Nos dias seguintes trabalhei como de costume. Minha rotina se resumiu a ir para o trabalho e em seguida ir até a casa de minha irmã, para tentar vê-la. Saber se estava bem. Pensar que algo de ruim poderia acontecer com ela apenas por eu não estar ali é um pensamento bastante individualista, como se eu pudesse fazer alguma diferença, mas era de meu interesse saber que ela estava ali.

Acredito que eu fazia isso apenas para poder ter uma visão de minha antiga vida. Vê-la ali, em nossa antiga casa, me trazia uma boa sensação, e lembranças distantes, que não estavam mais tão distantes assim.

Após cinco dias, notei algo. Me veio a visão de uma pequena silhueta; um vulto, pelas ruas. Senti e o vi. A princípio, acreditei se tratar de outra alucinação causada pelos remédios que estava tomando. Ele estava rodeado por uma sombra, de forma em que não conseguia saber se me seguia, observava minha irmã ou se apenas estava parado naquele lugar. Não quis correr o risco de pensar a respeito, mas pensamentos inundaram minha mente. Se aquilo estava me seguindo, poderia ser mais do que um simples ladrão? Poderia ser um assassino, alguém que conheça este rosto, ou pior, algum detetive?

Não quis correr o risco, então me apressei a sair daquele local sem chamar muita atenção.

Fui até uma pequena loja de conveniência e em seguida fui em direção a estação. No caminho, senti que aquilo estava atrás de mim. Eu realmente estava sendo seguido.

Senti um frio na espinha, e assim que saí da loja, tratei de apressar o passo. Até mesmo mudei meu caminho, pegando ruas alternativas, até que consegui chegar à estação pelo outro lado e tomar o trem. Mas quando cheguei até a próxima estação e desembarquei, senti uma mão em meu ombro. Era o doutor:

— Ei. Você está bem?

— Doutor. Você me assustou.

— Me perdoe por isso. Não sabia que você morava tão perto.

— Não moro. Estou apenas viajando um pouco.

— Hm... Lembro-me de ter ouvido você falar sobre isso uma vez. Então continua com as caminhadas noturnas?

— Sim. Acredito ser a melhor forma de pensar.

— Entendo. Bem, vendo de longe, você parecia meio agitado, então achei melhor falar com você.

— Estou bem. Apenas caminhei mais do que devia, então resolvi pegar o trem.

— Certo... tenha uma boa noite.

O doutor seguiu seu caminho e eu segui o meu, indo para minha casa.

Quando finalmente cheguei em casa, comecei a refletir sobre tudo que estive a fazer nos últimos dias e cheguei a uma conclusão. Mesmo na ausência de um sonho, comecei a fazer algo que pode ser dito como um objetivo. De maneira mais prática, é tudo de importante que tenho feito por esses dias: proteger minha irmã. Assim estou fazendo algo por ela, mas não só por ela, estou a fazer algo pelo meu antigo “eu”, já que essa tarefa me soa tão importante. Agora penso que essa, que veio brandamente a se tornar minha missão; meu maior objetivo de vida, tem valor simbólico suficiente para substituir um sonho em minha mente. Eu posso viver dessa forma, a protegê-la. Principalmente porque, se algo acontecer a ela, não sei o que seria de mim. Ela é tudo que torna sentido e testemunha de minha antiga vida. Sem ela neste mundo, o meu antigo “eu” poderá sucumbir, sendo esquecido.

Senti tanta alegria nesse momento que quase comecei a pular, só não o fiz pelo barulho. Eu estava feliz. Uniria o útil ao agradável, e poderia, de certa forma, voltar a minha antiga vida.

Imaginem quão pasmo fiquei quando, em minha concepção, estava a sorrir de orelha a orelha, mas quando vi um reflexo meu rapidamente no espelho do guarda-roupa, ele estava sério, e me olhava nos olhos.

Tranquei a porta de casa e me deitei em minha cama. Não sabia dizer se realmente estava sendo perseguido pelas ruas, ou se era apenas meus eus interiores em conflito. De qualquer forma tentei não pensar muito sobre isso, pois poderia resultar em uma grande dor de cabeça, além de que eu estava realmente cansado. Além de aterrorizante, sentir que está sendo seguido é cansativo.

No dia seguinte, fui despertado por batidas na porta. Era a síndica do apartamento.

— Estou aqui para saber do dinheiro do aluguel.

— Como...?

— Você é surdo? Quero saber do dinheiro que me deve.

— Deve haver um engano. Você não se lembra? Eu lhe paguei adiantado, quando me mudei.

— Do que está falando?! Escute aqui, e não se faça de desentendido. Sei bem que, quando chegou, me deu aquela quantia, mas também me lembro que me ofereceu aquele valor para que eu deixasse que ficasse com o quarto, ainda mais depois que lhe disse que já havia apalavrado com uma mulher. Não se faça de bobo! Tenho a certeza de que lembra muito bem disso! Aquele dia, quis me subornar, e agora está fingindo que usou a quantia para outra finalidade! Sinto muito, mas o que acertamos já está certo. O aluguel está vencido.

— Mas...

— Mas nada! Cale a boca, você está errado e isso não tem cabimento! Eu exigo que me traga o dinheiro ainda hoje, ou eu lhe expulsarei daqui ainda pela manhã de amanhã! Você foi avisado!

Eu havia me esquecido completamente de pagar o aluguel. Uma pena, pois se não fosse por isso, não teria sido incomodado por essa mulher. Mas não há do que reclamar. O erro foi unicamente de minha parte, já que dei a brecha que ela queria para me expulsar daqui.

Eu ainda possuía dinheiro no banco do meu antigo “eu”, além de que já estava para receber meu salário do novo “eu”. Após sair do trabalho, eu poderia passar no banco e pegar esse dinheiro para ela. Não seria um problema, na verdade, viria a serr uma solução.

O dia no trabalho foi tranquilo. Fiz o turno da tarde, que não é tão movimentado assim. O dia passou rápido, pois não pude deixar de pensar naquela silhueta que me seguiu, e me lembrei da que me seguia pelos bares noturnos. Será que é a mesma pessoa? Ou estou a ficar louco... minha cabeça dói só de pensar nisso.

Por falar nisso, desde o dia em que vi minha irmã naquele bar, nunca mais frequentei nenhum outro. Não sinto tanta falta assim da bebida, talvez fumar ainda me dê um pouco do gosto daquilo, meio que indiretamente, já que esse vício eu não consegui abandonar. Me arrisco até mesmo a dizer que, quando fumo, me sinto mais calmo; consigo pensar melhor. Mesmo sabendo que sempre é desse jeito, utilizo essa desculpa: aqueles que bebem, fumam ou fazem qualquer coisa que faça mal para si próprio, sempre buscam respostas coerentes, para tentar amenizar a dor e as consequências de se usar aquilo. Mesmo assim, penso que estou seguindo o caminho certo. É como o doutor me disse, todos buscam uma forma de se libertar de si mesmos. Se for pensar por esse lado, acho que o ópio é o melhor dos males, então fumo de consciência limpa. Se farei mal a alguém, que seja unicamente a mim – ou a um de meus eus -.

De dia, aquela silhueta, pessoa, fantasma, ou o que quer que for aquilo, não me atormenta. Na verdade, fantasma, sei que não é. Toda história de fantasma, em suma, é uma história de amor, e bem sei que nunca fui verdadeiramente amado ao ponto de que alguém me persiga neste estado de espírito. A menos que seja sobre meu novo “eu”, mas acredito que um fantasma conseguiria ver a diferença entre nós. Qualquer ser, tirando o ser humano, conseguiria me ver de verdade. Eu acredito nisso.

Realmente lamento muito o fato de não haver mais ninguém neste mundo que se sinta como eu.

Talvez até haja alguém — este mundo é muito grande para julgá-lo superficialmente -, mas, se essa pessoa não está aqui, do que me adianta saber que ela pode estar por aí? Não sei nem mesmo onde está. “Pode” estar... se for para pensar sobre isso, espero que não haja ninguém. Me doeria muito saber que existe sim, alguém, mas do outro lado do mundo. Do que me serve essa informação?

Aqui, estou sozinho, e isso tem sido tudo que eu conheço a muito, muito tempo.

Estar aqui não é de todo ruim, mas só de pensar que eu poderia estar em qualquer outro lugar, sendo compreendido, me custa muito manter essa linha de raciocínio sem sentir uma ponta de inveja. Se passam dias e noites, e eu mesmo vou me deixando para trás.

No fim do dia, recebi meu salário todo em espécie. Não acredito que a síndica aceitou aquela quantia como luva, mas não como aluguel, agora não quero nem discutir sobre isso. Se ao menos eu tivesse assinado algo, ou ela, como um recibo ou algo do tipo, isso não teria acontecido. Agora não tenho o que discutir, ao menos poderei continuar morando neste lugar.

Parei para pensar pela primeira vez em minha situação financeira. Sei que possuía uma boa quantia no banco, até mesmo desconhecida por minha irmã, mas imagino se ela correu atrás deste tipo de coisa ou apenas acredita que eu estou por aí, em algum lugar, e deixou tudo que me pertencia da mesma forma que estava antes. Às vezes até mesmo penso se ela sente minha falta, ou se está tão ocupada em sua vida que nem mesmo notou que eu não estou mais ali. Este mundo é assim: minha irmã continua vivendo – é melhor que ela continue vivendo –, as crianças brincam, todos vivem suas vidas. Apenas eu não existo. Esse é o mundo onde eu não existo. Começo a pensar sobre como deve ser viver em um mundo assim, e chego à conclusão de que é apenas o mundo normal. Nada mudou. Eu apenas não estou mais aqui.

Novamente tive a impressão de estar sendo seguido, então acelerei o passo um pouco, ao ponto de que me senti cansado após alguns quarteirões, parando para respirar. Quando olhei para trás, vi que realmente alguém caminhava de forma suspeita e rápida, em minha direção.

Eu não poderia ser roubado, não agora, então tentei caminhar mais rápido, indo até a estação. A princípio, obtive êxito e voltei para o apartamento, respirando profundamente.

Já era noite, um pouco tarde, mesmo assim bati na porta da síndica, com medo de ser expulso pela manhã. Após alguns instantes, ela me atendeu, e usava uma roupa que parecia um pijama, bem curto.

— Eu trouxe o dinheiro.

Ela me pediu para entrar. A princípio, neguei, mas após a insistência acabei aceitando, pois disse-me que eu precisaria assinar um recibo. Quando entrei, me sentei em um sofá na sala de estar, e ela foi até um outro cômodo, para buscar o recibo e uma caneta.

Seu apartamento era bem diferente do meu. Era maior, e possuía mais quartos. Estes, de seus filhos, que, pela calmaria, estavam dormindo.

Quando voltou, colocou a folha sobre a mesa de centro e a caneta em minhas mãos, então, se sentou ao meu lado, com a perna esquerda tocando a minha. Me senti nervoso, mas tentei manter a calma.

Confesso que os próximos acontecimentos se seguiram de forma muito rápida, mas, quando me prostrei para assinar o recibo, senti uma mão em meu ombro. — Era a sua mão — E senti uma forte tontura. A síndica então me prostrou, e me roubou um beijo. O primeiro pensamento que tive foi empurrá-la e sair dali, mas algo dentro de mim me fez ficar, então o fiz. Quando ela me puxou para seu quarto, senti como se um de meus eus estivesse cedendo ao desejo, ou até mesmo a carência, ignorando o desdém que o outro sentia por essa mulher, que agora, nessas condições, parecia ser ainda mais sozinha do que eu. Não consigo encontrar um real motivo para que eu tenha feito aquilo, mas o fiz: retribui o beijo, e permaneci ali por mais algum tempo, indo embora pouco antes de amanhecer. Não sei bem quanto tempo fiquei, ou quão cansado eu poderia estar, mas me senti absurdamente traído quando voltei a sala de estar para ver o recibo e finalmente assiná-lo – afinal, este foi o motivo de minha visita -, e percebi que não era um recibo de verdade.

Me senti um tolo, mas também senti um grande ódio. Voltei até seu quarto, e me deparei com aquela mulher dormindo. Por pouco, por muito pouco, me senti tentado a esclarecer aquilo ali mesmo, neste momento, mas não podia fazer tanto alarde. Afinal, eu poderia ter ido embora a qualquer momento, ela não me obrigou a nada. Acredito que havia conseguido conter, ao menos um pouco, o ódio que senti. Se aquilo não era um recibo, então a história de que aquele valor foi como luvas, era completamente mentira. Me pergunto se ela cobraria, caso eu fosse embora ou recusasse o que fizemos. De todo jeito, peguei tudo que era meu e saí dali, sem deixar nem mesmo uma única nota para pagar aquele falso aluguel. Não assinei o recibo e não deixei nada. Apenas fui para meu apartamento e dormi até o horário em que precisaria ir para o trabalho. Por sorte, meu turno hoje seria da tarde para a noite.

A síndica não veio até mim para cobrar o valor ou fazer algum tipo de escândalo, então acredito que estávamos quites.

Pelo resto do dia ainda senti raiva daquela mulher. Mas não só raiva. Também sentia um misto de satisfação amarga e timidez. Como pude me sujeitar a fazer uma coisa desse tipo, ainda mais com uma pessoa que não me agrada nem um pouco? Preciso me controlar melhor, para evitar desacertos futuros. Tenho medo de que a partir de agora ela use isso como pretexto para me chantagear ou para qualquer tipo de coisa. Só espero que ela não apareça em meu apartamento novamente. Ainda no trabalho tomei uma pílula de meu remédio. Havia esquecido de tomar pela manhã. Enquanto tomava, me lembrei do doutor, e me perguntei o que ele diria para mim, se eu contasse o que aconteceu. Me lembrei também do último encontro que tivemos, na estação. Foi muita coincidência encontrar com o doutor em um lugar assim, ainda mais nesse horário. Será que ele estava trabalhando até aquele horário? Ele não faz o tipo de que bebe casualmente, para estar em algum bar.

Desde que o conheci, tenho tentado analisá-lo como pessoa, e a imagem que tive é que o doutor não é muito diferente do que eu costumava ser. O doutor é uma pessoa tranquila, reservada, que passa mais tempo dentro de sua própria mente do que fora, com os outros, mas isso não quer dizer que não é uma pessoa sociável. Acredito que ele é mais inteligente que a maioria de nós, por isso tem esse ar mais aéreo. Ele deve ter muito mais coisas para pensar do que o resto de nós, então ele pensa muito. Às vezes tenho a impressão de que minha mente pode explodir a qualquer momento, de tantos pensamentos que tenho. Se o doutor pensa mais do que eu, será que também pensa dessa forma?

À noite sentia dor de cabeça, mesmo assim sentia a necessidade de ir até o bairro de minha irmã, para ver se tudo estava bem.

Já não sentia tanta raiva assim. Penso que já havia acalmado esse meu lado. Agora eu só precisava ver se minha irmã estava bem. Então eu iria até lá e depois iria para minha casa, descansar.

Esse bairro sempre foi muito tranquilo e calmo. Boa parte dos moradores daqui são pessoas mais senis, então é um lugar muito pacato para se viver. É um lugar pacífico, calmo. Eu gostava de viver aqui, embora possa ser um pouco mais caro do que nos mais próximos daqui. Acho que, pela calmaria, vale a pena. Talvez seja por isso que minha irmã não saiu daqui. Talvez seja o que tenha feito ela permanecer neste lugar. Quem sabe, um dia, eu volte para cá, junto dela.

Me lembro dessas lojas pelas quais estou passando. Me recordo de tudo isso, embora pareça ser algo muito, muito distante de mim. Parece que mesmo que eu entre nesses lugares, ou mantenha contato, nada será como antes. Nada nunca pode ser como era antes. Por esse motivo, temo um pouco voltar a ser quem eu era. Embora tenha paz novamente, e me sinta confortável, não posso fingir que todo esse tempo não se passou. Não terei mais emprego, não terei mais nada.

Subi as escadas de uma viela para chegar até a casa dela. Não sei se conseguiria vê-la, muito provavelmente não, mas apenas de ver aquela janela, ou alguma sombra lá dentro, me é reconfortante.

Acho cômico e sádico como posso ver tudo isso, ter esse vislumbre de minha antiga vida, mas não posso voltar a tê-la. Não enquanto essa maldita condição não permitir.

Enquanto subia a viela, vi uma pequena estrela no céu.

Fiz uma promessa para mim, de que, se o doutor me disser que não há uma cura, nesse caso não poderei ficar, terei que fugir. Então eu irei para longe, o mais longe que eu puder.

Quando terminei de subir a viela e me aproximei da casa de minha irmã, fiquei feliz ao ver sua imagem, na janela. Assim como eu a pouco, ela observava o céu. Talvez tenha visto a mesma estrela que vi a pouco, e esteja esperando que ela volte, ou que outra apareça.

Nesse momento, até mesmo esqueci a dor de cabeça que sentia, e, assim que ela entrou, então decidi voltar para meu apartamento. Mas avistei algo, que me manteve ali por mais um momento.

Tentei segui-la, mas após um ou dois quarteirões, a pessoa simplesmente desapareceu.

Não sei se ela entrou em um bar ou algo do tipo, mas havia muitos lugares ali para eu procurar, e provavelmente eu não a encontraria, então desisti da busca.

Se ao menos eu tivesse visto o rosto daquela pessoa, eu poderia procurar por ela com mais precisão, mas ele estava obstruído pela luz, que era quase nula. Tudo que consegui distinguir foi o casaco bege que usava.

Isso nem mesmo pode ser um critério de busca, pois na cidade grande, ainda mais a noite, qualquer homem voltando do trabalho está usando um casaco, ainda mais com a friagem que está fazendo.

De algo tive a certeza: minha irmã possuía um stalker.

Não sei o que ele quer com ela, ou até mesmo se pode lhe fazer mal – espero que não -. mas agora tenho a certeza de que não posso, em hipótese alguma, sair de perto dela.