A Passagem
1 A Passagem
- Você não acredita nessas coisas, não é?
- Rodrigo?! To falando contigo.
Rodrigo se recusava a responder. Ele sabia o que tinha visto.
- Não me diga que você... Para de bobagem!
- O que você acha que foi então? – perguntou Rodrigo finalmente se pronunciando.
Seu amigo hesitou por um momento e suspirou impaciente enquanto aguardava a liberação do semáforo.
- Eu acho – recomeçou o seu amigo – é que você quase não dormiu de ontem para hoje em virtude dessa viagem. Chegamos ao aeroporto.
Rodrigo soltou um sorriso seco e puxou a bagagem de mão para perto de si. Agradeceu ao amigo pela carona e este lhe falou:
- Lembre-se, não havia nada lá.
Rodrigo concordou com a cabeça e se virou para entrar no aeroporto. O reflexo da porta automática por um momento exibiu o seu ar cansado, mas Rodrigo logo estaria junto a sua família. As energias seriam renovadas e o susto esquecido.
Na primeira noite de visita a sua família Rodrigo demorou a dormir. Havia algo no vento que o incomodava. A casa que ficava na parte alta das serras do Espírito Santo batia suas janelas insistentemente. Rodrigo virava de um lado para o outro. Deitava mais para a beirada do travesseiro. Puxava o cobertor. Mas o sono não vinha. O vento parecia ter vencido a batalha. Sua intenção era a de mantê-lo acordado apenas para fazê-lo pensar no que havia visto. E até sua mente atiçava com perguntas do tipo “Foi aquilo mesmo que eu vi?”.
Dois dias atrás Rodrigo havia acordado às uma e treze da madrugada com a bexiga apertada. Mais um minuto na cama e ele molharia os lençóis. Como já conhecia o caminho de cor Rodrigo não acendeu as luzes e saiu para o corredor. O banheiro ficava ao fundo. Mas ao chegar próximo algo o fez paralisar de medo. Estranhamente havia uma passagem entre a quina da parede e a porta do banheiro. Rodrigo se sentiu tentado a tocá-la ou até mesmo atravessá-la. Algo lhe dizia que ele possuía permissão para tal. Como se aquela assustadora descoberta não fosse obra do acaso.
Para se certificar de que não estava vendo coisas Rodrigo fechou os olhos com força e tornou a abri-los. A misteriosa passagem continuava ali. E mesmo no escuro Rodrigo era capaz de distingui-la. Sua bexiga emitiu um alerta de dor para o corpo num claro sinal de que não agüentaria nem mais um segundo. Rodrigo entendeu o recado e entrou no banheiro as pressas, soltando um suspiro de alivio por finalmente ter urinado. Com a luz do banheiro acesa Rodrigo voltou o olhar para o corredor e a passagem havia sumido. Voltou para a cama intrigado e desde então, não falava de outra coisa.
A nova semana logo chegou e junto a ela um bom acontecimento. O aniversario de um querido amigo seu. O local escolhido para a comemoração foi um bar alternativo na Rua Augusta. De forma que na noite de quinta feira Rodrigo tomava o metrô pouco depois das dez da noite. Era o mês de julho. Período de férias escolares. Um feito que costumava aliviar a lotação nos transportes públicos da cidade porque muitas famílias viajavam. Rodrigo desceu até a plataforma de embarque da estação Brigadeiro e aguardou. Junto a ele se reuniu apenas uma mulher. Um aviso sonoro alertou que o próximo trem não prestaria serviço naquela estação e Rodrigo consultou o relógio impaciente. Não queria ser o ultimo a chegar no aniversario.
- Sabe uma coisa engraçada quando o metrô passa rápido pela gente? – perguntou a mulher começando a falar do nada.
- Hum. – murmurou Rodrigo sem lhe dar muita atenção.
- Parece que uma passagem se forma do outro lado da parede. Imagina se alguém decide atravessá-la? Que perigo!
Rodrigo arregalou os olhos surpreso e tomou um susto quando o trem passou direto por eles.
- Acabo de lembrar que estou na entrada do carro errado. – comentou Rodrigo indo mais para o fundo da estação.
Que comentário fora aquele daquela mulher? Era muita coincidência. Rodrigo contou cada minuto até o próximo trem passar e só conseguiu se livrar da agitação quando se reuniu com os seus amigos. Um dos convidados também era o seu amigo em comum, Tiago. O mesmo que lhe levou ao aeroporto. Rodrigo tentou contar sobre a mulher do metrô. Mas Tiago insistiu para que ele parasse de tratar o caso com paranóia. Bastava ignorar que a vida logo trataria de fazê-lo esquecer. Não havia nada no corredor e ponto final.
Naquela mesma noite Rodrigo teve um dos sonhos mais estranhos da sua vida. Ele estava de volta a estação Brigadeiro do metrô. A mesma mulher também estava presente, mas dessa vez ela nada falava. O relógio da estação marcava uma e treze da manhã. Desde quando o metrô funcionava naquele horário? Depois de mais de cinco minutos de espera uma luz de lanterna surgiu de dentro do túnel. Era um funcionário do metrô. Ele os fitou surpreso e falou:
- Se eu pedir para vocês saírem correndo, vocês saem. Entenderam?
O sonho cortou e Rodrigo se viu correndo escadaria acima. Um novo corte o mostrou entrando na Avenida Brigadeiro e parando de correr de frente ao Hipermercado Extra. A única coisa aberta era uma farmácia do outro lado da rua. E antes que Rodrigo pudesse reparar em mais alguma coisa uma explosão sacudiu tudo fazendo Rodrigo buscar equilíbrio nas grades do estacionamento do hipermercado e uma bola de fogo iluminou a noite, ultrapassando a altura dos prédios da Avenida Paulista.
Rodrigo acordou em pânico. Seu coração estava disparado e o suor que lhe escorria era frio. Não era para menos. Sonhar com uma explosão no metrô em plena Avenida Paulista era no mínimo bizarro. Buscou pelo celular e a primeira coisa que viu foram as horas. Uma e treze da manhã. Sua mente despertou na expectativa de que a passagem poderia estar de volta ao corredor. Mas a frase da mulher do metrô ecoava na sua mente. “Imagina se alguém decide atravessá-la? Que perigo!”. Domado pela incerteza Rodrigo decidiu não sair da cama e só conseguiu voltar a dormir quando o dia amanheceu.
Sem o apoio dos amigos Rodrigo buscou respostas por meio de pesquisas na internet e se surpreendeu quando descobriu que os corredores eram tidos como uma espécie de pluralidade de portais. Os relatos de pessoas que viam coisas ou passagens nos corredores existiam aos montes. Talvez a estranha mulher do metrô também tivesse visto uma passagem e desde então procurava por alguma resposta. Foi justamente em busca por mais respostas que Rodrigo passou a ajustar o despertador para as uma e treze da manhã. Mas ele se viu frustrado por não conseguir reencontrar a passagem. Ele considerou que precisaria ser acordado por um motivo aleatório. Mas por mais que Rodrigo desejasse ele não conseguia acordar as uma e treze.
A vida parecia ter voltado ao normal. Próximo a entrada do mês de agosto uma manchete no jornal chamou sua atenção. Um vazamento de água na estação Consolação do metrô ocasionava varias goteiras. As justificativas dadas pelo governo sempre ficavam a desejar. Rodrigo decidiu acompanhar o caso. Na tarde do sábado ele havia marcado de encontrar Tiago na loja da Fnac na Avenida Paulista. As horas sempre voavam dentro daquele lugar.
Quando Rodrigo e Tiago saíram da Fnac e atravessaram a avenida em direção ao café da Reserva Cultural, a noite já havia caído. O motivo para dar uma esticada na Reserva era o mais clássico de todos. Saborear o autentico sorvete de manjericão. Depois de satisfazerem o desejo os dois voltaram a superfície da avenida para se despedir e uma queda brusca de energia surpreendeu a todos que por ali transitavam. Rodrigo olhou para os relógios fixos ao longo da avenida e todos eles travaram no horário das uma e treze.
- Rodrigo, você ta bem? – perguntou Tiago lançando-lhe olhares de estranheza.
- Claro que estou! Para de me olhar torto. – resmungou Rodrigo – Vai pro metrô? Eu te acompanho.
Os dois seguiram até a estação Brigadeiro em silencio. A queda de energia durou apenas poucos segundos, mas os reflexos parecem ter sido grandes porque assim que eles chegaram nos bloqueios da estação uma fileira de pessoas impacientes eram impedidas de entrar.
- Como assim não esta funcionando? – gritava uma mulher exaltada – Vocês nunca explicam nada direito pra gente.
- Moço. – chamava um rapaz tentando atrair a atenção de um funcionário do metrô – minha amiga ligou falando que esta presa dentro de um trem parado a mais de vinte minutos.
Tiago perguntou a uma pessoa próxima o que acontecia e ela explicou que todo o complexo da linha verde havia parado de funcionar por conta de uma falha elétrica. Ainda não havia uma previsão para normalização. Ele acompanhava o caso pelo Twitter e parecia mais bem informado que os próprios funcionários do metrô. Tiago se virou para Rodrigo e falou:
- Vou ficar por aqui então. Eles já devem estar correndo contra o tempo para reparar o dano.
- Vai ficar parado aqui em pleno sábado à noite? Vamos até minha casa, pedimos uma pizza e depois te levo de carro.
- O que? Não mesmo. Não precisa se incomodar.
- Incomodo de que? Estou em divida de uma carona com você.
- Já disse que não precisa. – recusou Tiago empurrando-o para fora da estação.
Rodrigo iria protestar, mas a esteira rolante já o carregava para a saída da estação. Na Avenida Paulista as pessoas não paravam de comentar sobre a queda de energia e o absurdo de mais uma falha do metrô. Os relógios continuavam a marcar uma e treze. Era muita coincidência para um único dia. Rodrigo apertou o passo para chegar mais rápido em casa e quando dobrava para entrar na Avenida Brigadeiro um tremor sacudiu o chão fazendo varias pessoas gritarem. Rodrigo recuperou o equilíbrio e dessa vez começou a correr. Seu coração apertou ao pensar em Tiago, mas um novo tremor distraiu seus pensamentos e dessa vez a força elétrica caiu por completo. No meio da avenida os veículos freavam bruscamente e os motoristas buzinavam exasperados. Rodrigo quase foi atropelado ao atravessar para o outro quarteirão. Um terceiro tremor ocorreu com tamanha intensidade que o jogou ao chão. E antes que ele pudesse tentar levantar uma bola de fogo iluminou o céu.
A histeria tomou conta da população. Rodrigo procurou levantar para não ser pisoteado e usou o flash do celular como lanterna. As pessoas não sabiam se entravam em algum estabelecimento ou permaneciam paradas na rua. Mais do que nunca Rodrigo precisava chegar ao seu apartamento. Ele descia a avenida em disparada enquanto novas explosões ocorriam pouco mais distantes. Ouviu alguém gritar que a Paulista estava desabando. Mas não acreditou. Uma avenida daquela magnitude desabar de uma hora pra outra não podia ser verdade!
O prédio em que Rodrigo morava ficava no lado oposto pelo qual descia. Como ele conseguiria atravessar com os carros e ônibus trafegando tão velozmente? Mais um tremor voltou a acontecer e um forte barulho parecia rasgar o chão do asfalto. Foram os faróis dos carros que possibilitou Rodrigo a ver que o meio da Avenida Brigadeiro abria numa rachadura. Os carros para tentar desviar subiam pelas calçadas e colidiam com os postes, lixeiras. Um dos veículos veio em sua direção e Rodrigo correu para o lado bem a tempo em que o carro entrou com tudo pela janela de vidro do banco Santander, fazendo o alarme do banco disparar. Rodrigo respondeu fundo e se lançou no meio da avenida. Era tudo ou nada. Pulou a rachadura que soltava uma baforada quente e passou correndo pela portaria do seu prédio. A única coisa que havia nela era um radio ligado. Um locutor histérico anunciava que vários lugares do mundo estavam afundando.
- Do mundo?! – repetiu Rodrigo em pânico enquanto corria para as escadas de emergência.
Rodrigo agradeceu ao fato de morar no terceiro andar e começou a subi-las. Um novo tremor o fez buscar por apoio. Toda a estrutura do prédio rangeu. Mais um tremor ocorreu e o celular caiu. Não havia tempo para buscá-lo. A estrutura do prédio voltava a ranger com mais força. Pela primeira vez Rodrigo temia não conseguir chegar ao seu apartamento. As luzes de emergência piscavam tentando se manter acesas. Rodrigo segurou firme a chave de casa e se debruçou na sua porta tentando conter o nervosismo das mãos. Mesmo no escuro ele já conhecia o caminho. A lateral entre a parede do corredor e a porta do banheiro era o local exato da passagem. O máximo que poderia acontecer era ele colidir com a parede e voltar com tudo para o chão do corredor. Com a porta aberta Rodrigo deu os últimos passos daquela travessia e se lançou.
A principio Rodrigo fechou os olhos. Uma forte pontada de dor parecia rachar sua cabeça em duas. Ele pensou que era por causa da colisão com a parede. Só então Rodrigo percebeu que era um enorme clarão que o forçava a fechar os olhos. Com a visão acostumando a claridade Rodrigo percebeu que estava de pés num espaçoso cubículo branco. Outras pessoas também compartilhavam o espaço. Elas o observavam aflitas. Deveriam totalizar umas dez. E a frente deles uma única porta indicava a provável saída daquele ambiente.
- Onde estamos? – perguntou Rodrigo analisando-os.
- Não sabemos. – respondeu um deles.
- Vocês também...?
Varias deles confirmaram com a cabeça.
- Outras pessoas já passaram por aqui. – explicou uma mulher – Mas elas conseguiram sair.
- Como?
- Aparentemente – respondeu um rapaz – essa porta é a única saída.
- Mas não sabemos como abri-la e nem para onde ela dá. – complementou uma terceira pessoa.
- Não sei bem se consegui entender. – admitiu Rodrigo.
- Essa porta – apontou a primeira mulher – só é aberta por determinadas pessoas. Todos que a ultrapassaram não conseguiram voltar. Também não sabemos se não podemos ultrapassá-la, já que não conseguimos abri-la ou se apenas a nossa hora de abri-la não chegou.
Rodrigo olhou para a porta e a única senhora do grupo tocou o seu braço falando:
- Você quer tentar?
Rodrigo engoliu em seco e recuou sem saber qual decisão tomar. A porta tanto poderia levá-lo a um novo lugar como também poderia levá-lo de volta a aparente destruição do mundo.
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