A Orquídea da Colina
8 Capítulo VIII : Cordeiros e seus Pastores
Notas iniciais
A barriga de Nicolle clamava por algum tipo de alimento, também; ela não comera nada desde o dia em que havia partido, já se passara quase dois dias.
Retirou o pano alvinho que cobria o cesto e dentro dele, embaixo do pão havia um saco marrom e pequenino, ao abri-lo, ela se deparou com algumas moedas lá dentro. Logo seus olhos inundaram-se de lágrimas. Quão boa era Dn. Edmonda a ponto de lhe colocar estas moedas no cesto, não eram muitas, mas eram o suficiente para depois que os mantimentos seus acabassem.
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Um mês havia se passado. O sol já não brilhava com a mesma força e intensidade, e as noites de agradáveis, haviam se tornado um pouco mais frias, logo seria outono. Durante esse tempo, Nicolle já havia se afastado bastante de sua terra natal, nem mais sabia ela por quais caminhos andava.
Na noite passada, ela achou um bom lugar para passar noite, não, nada de estalagens... Ela gastava suas poucas moedas apenas com comida e mesmo assim, ela procurava tirar da natureza tudo aquilo que podia. Entrava nas tavernas e estalagens apenas para comprar o básico: Aquilo que lhe era impossível de retirar da natureza. Pois como ia dizendo, ela adormecera num pequeno rebolo de macieiras, que ficavam em um campo aberto e a julgar pelos pontos negros na grama, por ali deveria haver muitas ovelhas.
Despertara de seu sono há alguns minutos, mas ficara de olhos fechados. Ali estava tão bom. Tão bom que a fazia esquecer de tudo de ruim que já lhe acontecera em tão pouco tempo. Por incrível que pareça, ela conseguia ter momentos assim. Eram poucos e raros, mas aquilo que é pouco e raro nos dá vontade de ver/sentir/ouvir todos os dias, mas basta pensarmos um pouco e perceber que se fosse visto/sentido/ouvido ia se tornar corriqueiro e assim não mais nos seria uma coisa especial. Portanto Nicolle preservava esses momentos assim. Raros e especiais.
Seria mesmo um ótimo momento se ela não sentisse que alguém se aproximava. Junto com essa aproximação... Nicolle sentia um cheiro selvagem... Sentiu um pouco de medo, por isso resolveu fingir que dormia.
A expectativa durou alguns segundos e logo foi quebrada por um balido, Nicolle então abriu os olhos e viu na sua frente nada mais que um cordeiro! Tinha cara e pernas pretas e a lã branca, segurava na boca o cesto de Nicolle pela alça. Ela se aproximou vagarosamente do animal, no encalce de reaver o que era seu, mas a um centímetro de tocar o vime, o cordeiro saiu correndo.
Nicolle não pensou duas vezes antes de sair correndo atrás do animal. Afinal, o pouco de comida e de dinheiro que lhe restavam estavam ali dentro.
Durante toda sua vida, ela nunca havia parado para observar como um cordeiro corria rápido. Ela já estava ofegante e lhe faltava o ar da respiração mas aquele animal ainda corria com todo vigor e disposição. Acabou por parar debaixo de uma frondosa árvore, Nicolle finalmente o alcançou e agarrou seu cesto com todas as suas forças. Além de tudo, a alça acabou por quebrar-se e todas as coisas de Nicolle caíram no chão. De repente, ela ouviu uma voz masculina que chegava também ofegante:
– Ei! O que você está fazendo?
Nicolle virou-se, estava suada, com a respiração ofegante, os cabelos emaranhados e sujos de folhas, terra e pedaçinhos de galhos. Seu rosto estava avermelhado:
–Esse animal isolente roubou meu cesto de mantimentos e agora estragou a alça de meu cesto.
–Pois fica a senhorita sabendo que animal insolente é a senhora tua mãe!
Nicolle ficou sem argumentos, pois de certa forma, sua mãe era mesmo. Ela voltou-se para o cordeiro e ele acabava de devorar um pão:
–Ora pois veja só! Teu animal não-insolente acaba de devorar meu pão!
–Fez isso porque deveria estar com fome.
Nicolle preferiu ignorar a frase dita pelo jovem e mudar de assunto, ou ela acabara perdendo a cabeça e lhe dando umas boas bofetadas por causa daquele cordeiro.
–És tu o dono dele?
–Não, eu sou só o pastor das ovelhas. Meu nome é Chermont, Chermont Simon. Eu moro com minha avó aqui perto, nós servimos ao visconde de Gusmon.
Respondeu ele fazendo uma reverência:
–Eu sou Nicolle de Freo, venho de uma terra longínqua e distante.
E antes que Chermont continuasse a falar, Nicolle continuou:
–Não tenho família, sou órfã de pai e de mãe e não tenho ninguém por mim, passo a vida como andarilha.
–Bem, se quiser pode vir comigo. Minha avó se chama Joelle, por já ser muito idosa, não faz mais a lida campeira, fica em casa fiando a lã e tecendo. Ela vai gostar de ter uma hóspede.
–É claro, mas primeiro preciso voltar ao rebolo de macieiras e pegar minhas roupas.
–Faça isso, eu vou juntar os teus pertences e o cesto, acho que consigo concertar.
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