A Orquestra

17 Consequências


Maria aprendeu, ao acordar uma meia hora mais tarde do que o que devia no dia seguinte, que ficar chorando a noite inteira quando tinha uma apresentação na noite seguinte não era uma boa ideia. Tinha os olhos tão inchados que deu vontade de chorar mais ainda ao se ver no espelho. Os cabelos ruivos emaranhados também não ajudavam a que se sentisse bonita, estava um desastre e não queria aceitar, essa era a verdade. Bateu algumas vezes, com a palma das mãos, nas bochechas, tentando dar alguma cor a elas, ao mesmo tempo em que usava essa tática para ver se acordava pra vida.

– Vamo lá, Maria! – falou em voz alta, olhando séria para sua imagem no espelho, antes de bater palmas uma vez e finalmente começar a se arrumar.

Tratou de ignorar os pensamentos que tivera na noite anterior o máximo que podia, ou que seu cérebro zé deixava. Quando finalmente parecia apresentável a hora do café da manhã já havia passado, e por isso agradeceu por ter guardado um pacote de batatinhas no quarto para emergências como aquela. Ou melhor, era para quando decidisse e tivesse tempo de ver um filme na TV, mas essa emergência era mais emergente.

Comia as batatas ruidosamente ao descer para o lobby, sem saber porque estava indo até lá, talvez por não aguentar ficar mais tanto tempo naquele quarto sozinha. Resmungava alguma música que tinha ouvido pela rádio ao sentar-se no sofá que havia ali, acenando feliz para a pessoa que estava na recepção, dessa vez não era o homem entediado. Quase se sentiu triste com isso. Esperou por longos minutos que pelo menos Alba aparecesse ali para ler um livro, para então poder encher o saco da pobre coitada contando e reclamando de sua vida, mas nem ela parecia estar com vontade de passar o tempo no lobby naquela manhã.

Então, de repente, teve uma ideia que a fez pular do sofá e ir rapidamente até a moça que estava na bancada da recepção, mastigando uma das batatas. Aproximou-se sorrindo para chamar a atenção da moça, apoiando os cotovelos sobre a bancada.

– Bom dia, você sabe onde tem um cinema por aqui? – conservou o sorriso enquanto perguntava, isso até pensar que talvez estivesse com os dentes sujos de batata.

– Tem um mais ao centro, mas você tem que pegar um ônibus ou um taxi para chegar até lá. – a moça respondeu também sorridente e prestativa.

Maria agradeceu, antes de girar-se e ir em direção aos elevadores outra vez, teria que pesquisar horários de ônibus se quisesse ir, porque se não precisava pagar um taxi era óbvio que ia com o transporte mais barato. Procuraria um filme legendado divertido pra ver e chamaria Alba como companhia, provavelmente a perguntaria qual gostava mais dos disponíveis. Ela tinha cara de quem gostava de cinema.

Acabou por passar o resto do dia olhando os nomes dos filmes que havia em cartaz e também os horários de ônibus, procurando Alba por todos os lugares até finalmente achá-la no teatro ensaiando mais um pouco antes da apresentação daquela noite. A mulher aceitou prontamente a ideia de Maria, marcando para o próximo sábado, em que não tinham que tocar. E então, antes que pudesse ficar animada demais com ir ver um filme, já estava na hora de se arrumar e dirigir-se ao local da apresentação outra vez.

Estava mais calma dessa vez, não muito mais calma do que o dia anterior, mas pelo menos não tinha as mãos tão frias, apenas tremia um pouco descontroladamente. Isso até começar a tocar, onde tudo sumia, até mesmo sua tristeza da noite anterior, por mais que soubesse que voltaria assim que deitasse em sua cama outra vez quando chegasse no hotel. O fato é que aproveitava cada segundo desse torpor que a música causava em sua cabeça para esquecer qualquer problema que tinha ou poderia ter, e foi assim até a última nota da última música, outra vez.

– Vou comprar uma água, já volto pra gente ir junto. – avisou a Albert, que assentiu com a cabeça e caminhou para outro lado, provavelmente se preparando para ir embora também.

Maria saiu dos bastidores e percorreu o caminho até a venda de água e outras coisas que havia na frente do local da apresentação, era bastante útil ter aquilo ali tão perto. Comprou a água o mais rapidamente que conseguiu, considerando a fila que se formava naquela pequena lojinha depois que a orquestra terminara, mas não queria deixar Albert esperando por muito tempo, ele sempre ficava tão tenso depois das apresentações. Cantarolava a última sinfonia que haviam tocado ao atravessar a rua de volta, jogando a garrafinha de água de uma mão para a outra, feliz e contente até ouvir uma voz atrás de si chamando por ela.

– Eu mesma. – girou nos calcanhares, abrindo um sorriso para a pessoa antes mesmo de ver quem era.

– Tão linda. – o garoto murmurou, dando alguns passos para perto de Maria.

Primeiro ela apenas estranhou aquele comportamento, franzindo as sobrancelhas e dando um passo para trás para cada um que ele dava pra frente na direção dela. Seu olhar parecia meio esquisito, devia ser uns dois anos mais novo que ela e não aparentava estar muito bem da cabeça, pôde perceber depois de um tempo o encarando. O sorriso de Maria desapareceu de seus lábios assim que se deu conta de quem poderia ser ele, dando lugar aos olhos esbugalhados.

– Desculpa? – Maria não tinha mais que um fio de voz.

– Não se lembra de mim, Maria? – perguntou ele, e dessa vez ela finalmente se deu conta de que não falava inglês, e sim sua língua materna.

Como se fosse possível, os olhos de Maria se arregalaram ainda mais e sufocou um grito na garganta ao dar mais passos para trás. Continuaria andando de costas se não tivesse batido com a parede ao lado da porta do local da apresentação, tendo que parar ali tremendo mais que vara verde.

– M-Marcos? O que você tá fazendo aqui? – mal sabia como a voz estava saindo da garganta.

– Vim te ver, lá não era a mesma coisa sem você. Fui até seu apartamento pra ver se melhorava, rondei por lá durante quase uma semana. Mas percebi que não conseguia ficar longe de você, tudo começou a ficar preto e branco. – levantou uma mão para tocar o rosto da garota, mas parou no meio do caminho. – Tão perfeita.

Os olhos de Marcos não saíam do rosto de Maria, nem quando o vento do outono iminente bateu contra os cabelos negros dele, jogando fios por todos os lados. Ele não parecia se importar nem com o frio que estava fazendo, nem com o fato de que Maria faltava pouco dar um ataque do coração. Manteve a mão parada no ar, a poucos centímetros do rosto da garota, parecia estar com medo de manchar um quadro perfeito com os dedos ao fazer tão coisa, ainda mais com o olhar tão esquisito que dava a ela. Aparentava mesmo estar vendo uma obra prima divina ou algo do tipo.

Enquanto isso, Maria só queria sair correndo dali e arranjar outra obra prima divina pra ele observar. Nunca tivera tanto medo na vida, pelo menos não o tanto que a fazia ficar muda de repente. Não conseguiu contar quanto tempo havia se passado – tinha parecido uma eternidade – até ouvir o som maravilhoso da voz de Paola.

– Maria, menina. O que você tá aqui fora? Albert tá qua... – parou de falar ao ver a situação em que ela se encontrava.

Seria até cômico, não fosse o olhar de Marcus. Maria estava praticamente virando parte da parede de tanto que se havia pregado nela, enquanto o garoto movia a mão de forma estranha ao redor do rosto da garota sem realmente o tocar. Parou o movimento e abaixou a mão ao ouvir Paola, bufando nervoso ao olhar para ela.

– Que diabos...? – resmungou, e como não falara inglês, Paola não entendeu e apenas se aproximou mais, pegando na mão de Maria para puxá-la dali.

– Desculpa, mas temos que ir agora, a hora dos autógrafos já passou. – Paola praticamente falava entre dentes, aumentando drasticamente seu sotaque italiano.

Ela não esperou uma resposta de Marcus, que pareceu também chocado demais pela interrupção para pensar em algo rápido para dizer, puxando Maria dali como se fosse uma boneca de pano, até porque as pernas dela pareciam de gelatina de tanto medo que tinha sentido. Ainda estava meio torpe pelo medo e o susto que não notou que havia chegado aos bastidores outra vez, piscando várias vezes ao ver o copo de plástico que era estendido em sua direção. Tentou pegá-lo, mas tremia demais e a pessoa que o segurava acabou por desistir e deu a água doce na boca de Maria mesmo assim.

– Tá melhor? – perguntou a voz feminina e calma de Alba, a qual Maria respondeu movendo lentamente a cabeça para cima e para baixo. – Ótimo. Albert, pega as coisas dela, Alba já foi chamar o taxi, vamos embora.

Maria assentiu outra vez, dessa vez conseguindo pegar o copo ela mesma e beber o resto da água, antes de se levantar e começar a caminhar com as próprias pernas para fora do local. Tinha a cabeça em outro lugar, passando dos avisos de Gabriel sobre como aquelas coisas de perseguidores era perigosa e para o dia em que pensara que tinha afastado Marcus há muito tempo ao se fazer de doida varrida. Agora quase se sentia culpada pelo comportamento dele, vai ver decidira imitá-la ao ficar doido daquele jeito. Não prestou atenção na conversa dos outros três na volta ao hotel, tentando não gritar pra ver se tirava aquela sensação ruim do peito.