A Palavra - Guerra e Morte

3 Capítulo 3 - A Missão


Notas iniciais
Perdoe-me pela demora! Tive que pensar na estrutura do terceiro capitulo ;D

Davi sentia o ovo de dragão negro chacoalhar preso ás suas costas. Os cavalos galopeavam com certa dificuldade pelo pântano, mas mesmo isso não estragava o sorriso do garoto. Ele mesmo nunca sentira tanta curiosidade e ansiedade, por ter visto um dragão pela primeira vez. Será que aquele filhote dentro do ovo também se comunicaria com ele pelos seus sonhos? O garoto mal podia esperar para vê-lo nascer! E ele não era o único. Liz também demonstrava estar contente por ver o companheiro sorridente daquele jeito, já que nunca presenciara tamanho fenômeno. Acho que até para qualquer jovem deve sorrir um pouco. O pântano parecia um grande poço de lama profunda. Os cavalos tinham muita dificuldade porque a lama chegava quase as suas coxas. As árvores por outro lado, eram enormes. Seu tronco torto servia muito bem para escalar, e todas eram perto uma das outras, parecia um grande jardim, escuro e lamacento.

Mas a atenção de Davi se virou ao ver algo se mexendo na lama.

– Ai, nossa. O que é aquilo? – Liz ficou assustada.

– Acho que deve ser um crocodilo... – Murmurou o garoto.

Ele realmente não sabia falar com garotas.

– Ah, obrigada pelo conforto! Ajudou muito! – A garota, incrédula, puxou as rédeas do seu cavalo cinzento para outra direção, à esquerda.

– O quê? Não disse nada demais.

Davi parou de falar quando ouviu um sussurro.

– Alguém... Me ajude...

– Hum. Acho que me enganei... – Mas quando o garoto percebeu a garota já estava se afastando dele. – Ei! Não vá muito longe! Não é um crocodilo! É uma pessoa!

Outro sussurro.

– Pare... Não grite... Eles vão ouvir...

Enquanto Liz se aproximava, Davi desceu do cavalo. A lama chegava à sua cintura. E ela era tão grossa que mal dava para se mover.

– Quem é você?

Ele ajudou a pessoa se levantar da lama. Era um idoso, e que teimava a segurar algo dentro da lama. Ele puxou com toda a sua força, e arrancou o que parecia ser uma raiz.

– O que é isso?

– Primeiro meu jovem, meu nome é Bills. E segundo é uma raiz de Sap Hirudo Dolor. Estava muito difícil de tirar, então eu fiquei preso.

Antes de o garoto perguntar o que era aquilo, Liz já havia se aproximado.

– Isso quer dizer que é uma espécie de raiz que possui uma seiva rica que pode curar praticamente qualquer coisa.

– Está perdido, velho?

– Acho que são vocês que estão. Se me ajudarem, tem um caldeirão cheio de sopa e camas quentinhas.

Davi e Liz se entreolharam. E acompanharam o idoso por entre o pântano. Bills parecia morar ali e conhecia praticamente todo o pântano, enquanto prosseguiam, ele explicava as espécies das árvores que apareciam diante deles. Era difícil de perceber, mas até aquele pântano tinha as suas belezas, como flores nascendo em lugares inimagináveis, ou de diferentes animais adaptados à aquele ambiente totalmente lamacento.

A casa de Bills era claro, fora daquele lamaçal todo. Uma cabana média bem escondida na floresta. Quando chegaram, os dois jovens tomaram um banho para tirar toda a lama e o cansaço do corpo, além de banharem os cavalos também. Ao guardarem as suas coisas dentro da cabana, se deram conta que havia mais um entre eles. Um homem esbelto, com cabelos loiros e curtos, e que Davi já o vira uma vez. Estava deitado numa das camas que haviam ali.

– Fala sério, olha o destino nos encontra! – Disse o homem para Davi.

– Espera, você é... Sir Rughes?!

– Eu me lembro de você da estalagem. – Lembrou-se Liz. – O cavaleiro.

– Sim, sim. Que bom que ainda estão vivos. – Declarou o cavaleiro. – Eu já não tive tanta sorte...

– Está ferido? – Perguntou o garoto.

– Já estive pior. Mas aquela sim foi uma batalha de vida ou morte. – Recordou o cavaleiro de quando ele e mais outros enfrentaram uma porção de Perversos.

– Como está vivo, então? Achei que os Perversos dominassem os humanos.

– Tá me achando com cara de safado?! Tira isso pra lá! – Sir Rughes soltou um grunhido, mas depois caiu na gargalhada. – Nhah, brincadeira. Mas isso é verdade. Nunca cometi nenhum erro na vida que me transformasse naquelas coisas nojentas.

– O quê? Quer dizer que não tentaram te matar? Mas eu... – Davi se interrompeu quando ficou confuso. Várias coisas apareceram em sua mente. Coisas que já havia presenciado.

– Bom, vamos deixar essa conversa de lado. – Manifestou Liz. – Por acaso, como o senhor chegou até aqui?

– Bom, por onde eu começo? Melhor se sentarem crianças, eu tenho bastante coisa pra falar.

Os dois jovens se sentaram no chão na companhia do cavaleiro. Enquanto Bills servia pratos com sopa quente. Sir Rughes contara que na batalha contra os Perversos, ele vira muitos deles mordendo os outros estaleiros, e suas mordidas aos poucos os transformava neles. Mas por algum motivo não o morderam, apenas o atacavam involuntariamente. E isso foi uma chance perfeita para escapar, aquilo era um massacre. Como ele, mas alguns tentaram fazer o mesmo, mas os que não foram mordidos começaram a ser caçados pelos Perversos. Um a um era pegos e mortos a mutiladas, braços e pernas eram arrancados como se fossem pergaminhos. E não demoraram para se aproximarem do cavaleiro, e já não eram um pequeno grupo, mas sim quase dez Perversos o perseguia com sede de sangue. Quando ele estava a beira de um penhasco, foi completamente cercado, para a sua felicidade o cavaleiro sabia nadar. Mas quando iria pular, uns dois Perversos lhe arrancaram parte da pele de uma das pernas e costas, um deles, conseguiu com sucesso arrancar uma costela inteira de dentro da armadura prateada do cavaleiro como se não fosse nada. Sir Rughes não vira mais nada desde então.

Bills se aproximara.

– Eu o encontrei perto daqui, que tem um riacho. Estava sangrando muito. Mas mesmo assim ainda está vivo.

– Pois é. Esse velho é meio doido. Mas fez tudo isso por mim. Tirou aquela porcaria de armadura de mim e de deu comida e abrigo. Até foi ao pântano conseguir um dessas raízes milagrosas. Logo mais estarei bem e poderei andar de novo.

O dia passara depressa. Com a história de Sir Rughes, Davi não parava de se martelar. Tudo aquilo, todas aquelas informações poderiam ajudá-lo a encontrar uma resposta, uma solução, uma cura.

Enquanto Liz dormia profundamente, o garoto percebera que o cavaleiro ainda estava acordado.

– Ei, não consegue dormir?

– Ah, pois é. Eu preciso me recuperar, mas estou com o meu pavio aceso.

– Ainda estou pensando sobre o que me disse sobre os Perversos.

– Ah sim. Vou chutar a bunda daqueles malditos ferreiros por fazerem uma armadura tão fraca como aquela.

– Não sobre isso. O fato deles não terem te mordido ou sei lá. Eles não quiseram te transformar.

– Acho que sou bonito demais pra isso. – Sir Rughes soltou uma gargalhada baixa. – Mas sério, concordo com você. Achei estranho isso também e foi por isso que consegui escapar.

– Você tinha dito que não havia cometido nenhum erro que o fizessem te transformar.

– Sim, isso é verdade. Não freqüento prostíbulos. Acho-os profanos. Também nunca roubei ou matei inocentes. Nem tive invejas de quem tinha mais que eu. Sempre consegui minhas conquistas com o meu próprio esforço e determinação.

– Sei... Acho... – Davi deu um estalo com os dedos. – Acho que eles só atacam os pecadores. Sim! Eles só querem aumentar o seu exército.

– Entendi. Isso faz sentido. Mas porque matam os que não pecam?

– Sempre ouvi que eles destroem as cidades em que atacam, e nem os animais escapam. Acho que os boatos são verdadeiros. Eles mutilam e devoram os inocentes. Estamos fugindo de um exército com soldados carnívoros e destruidores.

Sir Rughes ficara com um rosto de preocupado e sentia arrepios.

– Céus, como vamos matar todos eles?

Davi nunca vira um cavaleiro com medo. Mas aquilo era uma exceção para Sir Rughes. Ele entendia o que o homem havia enfrentado, e nunca realmente vira alguém com tanta coragem quanto ele. No dia seguinte, ele e Liz ajudaram o velho Bills com as suas tarefas, e Davi nunca deixava de verificar o ovo de dragão negro, ás vezes ele dava algumas mexidas. Enquanto a garota dava varridas pela cabana, o cavaleiro debilitado se pusera a perguntar:

– Ei, porque o garoto sempre fica de olho naquele ovo?

– Ah, ele está esperando que o ovo choque logo. Aquilo foi um presente.

– Não me diga que é um ovo de dragão?!

Antes que Liz pudesse responder, Sir Rughes deu pulinhos na cama, como que queria se levantar de qualquer jeito.

– Caramba! Eu nunca vi um ovo de dragão antes! São muito raros!

– Sim, e eu estou cuidando dele. – Davi acariciou a casca do ovo negro. – Sinto que ele está ficando vivo a cada dia que passa.

– Ei, ei! Já escolheu o nome pra ele?

– Deixa desse negócio! – Bills entrou na cabana. – Tenho algo muito, mas muito importante para mostrar a vocês.

Todos se encararam. O que um velho poderia ter que chamasse a atenção deles?

Caminharam para o interior da floresta. Davi prendera o ovo em suas costas, não desgrudaria daquele ovo por nada. O caminho se estreitava por arbustos cobertos de espinhos e longas trepadeiras, o que dificultava a caminhada. O garoto já achava que o velho era louco, mas ao longe vira onde Bills o estavam levando. Uma grossa e antiga torre, que parecia ter uns três andares. O velho pegara um molho de velhas chaves e encontrara a que abriria a porta, dentro, havia inúmeros pergaminhos, enrolados e guardados. Além de uma enorme biblioteca com vários exemplares irreconhecíveis. O lugar estava um pouco bagunçado, com uma longa mesa de mármore cheia de livros abertos no meio da torre. Havia ainda escadas que indicavam uma nova porção de outras estantes, obsoletas pelo escuro. Com uma lanterna, aquele era o único cômodo iluminado da torre.

– Você... É especial. – Bills apontara para Davi. – Foi lhe deixada uma missão, não?

– C – Como sabe? – O garoto não contara aquilo, somente para Liz. – Q – Quem é você realmente, velho?

O velho caminhou pela sala.

– Eu sei de muitas coisas, garoto. Nasci em épocas turbulentas. E pude aprender muito mais que todos levariam uma vida inteira para entender.

– Que épocas eram essas? – Davi estava desconfiado.

– Eu me lembro... De chuvas de fogo... De quando dragões dominavam os céus e anjos desciam para a terra.

– Ei, velho. – Sir Rughes se apoiava em Davi para ficar em pé. – Isso são somente histórias contadas, nada disso foi provado que realmente aconteceu.

– Há! Somente os tolos irão discordar! Mas ele... – Bills apontara novamente para Davi. -... Esta criança é muito especial. Um anjo me disse isso!

– Um... Anjo?

O velho se aproximara da grande mesa de mármore, iluminada pela lanterna.

– Em meu trigésimo terceiro aniversário, um anjo descera do céu, e me dera este livro. – Bills empunhara um grande livro, mesmo no quase breu da torre, ainda dava para ver os símbolos dourados do livro branco e prateado.

– Incrível. Que livro lindo. – Expressou Liz. – Parece mesmo que um anjo o dera.

– Ainda não acredito muito. – Teimava Sir Rughes. – Os anjos nos abandonaram. Nunca vieram realmente para cá nos ajudar.

Bills pegara um livro qualquer e arremessara na cabeça do cavaleiro.

– Seu burro idiota! Como as coisas estão, acha mesmo que anjos virão nos ajudar?!

– Ele está certo. Antes, eram os anjos. Agora, são os demônios. – Concluiu Davi.

Todos olharam para o garoto.

– Tudo bem. Mas porque ele é especial? – Perguntara Liz. – Ele somente quer achar uma cura para todos os infectados por...

– Daemon. Isso mesmo. Achou que isso era coincidência? Nada é por acaso, garotinha. – Respondeu Bills. – Deve ficar com isto, jovem Davi.

O garoto pegou o livro prateado do velho.

– Mas, o que devo fazer com um livro? Como isto pode me ajudar a deter Daemon?

– Há muitas coisas que um livro pode fazer meu caro. Mas o mais importante, é o que deves descobrir o que deterá a besta.

– Entendo. Devo sempre descobrir a resposta para as minhas perguntas.

Um ruído apareceu do nada. Ninguém se mexeu.

– Davi... Você pegou os cavalos? – Perguntou Liz, sem se mover, olhando para todos os lados.

– Droga, maldição. – Falou mal o garoto.

– Velho, por quanto tempo você manteve isto aqui fechado? – Sir Rughes se mantinha firme, mas estava preocupado.

– A – Acho que a torre fechada escondia o cheiro do livro. E agora... Eles o detectaram!

Mais um estrondo. Mais forte dessa vez. Foi preciso somente alguns segundos para todos se aproximarem da porta, e uma centena de Perversos invadiu a torre por cima, arrebentando tudo o que vinham pela frente. Davi corria segurando o livro desajeitadamente, mas percebeu que os Perversos só estavam interessados no livro. Mas ele não poderia perdê-lo, de jeito nenhum, e também nenhum dos seus amigos. O garoto seguiu por outra direção, em direção à mata densa.

– Davi! O que pensa que está fazendo?! – Liz gritara quando percebera que o garoto estava se afastando.

– Eu... Eu vejo vocês no Centro Comercial Real! Encontrem-me lá! – O garoto gritara o quanto podia enquanto corria apressadamente dos Perversos. Aos poucos, já não via mais a cabana, nem os amigos. Tudo o que ele podia fazer agora era correr. A única coisa que fizera durante toda a sua vida. Mas as coisas já eram diferentes. Ele tinha em mãos a salvação do mundo. Como ele queria. A cura para a praga de Daemon.

Agindo com destreza, Davi avistou um buraco discreto o bastante para se esconder dos Perversos. Ele colocou o livro debaixo de sua camisa para que não sentissem mais o cheiro. E se movimentando em ziguezague por entre as árvores, conseguiu uma distração perfeita quando um veado começou a correr da mesma direção que o garoto, e se escondeu no buraco no tempo exato. Os Perversos continuaram a corrida incessável por onde o veado passara.

Ele havia escapado, mas novamente estava sozinho.

– Não... Eu não posso voltar. Eles me acharam. Preciso percorrer um novo caminho até o Centro Comercial. Será... Será melhor assim. – Davi se agarrara ao ovo negro que ainda estava com ele. Aquele agora era a sua única companhia.