A Pátria.
5 Transferência Emergencial — Clarice
Blair está ao meu lado. Confiante, concentrada. Sua postura perfeita e sua cabeça erguida me faz pensar de como eu sou fraca comparada á ela. A encaro, mas ela não faz o mesmo. Relembro dos momentos em que ainda éramos amigas. Brincávamos no parque, íamos na casa uma da outra... éramos tão inseparáveis, que agora, lamento por não ter feito algo para consertar essa antiga união. Agora não dá mais para reconstruir nada. Percebo que estou a fitando por tempo demais e olho para baixo. Só levanto o olhar novamente quando enormes barulhos vem do lado de fora. Todos olham uns pros outros, confusos. Meu coração acelera instantaneamente e minhas pernas tremem. Reconheço o som. Foi o último som que minha mãe ouviu em sua vida. Tiros. Imediatamente, várias pessoas no auditório entram em pânico e começam a correr, mas eu permaneço imóvel, chocada encarando todos a minha volta. Uma bala perdida atravessa o vidro da janela em um som ensurdecedor pra mim, e atinge um aluno em cheio no estômago. Me assusto e ele cai, com sangue imundando suas roupas e o rosto sem expressão. Ouço ele gritar um nome, que não identifico qual. Corro em sua direção e tento levá-lo junto comigo, mas quando coloco a mão sobre o seu peito, não sinto as batidas do seu coração. Choro desesperadamente. Não sei seu nome, mas eu já o vi. Um flash passa pela minha mente, quando relembro que esse mesmo rosto, acenou para mim hoje pela manhã, quando eu caminhava pelos corredores, egoísta demais para responder a um cumprimento. Inalcançável. Como eu nunca havia percebido o quanto mudei? Eu o ignorei, não lhe dei a mínima importância. E agora eu estou chorando pela sua morte. Só queria chorar e desistir de tudo aquilo, afogar meus arrependimentos em lágrimas, mas alguém me puxa pelo braço e me levanta, com força. Meu cabelo está sob meu rosto, e eu não consigo ver quem está tentando me salvar.
Ouço mais estrondos do lado de fora e outro tiro atinge um vidro. Pessoas gritam. Outro corpo caído. Procuro pelos meus amigos enquanto corro, mas não encontro. — Vamos! Corra! — Ouço a voz de Blair á minha frente. Ela voltou para me salvar. Consigo sorrir em meio ao desespero e corremos juntas como fazíamos quando éramos apenas crianças brincando no parque. — Deve ter uma saída de emergência por aqui!Tenho que me esforçar para compreender oque Blair diz, mas consigo. Concordo, e corremos o mais rápido que pudemos tentando salvar nossas vidas.Gritos, tiros, mortes.Corremos o mais rápido que conseguimos tentando achar algum abrigo, sem sucesso. Suor escorre pela minha testa e minhas pernas doem. Enquanto tento abrir algum portão de saída de emergência, ouço um grito atrás de mim e reconheço a voz rapidamente. Blair. Corro em sua busca, e a encontro jogada no chão, com seu cabelo negro grudando na testa, com um corte enorme em seu joelho, que jorra sangue em abundância. Sua expressão é de dor, mas ela permanece calma, como sempre foi. Não entendo como ela consegue, Blair parece ser de ferro. Corro e me jogo à sua frente, rasgando o tecido da minha blusa, para usar como um curativo improvisado, como eu via nos filmes que meu pai me obrigava a assistir. Agora todas isso parece ter valido um pouco á pena. Mesmo com esse pensamento, não saio do meu foco de ajudar Blair.— Não precisa! Eu estou bem. Vamos, vamos! Admiro a sua força. Ela consegue correr normalmente mesmo com sangue escorrendo pelas suas pernas e uma enorme dor que eu sei que está sentindo, mesmo ela não demonstrando.Corremos mais até que finalmente encontramos uma sala que não está com a porta trancada. Estamos quase entrando nela quando escutamos algo nos chamando.— Senhoritas! Por aqui!Ouço mais gritos e alarmes de emergência soam. Meu coração está disparado, mas eu tento me conter. Olho para os lados, e oque vejo são pessoas desesperadas correndo para todos os lados, gritando. Não sei oque se passa pelo lado de fora, minhas pernas estão doendo e Blair está ferida. Não tenho escolha senão seguir quem quer que esteja nos chamando.O seguimos até um portão quase invisivel no meio das paredes cinza escuro, com as cabeças abaixadas e evergando nossos corpos, temendo que algum tiro atravesasse as janelas e atingisse algum de nós. Somos apenas três escapando em segurança, enquanto centenas de estudantes estão indefesos? Olho para trás e ainda vejo o desespero em seus rostos. Penso em questionar sobre isso, mas ele se vira e põe o dedo indicador sobre os lábios, que tomo como um " fiquem quietas, e não contem a ninguém." Concordo com a cabeça, e Blair faz o mesmo.A porta se abre e se revela um gigantesco estacionamento, que guarda armas e máquinas. Fico surpresa e não posso deixar de soltar um suspiro. Mesmo meu pai sendo um guerreiro, esse é o maior estoque de armas que eu já vi. Se Blair se surpreendeu, não demonstra. Apenas segue com a cabeça erguida e comprimenta algumas pessoas que estavam no local, com um sinal de cabeça. Observo o rostos dessas pessoas, e as reconheço. Algumas eu já conversei, outras, vi no palco. São guerreiros como eu. Que foram selecionados e que se ofereceram, para que a nação tenha uma esperança. Admiro a coragem de cada um deles, até que percebo que eu devo admirar minha própria coragem também, Entro na sala, e vejo que algumas destas pessoas fazem caretas e dão algumas risadinhas ao me ver. Talvez seja o meu cabelo, ou as minhas roupas sujas e rasgadas. Começo a ir em direção a meu amigo, Brian, mas ele vira o rosto, fingindo que não me notou. Recuo, e volto para o lugar aonde eu estava, me sentindo completamente humilhada. Abaixo a cabeça, e tento cuidar o máximo que posso do ferimento de Blair. Mesmo que ela não goste de depender de alguém, insisto, e ela acaba cedendo, com um resmungo. Ela me explica que escorregou em alguns cacos de vidro, que acabaram entrando em seu joelho. Retiro os cacos de dentro da ferida e a limpo o máximo que posso, até que ela possa se consultar com um médico de verdade.Levo um susto quando um funcionário nos chama a atenção. — Olá pessoal. Meu nome é William, mas me chamem de Coordenador Jones. Então, como tivemos uma... emergência de última hora, trouxemos vocês até aqui, pois a partir do momento que seus nomes foram selecionados, ou que vocês se ofereceram, devemos zelar pela segurança de vocês até que a batalha comece. Por isso, iremos adiantar a tranferência. Peço atravessem essa sala e saiam pela porta que está nos fundos, lá estará um flutuador a espera de vocês. Entrem e se acomodem nele, depois aguardem novas instruções.
Transferência. Me lembro da última guerra que meu pai esteve. Nova York. Irão nos tranferir para o maior centro econômico do país atualmente. Meu coração galopa. A partir de algumas horas, não estarei mais em casa. Nunca mais verei Beth, ou mesmo meu pai, ao menos que consiga sobreviver a uma guerra que irá matar vários de meus amigos. Alguns alunos estão visivelmente nervosos, mas eu dou o máximo para não demonstrar o meu medo. Ouço passos e olho para trás. Aproximadamente 30 alunos entram pela porta da frente, sujos, chorando. Um deles está desmaiado nos braços outro aluno. Seguidos por um funcionário que não reconheço.— Estes são os guerreiros que faltavam. Agora estão todos aqui.Ele bate continencia e nos encara. Dou-lhe um sorriso e ele retribui, enquanto se vai.— Então pessoal, sigam as minhas instruções. Encontro vocês daqui a cinco minutos, no flutuador.***Entro no flutuador, e Blair senta no ultimo assento, enquanto eu estou no primeiro. Não posso deixar de novamente me entristecer. Á alguns minutos estávamos juntas, amigas, como nos velhos tempos. Agora, ela está de novo tentando se afastar. De mim, do mundo, não entendo. Fecho os olhos. Penso como meu pai e Beth vão reagir quando souberem que eu faço parte da guerra agora. Procuro o meu celular nos bolsos da minha saia, mas lembro que deixei ele no meu armário. Tento sair do flutuador, mas existem seguranças que não me permitem sair de lá. Droga. Dou um soco no assento, com raiva. Me arrependo imediatamente, por aque aquilo doeu. — Bom dia, flor do dia! Tá tudo bem aí? — viro o rosto, com a certeza de que não foi comigo. Mas percebo que foi quando avisto um garoto me encarando no banco de trás. Seus cabelos são cacheados e bagunçados, e ele parece querer ajudar. O encaro um pouco, tentando lembrar se o vi rindo de mim no estacionamento agora a pouco, mas não lembro. Então, decido responder.— Não! preciso avisar meu pai que eu não vou voltar, mas esqueci meu celular nos armários. Que saco!O garoto dá um sorriso amarelo, como um louco. — Qual é o seu nome? — Clarice. Clarice Diann Parker. Porque?— Aah! Filha dos famosos guerreiros e tal. Ouvi falar que você estava na guerra.Reviro os olhos. Não aguento mais ser conhecida apenas por causa dos meus pais. — É, isso mesmo.— Vem cá — Ele começa a sussurrar. — Você sabe que aquelas pessoas riram quando você chegou, porque acham que você não é capaz de vencer nem um jogo de pebolim, não sabe?Meu coração congela quando a ficha cai.— Sei sim — Minto. O meu sangue ferve. Raiva, Tristeza, Determinação assumem o meu corpo. Brian, que se dizia meu amigo, agora me despreza, porque eu virei piada entre os outros. Não acham que eu posso. Não acreditam em mim. Tento convencer a mim mesma de que consigo. Não quero mais ser apenas uma garota rica e popular da Carolina do Norte, quero ser uma guerreira. E agora, vencer essa batalha é questão de honra.
Fale com o autor