A Pátria.

11 O teste — Clarice


Meus sonhos foram pacíficos, porém não me lembro de muita coisa. Um céu estrelado, risadas sinceras... é tudo oque eu lembro.

Eu estava ainda deitada na cama gélida e dura do centro de treinamento da cidade de Nova York. A única cidade que conseguiu se reerguer. A única cidade nos Estados Unidos que possui armamento, tecnologia, comércio e dinheiro o suficiente para treinar guerreiros, sem contar, talvez, São Francisco, que mesmo não chegando ao nível de Nova York, ainda sim tem boa condição quando se fala em tecnologia e armamento.

Ali, onde estou, começo a ponderar sobre como chegamos a este ponto. Não só a guerra que os países de segundo e terceiro mundo armaram contra os Estados Unidos, mas sobre todos os erros grandiosos que cada país cometeu para chegar onde está hoje. Nós queríamos obter poder sobre outros países e acabamos os subestimando, e assim, perdemos tudo oque nos era mais precioso. Agora, somos um país a beira da falência, que necessita da ajuda de outros governos para sustentar o pouco que temos.

Ás vezes, costumo pensar nos Estados Unidos como uma pessoa. Se uma pessoa quisesse ter poder sobre as outras, as “machucando” para isso, eu desejaria que este sujeito sofresse oque meu país sofre? Falência e tristeza? A resposta provavelmente seria sim. Então, eu considero toda a dor e sofrimento que vivemos hoje, justiça sendo feita? É como se eu dissesse um “bem feito” para tudo oque as pessoas sofreram. No entanto, todas as pessoas merecem perdão. E é por isso que recebemos ajuda de outras etnias, mesmo que precisemos declarar uma guerra civil para dividir tais recompensas.

Ouço uma sirene, e meus pensamentos evaporam.

ATENÇÃO, GUERREIROS. O CAFÉ DA MANHÃ ESTÁ SENDO SERVIDO NO REFEITÓRIO.

Bocejo e me sento na cama. Percebo que deixaram roupas para mim na minha cabeceira, uma blusa branca, contendo o símbolo do campo de treinamento, duas espadas cruzadas com um raio estilizado no meio. Também havia uma calça preta de tecido macio e botas realmente horríveis. Levanto correndo da cama, afim de pegar um dos banheiros primeiro que todo mundo. Eu realmente odeio que alguém me veja desarrumada. Muito menos gente que eu nunca vi na vida. A julgar pela fila que estava na frente da porta quando saí, foi mesmo grande sorte ter acordado antes da sirene tocar.

Não tive a mesma sorte no refeitório. — Me perdi algumas vezes no caminho. — Quando cheguei lá, já estava lotado.

— Ei! Clarice! Sente aqui com a gente. — Ouço uma voz masculina me chamar e quando viro o rosto, dou um sorriso. Matthew, o menino que eu conheci no flutuador. Seus cabelos castanhos estão desgrenhados e seu grande sorriso dá a ele um ar um tanto maluco. Mesmo assim, o considero quase um amigo.

— Oi, Matthew! — dou uma olhada para as duas meninas que estão sentadas com ele e tento reconhecê-las da Charles Harrison School, sem sucesso. — E essas são...?

— Essa é Kendall Creech. — Ele aponta para uma garota loira do seu lado direito. Ela era baixa e tinha os olhos tão vermelhos que eu apostaria que ela estava fumando maconha, se elas ainda existissem. A radiação acabou com muitas espécies de plantas e ervas. Muitos animais foram extintos também. Ás vezes eu queria ter nascido no século passado, só para ver de perto como eram aqueles animais. Aposto que as pessoas daquela época não davam a devida importância a eles, até perde-los por completo.

— Prazer, eu sou Clarice Parker. — digo, sentando na cadeira ao seu lado.

— Oi! Desculpe pela minha aparência, eu não tive dias bons. — Ah! Ela estava chorando...

— Eu também não estou muito feliz com a minha situação atual, mas quer saber? O medo só toma conta de você quando você autoriza ser tomada por ele. Talvez você só tenha que se opor a isso. — dou uma piscada discreta para ela e arranco um pequeno sorriso de seu rosto. Me sinto tão hipócrita. Eu realmente queria ser essa pessoa corajosa que não se curva diante a nada. Mas eu sei que não sou. Só estou brincando de ser forte.

Por que é tão fácil aconselhar os outros quando nem você mesmo sabe oque fazer?

— Hm... tá. — Matthew me interrompe. — Não esqueça de colocar esta frase no seu livro de autoajuda.

— Pode deixar, Matthew. Vou colocar seu nome na dedicatória.

Ele faz uma careta.

— Não me chame de Matthew. É muito certinho. Posso ouvir meu pai me chamando assim. — Dou risada. — Matt é muito mais legal.

— O.k., Matt. — faço um tom de voz engraçado. — Vai me apresentar sua outra amiga? Eu não tenho muitos amigos de verdade aqui nessa jaula mesmo.

— Ah, essa é a Sophie. — Ele aponta para a garota da esquerda. Ela era morena e prendia seu cabelo num coque desleixado. Ela parecia distraída. — Ela é amiga da Kendall, também a conheci agora.

— Oi, Sophie.

— Hãm? Ah, Oi! Desculpe, é que nosso instrutor está ali. Cara, vocês viram como ele é bonito? Ah, Se eu fosse mais velha...

Kendall revira os olhos, no entanto, eu dou uma gargalhada.

— Não sei quem é. Não treinei ontem.

— Não? Que azar o seu. Com certeza um dos caras mais lindos que já vi!

— Podemos mudar de assunto? Por favor! — Matt nos interrompe, e todas nós damos risada.

Conversamos sobre tudo: família, sobre oque estávamos achando de estar em treinamento, oque esperávamos da batalha... embora o assunto fosse um tanto pesado, foi muito bom ter um momento de paz, com amigos de verdade. Provavelmente eu nunca tinha me divertido assim com meus amigos da Harrison School, apesar de eu conhecer eles a anos.

Ouço uma sirene outra vez, e então, a voz da General Verônica Rose invade o refeitório.

Atenção, guerreiros! — Verônica fala esta frase com um tom meio ensaiado. Depois, quando percebe o quanto soou ridículo, prossegue com seu tom normal. — Parece que não demos a vocês a chance de mostrar seu potencial, dividindo vocês em estágios de acordo com o número de guerras e com quem acreditamos ter tido boa educação sobre o assunto com influência de pais ou de escolas preparatórias.

Por isso eu estou no estágio dois. Eles acreditam que meu pai me instruiu.

Então, em uma reunião com sócios e personalidades importantes, fora decidido que hoje mesmo teremos um teste para designar a cada um de vocês o estágio correto.

Pelo canto do olho, vejo Kendall dar um sorriso e olhar para Matt com um ar de empolgação.

Estágio um, para os que estão em sua primeira guerra, no entanto possuem talento em pelo menos uma área.Estágio dois para os estrategistas experientes em armas.Estágio três, para os experientes em guerras que possuem pelo menos três dos talentos que são precisos em batalhas.Os que não se encaixarem em nenhum dos três estágios, não mais será um integrante do exército

Meu coração para por um instante.

Muito Obrigada pela atenção de todos vocês, no veremos em breve.

Então é isso. Vou para casa sem ao menos tentar.

O silêncio toma conta do refeitório, e as pessoas encaram umas as outras com expressões confusas. Estou sentindo o peso de diversas emoções no meu peito e parece que eu não sei mais respirar. Um nó na minha garganta me impede de emitir som algum, e meus olhos ardem. Meu coração bate forte. Saio do refeitório correndo, fazendo com que todos olhem para mim diretamente.

Parta piorar a situação, Matt grita:

— Ei, Pra onde está indo?

Ele corre em minha direção e consegue me alcançar. Neste ponto eu já estou com os olhos marejados.

— Oque aconteceu ali?

Tento correr mais uma vez mas ele me segura.

— Droga! Eu tinha prometido a mim mesma que ia treinar duro para ir bem nesta merda de guerra! E agora vou ser levada para casa sem ao menos tentar.

— Não fique assim está bem? Não sei bem como vai ser este teste, mas vamos fazer o seguinte: Eu irei treinar com você o dia inteiro. Você vai se sair bem. Acredite em mim. Tenho certeza que você tem talento em pelo menos uma área.

— Pare de mentir só pra fazer eu me sentir melhor!

Ele solta o meu braço, mas ainda parece furioso comigo. Ao vê-lo ali, com os punhos cerrados e a respiração pesada, me encarando, sinto até um pouco de medo.

— Eu pensei que você tinha mudado, quando você disse aquilo para Kendall no refeitório. Mas é tudo uma máscara, não é? Você continua uma covarde.

Ele volta pro refeitório, batendo os pés.

Me sinto triste, porque, apesar de tudo, ele está certo. Mas também sinto raiva. Eu não posso ser covarde.

Saio sem rumo pelo corredor, decidida a encontrar um lugar em especial.

Estou na sala de treinamento. É um cômodo gigante que acomoda centenas de armas diferentes, algumas que nem eu mesma, que convivi com isso durante toda a minha vida, reconheço.

Ando pelos corredores de arma, tentando achar uma em especial. A única arma que meu pai me ensinou a usar. Minha única esperança nesse momento. A encontro no fim da prateleira, um revólver pequeno, comparado as outras armas desta sala.

Qualquer um o subestimaria, dissera meu pai. Mas apenas os mais sábios sabem que quanto menor, mais forte é.

Não entendi oque ele quis dizer no momento, é claro. Eu tinha treze anos e a única coisa que eu me importava de verdade era com o meu boletim escolar. Mas agora... me identifico com essa arma. Sou subestimada, porém, sou forte. E vou provar isso.

Vou até o centro da sala e me posiciono na frente do alvo, com o revólver na mão. Tento não pensar em mais nada a não ser nos ensinamentos do meu pai, quando ele me mostrou como se usava uma arma do jeito certo.

Dobre os joelhos. Confere. Coloque força nos braços. Confere. Respire fundo. Aperte o gatilho.

Um barulho ensurdecedor sai do pequeno revólver em minhas mãos. A força que a bala é disparada quase me leva para trás, mas mantenho os pés firmes no chão. Só então vejo que o tiro acertou muito perto do centro do alvo.

Comemoro com um giro de braço, e tento mais algumas vezes até estar com os braços tão dormentes pela força que faço para não cair para trás toda vez que aperto o gatilho. Resultado: descubro que sou boa nisso, apesar de ter atirado apenas algumas vezes, quando tinha treze anos.

Tento também algumas outras armas que não estavam sendo usadas por nenhum outro guerreiro que estava treinando por ali, mas não obtenho sucesso em nenhuma delas. Facas? Não. Arco e flecha? Nem pensar. Talvez eu consiga um lugar no estágio um. E eu estou muito satisfeita com isso.

Ouço uma sirene ensurdecedora e paro oque estava fazendo imediatamente. As sirenes sempre vinham com um anúncio da General Rose, então aguardo até que a voz dela preencha a sala.

GUERREIROS, POR FAVOR DIRIJAM-SE AO SAGUÃO. REPETINDO, DIRIJAM-SE AO SAGUÃO. VOCÊS SERÃO ENCAMINHADOS ATÉ A SALA DE TESTES. OBRIGADA!

Meu Coração galopa, e então sigo meus colegas até o saguão. Quando chego lá, me deparo com muitos guardas uniformizados a nossa espera. Eles tinham expressões duras como pedra, e não respondiam nenhuma de nossas perguntas, apenas fingiam que não ouviam e continuavam seu trabalho.

Vejo Blair na multidão. Ela me lança um olhar que pra mim soou como um “boa sorte”, e depois vira o rosto. Dou um sorriso para mim mesma, porque ao menos desta vez, ela não foi arrogante, oque é um milagre quando se fala de Blair de La Court. Ela age dessa maneira com as pessoas desde tipo, sempre. Talvez porque as circunstâncias a deixaram dessa maneira. Não a culpo, ela sofreu muito nessa vida. Eu perdi minha mãe, mas eu tive o apoio do meu pai e familiares para passar por esse momento difícil. Blair perdeu os pais e não sobrou nenhum familiar para cuidar dela. Apenas uma empregada por quem ela se apegou muito. É a única pessoa que ela tem.

Sou praticamente empurrada pelos seguranças para dentro de uma porta, que me leva a uma sala escura. Não consigo distinguir se é uma sala grande, ou oque tem dentro dela. Mas posso apostar que apenas um terço dos guerreiros entraram nela. Penso que este teste fora criado para os que inicialmente, foram colocados no estágio dois.

Luzes fracas iluminam o local, e agora posso ver que existe uma tela gigantesca na parede. A tela se ilumina com a imagem do nosso ex e último presidente, Griffin Holtz, que foi assassinado á vinte anos atrás, quando invasores de países inimigos atiraram contra o seu peito. Desde a morte dele, não tivemos mais nenhum presidente. E se tivéssemos, não seria grande parte da população que saberia de sua existência.

Ele começa contando a história da guerra — que todos nós já estávamos cansados de ouvir. — Depois, terminou o discurso com mensagens clichês de motivação.

— Enfrentem. — ele dizia. — Lutem pelas suas vidas, e pela nossa pátria.

É oque iremos fazer, digo a mim mesma.