A Orquestra
1 Bebidas coloridas
Maria virou o resto de seu drink de uma vez, nunca havia bebido aquilo, mas pareceu bonito e apetitoso o suficiente para provar. E até o momento não tinha caído bêbada no chão, então estava tudo bem. Sentiu o álcool descer de uma vez por sua garganta logo depois de virar o resto da bebida, segurou uma careta para não passar como fraca e voltou a apoiar o copo sobre a bancada delicadamente. O drink tinha nome de homem, como a maioria deles, nunca havia entendido essa inclinação pra colocar nome de pessoas nas coisas, mas não estava em condições de questionar as ideias dos outros naquele momento.
- Manda outro, coloca mais gelo dessa vez. – pediu a jovem para o garçom, tentando não deixar à mostra que o pedido do gelo era para que a quantidade de água na bebida fosse maior da próxima vez.
- Ô, Maria! Vai ficar a noite inteira aí? – perguntou uma voz vinda de longe, mas perto o suficiente para que a música da boate deixasse que distinguisse a quem pertencia.
Maria virou-se, girando no banco do balcão para abrir um sorriso para o garoto que a chamava mais ao longe. Ele tinha uma lata de cerveja na mão esquerda, seus cabelos negros e lisos caíam sobre seu rosto, pregando-se por toda parte pelo suor de dançar tanto tempo sem parar.
- Já vou, estou quase acabando aqui, Gabriel! – tranquilizou-o, agradecendo o garçom que chegava naquele momento com mais um copo.
Foi o tempo de virar-se para pegar a bebida e Gabriel já se encontrava ao seu lado, com o sorriso constante que a bebida lhe causava nos lábios, mas ao mesmo tempo parecia prestes a arrancar Maria dali pelos cabelos se não se apressasse. Estava impaciente pra se divertir.
- Que tipo de bebida é essa, Maria? Que coisa mais triste, e ainda tem mais gelo do que o necessário! – ela fez uma careta, não esperava que ele fosse notar a quantidade de gelo, vai ver não estava bêbado o suficiente ainda pra deixar de notar as coisas. – Anda, bebe logo essa coisa que te pago uma cerveja depois.
Maria não conseguiu segurar a risada, sabia o quanto ele odiava quando ela dava de provar bebidas coloridas e perdia tempo nisso, ao invés de se divertir no meio da pista de dança. Enquanto ria, pôde perceber que Gabriel revirava os olhos e, antes que ela pudesse mesmo acabar a bebida que tinha pedido ou parar de rir, o apressado a pegou pela mão e a puxou para longe do bar, levando-a para o centro da confusão de gente dançando e cantando junto com a música que mal parecia ter letra. Não que ela achasse ruim, adorava estar ali.
- Dança comigo, mexe esse quadril. – Gabriel começou a remexer o corpo de uma maneira bem cômica, com uma dança digna dos anos 80.
Maria sabia que estava fazendo para que ela se animasse também, e lá estava ela rindo outra vez.
- Ok, dançarino. Olha só essa aqui e aprenda como se faz.
Ela também sabia pouca coisa sobre dançar, e mexer o quadril igual Shakira não era bem o seu forte, mas deu o seu melhor numa dança desconjuntada e torta que pelo menos fez o amigo gargalhar.
- Tá bem, tá bem, você ganha essa rodada. Mas só porque hoje é seu aniversário.
Ela levantou as sobrancelhas e colocou as mãos na cintura tentando parecer indignada com o comentário alheio, segurando o riso fácil pela bebida anterior. Podia não ter feito o efeito na hora, mas agora estava chegando ao cérebro da garota mais rapidamente do que esperava. Em pouco tempo já estava mais pra lá do que pra cá.
- Me lembra de nunca mais pedir aquela parada com a cereja, qualquer coisa com cereja. Mentira, não me deixa mais testar tantas bebidas coloridas de uma vez só. Não, melhor, não me deixa beber mais. É, não beber mais é uma boa ideia. – começou a resmungar Maria, passando as mãos pelo rosto, tirando a franja de cabelos ruivos da testa.
Notou que deveria estar tão suada quanto Gabriel naquela altura. Há quanto tempo estavam dançando? Mal conseguia se lembrar e tampouco lhe importava. Gabriel ria a sua frente do momento depressivo de bebida que ela estava tendo, provavelmente acostumado com esses chiliques sempre que Maria se embebedava.
- Para de rir de mim, idiota! – reclamou, mesmo que estivesse rindo, batendo a palma da mão no ombro de Gabriel numa tentativa de tapa.
Ele a olhou com a expressão indignada, tão teatral quanto ela, virando de uma vez o que restava do que seria... sua quinta lata de cerveja? Talvez menos, talvez mais. Maria tinha parado de contar na segunda, seu cérebro não mais acompanhava a matemática. Assim que ele terminou de beber voltou a pegar na mão da amiga, movendo a cabeça para mostrar o enorme relógio de vidro atrás dela. Eram quase cinco e meia, a boate já estava se esvaziando e isso dava apenas uns quarenta minutos para que saíssem dali, arrumassem um taxi e fossem parar na parte mais alta da cidade para ver o nascer do sol. Dessa vez foi Maria que saiu puxando Gabriel para a saída.
Assim que pisaram do lado de fora Maria quase pode ouvir seus ouvidos dizendo amém por não ter mais aquela música alta por todos lados. Mas ela estava alterada demais para reparar em qualquer coisa, apenas tinha os olhos arregalados e uma vontade enorme de ir ver o nascer do sol.
- Não vamos chegar a tempo, olha só o céu já tá ficando claro. NÃO FIQUE CLARO CÉ... – começou a gritar desesperada, levantando as mãos pra cima como se pedisse a graça divina, mas Gabriel impediu que fizesse uma cena ainda maior tapando a boca de Maria com a mão.
- Já consegui um taxi, se acalma e vem comigo antes que o cara vá embora achando que a gente tá maluco. Até porque o céu não ia te ouvir gritando daqui de baixo, todo mundo sabe que você tem que estar no alto, anta. – ele fez uma expressão de sabe-tudo e soltou Maria, apenas para abrir a porta do taxi para ela, que fez uma pose de princesa agradecendo antes de entrar de vez.
Em menos de vinte minutos já estavam do outro lado da cidade, o céu começava a ficar da cor laranja maravilhosa que Maria adorava, e eles ainda tinham que subir uma quantidade enorme de degraus de pedra para chegar ao alto das ruínas, o único lugar que dava para ver o horizonte quase perfeitamente na cidade. Pagaram o motorista, que pareceu mais do que feliz de ter dois bêbados fora de seu carro antes que vomitassem por todo lado.
- Quem chegar por último é a mulher do padre! – gritou Gabriel como uma criança de doze anos.
Os dois não pareciam ter os vinte e quatro anos que tinham quando estavam bêbados. Nem mesmo quando estavam sóbrios, mas eram menos óbvios. Gabriel avançou numa corrida desconjuntada pelas escadas, enquanto Maria tentava acompanhar seu passo, ao mesmo tempo em que xingava loucamente a bebida que tinha pedido no bar, gritando aos quatro ventos que nunca mais beberia algo com uma cereja dentro.
Quando finalmente chegaram ao topo das ruínas mal podiam respirar, nem ele, nem ela. Deitaram de costas no chão imundo e tentaram pegar ar, ficando assim por alguns vários minutos.
- A gente... tem que... sentar. – falou Maria entre arfadas de ar, apoiando as mãos atrás do corpo ao começar a se levantar. O sol já estava apontando no horizonte quando se deu conta, e então começou a puxar a manga da camisa de Gabriel. – O SOL, ANDA LOGO. LEVANTA, HOMEM! – gritava ela ainda sem ar, o que provocou que seus gritos saíssem super roucos e estranhos.
Gabriel finalmente se sentou também, pedindo um tempo com a mão para recuperar o fôlego, ele tinha se apressado a subir muito mais que ela e estava bem mais sem ar. Levou a mão até o bolso de sua calça enquanto Maria olhava maravilhada para o laranja que deixava o céu para que o amarelo tomasse conta, tirando dele uma pequena caixa de papel. Era simples, mas era meiga o bastante para ser considerado um presente de aniversário.
- Pra um aniversário feliz, Maria. Um dia feliz, um presente feliz. – falou ele sorridente, chamando a atenção da jovem que primeiro olhou o presente na palma da mão dele e logo para o rosto do amigo. Seus olhos brilhavam.
- Obrigada! Quase pensei que não ia me dar presente dessa vez, tava preparando minha vingança. – comentou rindo, pegando a caixinha e a abrindo.
Dentro havia um brinco em forma de clave de sol feito de capim dourado, era pequeno e humilde como a caixinha, mas Maria saltou nos ombros do amigo em um abraço apertado de agradecimento.
- Pela sua entrada na orquestra. – Gabriel a abraçou de volta tão forte quanto, um abraço de urso que a fez reclamar ao mesmo tempo em que ele soltava uma gargalhada.
No final, nenhum deles realmente viu o sol sair do horizonte por inteiro. Mas o dia nasceu feliz mesmo assim, só precisavam da companhia um do outro, por enquanto isso era suficiente.
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