A Passageira
5 Capítulo V
02 de setembro de 1994 — Anson/Maine
– Molly, tem certeza que não quer ir conosco? Vai ter meninas da sua idade, você pode conversar, conhecer gente nova — disse Lyra colocando os brincos. Ela estava tão bonita no seu vestido prateado, sandálias e os cabelos ruivos caindo em cascatas semi-presas no alto da cabeça.
– Não, eu tenho lições para fazer e vou precisar ficar, não se preocupem comigo, não hoje — falei olhando fixamente nos olhos dela. Eu havia visto num programa informativo, que quando olhamos nos olhos de alguém, elas sabem que falamos a verdade. Olhei bem nos do apresentador quando ele disse isso.
– Tudo bem — disse ela deixando os ombros caírem — Nós três chegaremos antes da meia-noite, e caso nos atrasemos, eu ligo.
– Ok.
Ela me deu um beijo na testa e se despediu. Joey me alertou sobre tomar cuidado e não andar sozinha pelo prédio. Jimmy apenas acenou. O casamento era de um primo de Lyra. Senti que não pertencia aquela atmosfera familiar, então resolvi por ficar em casa. O relógio de parede badalou às oito horas. O conteúdo televiso daquela época era escasso e eu adoraria sair para caminhar. Tomei um banho lento e calmo. Enquanto lavava os cabelos e desfazia as tranças embaixo d'água, a campainha tocou. Excelente momento para uma visita. Imaginei que alguém tivesse esquecido algo, ou que Jimmy teve vontade de ir ao banheiro. Mas eles não tocariam a campainha. Fechei o chuveiro, me enrolei em uma toalha e fui com os cabelos cheios de shampoo atender a porta. Praguejei em pensamentos pela má sorte que eu tinha, assim que pus meus olhos para o lado de fora. Um corpo esguio, másculo, de ombros largos e quadril estreito, se apoiava no batente da porta. Os cabelos lisos e escuros caíam aos olhos azuis, e um sorriso de canto desenhava o rosto branco e barbado. Céus, ele era o homem da minha jovem vida.
– Tate?
– Cheguei numa má hora? — perguntou ele me analisando de baixo á cima.
– Não — conclui com um sorriso tímido — Me dá um minuto?
– Até dois.
Sorri e fechei a porta devagar. Eu mal podia conter a felicidade dentro de mim. Ele havia vindo me procurar, e estava tão lindo. Nos livros de histórias antigas, as jovens se apaixonam num primeiro lance de olhar, numa brecha qualquer de sorrisos. Eu me sentia como elas. Me apressei em ir ao banheiro e terminar de tirar o shampoo dos cabelos. Voei até o quarto e vesti a primeira dupla de short e regata que encontrei no caminho. Usei um par de sandálias de Lyra que estavam no corredor. Deixei os cabelos úmidos soltos e pus uma tiara de fita vermelha. "Tão simples" — pensei comigo mesma. Verifiquei janelas e apanhei a chave. Abri a porta lentamente e ele estava lá, apoiado na parede do outro lado do corredor. Vestia uma camisa branca, lisa, calças jeans e tênis. As mãos nos bolsos inspiravam segurança, e o porte masculino chegava a me provocar arrepios. Algo nele me atraía sem precedente.
– Então?
– Você me surpreende as vezes pelo quanto é bonita — confessou — Podemos conversar aqui fora?
– Claro — tranquei a porta e rezei para que o telefone não tocasse.
– O que você tem feito? Faz semanas que não te vejo.
– Eu estou estudando, meus professores são exigentes demais — ri — E você o que tem feito?
– O de sempre — sorriu — Eu queria falar com você sobre a última vez que nos vimos, e sobre sua reação — ele parou no meio do corredor. Gelei por alguns instantes e então assenti com a cabeça — Eu entendi o que houve quando conversei com Julie de novo. Ela me disse que havia encontrado a menina do meu apartamento outra vez — ele passou os dedos por entre os cabelos — Aquela noite, você foi me procurar e uma mulher atendeu. Você mentiu dizendo que procurava uma outra menina. Porque Molly?
Era o que eu temia. Ter de contar que eu sentia uma paixão avassaladora por ele, e que por ele ser tão mais velho, tão mais experiente, eu achava toda aquela aventura ainda mais excitante. Resfriei os pensamentos e disse o menos possível.
– Eu me senti envergonhada em te procurar, e ela era tão bonita, pensei que .. pensei que fosse sua namorada, talvez.
– Não Molly, ela não é. Eu não tenho uma namorada. Conheço Julie há anos — ele sorriu levemente — Ela mora com uma colega da faculdade aqui.
– Então .. — agitei a cabeça por uns segundos — mas porque está me dando essas satisfações?
– Porque de forma alguma eu à magoaria. Sei que é diferente, tão especial que nenhuma pessoa irá entender isso — ele entrelaçou os dedos dele com os meus e beijou minhas mãos. Senti um formigamento correr todo meu corpo.
Me elevei ao nível de seus olhos e pus-me na ponta dos pés.
– Ainda não é hora, mas deixe-me estar a par contigo.
– Esteja, esteja o quanto quiser — me elevei ainda mais. Meus lábios praticamente imploravam por um beijo e meus olhos pareciam vidrados, espelhados nos dele. O formato das minhas mãos se encaixavam tão perfeitamente dentro das dele, e era lindo para mim.
– Posso abraçá-la?
Não questionei, nem mesmo pensei em hesitar. Apenas o agarrei pela cintura e o tomei sobre mim. Os braços dele circundaram meu corpo e eu senti que poderia voar, mas preferiria estar ali. A pele dele fria, e o toque chegava a dar pequenos choques. Que imaginação fértil a minha.
– Acho melhor que vá para casa, é tarde para estarmos aqui.
– Tudo bem — sussurrei. Ele se inclinou e deu-me um beijo na testa. O toque era tão leve, natural, mas era triste. Me afastei e pouco antes de entrar ele me chamou uma última vez:
– Molly — pausou — você gosta de animais?
– Gosto, gatos principalmente, mas nunca tive um — arqueei a sobrancelha.
– Certo, só queria saber.
Ele sorriu e foi para a escada sem olhar para trás. Bati a porta do quarto tão forte que meus ouvidos reclamaram. Aquela foi a segunda noite de choro pela mesma pessoa em questão. Não vi quando todos chegaram, mas soube que estavam em casa pela manhã, quando Lyra bateu na porta do quarto. Me levantei tão desesperançosa e deprimida quanto na última vez. Ela estava parada em frente a porta com as mãos na cintura e um ponto de interrogação em cima da cabeça.
– Molly, o que você tem a dizer sobre isso? — falou colocando um bilhete pequeno sobre minhas mãos. As palavras escritas numa caligrafia forte e acentuada eram precisas mas subjetivas:
"Essa garotinha me lembra muito você. Tem sardas alaranjadas como as suas."
Com carinho, Tate.
Senti tremerem as estruturas das pernas quando subi os olhos para Lyra.
– Vou dizer á Joey que vocês a encontraram na rua — ela bateu de leve com o guardanapo nas minhas pernas e piscou para mim. Corri até a sala, onde uma pequenina filhote de gato se acomodava nas almofadas do sofá. Agarrei-a imediatamente e senti que tudo podia melhorar. Ela era branca, com pequena pintas alaranjadas nas patas. Batizei-a de Carrie.
No domingo a tarde, Jimmy resolveu que gostaria de entrar para o grupo de debate da escola, o que foi péssimo para mim, pois ele seria do corpo estudantil e se tornaria ainda mais aplicado e tedioso. O boletim semanal escolar foi entregue com o jornal na segunda de manhã e notei que os testes para o musical de inverno seriam na próxima sexta. Pensei por algum tempo se deveria ou não fazer a audição. No rodapé constava que para a apresentação eram necessários uma tomada de peça decorada, com no mínimo doze falas ou uma música completa. Era fácil. Decidi que gostaria de fazer.
Durante a aula de história, o Sr. Turman falou sobre uma pintora Renascentista que havia se suicidado depois de meses ouvindo vozes e vendo pessoas. O caso era de esquizofrenia e lapsos de memória curta. Tudo culminou num tiro na cabeça. A ideia de acabar como ela, vendo e ouvindo coisas me tirou um pouco do sério e me rendeu um ponto negativo por não saber continuar a leitura. No terceiro tempo, procurei a psicóloga da escola e tentei contar o que estava havendo comigo e com as ideias de que uma determinada moça estaria me perseguindo depois de morta. Ela deu uma olhada no meu histórico e achou que eu pudesse estar com delírios de estresse. Eu insisti que não. Contei sobre o sonho e ela continuava acreditando que eu deveria descansar, e que até me daria um atestado para ficar os últimos dois tempos em casa. Recusei. Acabei desistindo da conversa e voltei para a sala. O quarto tempo era de atividades extra-curriculares, e eu tirei um tempo para anotar as comandas dos trabalhos que estavam pendentes. Num momento qualquer, a caneta escorregou por entre meus dedos e riscou a folha. Arranquei a recomecei a anotar. A folha seguinte estava escrita, uma única palavra. Terrish. Arranquei a nova folha e joguei ambas no lixo. As seguintes continuavam escritas, o nome horrendo estava presente em todas. Tomada pelo desespero, arremessei o bloco no lixo e me afastei. Não consegui prestar atenção em nenhuma aula daquela tarde.
Na terça, desci até a ala de pesquisa da escola no horário de almoço e pedi ajuda para a assistente para realizar o trabalho de Estudos Sociais. Apenas um pretexto. Na aba de busca, digitei "Terrish Anson, estado do Maine". A pesquisa me rendeu dois bons resultados. Um deles, uma foto de várias capas de jornais locais. As manchetes eram assustadoras até para mim.
"Garota de 16 anos desaparece em apartamento na Avenue"
"Caso Terrish continua sem pistas"
"Vestido que a jovem usava no dia do desaparecimento é encontrado ensanguentado na beira da estrada"
"Pai da garota é intimado a depor"
Tudo parecia tão confuso, tão misturado. Então um par de fotos me chamou a atenção. A garota, Terrish, era a menina do meu sonho. Sim era ela. Os longos cabelos escuros, a pele morena. Me levantei num pulo, o que assustou a atendente. Ao lado dela, a foto de seu pai, suspeito pelo sumiço, Alan Winter. Terrish estava desaparecida há anos, seu pai era suspeito e ela estava em meus sonhos sem nem ao menos conhecê-la. Independente do que fosse, ela parecia me procurar, me perseguir, e dentro do meu inconsciente eu sabia que de algum modo, eu era a chave de tudo aquilo.
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