A Pátria.
4 Devaneios — Blair
Quando o diretor para de falar, um silêncio paira pelo ar por alguns minutos, até que alguém a minha frente se levanta e caminha até o palco, então grita:
— Eu vou lutar!— É Clarice. Ela parece determinada, mas eu a conheço, no fundo, ela está com medo. Me lembro que minha mãe foi voluntária duas vezes, e nas outras, foi escolhida por mérito. Minha mãe, uma guerreira invejável, ela era linda e me pergunto porque as pessoas insistem em me comparar a ela. Minha mãe tem um nome forte na escola e em todos os locais da Carolina do Norte, ela foi marcada como uma mulher bondosa que acima de tudo sabia ser uma ótima líder. Ela era uma mulher maravilhosa e cada dia eu procuro ser igual a ela, o que é impossível, mas eu insisto. Catarine de la Court era poderosa e ainda sim, era a minha mãe.
Fecho meus olhos.
Estou no meu quarto e só acordo por causa do barulho que vem do andar debaixo. Minha mãe e meu pai gritam e Natalie tenta acalma-los, tudo sem sucesso. Não entendo muito bem o que eles falam, só escuto o meu nome diversas vezes na voz de minha mãe. Me levanto e caminho até a porta, o corredor está escuro e percebo que ainda é três da manhã. Caminho pelo corredor escuro para que eu possa ouvir melhor a conversa, paro no topo das escadas e então as desço as escadas, ainda sonolenta, e acabo parando na sala de estar onde todos estão reunidos em volta de minha mãe, que está sentada no sofá com as mãos apoiadas em seu rosto, ela está chorando, algo que eu nunca vi ela fazer. Meu pai tenta acalma-la.
— Blair vai ficar bem, acredite em mim. — Ele está sentado ao lado de minha mãe, ela ainda está chorando, o que me assusta.
Minha mãe levanta a cabeça e olha para o meu pai.
— Não, não vai. Ela tem apenas nove anos Patrick, ela não vai ficar bem sem a presença de um pai e de uma mãe. Eu quero ficar e vê-la crescer! — Minha mãe se exalta um pouco mas em seguida volta ao normal. Ela limpa as lágrimas com um lenço de papel que Natalie trouxe, em seguida, toma um copo de água e se vira, me vendo ali parada. Ela rapidamente se levanta e me olha.
— O que está acontecendo aqui? — Pergunto mesmo sabendo que eles não vão me responder com a verdade.
— Não é nada meu bebê, volte a dormir. — Minha mãe fala com sua voz suave e com a maior calma que consegue reunir.
— Vá dormir Blair, amanhã você tem colégio. — Meu pai evita olhar para mim enquanto fala.
— Eu quero saber! — Falo e meus pais se olham, minha mãe assente com a cabeça e caminha até mim, ela se agacha em minha altura e olha nos meus olhos enquanto mexe em meu cabelo tentando obviamente me acalmar. Nada disso vai adiantar, pois estou decidida.
— Blair, você só tem nove anos, porém tem uma mentalidade de gente grande. Acho que obviamente você entenderia que esse assunto é delicado e que pode causar danos a você que nem eu mesmo consigo entender. Você é minha filha, e eu amo você! — Meu pai me abraça e eu me solto pois sei que ele está tentando me enrolar.
— Você só está complicando tudo, me diga logo o que está acontecendo! — Olho para minha mãe, ela solta um suspiro triste e me olha.
— Tudo bem, vamos lá. — Ela se levanta e caminha até a mesa, além de flores e algumas revistas, lá tem uma carta aberta, minha mãe a pega e caminha até mim. — Hoje nós recebemos essa carta, aqui diz que precisaremos ir para a próxima guerra. Seu pai está trabalhando em um novo projeto, um armamento tão poderoso que pode fazer com que nós ganhemos essa maldita guerra. — Minha mãe me avalia procurando traços de preocupação e então continua. — Blair, seu pai e eu estamos indo para o centro de treinamento amanhã de manhã. — Quanto escuto isso, um rio de lágrimas transborda de meus olhos. Lágrimas vão caindo sob meu rosto descontroladamente e eu não me preocupo em limpa-las, eu estou completamente sem reação. Até que em um momento de raiva e tristeza, corro para meu quarto e tranco a porta. Lembro-me da conversa em que ouvi a meses atrás e uma nova onda de ódio toma meu corpo, fecho os meus olhos e acabo dormindo depois de tanto chorar.
Na manhã seguinte, meus pais se foram e eu não tive a oportunidade me de despedir deles.
Abro meus olhos.
Estou novamente no enorme salão que abriga todos os alunos. Pelo menos 43 pessoas se voluntariaram e agora, eles estão chamando os nomes. Eu sei que meu nome vai ser chamado, então, de qualquer forma eu iria para essa guerra. Olho para os lados, algumas pessoas estão nervosas e aparentemente preocupadas com o fato de seu nome ser chamado. A garota que estava do meu lado chorando, foi chamada e eu nem sei porque, ela está no palco, ainda está chorando e eu reviro os olhos por tamanha fraqueza. Ao lado dela, um garoto mantém postura e olha para o centro, ele parece procurar alguém. O diretor pega o microfone e anuncia o próximo nome. Amandla Ellis. A menina se levanta e caminha até o palco, ela está confiante o que me faz admira-la. Agora é a vez de alguém se voluntariar, ninguém se pronuncia. Um silêncio de dez segundos se mantém até que eu me levanto e grito.
— Eu vou lutar!— Ouço o barulho de palmas e então me dirijo até o palco, junto de Clarice. Escuto nome por nome ser anunciado e então, uma hora depois, a cerimônia acaba. O diretor pronuncia algumas palavras que não ouço e em seguida sai do palco. As cortinas se fecham, e quando vou caminhar para fora do palco, escuto um barulho estranho. Paro e olho para trás, não há ninguém ali. Imagino que seja coisa da minha cabeça, pois obviamente, tudo isso mexeu e muito comigo e com o meu emocional.
Então as luzes se apagam e eu ouço o barulho de tiros, seguido de gritos vindos do lado de fora.
Fale com o autor