Maria acordou no dia seguinte se sentindo revigorada, talvez por não ter feito nada no dia anterior. Era quase como se tivesse se livrado de um resfriado chato e seu nariz finalmente voltasse a ficar desentupido, sentia o ar mais leve, sua mente estava tranquila e quase podia começar a cantarolar feliz se não soubesse que sua voz era horrorosa quando cantava. Pulou da cama já abrindo a cortina da janela do quarto, deixando um sorriso feliz aparecer em seus lábios ao sair pulando em direção ao banheiro para tomar um banho. Nem ela sabia de onde vinha tanta animação e disposição para acordar aquela hora da manhã – ainda faltavam duas horas pro café da manhã –, mas não iria reclamar contando que o dia anterior fora um dos mais chatos que tivera desde que chegara ali.

Murmurou uma música qualquer durante todo o processo de se arrumar, dar um jeito no quarto bagunçado até finalmente sair dele ajeitando os cabelos em um rabo de cavalo alto. Acenou para alguém que caminhava pelo corredor e parou em frente ao elevador, apertando o botão para chamá-lo balançando o corpo para frente e para trás. Hoje seria o dia em que iria ver o filme com Alba, isso ainda a animava mais, não via a hora de fazer algo que não fosse andar por aí ou ficar o dia inteiro no hotel e ensaiando.

– Bom dia! – disse, animada e ainda pulante, ao homem entediado da recepção.

Não esperava um bom dia alegre dele também, e não o recebeu, o homem apenas acenou com uma mão e murmurou alguma coisa que Maria quis perceber como um cumprimento também. Ele era engraçado, nunca se cansaria da expressão dele. Buscou Alba pelo lobby, esperando encontrá-la em um dos sofás brancos lendo um livro, mas para sua surpresa encontrou foi Albert olhando para frente com a expressão séria e preocupada.

– Alô, você! – saltou ao lado do garoto, tirando-o dos próprios pensamentos.

– Oi, Maria. – respondeu ele sem muita animação, apoiando os cotovelos nos joelhos ao voltar a olhar pra frente, depois de ser obrigado a olhar para ela com o susto de ter aparecido de repente.

– Tá vendo algo interessante ali na parede?

Maria se ajeitou no sofá e levou os olhos até onde os de Albert pareciam apontar, semicerrando os olhos para ver se achava algo interessante ali também.

– Não, estou só pensando. – ele estava sendo mais seco do que de costume.

– Pensando em que? Estamos de folga, achei até que você ia estar com seus pais nesse fim de semana. – comentou, não percebendo que deveriam parecer dois lerdos conversando enquanto encaravam uma parede lisa.

– Eu ia, mas eles viajaram pra ver minha irmã competir. – soltou um suspiro, finalmente se movendo para apoiar as costas no encosto do sofá. – Esperava encontrar a Paola, mas ela não para no hotel. – as palavras foram quase um resmungo, já que Albert passava as mãos no rosto enquanto falava.

– Resolveu falar com ela e resolver o que deixaram sem resolver? – Maria se mancava pouco de que certas coisas não se perguntavam assim.

– Mais ou menos, preciso perguntar uma coisa a ela se não quero ficar pra sempre desse jeito.

Dessa vez ela não falou nada, apenas franziu as sobrancelhas ao se jogar também contra o encosto do sofá, dessa vez deixando os olhos irem até o teto branco com o lindo lustre prateado. Não sabia o que Albert queria dizer com “desse jeito”, mas não queria perguntar já que ele parecia falar como se ela soubesse do que se tratava, não queria dar uma de lerda.

– E você? Não vai voltar pra casa? – soltou Albert de repente, depois de alguns minutos em silêncio.

– Vou sim, mas só no fim do mês que é quando temos as férias mesmo. Não valia a pena ir pra ficar tão poucos dias como agora. – Maria não percebeu que o fazia, mas soltou um suspiro longo e triste ao terminar de falar.

– Noto que também quer resolver algo.

– Ahn? – tinha viajado por um instante e piscou várias vezes ao girar a cabeça para encarar o garoto ao seu lado. – Não, por que acha isso?

– Por nada, você só pareceu estar pensando em alguma coisa que te preocupava. – ele deu de ombros, deslizando um pouco no sofá para ficar mais confortável.

– Não é bem isso, é que já foi ruim me despedir do meu melhor amigo uma vez, sinto que vai ser essa agonia de novo. Mas também quero poder ver ele outra vez e bater na cabeça dele por me zoar falando que ia casar com a Joana, e tem também meus pais que me fizeram prometer que iria visitá-los. E, sinceramente? Não quero ter que passar pela sessão perguntas de “E os namorados? Gabriel é bonitinho, não acha?” É chato e um pouco desconfortável, não é porque somos grudados que temos que nos casar. – contava nos dedos enquanto falava, fazendo uma voz super chata ao imitar as perguntas de sua mãe e buscando ar ao terminar o pequeno discurso que havia feito.

O que não esperava era que Albert começasse a rir ao seu lado, ele não gargalhava, apenas demonstrava muito bem que tinha achado graça do desespero que Maria havia mostrado com coisas tão triviais como aquelas.

– E eu achando que meus problemas eram irritantes. – ele passou uma das mãos pelos cabelos loiros, ia falar algo, mas parou com as palavras na ponta da língua ao ver Paola entrar no hotel.

Maria acompanhou seu olhar, ao ver que ele paralisava e engolia em seco, e teve que segurar para não fazer um comentário chato, porém que ela achara super engraçado em sua cabeça. Deu dois tapinhas no ombro dele e assim que teve a atenção do garoto fez um movimento com a cabeça para indicar que fosse até Joana, antes que ela desaparecesse no próprio quarto outra vez. Albert hesitou, negando com a cabeça com os olhos arregalados, estava claro que por mais que ele quisesse ter aquela conversa não queria ter que iniciá-la assim de cara. Porém, com uma Maria insistente ao seu lado praticamente o enxotando para fora do sofá, fora obrigado a seguir Paola até o elevador.

A garota apoiou uma das mãos no encosto do sofá com o queixo ali, segurando uma risadinha ao ver como Albert ficava tenso a cada passo que dava em direção à Paola, ficando mais sério do que era necessário ao puxar assunto. Maria ainda sorria ao virar-se outra vez ao ver os dois entrarem no elevador juntos, parecendo sim dispostos a conversar, finalmente.

– Ei, cruza os dedos aí também. – falou um pouco mais alto, apontando para o homem entediado.

O homem, por sua vez, apenas franziu as sobrancelhas para Maria, sem entender do que ela estava falando. A ruiva revirou os olhos, jogando-se outra vez no sofá, mas ainda feliz que sua não tão tentativa de cupido estava dando certo, mesmo que os dois não ficassem juntos. Podia chamar-se cupido da amizade, pelo menos, era um fato que não gostava de ter os dois tão separados e estranhos um com o outro sempre que se viam.

Ao ver Albert perder o medo e tomar um pouco de coragem na vida, Maria pensou que deveria começar a fazer o mesmo também. Tudo bem que já era pra frente o suficiente por ter entrado na orquestra sozinha, na cara e na coragem, mas era só nessa parte de sua vida que conseguia algum controle e tinha as decisões já feitas. O resto era uma bagunça, não era de se admirar que não tivesse nenhum namorado nunca e que seu quarto fosse tão desarrumado que Joana faltava pouco ter um ataque de pelanca. Não que quisesse essa coisa de relacionamentos, ou que não quisesse, apenas achava que podia correr atrás disso quando tivesse todo o resto de sua vida resolvida.

E tinha muita coisa para resolver sobre sua vida, mais do que se permitiria pensar num dia em que acordara quase gritando para que o sol não brilhasse mais que ela. Chacoalhou aqueles pensamentos para longe, levantando de um salto do sofá para ir até o local do café da manhã, ficaria rondando ali até a comida finalmente ser servida. Depois disso seria encontrar algo para fazer depois, mas era um problema pequeno, tinha energia de sobra naquele dia.