A Outra Medade
1 De graça
Notas iniciais
Conheci Maísa num começo de noite, um fim de mais um dia ensolarado e cheio de vida, mas que pra mim era apenas nublado. Era assim que eu via as coisas: num tom nublado. Vivia todos os dias tentando me encontrar, fazia apenas as tarefas normais de um garoto de 17 anos, eu existia. Desde que aprendi a perguntar eu procurava pelas respostas, só fazia perguntas que ninguém poderia responder, "perguntas irrespondíveis" como eu as intitulava. Por que? Como? Onde? Minha alma era um ponto de interrogação.
Como a maioria dos meninos e meninas que eu conhecia na época, eu passava parte do meu dia no computador, na internet. Não pesquisava muito sobre as grandes guerras do mundo, sobre o universo ou o que os professores falavam nas aulas, procurava apenas por pessoas. Como amigo, amigo mesmo que a gente chama de irmão eu só tinha o Luíz, que era como eu, mas ao mesmo tempo muito diferente.
Luíz era brincalhão, extrovertido e levava jeito com as garotas, do tipo que nunca se apaixonava e diferente de mim que gaguejava no primeiro oi. Estudávamos numa escola pública do Rio de Janeiro que não acompanhava a realidade das outras. Escola de uma disciplina exemplar, os requisitos para estudar naquele lugar iam de bom histórico de notas à recomendações de professores, me vangloriava das minhas notas azuis e do meu pouco esforço para me dar bem com a matemática. Aprendíamos desde cedo que se quiséssemos algo na vida, se quiséssemos prosperar e sermos notados no mundo, teríamos de lutar por isso. Levei tempo para entender isso porque eu só queria viver, mas nem isso eu sabia o que era.
A escola parecia um mar de adolescentes, eu os olhava e via todos os pontos de interrogação que eles carregavam. Ás vezes eu sentia os olhos deles em mim, como quem olha um desconhecido e tenta decifrá-lo. Achava graça em todos os romances que eu via começar e terminar no corredor principal, sempre achei que adolescente sofre de amor por razão nenhuma. A escola tinha um programa de incentivação aos estudos que selecionava alunos de uma outra escola para terem aulas com os alunos do ultimo ano, assim nós praticávamos e ensinávamos ao mesmo tempo. Como eu era aluno do 3º ano do ensino médio lá estava eu todas as terças e quintas lecionando, gostava de participar dos projetos da escola. Numa terça-feira, enquanto estava lecionando uma menininha um tanto indisciplinada, desviei o olhar e uma cena de cinema aconteceu: meus olhos avistaram uma menina que me chamou atenção, meus olhos já tinham passado de onde ela estava, então voltei a olhar, mas não a encontrei. Só pude olhar por 1 ou dois segundos, era morena, magra, cabelos negros e lisos que caiam em ondas até sua cintura. Resolvi não alimentar minha curiosidade e voltar a ensinar. O dia acabou e aquela menina ainda ocupava um lugar em minha mente. Depois de assistir com meu pai alguns documentários sobre energia sustentável, resolvi voltar pro meu reino: meu quarto. Como sempre, o computador que ficava numa mesinha ao lado da minha cama era o meu destino. Resolvi desviar, por um segundo o pensamento de que eu passava tempo demais naquela máquina me invadiu e me fez querer algum contato físico, resolvi ligar pra meu único amigo irmão.
— Fala Lucréia. — Odiava aquele apelido.
— Boa noite Luíza — Respondi com uma risada.
A conversa com o Luíz não demorou mais do que 15 minutos, 12 deles falando da menina que conheceu outro dia e de como achava que desa vez ele estava realmente apaixonado e os outros 3 minutos foram usados para me convencer a ir ao cinema com ele, a menina que conheceu e uma amiga. Luíz me enchia de sermões, só me falava o que eu sabia "Você não sai de casa, fica preso, não ama, não ilude, não curte os prazeres da vida" Eu apenas ria de suas frases. Para alívio de minha mãe, as baladas de fim de semana nunca foram minhas preferidas. Marcamos na casa dele e de lá iríamos de carona com seu irmão para o cinema. Já esperávamos a 10 minutos, minhas mãos já suavam, Luíz percebeu meu nervosismo e foi me passando algumas dicas enquanto não chegávamos, ele sabia da minha timidez. Enquanto eu falava algumas embolações, Luíz me tirou do transe.
— Lucas, é ela! — Ergui meu rosto para notar as duas meninas que estavam vindo em nossa direção, engoli seco quando percebi quem era.
Orei, pedi, implorei a Deus para que a menina que ocupou minha mente por toda a tarde não fosse o novo amor de meu amigo. Parece que Deus não me ouviu, ou a vida me quis pregar uma peça. Logo depois de me apresentar a outra garota que mal notei, Luíz me disse palavras que pela primeira vez me fizeram sentir inveja de meu melhor amigo.
- Lucas, essa é a Maísa, sua mais nova "cunhada".
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