A Orquestra
25 Sorte e azar
Antes que percebesse já era segunda-feira outra vez. O sol batia em seu rosto pelas cortinas abertas, que se esquecera de fechar pela noite, mas dessa vez Maria não resmungou e muito menos amaldiçoou a manhã inteira. Aceitou que teria que acordar, pois não conseguiria dormir mais do que já tinha dormido, ainda mais sabendo que o sol estava lá fora querendo chamar o meio-dia. Espreguiço-se lentamente, bocejando com a mesma preguiça de sempre ao jogar as pernas para fora da cama, ficando de frente com a porta do quarto. Sabia que Joana já tinha saído para o trabalho, as curtas férias que ela tinha tirado já haviam acabado e devia voltar ao hospital se ainda quisesse trabalhar lá.
Maria olhou de seu guarda roupa com a porta aberta, sendo pouco singelo ao mostrar a bagunça que tinha dentro, para o violino sobre o sofá sem nada por perto que o pudesse tocar. Até mesmo ela podia notar a diferença com que tratava seu violino comparando com todas as outras coisas que possuía. Espreguiçou-se outra vez, finalmente se colocando de pé, caminhando para fora do quarto sem olhar direito por onde ia. O que, percebeu ao bater o pé contra o batente da porta, não era uma boa ideia quando se está ainda meio grogue de sono. Soltou alguns xingamentos e foi pulando até a cozinha, segurando o pé machucado de uma forma que também não era muito recomendada. Antes de sequer chegar ao balcão da cozinha, perdeu o equilíbrio de um pé só e saiu esbarrando em tudo antes de finalmente encontrar a parede e se encostar nela.
Resmungava outra vez ao caminhar, agora com mais cuidado, até a geladeira, para pegar uma água. Ficou um tempo olhando a geladeira cheia de coisas, decidindo pegar também o requeijão para fazer seu café da manhã, desistindo da água no fim das contas. Cantarolava uma canção daquelas que ficavam na cabeça por mais que tentasse se livrar, passando o requeijão no pão do dia anterior distraidamente. Mal acreditou quando viu que havia se cortado com a faca do requeijão, xingando coisas que nem sabia que conhecia ao abrir a torneira para molhar o dedo cortado.
– Acordei bem. – ironizou em voz baixa, colocando o dedo machucado na boca ao caminhar até a sala a procura de um band-aid.
Quando finalmente estava com o dedo devidamente cuidado e o pão feito, sentou-se no sofá da sala e ligou a televisão, deixando em um canal de desenhos porque, com a sorte que tinha naquele momento, era bem capaz de dar de cara com um filme horroroso de terror só de pensar em mudar de canal. Ouviu seu celular quando mordia o pão pela segunda vez, e teve que correr até o quarto para pegá-lo, desviando da porta o suficiente para não bater o pé contra ela outra vez. Jogou-se na cama ao atender.
– Bom dia, flor do dia! – estava animada, apesar da pequena onda de azar que a estava perseguindo.
– Oi, filha.
A voz do outro lado da linha, assim como o que havia dito, deu um susto em Maria que a fez arregalar os olhos.
– Mãe?! – era uma pergunta retórica, só queria demonstrar o susto que tivera. – Por que você tá me ligando a essa hora? Aconteceu alguma coisa? – até então já estava sentada na cama, agarrando o travesseiro, preocupada com a notícia que provavelmente viria.
– Não, filha. Só queria falar com você um pouco, você não me falou mais de Joana, ela tá melhor? – a voz dela era tranquila, o que fez Maria relaxar, voltando a se jogar deitada na cama.
– Ela tá sim, até já voltou a trabalhar hoje. Ainda rola ter uns momentos emos, mas ela vai superar, eu espero. – e esperava mesmo, não gostava de ver Joana tão triste toda vez que pensava no paciente perdido.
– Oh, também espero, ela é uma menina muito boa. – comentou sua mãe, e Maria quase podia ver o sorriso aliviado dela. – Mas, minha filha, me conte o que tem feito esses dias.
O pedido fora atendido com entusiasmo, pois se tinha uma coisa que Maria gostava de fazer era falar, ainda mais com sua mãe que ria de qualquer coisa minimamente engraçada que acontecia. Não contou sobre as cartas de Marcus porque não precisava deixá-la ainda mais preocupada do que já era com o fato de ter a filha longe de suas asas de mãe, e quando finalmente tinha conversado tudo que podia o telefone foi passado ao seu pai. A diferença de conversar com ele era que sempre queria saber sobre coisas específicas da vida de Maria, os amigos, o violino, se tinha tomado cuidado ao cuidar do dinheiro que ganhava com a orquestra e coisas do tipo. A garota não achava ruim, seria terrível ter o mesmo tipo de conversa, duas vezes seguidas.
Quando finalmente desligou o telefone já tinha acabado seu pão há muito tempo e quase já tinha fome pro almoço, sempre ficava muito tempo com seus pais no telefone quando ligavam em momentos tranquilos como aquele. Voltou a se levantar e ir em direção a cozinha, disposta a passar o resto do dia em casa pensando em que filme chamaria Gabriel e Joana para ver mais a noite, quando saísse do trabalho também. Quase se sentia uma inútil sendo a única a não ter o que fazer.
O tempo passou lentamente, Maria comeu, vegetou na frente da televisão e comeu outra vez, até que finalmente o relógio marcou seis e meia e o interfone tocou. Levantou do sofá rapidamente, batendo o dedo mindinho contra o interfone antes de conseguir pegá-lo, já sabendo quem estava chamando.
– TROUXE PÃO DE QUEIJO! – gritou Gabriel ao entrar no apartamento, balançando um pacote de padaria. – E também várias outras coisas não saudáveis que Joana vai adorar comer. – comentou por fim, deixando pequenos outros pacotes sobre a bancada da cozinha.
– E nada pra beber? Mas que desatento. – Maria negou com a cabeça, caminhando até a geladeira. – Ainda bem que eu guard... ah, não acredito.
– O que?
– Não tem refrigerante, vou ter que ir lá comprar, ugh. – reclamou Maria, fechando a geladeira com pesar. – Já volto. – disse, pegando a chave da casa e caminhando até a porta, deixando um Gabriel rindo da desgraça alheia pra trás.
Maria estava triste demais com a própria lerdeza para sequer pensar em esperar o elevador, punindo a si mesma ao descer pelas escadas e sair na tarde-noite um pouco fria da cidade. Olhou de um lado para o outro da rua tentando se lembrar de onde estava a vendinha mais próxima, apontando para a própria esquerda ao se decidir. A rua estava mais deserta do que esperava, mas também era segunda-feira e a maioria das pessoas não quer passear por aí em um dia tão melancólico para praticamente todo mundo.
Girava as chaves na mão direita ao caminhar, cantarolando ao atravessar as ruas até finalmente chegar até a padaria mais próxima. Acenou para a moça que ficava no caixa, indo direto até o local das bebidas e pegando uma garrafa de dois litros de refrigerante transparente de lá de dentro.
– Mais alguma coisa? – perguntou a moça, que não parecia muito feliz de estar trabalhando naquela hora.
– Hm, vou querer três balas daquelas. – apontou para as mentos do outro lado, vendo enquanto a moça esticava a mão e pegava as balas, cobrando tudo logo depois.
Ao sair da padaria, Maria pensou que aquela moça talvez combinasse com o homem entediado do hotel de Berlin, e acabou rindo da própria piada sem graça. Tinha quase se esquecido da sua onda de azar naquele dia quando, ao atravessar uma das ruas de caminho a casa, alguém a puxou pelo braço e jogou contra uma parede próxima. Fechou os olhos com o susto de ser abordada assim de repente, soltando um grito de dor ao ter as costas contra a parede. Assim que abriu os olhos outra vez desejou não tê-lo feito.
– Finalmente... – a voz da pessoa a sua frente estava rouca, podia ver o suor brilhando em sua testa, pregando seus cabelos negros.
Maria engoliu em seco e sentiu o próprio corpo paralisar, Marcus estava ali outra vez e parecia ainda mais maluco do que antes. O ar começou a falhar nos pulmões de Maria, mas tentou se controlar enquanto sustentava o olhar maluco de Marcus, não seria uma boa ideia cair em um ataque de pânico com a única pessoa a ajudar sendo ele.
– O q-que... – tentou começar a falar, mas a falta de ar e o terror de estar sozinha ali com ele não a deixaram formar uma frase com sentido.
– O que eu to fazendo aqui? O que você acha? – Marcus se aproximou perigosamente de Maria, dessa vez não parecia ter aquela calma para não tocá-la de antes. – Eu vim te ver outra vez, você tem que vir comigo. Não posso ficar mais sem você, Maria.
O jeito que ele pronunciava seu nome a fazia ter vontade de chorar. E o jeito que riu vendo o espanto na face de Maria só a fez tremer mais.
– Você fica linda assim, linda...
Agora ele murmurava, e Maria quis gritar ao ter os dedos de Marcus tocando seu rosto. Ele estava tão perto e ela não podia mais andar para trás, e mesmo se pudesse não conseguiria, estava traumatizada com a aparição do garoto para conseguir sequer pensar com clareza. Amaldiçoou seu azar de ter a rua tão vazia naquela hora, preparando-se para tentar gritar por ajuda quando Marcus foi puxado para longe de si de repente, fazendo-a soltar o ar que nem mesmo tinha reparado que tinha segurado outra vez.
– Se eu te ver aqui outra vez, vou chamar a polícia e fazer questão que fique com mais do que um olho roxo, me entendeu?! – a voz de Gabriel a tirou do transe de pavor.
Por pouco não conseguiu captar que aquela era a voz de seu amigo, parecia tão sério que quase podia esperar para o momento que ele soltaria fogo pelas ventas. Maria precisou piscar várias vezes para entender a cena. Marcus estava caído no chão com a mão em um lado do rosto, já se levantando e se arrastando para trás ao mesmo tempo, enquanto Gabriel caminhava em sua direção com os punhos fechados. Quando o outro finalmente se colocou de pé, saiu correndo tão rápido que mal parecia ter levado um soco no meio da face.
– Maria, você tá bem? – Gabriel apoiou as mãos sobre os ombros de Maria, que ainda tremia igual vara verde, obrigando-a a olhar para ele.
Maria demorou a responder, ficando bastante tempo com os olhos arregalados sem se mover antes de explodir.
– BEM?! A ÚLTIMA COISA QUE EU TÔ É BEM! AQUELE GAROTO APARECEU OUTRA VEZ, DE ONDE ELE SURGIU? COMO ELE SABIA QUE EU TAVA AQUI? ELE QUER ME SEQUESTRAR! – teria continuado gritando e gesticulando loucamente com as mãos se não fosse a risada fora de momento que Gabriel soltava. – POR QUE VOCÊ TÁ RINDO? EU TO MORRENDO AQUI! – gritou novamente, exasperada com o melhor amigo.
– É que você é muito engraçada assim, desculpa. – apesar de tudo, ele parecia falar sério. Parou de rir tão rápido quanto havia começado. – Não vamos deixar que ele se aproxime de você outra vez, Joana que me fez vir atrás de você porque teve uma sensação ruim, agradeça a ela. Amanhã vamos fazer uma denúncia na polícia.
Gabriel, então, puxou Maria para um abraço apertado para ver se conseguia fazer o corpo da amiga parar de tremer. Só quando ela já não tinha sinais de medo e seus braços pareciam relaxar ao redor de Gabriel que ele finalmente a soltou, dando um beijo na testa de Maria antes de pegar a sacola com o refrigerante com uma mão enquanto a outra segurava a da melhor amiga.
– Agora vamos pra casa, você tem que tocar pra gente hoje ainda. – Gabriel sorriu, o que puxou um sorriso de Maria também.
Ela sabia que ele também tinha ficado uma pilha de nervos com aquela situação, tinha sentido o tremor das mãos do amigo assim que ele segurou seus ombros mais cedo. Estava assustada na hora, mas certas coisas não se podiam ignorar. Agradeceu mentalmente que tivesse um amigo tão bom em acalmar os nervos até quando ele estava a ponto de explodir, afinal eram poucas as vezes que tinha visto Gabriel bater em alguém daquele jeito, porém sabia que ele podia ser assustador.
Ao chegarem em casa não contaram do momento tendo para Joana, ela já tinha os próprios problemas com o hospital para ter que se preocupar ainda mais com Maria. Ela, então, fez com o que os dois ficassem sentados no sofá, comendo os salgadinhos trazidos por Gabriel, que Joana não parava de reclamar que não eram saudáveis por mais que estivesse comento um monte deles também, enquanto ia até o quarto e voltava com o violino pronto para ser tocado.
– Preparados pra ouvirem a melhor música de suas vidas? – perguntou Maria, fazendo uma reverência exagerada.
Os dois se ajeitaram no sofá com um sorriso nos lábios, bebendo de seus copos de refrigerante enquanto esperavam que Maria colocasse o violino no ombro direito, ajeitasse o corpo e começasse a tocar a primeira nota.
Por mais que tivesse aprendido a tocar sentada e parada, o movimento veio sem que desse conta assim que a segunda nota foi tocada e seus olhos se fecharam para senti-la em cada parte de seu corpo. A tranquilidade de não ter ninguém para dizer se tinha tocado bem ou não, apenas seus amigos apreciando o que ela amava fazer e que eles amavam escutar, faziam com que tocasse melhor do que qualquer apresentação sua com a orquestra. Um sorriso surgiu em seus lábios no meio da música e só desapareceu quando finalmente chegou ao fim, abrindo os olhos alegremente para olhar os dois ali sentados.
Gabriel foi o que puxou as palmas, assobiando e gritando o nome de Maria alegremente, pulando ao redor dela enquanto mastigava um dos salgadinhos, ele era com certeza o maior fã que ela tinha. Sabia que o amigo devia sentir com a pintura o que ela sentia com a música, por isso tinha sensação de que ele entendia o que ela passava sempre que tocava. Joana era mais discreta na comemoração, mas também batia palmas e ria do canguru Gabriel.
Maria podia tocar em grandes orquestras e para o maior numero de pessoas possíveis, mas sabia, que assim que voltasse para a Alemanha, sentiria falta era daquilo. Aquele calor da amizade que deixava pra trás para seguir seu sonho, aquele momento que, por mais tempo que passasse, nada poderia superar. Se sentia feliz, e queria se sentir assim pra sempre.
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