A Past More Than The Present
27 Consequências
Notas iniciais
2014//Argentina, Buenos Aires
– porque eu culpei você. – ela confessou olhando nos olhos dele. – porque eu culpei você pela nossa separação, pela perda do nosso filho, pela minha saída de Buenos Aires, eu culpei você por tudo. – as lágrimas voltaram para atormentá-la, descendo de forma desesperada e ruidosa. – e sabe o que é pior, León?! O pior é saber que você não teve culpa de nada disso. Saber que a culpa foi minha. Foi minha a decisão de me separar de você, foi minha a decisão de sair de carro naquele dia e foi minha a decisão de sair de Buenos Aires. Foi tudo culpa minha.
As lágrimas ruidosas da Castillo desciam de forma copiosa e desesperada, enquanto um bolo se instalava em sua garganta a impedindo de dizer mais qualquer coisa que fosse. Tornando-lhe refém de qualquer resposta que seu ex-marido lhe desse.
– você... – ele tragou a saliva com dificuldade. – não podia ter escondido isso de mim. – o Vargas murmurou com o olhar perdido.
– León, tenta me entender, eu estava desesperada. – a morena tentou se aproximar dele em vão, pois a cada passo a frente que ela dava, ele retrocedia.
– não, Violetta. – ele rugiu em voz alta, fazendo-a se encolher. – eu tentei te entender este tempo inteiro. Tentei entender o por que de você ter pedido o divórcio, o por que de você ter voltado pra minha vida depois de tantos anos. Mas, isso... – ele passou a mão nervosamente pelo cabelo. – UM FILHO, VIOLETTA. – ele gritou. – nós perdemos um filho e você escondeu isso de mim. — ele virou-se de costas para a Castillo.
Violetta o encarava, assustada. As lágrimas antes desesperadas, agora desciam lentamente acompanhando seu olhar melancólico. Ela nunca havia visto León daquela maneira, ele dificilmente perdia o controle, principalmente com ela. Mas, a morena entendia, essa situação havia passado do limite. E quando ele finalmente virou-se para encará-la, ela pode vê-lo, os olhos antes verdes brilhantes cheios de alegria, agora estavam vermelhos cheios de dor, revolta e mágoa.
– você mentiu pra mim, Violetta. – ele afirmou em um tom embargado. – e isso eu não sei se posso perdoar.
Aquelas palavras causaram um impacto tão grande e uma dor tão forte na Castillo que ela teve que se segurar no parapeito para não cair. E novamente a sensação de que estava perdendo-o a acometeu, fazendo-a entrar em desespero.
– León... – em tom de súplica, ela deu um passo na direção dele, tarde demais. Ignorando a súplica de sua ex-mulher o Vargas saiu daquele ambiente.
A Castillo adentrou seu quarto, completamente desolada, sentindo suas forças indo embora e no momento que viu León saindo por aquela porta ela soube que por conseqüência de seus atos ela havia o perdido. Confusa, cansada e com uma dor inebriante, a morena sentiu suas forças se esgotarem e caiu na inconsciência, desmaiada.
XXXX
O Vargas dirigia pelas ruas de Buenos Aires sem se importar com as leis de trânsito ou se sua falta de atenção o faria sofrer um acidente, sua mente apenas girava em torno de um nome: Violetta Castillo.
O moreno não conseguia entender o misto de sentimentos que o atingiam, mas o mais notável era a dor, a dor pela perda de um filho que ele nem sabia da existência até aquele momento.
Dentro daquele carro, pro León, as horas pareceram dias e os minutos pareceram segundos, até que seu celular tocou insistentemente o chamando de volta pra realidade que o cercava. Ao ver o número no identificador de chamados, o moreno suspirou atendendo.
– Senhor Vargas? – indagou uma voz masculina do outro lado da linha.
– Sim, Ramalho. – respondeu León em tom frio.
– Senhor, aconteceu algo terrível. – o Vargas franziu o cenho confuso. – mas, não precisa se preocupar, eu já cuidei de tudo.
– o que houve, Ramalho? – indagou impaciente, podendo apenas captar um suspiro de pesar do outro lado.
– a senhorita Violetta... nós a encontramos desacordada no chão do quarto, senhor. Então, eu a trouxe até um hospital. – ao ouvir aquela notícia as defesas do Vargas desarmaram e a dor de antes se transformou em desespero.
– em que hospital você estão, Ramalho? – o Vargas indagou, já tomando um caminho distinto do de antes.
– Hospital Central de Buenos Aires. – o homem do outro lado da linha informou.
– chego aí em meia-hora. – informou Léon, finalizando a chamada.
(...)
O Vargas adentrou o hospital visivelmente alterado, toda a paciência que tinha havia se esvaído durante o trajeto até o hospital e o tempo que ele levou para estacionar o carro. Logo que foi capaz de alcançar a recepção, um enfermeiro entrou no campo de visão de Ramalho, que estava sentado tranquilamente na sala de espera.
– Ramalho. – o patrão chamou a atenção do homem para si.
– Senhor. – Ramalho o cumprimentou.
– onde ela está? – indagou o Vargas impaciente.
– ainda não deram notícias, senhor. – no mesmo momento um enfermeiro apareceu no campo de visão dos homens ali presentes.
– acompanhantes de Violetta Castillo. – ele chamou e León logo foi de encontro a ele.
– aqui. – o Vargas pronunciou.
Ao tirar os olhos da ficha que segurava, o enfermeiro encarou o Vargas, olhando-o de cima a baixo com certa repulsa, atitude que certamente irritou o Vargas.
– o que o senhor é dela? – a forma tão informal que o enfermeiro se referia a Violetta fez o sangue do Vargas ferver.
– Ex-marido. – León rosnou.
– sinto muito, mas só quem pode visitá-la é a família. – a maneira irônica com a qual as palavras foram proferidas fizeram a paciência do Vargas chegar ao limite.
Em um movimento que surpreendeu e assustou a todos, León pegou o enfermeiro pela gola do jaleco branco e jogou contra a parede, com uma das mãos em volta do pescoço dele, apertando.
– escuta aqui, seu enfermeiro de merda. Eu não te conheço e nem sei quem você é, da mesma forma que tenho certeza que você não me conhece, então vou te explicar uma coisa. – o enfermeiro o encarava com raiva. – se o sobrenome Vargas não te diz nada eu vou te explicar. – o enfermeiro arregalou os olhos. – se você não me deixar ver a minha mulher neste exato momento eu faço colocarem esse hospital no chão, e faço de minha ocupação pessoal fazer um inferno na sua vida entendeu?! – seguindo de uma risada irônica, o Vargas continuou. – então eu só vou perguntar uma vez. – apertando os dedos em volta da garganta do homem, León rosnou as próximas palavras. – em que quarto ela está? – engolindo seco o enfermeiro respondeu.
– final do corredor, quarto 21.
– que bom que nos entendemos. – com a ironia pingando na voz, o Vargas se afastou do homem seguindo para onde ele havia indicado.
Um corredor hospitalar nunca pareceu tão longo aos olhos do Vargas, ele sentia como se cada passo dado prolongasse mais o caminho, até que finalmente chegou a porta indicada como 21. Sem perder mais tempo, girou a maçaneta e empurrou a porta podendo logo ter ao alcance de seus olhos a figura de uma Violetta pálida e desacordada sobre um leito de hospital.
Os olhos do Vargas arderam ao ver aquela mulher daquele jeito, sua mulher. E de repente, nada mais importava, a mentira, a traição, a perda de uma criança... naquele momento tudo se resumia simplesmente a Violetta Castillo.
Com passos vagarosamente lentos, o moreno se aproximou do leito e sentou-se na poltrona ao lado, podendo ter uma visão mais ampla da Castillo. Erguendo uma das mãos ele lhe acariciou o rosto e em um sussurro disse...
– você vai ficar bem. Eu prometo.
(...)
As horas que se transcorreram naquele quarto, para León, foram de uma tortura inexplicável. Já para Violetta, nada se passava, pois ainda estava desacordada devido ao calmante que lhe aplicaram. Com o efeito já passado do remédio, a Castillo se pôs a recuperar sua consciência, tentando de uma forma significativa abrir seus olhos, mas assim que o fez se arrependeu amargamente pois a claridade era tamanha que a obrigara a piscar os olhos várias vezes até se acostumar. Foi quando constatou que não estava só naquele quarto, ao seu lado estava um homem capaz de deixar suas pernas bambas e balançar sua estrutura. Seu ex-marido, Léon Vargas.
Tragando dificultosamente a saliva que agora possuía um amargo gosto matinal, a morena se pôs a falar.
– León... – chamou, mas a voz saiu mais fraca do que o esperado, não que houvesse dado importância a esse fato quando seus olhos chocolate se chocaram com a imensidão verde de seu ex-marido. – o que aconteceu? – indagou confusa e com um suspiro aliviado, León lhe respondeu.
– você desmaiou e Ramalho lhe trouxe ao hospital – explicou. – eu lhe pedi que procura-se um médico, Violetta. Você poderia ser menos teimosa. – ele alfinetou fazendo com que a garota revira-se os olhos.
– onde está minha filha? – indagou.
– nossa filha está em casa e não se preocupe, Melissa é perfeitamente capaz de passar uma noite sozinha em casa. – ele afirmou e a Castillo o encarou, sabia que necessitavam conversar, mas não imaginou que seria tão cedo.
– Léon, eu...
– shiiu... – ele a interrompeu colocando o dedo indicador em seus lábios. – depois... – murmurou e a Castillo assentiu.
Logo foram interrompidos pela chegada de dois homens que seriam no mínimo intrigantes.
– boa noite... ou seria bom dia? – indagou um dos homens ao entrar na sala, o mais velho. Violetta franziu o cenho.
– que horas tem? – indagou e o homem de jaleco que entrou acompanhando o mais velho riu enquanto mexia no soro que a morena tomava.
– são cinco da manhã. – o homem lhe respondeu. – a paciente mais linda desse hospital demorou a abrir os olhos. – ele riu e a Castillo corou sorrindo, mas seu sorriso murchou ao encontrar o olhar fulminante que León lançava a si e ao homem.
– Clement, por favor... – o homem mais velho pediu sem graça. – não é ético cortejar as pacientes.
– concordo plenamente, Antônio. – o Vargas concordou com a voz rouca de raiva, mas o que chamou a atenção de Violetta fora a intimidade com a qual o moreno tratou o médico.
– já se conhecem? – indagou com um olhar no mínimo divertido.
– sou médico da família Vargas há alguns anos e confesso que já ouvi falar muito bem da senhorita, principalmente de Sofia Vargas. – a citação da mãe de León na conversa fez Violetta sorrir, realmente amava Sofia como se fosse sua mãe.
– Sofia é um amor. – afirmou e Léon lhe lançou um sorriso, sempre havia admirado a relação da Castillo com sua mãe.
– e gosta muito da senhorita, mas garanto que não é o único. – advetiu Antônio encarando León e Violetta riu. Só não contava com ouvir um bufar vindo do enfermeiro, Clement.
León encarava Clement com uma raiva descomunal, ele havia sido o enfermeiro que havia lhe impedido a passagem até o quarto de Violetta, e o fato de ele estar explicitamente interessado na Castillo não lhe agradava nem um pouco.
– bom, agora como médico eu necessito conversar a sós com a paciente Castillo. – informou Antônio e Clement direcionou um sorriso debochado ao Vargas.
– Antônio, vão precisar chamar a polícia pra me tirar daqui. – informou o Vargas em tom sério. Violetta suspirou, pois já sabia qual seria o assunto a tratar com Antônio.
– León, por favor... – pediu Violetta trazendo a atenção do Vargas pra si, ele a encarou com uma calma tão grande que nem parecia o mesmo homem que negava-se a sair daquele quarto há segundos atrás. — prometo lhe dizer tudo que ele me informar. – a Castillo prometeu certa de que teria que faze-lo de qualquer forma.
O Vargas respirou fundo, sabia que não teria jeito, teria que deixa o quarto, mas a idéia de deixá-la no mesmo ambiente que aquele enfermeiro debochado sem sua presença lhe provocava uma enorme raiva. Em um ato de estrema possessão, o Vargas inclinou-se sobre o leito e pressionou os lábios quentes nos de Violetta, em um beijo calmo, sem línguas e sem malícia, apenas o suave toque de seus lábios, em um ato de carinho para mostrar que ela era somente sua.
Quando o ar faltou, o casal foi obrigado a se separar e o Vargas colou suas testas ainda de olhos fechados, como se apenas aquela distância doesse.
– vou ficar bem... – murmurou a Castillo entorpecida pelo beijo e de olhos fechado, mas logos os abriu, vendo León assentir e se afastar, deixando a sala.
Ao levar o olhar aos dois homens que lhe acompanhavam naquela sala, as bochechas da Castillo adquiriram um tom de vermelho vívido ao ver o sorrisinho de canto de Antônio e a expressão desgostosa de Clement.
– então... – com uma tosse forçada Antônio se pronunciou. – imagino que a senhorita saiba porque quis conversar contigo sozinha, sem a presença de León, receio que ele não saiba sobre sua gravidez.
– ele ainda não sabe. – afirmou Violetta.
– e quando a senhorita pretende contar ao pai da criança? – indagou Antônio inseguro, poderia estar pisando em um campo minado se o filho não fosse do jovem Vargas, mas pra sua surpresa a morena riu.
– o filho que estou esperando é do León e pretendo contar a ele na primeira oportunidade que tivermos. – Clement se engasgou com a confirmação de paternidade, fazendo com que a atenção de Antônio e Violetta fosse voltada a ele.
– achei que estivessem separados. – soltou sem se conter e recebeu um olhar feio de Antônio.
– Clement já chega, está passando dos limites. – afirmou Antônio rígido. – a vida pessoal da paciente não lhe interessa, agora faça o favor de se retirar. – ordenou o médico e logo Clemente lhe obedeceu. Com um olhar constrangido, Antônio se direcionou a Violetta. – me desculpe por isso, meu neto as vezes é muito impulsivo.
– ele é seu neto? – indagou a Castillo curiosa.
– sim, Clement é meu único neto interessado na medicina. – o médico respondeu. – mas, voltando ao assunto, senhorita Castillo, pelos exames feitos o desmaio não foi nada grave, foi apenas conseqüência da gravidez e é aí que está o problema. – a Castillo suspirou tentando não ouvir as próximas palavras. – senhorita Castillo, imagino que saiba que sua gravidez corre grandes riscos de não chegar ao fim.
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