A Passageira

9 Capítulo IX


15 de setembro de 1994 – Anson/Maine

Os dias que se seguiram após o desaparecimento de Cissa foram tensos e caóticos. Todos os moradores passaram por interrogatório, inclusive eu. Em geral, inicia-se uma investigação de desaparecimento a partir de vinte e quatro horas, mas os detalhes que circundavam o caso da garota eram suspeitos demais para aguardar e o detetive resolver intervir enquanto era tempo. Lyra permanecia por muito tempo no apartamento da família os consolando e administrando calmantes na mãe de Cissa.

Joey nos contou que era um total mistério o que havia acontecido. Com quinze anos, ela tinha poucos amigos, não mantinha nenhum relacionamento e não cultivava inimigos. Mas sangue na pia, canivete no chão e sapatos jogados no banheiro eram situações que deixavam tudo mais sórdido, mais triste. A mãe disse que ela era muito organizada e não costumava deixar sapatos ou outros utensílios jogados pela casa.

– O que você acha que houve? – perguntei à Lyra enquanto lavávamos a louça.

– Sinceramente? Não sei o que pensar, só consigo me sentir grata por não ter sido você.

– Eu? Porque eu?

– Porque vocês duas têm a mesma idade, ambas são bonitas e vivem no mesmo prédio – ela disse já com a voz embargada.

– Acha que aquele homem, Clean, tem algo com isso tudo? – perguntei curiosa.

– Não o conheço, Molly.

– Mas eu conheço – falei me arrependendo no segundo seguinte. Lyra desligou a torneira e me encarou.

– Como? – perguntou friamente.

– Como? No elevador, na noite que nós chegamos. Ele perguntou meu nome, falou da filha.

– E você disse seu nome? Ele sabe sobre nós? Molly, o que nós conversamos sobre isso?

– Mas como eu ia saber que ele fantasia a filha morta, que é alcoólatra. Como?

Ela continuou esfregando os talheres sem me dirigir a palavra. Resolvi continuar.

– Acha que pessoas mortas podem se comunicar com os vivos?

– Porque quer saber isso?

– Curiosidade.

– Acho que não. Eu vejo pessoas morrerem toda semana. Não há nada de diferente, nada que pareça palpável depois que partem. É o fim consumado.

Não tocamos mais no assunto naquela noite, no entanto o rosto de Aubrey ficava indo e voltando nos meus pensamentos. Ela era física, falou comigo. Assim como Terrish diabolizava meus dias e tirava meu sono. Precisava contar aquilo para alguém, mas para quem? Não tinha amigos, Jimmy não acreditaria, Lyra acabara de comprovar minha insanidade mental e Joey, bem, ele estava realmente fora de cogitação. Pensei na Sra. Dimpsen, mas era um pouco estranho falar sobre toda essa loucura com uma mulher de noventa anos. E foi nesse momento que eu tive uma ideia inusitada, daquelas que vão contra tudo o que nossos valores ordenam. Eu resolvi consultar uma médium. Peguei papel e caneta para começar uma carta para Shelley Bran.

– Isso é tremendamente idiota – pensei inúmeras vezes enquanto escrevia. No meio do penúltimo parágrafo amassei a folha e joguei fora. Era estúpido demais continuar com aquilo. Independente do que fosse, deveria tomar uma xícara de chá quente ou injetar alguns calmantes. Fugir da realidade nunca fora uma opção, não seria naquele momento.

Em meio a todos os ocorridos, acabei me esquecendo dos resultados do teste para o musical. Na segunda pela manhã me dirigi ao anfiteatro onde alguns poucos alunos se agrupavam nas primeiras fileiras. O mural no corredor estava repleto de colagens e fotografias, mas nenhum papel que contivesse nomes. Eu estava uma semana atrasada e mesmo que houvesse conseguido o papel principal, já haveriam de ter me substituído. Meu primeiro tempo era com a Srt. Sullivan, em pré-cálculo. Aquilo era muito maçante e eu mal entendia o que ela falava com aquele sotaque britânico bem irritante. Talvez nem fosse tão irritante, talvez fosse até charmoso, mas eu não conseguia ver atrativos em muitas coisas da escola. Resolvi que me sentar e observar os ensaios seria algo positivo. As cadeiras da plateia eram de madeira com assentos macios. Eu podia muito bem me recostar e dormir um pouco na última fileira, visto que não dormia uma noite inteira há ao menos uma semana. Então um ar frio passou pelos meus tornozelos descobertos e um barulho no assento ao lado entregou que eu tinha companhia.

– Achei que fosse o único a matar as aulas de pré-cálculo – sussurrou Jared depois de me dar um beijo na bochecha.

– Achei que você era um exemplo de conduta.

– Ás vezes eu falho – respondeu-me com um sorriso branco e sincero – Você parece estar fugindo de mim desde sábado passado. Me desculpe se eu fui longe demais com aquilo tudo.

– Não, está tudo bem. Não provocou sequelas duradouras.

– Jimmy me contou sobre a menina do prédio de vocês. Eram amigas?

Eu havia me esquecido por um momento de Cissa. Depois de uma semana era possível que estivesse viva?

– Não, eu só havia visto ela duas, três vezes no máximo.

– É capa do jornal quase todo dia. Parece que prenderam um vizinho de vocês porque ele não tinha álibi e parecia ser louco.

– Vamos falar de outra coisa, Jared? – interrompi já farta do assunto.

– Claro, tudo bem – ele respondeu um pouco sem graça – Você se inscreveu para o musical?

– Sim, mas não sei se fui aceita porque me esqueci de procurar a lista. Que desastre, não? – disse olhando-o. Puxa, ele era lindo.

– Então perdeu uma semana de ensaio?

– Algo assim – puxei a alça da bolsa – Jared, acho melhor eu ir andando. Vou pegar umas coisas no armário e preciso ir à biblioteca. Nos vemos depois.

– Nos vemos mesmo? – ele segurou meu pulso com delicadeza.

– Suponho que sim.

Fui direto para o banheiro. O espelho era largo, estava embaçado e tinha marcas de batom. As garotas nojentas costumavam retirar o excesso de maquiagem beijando as bordas do espelho. Eu parecia um zumbi, embora a última coisa que gostaria de pensar era na morte. Prendi o cabelo e lavei o rosto esperando espantar aquela sensação de marasmo matinal. Pensei se todo o colégio nunca fora modificado, as estruturas eram as mesmas de quando Terrish estava viva. Ela provavelmente estivera naquele banheiro. Chequei se não havia ninguém nos boxes e então tranquei a porta. Meu Deus, eu estava planejando invocar um espírito no banheiro da escola. Qual a probabilidade de funcionar?

– Meu nome é Molly e eu queria saber se você pode me ouvir, Terrish.

Não obtive resposta.

– Você pode me ouvir?

Não houve sussurro, nem vento repentino, nem torneiras se abrindo. Nada do que se espera que aconteça quando se chama os mortos. Pensei em procurar livros a respeito. A biblioteca possuía uma seção de fantasia e ficção e ao lado uma de espiritualidade. Vasculhei por um bom tempo até encontrar um exemplar amarelado de “Como invocar e adormecer espíritos”. A capa era meio assustadora e as imagens também e por isso o devolvi à prateleira.

– Que tipo de livro está procurando, Molly? – disse uma voz feminina ao fim do corredor. Meu sobressalto entregou o medo que já estava aprisionado. Era Tennesse.

– Você me assustou – falei tentando camuflar os títulos que estavam em minhas mãos – Literatura fantasiosa. Por quê?

– Eu faço meu segundo horário opcional organizando a biblioteca. Sei cada livro que temos aqui.

– São muitos.

– Eu sei – completou com um tom que eu podia jurar ser orgulho – Se eu posso recomendar algo, gostaria que fosse este! – puxou um livro da última fileira.

– “Conhecendo e entendendo os poderes espirituais” – sussurrei – Porque acha que estou procurando isso?

– Porque está nessa seção da biblioteca, e porque tem cinco livros da mesma autora embaixo do braço – ela sorriu – Mas eu não posso opinar no seu gosto para leitura. Ás vezes eu fico curiosa sobre muitos assuntos e procuro livros para ler também. Você pode emprestá-lo e tem o prazo de uma semana para devolver ou renovar. Já tem a carteirinha?

– Não estou interessada, obrigada.

Deixei os livros na mesa e saí apressadamente. A última pessoa que eu gostaria de dividir esse segredo era uma bibliotecária irritante e de pés silenciosos. No entanto, era óbvio que eu voltaria no último tempo e enfiaria aquele livro na bolsa. Numa escola tão grande, me questiono porque eu não conseguia me esconder. Todos os cantos eram visíveis e eu não podia receber uma advertência, e por isso resolvi ir para a quadra e me camuflar por entre os jogadores de basebol. As líderes de torcidas agitavam seus pompons e eu só conseguia pensar em como tudo aquilo era idiota. Depois do último sinal, retornei correndo para o salão dois e verifiquei quem estava na biblioteca. Para minha sorte, ninguém. Me esgueirei pelos corredores até a seção e apanhei o livro. Coloquei-o rapidamente na bolsa e me direcionei para a ala de estudos sociais e fingi ler algumas revistas. Dois minutos mais tarde eu já estava indo embora. Lyra nos buscava às cinco em ponto. No caminho de volta para casa, ela e Jimmy conversavam muito sobre projetos, olímpiadas curriculares e estudos no exterior. Eu, no entanto, estava inerte nas páginas do livro.

– Está lendo algo interessante, Molly? – ela me perguntou enquanto abaixava a música no rádio.

– Não muito, é para uma pesquisa.

– Que tipo de pesquisa?

“Pare de fazer perguntas e dirija” – pensei guardando o livro na bolsa – História das religiões.

– Interessante.

Depois ela continuou falando, mas eu me detive a outros detalhes. Faltava um pingente em minha pulseira. Eram doze arcos e uma flecha e a falta dessa flecha era bem visível. Onde eu havia perdido aquilo?

– Molly? Está me ouvindo?

A voz de Jimmy me trouxe para o carro novamente.

– Estou.

– Não está, tenho certeza que não está.

– O que você quer?

– Perguntei se você entrou no banheiro das meninas hoje.

Meu coração pareceu ter falhado uma batida.

– Porque quer saber isso?

– É que hoje foi um surto na segunda aula, os canos estouraram e inundou todo o banheiro e o corredor. Estão querendo se algum aluno está envolvido.

Tudo que eu consegui expressar foi um som nasalado e sem sentido. Sabia que tudo estava vindo até mim de alguma forma. Quando chegamos ao hall da recepção, Lyra voltou ao carro para buscar sacolas de compras enquanto nós dois subíamos para o apartamento. Ao colocar o primeiro pé na escada, um telefone tocou.

– Ouviu isso? – perguntei para Jimmy.

– Ouvi o que?

– O telefone. Está tocando.

– Não tem telefone Molly.

– Pode ir subindo, esqueci uma coisa no carro.

Era uma decisão difícil, ignorar aquele chamado ou aceitar que algo estava acontecendo. Caminhei até o fim do corredor e desci os degraus escuros. A luz tremulou e acendeu, dando caminho a uma porta. Teste a maçaneta e estava trancada. O telefone não tocava mais.

“Isso é insanidade” – pensei me sentando em um degrau. Decidi voltar e tomei o elevador. Quando finalmente estava em casa, abri o livro e comecei a lê-lo. Cada página fazia menos sentido que a próxima e era mais absurda que a anterior. Quando foleei os próximos capítulos, um papel amarelado caiu de uma das folhas. A caligrafia delicada e fina entregava ser de uma mulher.

“Existem almas que nascem conectadas com outras que já partiram. E quando por fim ela morre, é preciso recobrar o passado para entender o presente. Os médiuns funcionam como passagem para espíritos que não conseguem ir embora. Se você tem esse dom, deve permitir-se usá-lo”

Talvez fosse realmente hora de tentar entender quem era Terrish e porque ela tentava se comunicar comigo. Passava das oito quando tomei papel caneta e recomecei a carta para Shelley Bran.

Desta vez eu iria até o fim.

Notas finais
O que vocês acham que aconteceu com Terrish? E Cissa? Será que o assassino voltou a atacar 24 anos depois?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.