A Passageira

8 Capítulo VIII


Notas iniciais
Demorei muito pra escrever, mas espero que as coisas se acertem agora. Continuo com A Passageira aspiro o gosto de vocês leitores. Comentem, critiquem, elogiem, mas não deixei de ler. Obrigada :)

07 de setembro de 1994 – Anson/Maine

– Molly venha aqui agora.

Lyra usou um tom de voz tão diferente do usual que me fez levantar do sofá em um pulo. Ela estava na cozinha descascando batatas e Jimmy cortava cenouras. Joey me olhava recostado na pia com um copo nas mãos. Seu olhar era frio como nos dias normais. Ela soltou a faca dentro de uma bandeja e arrastou uma cadeira ao seu lado para que eu me sentasse.

– Sim? – questionei com um tremor na fala.

– Quando planejava nos contar que tem um encontro hoje à noite?

– Na hora que eu estivesse saindo? – tentei forçar uma piada, que não foi bem recebida.

– Boa tentativa, mas não cola mocinha – interrompeu Joey.

– Mas ele é um bom garoto, ele é amigo do Jimmy – apontei – Você não explicou a eles?

– Sim, ele falou conosco e estamos de acordo, mas gostaríamos que nos contatasse quando resolvesse simplesmente sair por aí.

– Mas Lyra, eu nem tinha certeza se iria, ele me chamou na segunda, terça, não me lembro.

– Mas – ela segurou minhas mãos – Vamos para seu quarto, quero falar com você sobre isso.

Concordei e corri de volta antes que Joey decidisse me repassar alguma reflexão que perduraria por dias na minha caixa intelectual, como diz a Srtª Greta. Lyra entrou logo após e encostou a porta. Sentou-se na minha cama e tivemos assim nossa primeira conversa de mãe e filha.

– Muito bem querida, esse será seu primeiro encontro certo?

– Sim.

– Ele vai passar as sete para lhe apanhar. Falaremos com ele e você deve estar aqui as onze ouviu, nem um minuto a mais, senão Joey cortará novas saídas.

– Tudo bem, mas tenho um problema.

– Qual querida?

– Bem – me sentei na cama ao lado dela – Não sei o que vestir, quero parecer uma mulher, não uma menina de vestidinho e tênis all star, entende?

– É claro que sim, e é por isso que vamos comprar algo novo para você, agora.

– Agora? Mas e o almoço?

– Joey pode terminar, vá se arrumar.

– Obrigada mãe – falei rapidamente.

– Eu te amo filha, tanto.

Foi a melhor sensação que eu poderia ter em relação a ela. Durante o caminho até o centro da cidade ela falou sobre seus encontros, seus ex-namorados e sobre a primeira vez que saiu com Joey e sobre como ele derramou vinho no vestido branco dela. Coisas assim me tiraram do nervosismo de estar indo a um encontro do qual não desejava tanto assim. Nossa primeira parada foi na Lady’s Bloom, que anos mais tarde seria uma filial da Sacks. Lyra conhecia bem as atendentes e elas conversavam sobre várias coisas enquanto eu procurava por algo que me agradasse. Uma garota um pouco mais velha me ofereceu ajuda.

– Não sei bem o que quero, talvez alguns vestidos de noite.

– Tudo bem, venha comigo – ela disse já me arrastando para o outro lado da loja – Qual seu tamanho? Trinta e oito?

– Seis.

Ela me mostrou dois muito bonitos. Um era de uma manga comprida e o outro ombro ficava ao avelo. Era vermelho com um cinto de pedrarias brilhantes. Achei extravagante. O outro era uma espécie de balonê muito justo na cintura, com um busto cravejado de lantejoulas brancas. Mas nenhum me provocou emoção, se é que uma peça de roupa possa ter esse poder. Acabamos desistindo e Lyra me levou até outra loja, e depois outra. Na terceira, os vestidos eram lindos, mas tão caros, que para experimenta-los, pagava-se uma taxa extra. Decepcionante. Por fim, decidimos que eu escolheria algo que fizesse me sentir bem, independente de ser um vestido ou não. Acabei com uma calça jeans nova, um blazer xadrez e um coturno preto. Era de se esperar.

Voltamos para casa durante o almoço não trocamos muitas palavras. Dediquei a tarde para dormir e cuidar de Carrie. Por um breve momento me senti bem em estar saindo com alguém. Por volta das cinco, levantei e tomei um banho longo. Enrolei os bobes nos cabelos e os sequei. A roupa funcionou e não me senti muito estranha, não mais que o habitual . Soltei os cabelos e os cachos estavam bons. Pouco antes das sete eu já estava pronta. Todos nós estávamos sentados na sala quando a campainha tocou. Joey atendeu a porta e lá estava Jared. Jaqueta de couro, sapatos lustrosos, óculos escuros e camisa branca. Um total bad boy dos anos oitenta.

– Boa noite, sou o Jared, prazer em conhecê-lo senhor.

– Joey Gerritsen.

– Pai da Molly certo?

– Pode ter certeza que sim.

– Muito bem, eu gostaria de conhecê-los para mostrar que tenho as melhores intenções com sua filha senhor.

– E eu espero que as mantenha.

– Com certeza senhor.

– Entre, ainda não são sete horas, podemos conversar um pouco.

O clima era pesado e todos pareciam membros de uma tribo prestes a atacar e sacrificar um javali. Jared cumprimentou a todos e a mim por último. Se sentou ao meu lado e parecia meio perplexo.

– Você está maravilhosa – ele sussurrou enquanto ninguém nos observava. Apenas sorri.

– Então Jared – pigarreou Joey – Você tem um sobrenome?

– Gray senhor, Jared Gray.

– Muito bem, para onde vão e como vão?

– Pretendo leva-la para jantar, eu estou com meu carro.

– Ah você tem um carro, e quantos anos tem?

– Dezessete, fiz na semana passada.

– Eu a quero as onze dentro de casa. Nada de as onze sairemos daqui ou estamos à caminho. Entendeu?

– Sim senhor.

– Ótimo, se divirtam e cuide dela como se fosse sua irmã.

– Tudo bem.

Quando saímos, Joey ficou na porta até que o elevador descesse e então o perdemos de vista.

– Ele é durão sempre?

– O tempo todo.

– Preciso impressioná-la não é?

– Precisa? – sorri e saí do elevador.

– Vou pegar o carro, me espera aqui na frente?

– Claro.

Enquanto ele ia para o outro lado do prédio, me apoiei na parede esperando uma brisa de ar frio que viesse da garagem escura.

– Boa noite Molly.

Eu conhecia a voz, conhecia a camisa e definitivamente o perfume era o mesmo.

– Muito boa Tate, está entregando pizzas agora?

Ele riu.

– Na verdade estou pedindo mesmo, odeio cozinhar – ele se apoiou no batente da porta de entrada – Você está bonita.

– Não estou.

– É verdade! Eu lhe convidaria para subir e jantar comigo, mas pelo jeito vai sair com sua família não é?

“Por Deus” – pensei comigo mesma. Daria tudo para arrancar aqueles sapatos horríveis e subir com ele. Infelizmente não poderia. No mesmo instante Jared já estava me esperando.

– Molly? Vamos?

Tate olhou para ele e depois me lançou um olhar brincalhão. Pensei que ele reagiria como eu quando vi Julie em sua porta. Mas ele riu, como se fosse normal, como se eu não estivesse saindo com um cara que não ele.

– Já que está tão bem acompanhada, apenas lhe desejo boa noite.

Ele não deixou que eu respondesse e entrou. Aquilo com certeza destruiu minha noite. A lanchonete era na cidade do lado, muito colorida, com músicas boas e jovens como nós. Mas porque eu me sentia mal? Conversamos muito e rimos também. Ele era lindo, inteligente e possuía um considerável poder aquisitivo. Era o cara perfeito, mas para outra garota. Para mim, o homem perfeito estava comendo pizza em seu apartamento bagunçado e solitário. Depois caminhamos pela cidade e fomos a um fliperama. Pouco antes das onze estávamos no hall do prédio e tudo ocorrera muito bem.

– Foi ótimo sair com você Molly, espero que tenha sido bom para você.

– Claro que foi, nem se preocupe com isso.

– Você já tem que ir não é?

– Infelizmente.

– Tudo bem, me desculpe por isso, mas ..

Ele não concluiu a frase com palavras, mas sim com um beijo. Um longo e suave beijo. Seu sorriso no final foi tão gentil. Ele me abraçou e foi embora.

– Te vejo na segunda, Molly.

Quando a porta bateu me senti sozinha como nunca. O corredor da recepção estava vazio e silencioso. Meus olhos marejados ardiam e eu me sentia mal. Não por ter beijado um cara, jamais. Mas por sentir que não alcancei a alma de Tate como gostaria. O relógio de cima do balcão registrava que eu ainda possuía vinte minutos até às onze horas. Pensei se deveria ir até o apartamento dele, mas era tarde para um incomodo de quinze minutos. O som de um telefone tocando me provocou uma súbita dor de cabeça. Tudo começou a girar e acabei me sentando numa cadeira. O som continuava se estendendo por todo o corredor. Senti que iria desmaiar. Uma figura surgiu do fim da escada de acesso e a luz tremulou. E de repente a energia cessou. Corri o mais rápido para o elevador que funcionava por geradores. Os botões não funcionavam e eu sentia o vento frio correr por entre minhas pernas. Saí e fui em direção à escada do piso superior. Subi os degraus correndo e aos tropeços. No primeiro andar as luzes continuavam dando longas quedas e a porta do elevador abria e fechava a todo instante. Continuei subindo e lutando contra meu próprio corpo. No segundo andar perdi totalmente as forças e me sentei na escada. Podia sentir claramente que alguém me perseguia e tirava minhas forças. Pensei que fosse hora de aceitar que algo estava errado.

– Quem é você? – gritei ainda que com som abafado – O que quer de mim?

A luz voltou e tudo estava aos olhos dessa vez. O carpete em frente á escada tinha uma enorme mancha que mais parecia sangue. Só consegui pensar em Terrish. Pisquei forte e ao abrir os olhos tudo estava limpo. Levantei e continuei subindo até alcançar a porta de casa. Abri e entre rapidamente. Não havia ninguém na sala. Acendi a luz e fui para a cozinha. Joey estava sentado à mesa junto com Lyra. Tentei disfarçar o desespero, mas estava óbvio que algo havia acontecido. No entanto eles não estavam pensando nisso.

– Molly, tudo foi bem?

– Sim, claro, porque estão assim, não passa das onze.

– Sabemos disso, mas queremos lhe contar algo – falou Lyra com uma voz um pouco assustada.

– Meu Deus, o que aconteceu? Jimmy está bem?

– Está sim, se acalme.

– Porque, me contem logo – falei me sentando bruscamente na cadeira.

– Uma menina aqui do prédio sumiu.

– Como assim sumiu?

– Cissa, ela desapareceu pouco depois das oito. Os pais chegaram e ela não estava. Encontraram os sapatos dela jogados no banheiro, a porta entre aberta e sangue na pia.

– O que, mas como?

– Não sabemos também, mas se lembra do homem que disse que morava com a filha? Aquele do primeiro dia que chegamos aqui?

– Sim, o pai da Aubrey.

– Molly, ele não mora com a filha. Aubrey faleceu seis anos atrás e ele acabou por perder a razão, não tem consciência, e insiste que ela ainda vive com ele. A polícia o levou para depor e está como suspeito pelo sumiço de Cissa. Parece que ele estava bêbado e perambulando pelo prédio.

Minha cabeça rodava. Como ela estava morta se eu havia visto ela por dias na escola? Não era possível. Procurei não questionar nada sobre isso, pois apenas pioraria a situação.

– Tome o máximo de cuidado com tudo ouviu? A partir de agora eu vou levá-los e buscá-los da escola todos os dias.

– E não quero você de conversa com nenhum homem daqui, ouviu bem? – impôs Joey.

Apenas concordei e depois fui para o quarto. Os pensamentos estavam às voltas e pareciam nadar num mar de incertezas. Definitivamente eu estava ficando louca ou todos estavam fora de si. Tinha certeza de que conversara com ela, de que me sentara com ela no almoço. Ninguém morre e depois frequenta a escola. Depois de horas a fio, acabei dormindo, pesada e assustadoramente preocupada com minha própria saúde mental.