A Orquestra

23 Passeio tranquilizador


Joana acabou por tirar alguns dias de descanso do hospital depois do ocorrido, coisa que ela podia fazer já que sempre se apresentava para os plantões e tinha muitas horas extras já trabalhadas. Mal saía do quarto nos primeiros dias, apenas para comer o que Maria mesma cozinhava, às vezes com a ajuda de Gabriel que trazia receitas de sua mãe para ver se mudavam um pouco o cardápio. Só o fato de Joana não fazer a própria comida já os preocupava bastante, então se esforçavam para fazer as comidas mais saudáveis possíveis, sem tirar o gosto gostoso delas, obviamente. Nada de sopa.

Enquanto para Maria fazia pouco tempo que havia chegado de viagem, quando Joana finalmente saiu do quarto, vestida para dar um passeio pela cidade, parecia que tinha envelhecido mais do que apenas uns três dias.

– Vou à farmácia, quer alguma coisa? – anunciou, com a voz mais forte do que as dos outros dias, o que era um alívio.

– Não, só se tiver chiclete. – Maria respondeu com um sorriso, levantando a cabeça para olhar Joana.

– Tá bem, já volto.

Maria voltou a se jogar no sofá, se ajeitando enquanto trocava os canais procurando algum filme bom ou pelo menos um programa divertido o bastante para que passasse o tempo. Ainda era de manhã, e por causa do fuso horário ser tão diferente, agora levantava duas horas mais cedo do que normalmente levantaria nas férias. Achava ruim, mas simplesmente não conseguia dormir mais do que já havia dormido, e por isso sempre se encontrava no sofá procurando alguma coisa boa na televisão.

Deixou o braço que segurava o controle cair no sofá, soltando um resmungo ao mover o corpo para sair dali, deixando em um filme qualquer, como sempre acabava fazendo. Caminhou até a cozinha, bocejando por mais que não tivesse sono, para abrir a geladeira e encará-la por longos minutos sem achar nada que quisesse realmente comer. A aura da casa toda estava triste desde aquele dia, mal tinha vontade de comer as coisas que tinha comprado no supermercado no dia anterior. Acabou por fechar a geladeira e pegou o celular no caminho de volta para a sala, sentando novamente no sofá enquanto colocava o aparelho para chamar.

Não precisou de mais do que um barulho qualquer de Gabriel para saber que ele tinha atendido, para então começar a falar.

– Bom dia pra você. Te aviso que Joana finalmente saiu de casa, isso quer dizer que ela provavelmente está melhorando. – avisou primeiro, encolhendo as pernas sobre o sofá antes de continuar. – Daí já que ela tá de boa com a vida, ou mais ou menos, pensei que a gente podia dar uma volta por aí quando ela voltar. Estou dando um treco ficando o dia inteiro em casa, vou ter certeza que ela dormiu outra vez antes da gente sair, vamos? – a pergunta no final era quase como um intimado.

Claro que ainda estava preocupada com Joana, mas por ela sair do quarto por conta própria já contava que estava se sentindo melhor, mesmo que ainda dormisse durante maior parte do dia. Mas Maria já não aguentava mesmo ficar presa em casa durante tantos dias, tinha que sair antes que ficasse maluca ou virasse uma planta. Teria certeza que Joana estava bem antes de sair, obviamente.

– Muita informação. – reclamou Gabriel com a voz grogue de sono, ele pareceu bocejar do outro lado da linha. – Vou praí daqui a uma hora, ou uma hora e meia, daí você repete tudo que falou porque já não lembro de nada. – outro bocejo e mais um resmungo sonolento.

– De boa, mas não demora. – disse a garota, para então se despedir e desligar o celular, jogando-o sobre o sofá, voltando a prestar atenção na televisão ligada.

Joana não demorou a voltar, carregando uma pequena sacola com um ou dois remédios dentro, Maria checou para saber para o que eram e deixou passar ao ver que eram para cólicas e afins. Não achava que a amiga ia tomar um bando de remédios pra dormir, mas tinha que tomar cuidado com alguém numa situação tão triste como a que ela se encontrava. Avisou que iria sair com Gabriel, dizendo onde estava a comida do dia anterior e perguntando um milhão de vezes se estava tudo bem deixá-la sozinha. Até mesmo enquanto se arrumava, aparecia de vez em quando no quarto de Joana para ter certeza que ela estava de acordo com ficar sem ninguém em casa, no fim quase expulsou Maria de dentro do quarto.

Quando Gabriel foi mais do mesmo, ele também foi checar como ela estava e no fim Joana acabou por fingir que estava dormindo, expulsando os dois da casa de uma vez antes que a deixassem maluca. O fato é que conseguiram arrancar um sorriso dela antes de saírem, e isso já era uma vitória na mente dos dois.

– Onde você queria ir? – Gabriel perguntou, quando já se encontravam na portaria do prédio.

– Não sei, só andar. Desde que voltei não dei uma volta por aí. – não pararam de andar ao conversar, fazendo um caminho qualquer em direção a lugar nenhum.

– Verdade, ficou presa naquele apartamento, mas também não vai achar nada novo. A não ser um dentista que se instalou no lugar onde tinha uma loja de doces. – ele ficou em silêncio depois do comentário, para então começar a rir da ironia do que havia dito. – Parece até mentira.

Maria também caiu na risada, mesmo tendo esperado que ele caísse no que tinha dito antes de soltar uma gargalhada. A verdade era que não queria encontrar nada novo, queria era caminhar por aquelas ruas que conhecia tão bem e que tinha andado por tantos anos indo e voltando da universidade. Claro que havia ficado pouco tempo longe, mas era o bastante para sentir saudade. Jogou-se para o lado, batendo seu ombro contra o de Gabriel de repente, o que o fez perder o equilíbrio, movendo as mãos e as pernas em desespero para não cair no chão. O que para tristeza da vontade de gargalhar outra vez de Maria, não ocorreu.

– Que isso, Maria?! Pirou?! – ele piscava rapidamente, olhando estranho para ela.

– Não sei, me deu vontade de te dar uma ombrada, não pensei que você tava tão sem equilíbrio que ia quase cair. – nessa altura do campeonato já não conseguia conter a risada fácil.

– É claro que eu quase caí, que ideia.

Mesmo reclamando e apertando o braço com uma expressão sofrida, não conseguia não rir quando Maria o fazia tão tranquilamente. Mas não deixaria barato, esperou que andassem mais um pouco e levantou a perna direita, dando um empurrãozinho na parte de trás do joelho dela com o pé. Vê-la dobrar a perna sem querer, quase caindo também, foi o suficiente para que se sentisse melhor. Dessa vez foi Gabriel que puxou a gargalhada, ao mesmo tempo em que recebia petelecos de uma Maria nervosa no braço.

De repente, depois de mais algum tempo caminhando, Maria soltou uma arfada e apontou para o outro lado da rua, onde um homem com um carrinho de picolés passava apertando uma buzininha.

– Garrafinhas! Moço, aqui! – abanava as mãos para chamar a atenção do homem, que foi até os dois com um sorriso digno de vendedores de picolés.

Demoraram mais para acabar com a conversa sobre a vida e os sabores de picolé do que para escolher qual garrafinha iriam querer, e no final estavam outra vez caminhando, mas dessa vez com algo gelado para comer.

– Eu não queria perguntar, mas o que aconteceu com aquelas cartas? – Gabriel começou a falar, chutando uma pedrinha enquanto andavam.

– Ah sim, no final acabou que eram sim do Marcus. – Maria sentiu um arrepio só de falar o nome dele, como se o tivesse convocando. – Não o vi mais por lá, graças a tudo que é mais sagrado. – tremeu os ombros com um calafrio, quase deixando a garrafinha cair no chão.

– É, também não o vi rondando seu apartamento mais, aquele garoto tem sérios problemas de cabeça.

Maria concordou com a cabeça, com os olhos arregalados como se não pudesse concordar mais do que já concordava. Bem da cabeça que ele não estava, e quase sentia pena, mas esse sentimento passava sempre que se lembrava naquele dia na entrada do teatro, faltava pouco voltar a chorar só de pensar no medo que tinha sentido. Só percebeu que estava apertando o braço de Gabriel quando esse reclamou que estava doendo.

– Não ligo de ser apoio pra sua alteza, mas calma aí. Cê tá bem? – mudou o tom de voz na pergunta, vendo a expressão no rosto da garota.

– Ah, to sim, desculpa. – pediu ela, mas não soltou o braço do amigo. – Tava pensando aqui que fazia tempo que a gente não andava assim. – comentou alheiamente, para mudar o rumo do assunto.

– Verdade, até mesmo antes de você viajar a gente tinha parado de fazer isso. – Gabriel sorriu, olhando para frente.

Maria apoiou quase todo o peso do próprio corpo no braço dele, se jogando contra o garoto, que agora já estava preparado e não saiu disparado derrubando tudo que tinha pela frente para não cair no chão. Até porque agora seria mais difícil, já que tinha uma Maria agarrada em seu braço igual carrapato.

– Você está achando que é jabuticaba? – ele ria.

– Nope. Só estava matando a saudade.

Não mais soltou o braço dele ao andar, isso até que os dois começassem a ficar suados pelo contato e pelo sol do meio dia que fazia bem em cima de suas cabeças, que foi quando decidiram que estava na hora de parar de caminhar por aí e voltar para o apartamento. O caminho de volta fora tão calmo quanto o de ida, conversando sobre trivialidades e rindo de coisas mais triviais ainda. Andar por Berlin com seus amigos lá era uma coisa, mas andar em uma cidade que conhecia há muito mais tempo com seu melhor amigo era outra completamente diferente. Estava mais calma e mais feliz, até mesmo apontar para um cachorrinho, ou gatinho, fazendo voz de criança era mais divertido naquele momento.

Só quando chegaram em casa outra vez que se lembrou do problema de Joana outra vez, mas ao ver que ela estava dormindo resolveu que não era momento de incomodá-la com mil perguntas. Acabou passando a maior parte da tarde jogando jogos de mesa com Gabriel, por fim prometendo a ele que tocaria uma das músicas da orquestra em um dia próximo.