa?
Regina inspirou e expirou lentamente, fixou seus olhos em um garotinho de pelo menos cinco anos, que marcava os pontos da partida, enquanto decidia o que responder.
— Amor.
— Como? — Emma a encarou com as sobrancelhas levantadas.
— Olhe para elas. — A rainha esperou que a loira acompanhasse seus olhos. — Tudo que elas querem é amor.
Emma não entendeu, mas ao invés de perguntar, apoiou um braço no chão e levou a outra mão até os fios castanhos da criança do colo da morena.
— Quem é essa lindeza?
— Olívia. — Regina cutucou a bochecha da criança sonolenta. — Ela é a pequena guerreira daqui, não é, querida?
A menina apenas ronronou em seu colo, aconchegando-se mais. Regina sorriu para ela e uma luz se acendeu dentro de Emma.
— Desculpe a insistência, mas o que faz aqui?
— Como eu disse, todas essas crianças querem algo em comum: amor. Mas não têm de quem recebê-lo. Eu tenho amor, mas não tenho a quem dar. Nós fazemos isso.
Quando a compreensão caiu sobre Emma, ela sentiu a culpa comprimir seu coração. Culpa por parte da responsabilidade do afastamento de Henry e Regina ser dela, sentiu culpa pelo que sua mãe havia feito para a morena no início dessa história, culpa por não lutar todos os dias contra a cidade inteira se preciso fosse para fazer Regina sentir-se bem vinda nos lugares, culpa, talvez, até por existir e quebrar a maldição que, em tese, deveria dar à rainha um final feliz.
Observando o carinho que corria pelos dedos da prefeita ao brincar com a pequena em seu colo, Emma imaginou como era a Regina mãe. Não aquela ciumenta e controladora que ela conheceu quando chegou na cidade, e sim a que acalmou o filho após um pesadelo, que cuidou de suas dores, que brincou com ele no chão da sala de casa em uma noite de verão e que o ajudou com os deveres do colégio. Pela forma com que Regina olhava para todas as crianças ao redor, a sheriff podia ter certeza de que a rainha era uma mãe maravilhosa.
— Você não quis ter mais filhos?
Regina virou-se para com a testa franzida forçando seu raciocínio a trabalhar mais rápido a fim de compreender onde a loira queria chegar.
— Eu desejei sim.
— Por que não teve? — Emma fixou os olhos nas orbes castanhas para não perder qualquer sentimento que passasse por eles.
— Eu queria que Henry tivesse uma certa idade para não correr o risco de negligenciar os cuidados com um para cuidar de outro. Mas então ele ganhou aquele livro e tudo aconteceu. — Soltou um suspiro cansado. — Enfim, o momento nunca chegou.
— Por que você não adotou uma criança daqui ao invés do Henry?
— Essas crianças vieram com as outras maldições, não com a minha. — Regina levantou-se com Olívia em seu colo. Segurou-a com uma mão enquanto usava a outra para retirar as folhas que haviam grudado em sua calça. — Vamos?
Emma imitou os gestos de Regina e caminharam de volta para a casa. Seguiram pelo mesmo corredor, mas em direção contrária, até um quarto com várias camas, Emma esperou na porta enquanto Regina foi até uma delas e deitou a menina, cobrindo-a com uma manta fina, já que não estava frio. Depositou um beijo na testa da garotinha que despertou com o toque. Olívia contornou o rosto da rainha com as pequenas mãos e lhe deu um beijo na ponta do nariz. Regina respondeu beijando o mesmo local da menina e a envolveu em um abraço. Buscou Emma com o canto de olhos para certificar-se de que estava a uma distância segura e sussurrou no ouvido da menina, que já havia pegado no sono novamente: "eu ainda vou te levar comigo".
As duas mulheres passaram pela recepção sob olhares curiosos daqueles que ainda não conseguiam entender a amizade que nasceu entre elas. Na porta de saída, Emma a abriu para Regina, arriscando um "vossa majestade" com uma reverência desajeitada. Regina sorriu com o gesto e fingiu encanto de forma exageradamente teatral, o que arrancou uma gargalhada da loira. Um som que fez Regina concluir que, de repente, seu vocabulário era pobre, pois nada passava em sua mente para definir aquele som além de "adorável, adorável e adorável". Já na calçada, onde deveriam se separar, elas pararam e viraram-se para o casarão, Regina encarando a porta e Emma o letreiro novamente.
— Tô dentro. — Emma usou as palavras que lhe escapuliam sempre que Regina se lançava em uma missão sozinha, mas da qual a sheriff precisava desesperadamente fazer parte, às vezes pelo simples prazer de estar na companhia da rainha.
— Como? — Regina estreitou os olhos e aproximou-se um passo, como se a distância em que estavam bloqueasse sua audição.
— Amor, lembra? — Emma apontou para a casa. — Vamos dividir esse amor.
A loira virou-se e caminhou até seu fusca e dando partida, quando passou por Regina, que encontrava-se parada no mesmo lugar, acenou. Quando se viu sozinha, Regina sorriu. Sorriu pela tarde agradável que teve com as crianças, pelo cheiro da pequena Olívia que ela tanto amava, pela companhia que ganhou naquele dia e, especialmente, pelas palavras que acabara de ouvir. "Tô dentro". Ela sabia que aquilo significava que Emma não desistiria. E mesmo que nunca tenha lhe ocorrido contar para qualquer pessoa onde ela estava quando sumia do escritório durante a tarde, ela estava feliz por ser descoberta pela loira, porque a mera existência da sheriff significava, para a rainha, a certeza de que nunca estaria sozinha.
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