A Orquestra
15 Indecisão
Entrou pulando no quarto do hotel, colocando o violino cuidadosamente sobre a mesinha antes de voltar a pular em direção a cama, jogando os tênis no outro lado do quarto enquanto pegava o notebook sobre a escrivaninha. Cruzou as pernas e colocou o computador sobre as pernas, esperando que ligasse jogando uma bala dentro da boca. Tinha tantas coisas para contar a Gabriel, depois de dias sem conseguir falar com ele, por culpa dos ensaios e tudo mais, que estava mais do que animada em contar tudo de uma vez e ouvir o que ele tinha para contá-la também.
O computador pareceu demorar mais do que o normal para ligar, demorando anos em abrir o que ela queriam travando mil vezes antes de finalmente largar de ir na manivela e começar a funcionar direito. Abriu um sorriso quase de orelha a orelha ao ver o amigo do outro lado, que parecia meio perdido sem saber se a câmera estava funcionando ou não, isso até parecer finalmente ver Maria ali sentada, agora rindo da cara que ele tinha feito antes.
– O que tem a dizer em sua defesa, Maria? Depois de ficar rica e abandonar os amigos pobres? – ele fez cara de pena, negando com a cabeça.
– Tenho a dizer que esses amigos pobres tem que parar de reclamar. – não conseguia tirar o sorriso dos lábios. – Agora deixa de drama e me conta como vai tudo aí.
– Vamos ver, não vendi mais nenhum quadro, os negócios da minha mãe vão bem, as pessoas ainda tem que comer pra viver. E, deixa eu ver... – apoiou o cotovelo no joelho e torceu o canto dos lábios, pensando em algo. – Ah é, to namorando a Joana.
Na palavra namorando Maria arregalou os olhos, com o nome de Joana ela cuspiu a bala que tinha na boca fora e começou a engasgar com a própria saliva, batendo desesperadamente com a mão abaixo de seu pescoço para tentar desengasgar. Enquanto isso, faltava pouco para que Gabriel caísse no chão rolando de rir, com lágrimas nos olhos por causa das gargalhadas.
– SEU VADIO! – gritou indignada, apontando para a tela do computador com uma expressão nada amigável.
– Ué, você que começou com isso de inventar do Harry Potter, eu tinha que me vingar. – Gabriel conseguiu falar, ao tomar água para recuperar as forças depois de tanto rir, limpando as lágrimas dos olhos em tom dramático. – Mas sério... Joana? Você acreditou mesmo nisso?
– Eu sei lá se acreditei ou não, foi um choque muito grande e não consegui pensar! – estava mais com raiva de ter caído na mentira dele tão descaradamente do que ter quase morrido engasgada.
– Aceite que acreditou em mim e que ficou morrendo de ciúmes do meu relacionamento com nossa querida nutricionista. – fez como se estivesse jogando cabelos ao vento, coisa que era impossível com seus cabelos apenas até as orelhas.
– Claro, morrendo de inveja eu estava de você ter que comer sopa de legumes todo dia. – espetou Maria, limpando a tela do computador com a manga da blusa.
Gabriel fez uma careta, que ela respondeu com outra, dessa vez procurando onde a bala tinha caído, agradecida por não ter sido sobre suas cobertas. Pegou a bala e a colocou sobre um papel que tinha ao lado da cama, fazendo uma bolinha para que se lembrasse de jogá-la no lixo do banheiro depois. Quando voltou a olhar para tela do computador, Gabriel olhava fixamente para ela, apoiando o queixo na mão.
– Que foi? – perguntou, franzindo as sobrancelhas.
– Tava aqui observando pra ver se você ia colocar a bala de novo na boca. – disse ele, mas não se mexeu, apenas continuando a encarar Maria do outro lado da tela.
– Ai, vei. Para com isso que me dá nervoso. – Maria se sentia incômoda quando alguém a encarava durante tanto tempo, e Gabriel sabia disso, apostava o dinheiro de sua carteira que ele estava fazendo de proprósito. – PARA, CARAI!
Por fim, ao ver o desespero no rosto de Maria, Gabriel piscou várias vezes e abriu um pequeno sorriso, abrindo a boca para falar algo, mas pareceu desistir disso antes que qualquer palavra saísse de sua boca. Maria esperou que ele se decidisse se falaria ou não, já que repetiu o ato de abrir e fechar a boca umas três vezes, franzindo as sobrancelhas enquanto aparentava ter a cabeça dando voltar para ver se falava o que tinha que falar, ou não. Por fim ele soltou um suspiro de desistência, apoiando-se na cadeira de rodinhas.
– Você não tem nada pra contar?
– Ah, tirando que pra cupido eu não sirvo, só que recebi uma carta de um fã que não pareceu muito amigável. – começou, tratando de ignorar a situação estranha de Gabriel antes. – Mas já queimei ela e, como te prometi, não decidi fazer nenhuma loucura como ir atrás dessa pessoa ou algo assim. Juro que não precisa se preocupar. – confirmou no final, vendo que os olhos do melhor amigo se arregalavam de preocupação.
– Olha lá, hein. Se mandar outra coisa, me avisa que eu mando meus amigos vida louca de Berlin darem um jeito nele, ou nela. – tinha começado com tom de brincadeira, e terminou levantando uma sobrancelha sugestivamente.
– Ai, verdade, podia dar uma de Brokeback Mountain versão feminina com minha nova fã, te conto os detalhes depois. – Maria se juntou à brincadeira, rindo.
– Acho que vou preferir não ficar sabendo desse tipo de detalhes. – agora ele também ria, já que de safada Maria tinha pouco e esse lado de musa do amor era algo que não existia nela.
Continuaram conversando por muito tempo, nem ao menos contaram o tempo quando finalmente desligaram, mas dessa vez porque Maria já não conseguia mesmo ficar acordada. E claro, não deveria ficar falando tão alto naquela hora da noite. Despediram-se umas cinco vezes antes de finalmente desligarem. Maria apenas trocou de roupa e se jogou na cama, sem nem ao menos se lembrar do papel com a bala ao seu lado na escrivaninha, pelo menos ali era improvável que juntassem formigas durante a noite.
Caiu em um sono tão profundo que não ouviu o bater que teve na sua porta, não era assim tão tarde, deveriam ser às onze horas da noite, mas ela tinha se cansado tanto no ensaio que mal podia se manter de pé enquanto colocava o pijama. Sonhou com coisas que não faziam sentido, como sempre, e revirou em sua própria cabeça o comportamento estranho de Gabriel, mas deixou isso pra lá quando começou a voar dentro de um sonho em que tinha que salvar o mundo. Estava tranquila demais, foi até bom que não notasse a carta que escapulia por debaixo da porta de seu quarto e ficava ali, esperando para ser lida no dia seguinte.
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