A Outra Filha do Natal
2 Capítulo 2 — Querida Hila
A fábrica estava em pleno movimento.
Faltavam dois meses para o Natal, e isso, no Polo Norte, era praticamente o equivalente a um estado de alerta. O ar vibrava com o som das máquinas, engrenagens girando, caixas sendo arrastadas pelo chão e vozes pequenas e animadas se cruzando de um lado para o outro.
Nora caminhava entre as fileiras de mesas com uma prancheta nas mãos, parando aqui e ali para ajustar detalhes. Um lote de trenós precisava ser redistribuído. Um turno havia se atrasado por causa de uma engrenagem congelada. Nada fora do comum, e ainda assim, tudo precisava funcionar perfeitamente.
— Estamos adiantados! — anunciou Matt, surgindo ao lado dela com um sorriso largo demais para caber no rosto pequeno. Suas orelhas tremiam de empolgação. — Dois meses inteiros! Este ano vai ser o melhor Natal de todos.
Matt sempre ficava assim nessa época. Mais elétrico do que o normal, mais falante, como se cada parafuso apertado fosse uma pequena vitória pessoal.
— Você diz isso todo ano — respondeu Nora, contendo um sorriso enquanto conferia a lista. — E todo ano você acaba dormindo em cima da bancada na última semana.
— Mas vale a pena — ele rebateu, orgulhoso. — As crianças não podem esperar.
Nora assentiu. Era isso que sempre a fazia voltar ali. Não a fábrica em si, mas a certeza de que, em algum lugar distante, alguém abriria um presente com os olhos brilhando.
Quando o turno terminou, ela deixou a prancheta no lugar de sempre e saiu, sentindo o frio aumentar conforme se afastava do calor das máquinas. O caminho até casa era curto, mas suficiente para que o silêncio voltasse a se acomodar sobre seus ombros.
A casa dos Noéis era grande demais para quatro pessoas.
Luxuosa, aquecida por sistemas que nunca falhavam, com corredores longos e janelas que davam para o branco infinito do Polo Norte. Tudo ali era pensado para conforto, para permanência, para o mito que precisava ser sustentado.
Assim que entrou, Nora percebeu a movimentação diferente.
— Você viu? — a voz de Lizzie ecoava animada pela sala principal. — É a versão mais recente!
Olivia observava a filha mais nova com um sorriso aberto, quase orgulhoso demais. Sobre a mesa, havia um equipamento reluzente, delicado e complexo, feito de materiais que Nora nunca tinha visto serem usados na fábrica comum.
Lizzie colocou o dispositivo no pulso, e em segundos, a roupa que usava se transformou diante dos olhos de todos. O tecido mudou, o corte se ajustou, as cores se reorganizaram como se sempre tivessem sido aquelas.
— Ele consegue projetar qualquer vestimenta e materializar em segundos. Mas só pode ser configurado para uma pessoa. — explicou Lizzie, lançando um olhar rápido para Nora. — E já está calibrado pra mim.
Nora assentiu.
— Ficou bonito — disse, e não era mentira.
Stevan, o Papai Noel, ainda não havia chegado. A ausência dele tornava aquele momento mais evidente, mais difícil de ignorar.
Enquanto Lizzie testava novas variações diante do espelho, Nora subiu as escadas em silêncio. Seu quarto ficava no mesmo corredor, mas parecia pertencer a outra casa.
Era limpo, organizado, confortável. Tinha uma cama aquecida, uma escrivaninha simples, prateleiras com alguns livros e objetos guardados com cuidado. Tudo o que precisava. Nada além.
No quarto de Lizzie, Nora sabia, havia espaço demais. Roupas que mudavam conforme o humor, instrumentos raros, tecnologias experimentais, presentes que chegavam sem datas especiais.
Ela se sentou na beira da cama, tirando as luvas devagar.
Não era inveja. Nunca foi.
Mas era impossível não lembrar de todas as vezes em que Lizzie recebera algo “especial”, enquanto Nora ouvia que já tinha o suficiente. Das vezes em que sua utilidade era elogiada, enquanto o brilho da outra era celebrado. Do modo como o conforto sempre parecia chegar primeiro para Lizzie, e, se sobrasse, então para ela.
Nora olhou para as mãos, ainda marcadas pelo trabalho.
Talvez fosse por isso que ajudava tanto. Que se mantinha ocupada. Que nunca pedia demais.
Era mais fácil aceitar o básico quando se aprendia cedo a não esperar nada.
Lá embaixo, a risada de Lizzie ecoou pela casa.
Nora respirou fundo.
A neve continuava caindo lá fora, indiferente às diferenças dentro daquele ambiente.
***
Naquela noite, a mesa para o jantar estava posta como sempre: pratos quentes, comida farta, tudo perfeitamente organizado. Ainda assim, a ausência de Stevan ocupava mais espaço do que qualquer cadeira vazia. Olivia tentou puxar conversa sobre o clima, sobre a fábrica, sobre os preparativos para o Natal, mas as palavras pareciam escorregar sem se fixar.
Lizzie mal conseguia ficar sentada.
— Eu só vou testar mais uma — disse, levantando-se antes mesmo de terminar de comer. — Depois eu volto.
Ela saiu animada, o equipamento no pulso já começando a projetar outra possibilidade de roupa enquanto subia as escadas. O som leve de sua risada ecoou pelo corredor.
Nora permaneceu sentada, empurrando a comida no prato sem muita fome.
Olivia suspirou, ajeitando os cabelos loiros atrás da orelha. Por alguns segundos, nenhuma das duas disse nada.
Foi Nora quem quebrou o silêncio.
— Mãe… — a palavra saiu mais baixa do que ela esperava. — Posso te perguntar uma coisa?
Olivia levantou o olhar imediatamente, atenta.
— Claro.
Nora respirou fundo. Sentiu o coração acelerar, como se estivesse prestes a fazer algo errado, mesmo sem saber exatamente por quê.
— Por que você nunca me tratou como trata a Lizzie?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Olivia piscou algumas vezes, claramente pega de surpresa. Seus dedos se fecharam em torno do guardanapo, que ela torceu devagar antes de responder.
— Nora… — começou, e parou. — Você sabe que não é assim.
Nora manteve o olhar firme. Não havia acusação ali, só cansaço.
— É assim pra mim.
Olivia desviou os olhos por um instante, como se procurasse as palavras certas em algum ponto da mesa. Quando voltou a encará-la, havia algo entre culpa e defesa em sua expressão.
— Eu amo vocês duas — disse, com cuidado. — Do mesmo jeito.
Nora assentiu lentamente, mas não disse nada.
— A Lizzie só é… diferente — continuou Olivia. — Ela sempre foi mais mimada. Mais impulsiva. Precisa de mais atenção. Você sempre foi tão independente… tão responsável.
As palavras soaram ensaiadas. Como se já tivessem sido pensadas muitas vezes, mesmo nunca ditas em voz alta.
— Você nunca me deu trabalho — Olivia acrescentou, quase como um elogio.
Nora sentiu algo apertar no peito.
— Eu nunca quis dar trabalho — respondeu, honesta.
O silêncio voltou a se espalhar entre as duas.
Olivia se levantou, deu a volta na mesa e puxou Nora para um abraço. O gesto era sincero, quente, protetor. O perfume familiar da mãe a envolveu por um instante.
Nora retribuiu o abraço.
Mas, mesmo ali, envolta nos braços de Olivia, algo não se encaixava. Não era raiva. Nem mágoa aberta. Era a sensação persistente de que o amor, embora real, nunca foi distribuído da mesma forma.
Quando se afastaram, Olivia sorriu, aquele sorriso que sempre surgia quando queria encerrar um assunto difícil.
— Você sabe que é importante pra mim — disse. — Sempre foi.
Nora sorriu de volta, por hábito.
— Eu sei.
Mas não tinha certeza.
***
O resto da casa estava quieto demais.
Lizzie ainda devia estar no quarto, testando versões de si mesma diante do espelho. Olivia recolheu a mesa e se refugiou no silêncio confortável da rotina. Nora caminhou pelos corredores sem destino certo, sentindo aquele incômodo conhecido de quando não havia mais nada para fazer e nada para sentir sem que doesse.
Foi assim que acabou diante da porta do escritório do pai.
Ela já estivera ali antes, claro. A sala ampla, organizada, com mapas antigos do mundo espalhados pelas paredes, documentos do Conselho do Inverno cuidadosamente arquivados, a mesa robusta de madeira clara sempre impecável. O espaço cheirava a papel antigo e frio controlado.
Nora entrou sem culpa.
Não era como se estivesse fazendo algo proibido. Estava apenas… olhando.
Passou os dedos pela estante, observando lombadas que nunca teve interesse em abrir. Mexeu em pequenos objetos; uma bússola que não apontava para o norte comum, um globo com marcas que não existiam em lugar nenhum. Nada parecia fora do lugar.
Até que percebeu algo estranho.
Atrás de uma das estantes, quase imperceptível, havia uma divisão na parede. Um recorte discreto demais para ser decoração. Nora empurrou levemente a madeira, mais por curiosidade do que por intenção.
A estante cedeu.
Revelando um pequeno cômodo escondido.
Ela olhou aquilo, surpresa.
O quarto era simples. Sem móveis, sem adornos, sem o conforto habitual da casa. Apenas paredes nuas e uma única cômoda baixa encostada no fundo. O ar ali era diferente, mais frio, mais antigo, como se ninguém entrasse naquele espaço havia muito tempo.
O coração de Nora acelerou.
Ela se aproximou devagar, abriu a primeira gaveta. Vazia. A segunda, também. Na terceira, quase escondida no fundo, havia apenas um envelope amarelado e desgastado nas bordas, com o papel tão fino que parecia prestes a se desfazer.
Nora reconheceu a letra antes mesmo de abrir.
Era de seu pai Stevan.
As mãos tremiam quando ela desdobrou a carta.
"Querida Hila,
Eu passei a vida acreditando que o mundo era feito apenas do que era necessário: trabalho, frio, dias iguais. Então você apareceu e me ensinou que existir também podia ser cuidar.
Amar você mudou tudo em mim. Mudou a forma como eu olho para as pessoas, para o inverno e para mim mesmo. Nada do que eu sou agora teria existido sem você.
Agradeço aos céus por ter tido o privilégio de te conhecer. Por cada dia ao seu lado e por tudo que compartilhamos juntos. Se algum dia eu tiver que seguir em frente, será carregando você comigo, para sempre.
Com tudo o que sou,
Stevan."
Nora dobrou a carta com cuidado excessivo, como se o papel pudesse sentir.
O nome ecoava em sua cabeça.
Hila.
Ela nunca tinha ouvido aquele nome antes.
O primeiro pensamento veio rápido, acompanhado de um frio que não tinha nada a ver com o Polo Norte.
“Meu pai está escondendo algo.”
“Meu pai escreveu uma carta para outra mulher.”
Seu estômago se revirou.
Stevan estava ausente havia dias. O Conselho do Inverno. As viagens. Os silêncios. Tudo, de repente, parecia suspeito. Nora tentou imaginar o rosto de Hila, quem quer que fosse. Tentou entender como aquela carta envelhecida podia existir dentro de uma casa onde sua mãe caminhava todos os dias.
Fechou a gaveta com cuidado e saiu do quarto secreto, empurrando a estante de volta ao lugar original.
O escritório voltou a parecer normal, mas Nora não.
Enquanto subia as escadas, a carta ainda queimava em sua memória. E pela primeira vez, Nora sentiu medo não de estar esquecida, mas de não conhecer ninguém de verdade naquela casa.
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