A Paisagista
2 A ilusão
Notas iniciais

A capela parecia até mesmo maior em seu interior do que seu exterior aparentava, não haviam bancos, apenas uma imagem de Deus pintado sobre a parede do fundo, os bancos estavam todos empilhados verticalmente na parede da direita, uns aparentavam estar judiados com o tempo, outros estavam sem pernas ou encostos, mas ainda pareciam utilizáveis, o cenário mais intrigante eram seis computadores de modelo de gabinete localizados na parede da esquerda, todos empoeirados e desgastados com o tempo, com as cores escuras desbotadas, e o desktop do mesmo podia ser visto de longe como não sendo um sistema convencional operacional, tal como Windows ou Mac, mas sim Linux.
Alexia teve apenas poucos segundos para prestar atenção nesses detalhes, pois ela se via como algum tipo de bicho de zoológico, já que todas as pessoas em seu raio de visão estavam olhando para ela, uns assustados, outros com um tom meio duvidoso, por alguns segundos todos permaneceram em silêncio, até que a confusão na mente de Alexia a fez criar coragem para repetir uma pergunta que já havia feito em voz alta e ninguém havia respondido-lhe:
— Será que alguém pode me dizer o que tá acontecendo aqui?
— Você está na capela de São Miguel, no interior do Rock Creek Park — Respondeu o homem que havia trazido a mesma até a tal capela.
— Ela é a escolhida? — Perguntou uma mulher alta, de cabelos azuis escuros e uma pele pálida, de aparência gélida, com duas marcas verde-musgo em formato triangular nas bochechas.
— Então é essa garota? a filha de Bryan Sanders? — Perguntou um rapaz de cabelos brancos logo atrás da mulher de cabelos azuis.
— Quem diabos são vocês? E como assim vocês sabem quem é meu pai? ALGUÉM ME EXPLICA, POR FAVOR! — Estava Alexia agora gritando com todos ao seu redor, pareciam estar assustados, mas algo então chamou a atenção de todos.
— Perguntas serão respondidas — Uma voz, saindo de um segundo andar, um alto rapaz, de cabelos pretos e longos amarrados a um rabo de cavalo acima de sua nuca, juntamente com um par de olhos amarelos saia de uma porta que dava acesso a uma parte de trás da capela de madeira, ele vestia uma camisa social, tinha uma blusa amarrada com as mangas em torno de seu pescoço, como uma espécie de capa, uma calça jeans, um all star vermelho e o mais emocionante de tudo, ele tinha um par de asas brancas, em suas pontas, eram amarronzadas. — Por favor Alexia, queira subir até aqui... — Após dizer isso ele virou-se e desapareceu pela mesma porta em que havia aparecido.
O silêncio parecia ter retornado ao grande saguão de entrada, porém agora Alexia sentia que as respostas para suas perguntas se aproximando a cada passo que dava, ela subiu uma pequena escadaria que encontrou seis metros adiante, do lado direito do grande saguão, que dava acesso a uma passarela que caminhava por entre pequenos corredores de dois metros e meio de largura ao redor dos cantos da pequena capela, que davam acesso a duas portas nas laterias, uma delas era a que o rapaz de aparência celestial havia desaparecida, e a qual Alexia havia se dirigido. Ao encostar a mão na maçaneta, Alexia sentiu um certo arrepio, talvez um mal presságio, mas a verdade é que quando ela reuniu coragem e finalmente abriu a porta, ela viu apenas uma cena comum-incomum ao mesmo tempo: O garoto de asas brancas preparava aparentemente um chá, em uma mesa de 25 lugares, com um pequeno bule de prata assentado em um fogão a lenha, e logo virou-se para Alexia com um olhar um tanto curioso e ao mesmo tempo relaxado, e iniciou uma conversa com um tom amigável:
— Alexia Sanders?
— Eu mesma...
— Acho que não fomos apresentados ainda. Meu nome é Marcel, é um grande prazer conhecê-la — e caminhou para a mesma estendendo seu braço para um aperto de mãos, que fora correspondido pela mesma antes da conversa continuar
— O prazer é meu, Marcel... — Uma breve pausa fora feita para uma tomada de ar de Alexia, e logo uma pergunta veio a ponta de sua língua e fora atirada para Marcel
— Eu queria saber o que está acontecendo... — Disse Alexia calmamente
— É uma longa história.
— Comece pelo começo então — disse Alexia firmemente.
— Que assim seja — Disse ele retornando sua atenção brevemente para o bule de chá, com o fogo agora desligado ele despejou o liquido alaranjado em duas xícaras, uma para si mesmo e a outra para Alexia, que aceitou inconscientemente. — 2020, descobriram a fibra energética vital das plantas, também conhecida como Fleuriet ou NeuroFleur, a fonte vital das árvores, das plantas, que mantinha as árvores e tudo vivo nelas, e também houve a descoberta de uma matéria energética que podia substituir o petróleo, e ela estava em todos os lugares, no fundo dos nossos quintais, nas ruas, em todos os lugares, o mundo ficou superfaturado, as indústrias foram à loucura, e graças ao francês Joseph Mickaelefell, a H.U.M.A.N CORPS foi criada, ficando mundialmente pelas descobertas energéticas e das possibilidades de estudos das fibras encontradas nas árvores, também responsabilizada por todos os danos ambientais, inclusive, mas isso não teve muito impacto na época — Uma breve pausa, enquanto Marcel elevava a xícara branca até seus lábios despejando o chá morno em sua língua e saboreando o mesmo antes de engoli-lo e retomar a explicação — Mas nem tudo são flores né? — E continuou — Depois de um tempo, as árvores começaram a desaparecer, houve todo o lance da NASA com a camada de ozônio, depois a escassez de oxigênio, bilhões em investimentos para a criação da oxigenação mundial artificial, as campanhas do nosso atual presidente foram todas pagas com o dinheiro da corporação, mas isso não é tudo, parecia que a própria H.U.M.A.N Corps estava montando um exército, ou coisas assim, e logo seus estudos tornaram-se militares. O que vou lhe contar agora é real, e te envolve diretamente, está entendendo, Alexia? — Disse ele olhando diretamente aos olhos da menina, que acenou com a cabeça, dando sinal verde para Marcel recomeçar a explicação — Bom, houveram experimentos com humanos, geneticamente, utilizando a fibra dos Fleuritos, para criar mutações genéticas, com objetivos de melhorar e evoluir a raça humana, mas eles não podiam fazer experimentos a céu aberto para todos verem... Crianças foram sequestradas, foram usadas como ratos de laboratório, eu fui uma delas, o Erik ali fora que te trouxe, foi uma delas, todos nós, e isso inclui você... — Alexia parecia extremamente indignada e assustada olhando para Marcel.
— Não é possível, eu vivi todos os anos da minha vida com meus pais... — Disse ela com um tom de desconfiança nas palavras de Marcel.
— Exatamente, simplesmente porque a combinação que fizeram com você aparentemente não deu certo... — Disse Marcel refutando os argumentos tratados de Alexia — Na verdade você deu tão certo que nem eles sabem como você desenvolveu os poderes, mas eles sabiam que tinha algo a mais, e quando devolveram você a seus pais, que eram constantemente ameaçados de serem mortos caso contatassem as autoridades, eles ainda mantiveram os olhos em você. — Continuou Marcel. — Pensando que a HUMAN tinha deixado vocês em paz, os seus pais criaram o movimento Revolucionista...
— Movimento o que? — Perguntava Alexia intrigada
— Revolucionista, uma organização secreta, inicialmente para criticar a Human em anonimato, mas os desgraçados encontraram o que os seus pais estavam fazendo, então houve uma perseguição, durante um baile de formatura, que você não tinha ido, estava na casa da sua madrinha. — Pausou novamente, com um sinal para que Alexia aguardasse mais um pouco para perguntar novamente — Sua madrinha manteve contato com a organização, e como não pode te prender na casa dela por muito tempo, você acabou voltando pra casa dos seus pais, e acabou não conhecendo nada desse mundo. Nós somos o movimento revolucionista, todos ali fora são parte de tudo isso...
— Mas por que eu? — Alexia se perguntou ao mesmo tempo que perguntou a Marcel. — Como assim eu sou a salvadora?
— A salvadora é um mito, um apelido que te deram, ainda quando era criança, você foi a mais geneticamente alterada que todos daqui, eu sou o segundo na lista... — Disse Marcel abrindo levemente suas asas para argumentar e forçar a própria fala — Você é resultado de uma segunda fibra, assim como eu... Uma segunda fibra que a HUMAN Corps descobriu, mas não patenteou e pagou mais milhões para nenhum cientista patentear, que é a Weild, uma fibra derivada de tecidos não-humanos, no meu caso uma fibra descendente do material genético de uma águia. Além das asas me dá umas coisinhas legais também — Ele então pegava uma faca que estava ao lado direito da mesa, uma faca pontiaguda. E olhava diretamente aos olhos de Alexia, que parecia assustada, e num piscar de olhos, ele bateu com a ponta da faca passando milímetros ao lado dos próprios dedos, ainda concentrando-se nos olhos de Alexia — Está vendo? — Dizia ele enquanto prensava a faca fortemente contra a mesa desviando a mesma de seus dedos sem nem ao menos estar olhando para a lâmina — Bom, acho que é o suficiente — Disse ele largando a faca em cima da mesa e elevando sua xícara de chá novamente aos lábios, apreciando o sabor do chá — E então caímos com você tendo poderes inimagináveis, a pena é um último presente de seu pai, que realizou um pequeno acordo com um tal amigo dele, seu nome era Coronel Marshall, mas não achamos nada sobre ele em nenhum registro militar, acho que ele não queria se intrometer nessa guerra civil.
— Então, é isso? — Disse Alexia com uma expressão de desapontamento e um tom um tanto quanto depressivo — Eles morreram... Por minha causa? — Perguntou retoricamente a si mesma, seus olhos se enchendo de lágrimas e suas pálpebras ficando mais pesadas, ela estava extremamente triste, e Marcel pareceu acolher esse sentimento, levantando-se e andando em direção a mesma, contornando a mesa de madeira, obviamente.
— Se serve de consolo, meus pais morreram junto a revolução também... — Disse Marcel — Agora, tem algo que você pode fazer para que suas mortes deles não tenham sido em vão, por favor Alexia, nos ajude nessa guerra contra essas mentiras, precisamos limpar o mundo e com os seus poderes nós vamos conseguir vencer... — Alexia parecia consolada, seus olhos agora estavam secos novamente, depois de ela enxugá-los com as mangas da blusa.
— Mas como eu vou controlar esse poder? — Perguntou Alexia inocentemente.
— Do mesmo jeito que nós controlamos os nossos, não controlando simplesmente — Disse Marcel de maneira enigmática — Deixe-me explicar melhor — Ele então pegou uma pequena folha de papel, rasgando de uma página de um caderno velho e desgastado. — Fizemos algumas pesquisas e todos os hormônios produzidos através dos genes são apenas ativados na presença de um outro hormônio neurológico natural do ser humano, a adrenalina! — Disse Marcel.
— O que isso quer dizer? — Perguntou Alexia curiosamente interessada na chance de poder ajudar em algo.
— Bom, nós humanos liberamos a adrenalina, nossos sentidos se apuram, e no nosso caso ganhamos algumas ilimitações que os outros humanos não tem, por exemplo esse meu sentido aranha, que me avisa e me possibilita a enxergar a quilômetros de distância, e no seu caso materializar seus desenhos. Ainda tenho umas teorias pra descobrir como os seus poderes funcionam, mas creio que não sairão muito dessa linha...
Alexia entendeu toda a explicação e toda a situação como um todo, apresentada por Marcel, aparentemente havia uma guerra que devia ser vencida a qualquer custo, contra uma organização que além de má e criminosa ainda era responsável pela morte de seus pais, o que motivou ainda mais Alexia a dizer:
— Eu vou ajudar como puder, Marcel! — Uma voz motivada saiu de Alexia, ela estava determinada, e impunha seu comportamento com garra, um sorriso na face de Marcel podia ser visto a quilômetros de distância, e a conversa de ambos fora terminada com um pequeno sorriso de ambos. — Mas, como eu posso ajudar? — Ela perguntou pela última vez.
— Nossas missões são secretas, chamamos de "Expedições", geralmente invadimos uma fábrica de Fleurites e destruímos os tanques de armazenamento, mas estamos pensando em destruir a sede, para isso precisamos do máximo de detalhes possíveis da mesma, para que nada saia fora do esperado. — Terminou o rapaz suavemente — Agora é hora de você voltar pra casa, sugiro que pegue um ônibus, e não comente com ninguém nada disso, você pode nos visitar quando quiser, mandaremos uma mensagem quando estiver próximo de uma expedição... — E ambos se entreolharam rapidamente.
Alexia se levantou e agradeceu pela hospitalidade de Marcel, saindo agora da sala de refeições improvisada da sede dos revolucionistas e dando de cara com todos os membros novamente, desta vez apenas alguns lhe dando atenção, a garota de cabelos azuis escuros de mais cedo chegou a se apresentar para Alexia: "É um prazer, meu nome é Helena, sou uma anormal como eles chamam, e você como se chama?" As duas conversaram um pouco e logo viraram boas amigas, alguém que Alexia percebeu que podia confiar pelo comportamento que a mesma exercia sobre Alexia. Ela também teve tempo de conhecer um pouco sobre o rapaz que a trouxe correndo de lá daquele prédio, seu nome era Erick, e ele não fala muito.
Alexia então, dirigiu-se a estrada mais próxima, que ficava cerca de cento e cinquenta metros de distancia da capelinha, e pediu um táxi pelo seu celular smartphone, que a levou direto a sua casa, nada de anormal naquele dia fora acontecido, depois da pequena aventura. Agora Alexia tinha um motivo pra lutar, e tinha um motivo para se vingar, ela sabia que estava fazendo a coisa certa, e sabia que devia continuar com aquilo.
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