A Orquídea da Colina

6 Capítulo VI : Sem destino


Notas iniciais
Obrigado a todos vocês que estão acompanhando a história. Tenho observado que há um grande número de acessos, se comparado ao número de capítulos, mas não há nenhum acompanhamento ou novo favorito, a história não tem agradado? Críticas são sempre bem-vindas, assim como comentários! Um abraço.

Alguns meses haviam se passado desde que Nicolle havia ido viver na estalagem. Nunca mais falara com Rosella, havia visto esta apenas uma vez depois que tudo acontecera, havia dito “Oi”, mas não obtece resposta. Rosella apenas a observou, com os mesmos olhos verdes de sempre. Ela parecia estar um pouco mais magra. Doeu profundamente em Nicolle ter sido ignorada por Rosella, mas não se deixou abater, ela sabia que tinha Jacobienne que a tratava como uma irmã e Dn. Edmonda a tratava como uma filha.

A mãe de Rosella era uma senhora boa, mas era submissa por demais ao marido, isso fazia com que ela também não dirigisse mais a palavra para Nicolle, um dos defeitos dessa mulher, é que ela gostava muito de falar da vida alheia, mas era incapaz de enxergar os próprios defeitos e conflitos do lar, ou era incapaz, ou fazia por gosto de não ver. O pior cego é aquele que não quer ver.

Pois bem, o fato, é que toda a aldeia já sabia do acontecido com Nicolle pela boca da mãe de Rosella, que se saiu uma enorme de uma alcoviteira. Como toda fofoca, foi-se distorcendo aos poucos e quando Nicolle viu, já estava sendo comentado que ela havia se deitado com três homens juntos na mesma vez. E claro, a sociedade adora falar mal dos outros, afinal... Pimenta nos olhos dos outros é refresco, não é assim?

Não houve moça mais mal falada naquela aldeia do que nossa pobre Nicolle. Um dia ela estava caminhando pela aldeia quando ouviu gritarem “prostituta” e lhe arremessarem um ovo podre que acabou por lhe atingir um dos seios e lhe provocou muita dor. Não pôde ver quem era, pois a pessoa que jogou, saiu correndo. Nicolle gritou:

–Covarde! Por que não dá a cara à tapa?

Só que isso serviu apenas para que outras pessoas ficassem olhando torto para Nicolle. A partir desse dia, ela preferia ficar na estalagem fazendo alguma coisa de utilidade. Dn. Edmonda estava lhe ensinando noções básicas de aritmética enquanto Jacobienne lhe ensinava a fazer bordados. Durante os meses que se passaram, nasceu uma profunda amizade entre elas três, e Dn. Edmonda pronunciava “filha” para referir-se a ela.

Era verão. O sol da manhã inundava a aldeia. Havia uma brisa morna e gostosa de sentir na pele. O dia citado era de certa forma especial, pois nele seria realizada a festa da colheita. Era especial mais ainda, pois eram os anos de Nicolle. E Jacobienne e Dn. Edmonda haviam preparado uma surpresa para ela.

Naquele dia, Jacobienne levantou-se da cama mais cedo, observou Nicolle que dormia profundamente na cama ao lado. Cuidou para não fazer barulho algum. Algum tempo mais tarde, adentraram pela porta Dn. Edmonda com uma caixa branca, onde havia um bonito laço, e Jacobienne, que entrou a cantar e abrir a cortina da janela:

– É teu aniversário e nós viemos te contar, desejos de uma amiga são para se realizar!

Nicolle abriu os olhos e sorriu espreguiçando-se e sentando-se na cama. Nunca havia dito aquilo, mas desejava profundamente que Deus abençoasse aquelas duas, que tiveram a bondade de acolhê-la mesmo sabendo de tudo o que lhe havia acontecido, e que acima de tudo: acreditaram nela:

– Bons dias!

–Bons dias, Nicolle!

–Bons dias, filha!

A voz de Dn. Edmonda penetrou-lhe a alma ao chamá-la de filha neste dia especial, fez-lhe pensar em como estava sua mãe, o que ela estava sentindo. Era o primeiro aniversário que passaria longe dos pais. Ou do casal que haviam lhe dado a vida.

A caixa lhe foi largada no colo. Ela puxou o laço.

– Esperamos que goste! Jacobienne foi quem escolheu o pano.

Antes de abrir a tampa, ela olhou para Jacobienne, usava os cabelos negros e lisos numa trança semi-presa e seus olhos cinzas brilhavam de expectativa.

Ela ergueu a tampa e dentro havia um bonito vestido de verão, róseo como as nuvens do entardecer, feito em musselina e bordado com linha branca.

Nicolle sorriu:

–É claro que eu gostei, muito obrigada!

E deu um abraço nas duas amigas.

Jacobienne perguntou:

–Estás feliz?

–Muito, Jacobienne!

Dn. Edmonda disse, não por maldade, mas por simpatia:

–Que mais queres tu da vida, Nicolle?

O sorriso de Nicolle desaparecera e ela olhou para Dn. Edmonda com expressão chorosa:

–Que meus pais viessem me dar um abraço, Dn. Edmonda.

Dn. Edmonda baixou a cabeça com pesar.

–Perdoe-me, minha Nicolle...

–Eu sei que não foi por querer.

Nicolle ficou em pé, as três abraçaram-se novamente, dessa vez, lágrimas escorriam dos três pares de olhos.

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A aldeia em peso estava na festa da colheita, homens e mulheres de todas as idades. Alguns deles, Nicolle nunca vira na vida. Ela não queria ir, mas Jacobienne insistira. Nicolle havia se banhado e colocado seu novo vestido. Jacobienne lhe fizera uma trança-tiara e enfeitara os cabelos de Nicolle com pequeninas e delicadas flores do campo, que não haviam morrido ainda.

Nicolle estava deslumbrante. Jacobienne optara por deixar os cabelos soltos, tão negros feito a noite sem estrelas, como Nicolle mesma costumava dizer. Dn. Edmonda usava coque. E assim foram elas três juntas para a praça da igreja.

Dn. Edmonda logo achou-se com umas amigas, deixando as duas moças a sós.

Haviam muitas coisas para regalar aos olhos, os artistas de um circo estavam exibindo suas habilidades fantásticas... Um grupo de saltimbancos cantava canções e tocavam seus instrumentos... Elas ficaram uma boa hora entretidas com tudo isso.

Fatigadas, Jacobienne convidou Nicolle para caminharem na floresta. Nicolle aceitou.

Nos limites da aldeia, entre as casas e as árvores, a mãe de Nicolle vinha carregando nas costas um feixe de lenhas presas por uma corda. A mulher, ao reconhecer Nicolle, arquejou e disse:

– Ora, mas o que os ventos quentes do verão me trazem! E justamente no dia de hoje!

Nicolle observou a mãe por um tempo, os olhos duros e frios penetravam os dela, não havia neles a menor expressão de saudade ou de amor. Nicolle por fim falou:

– Não me vai dar um abraço de felicitações, minha mãe?

A resposta foi seca e imediata:

– Tu não és mais minha filha!

A voz de Nicolle começou a fraquejar, logo, as lágrimas escorreriam pelo seu rosto:

– Por que não me abraças?

– Tu morreste pra mim, Nicolle!

Jacobienne observava a tudo horrorizada com a situação, Nicolle fungou, pronunciou estas palavras com dificuldade. A garganta doía:

– A senhora pode ter me dado a vida, mas não é senhora do meu destino e muito menos da minha morte!

A mulher jogou o feixe de lenhas ao chão aproximando-se de Nicolle:

– Mas eu posso te matar aqui – disse ela batendo forte a mão contra o lado esquerdo do colo– dentro do meu peito!

Uma lágrima escorreu do olho esquerdo de Nicolle:

–Por que não diz que rezou para que nada de ruim me acontecesse?

–Eu rezo pela salvação da tua alma, Nicolle! Pela salvação da tua alma cheia de pecados! Assim como rezei no sétimo dia da tua partida, como se fosse o sétimo dia da tua morte!

Nicolle voltou a perguntar:

– Por que não me abraça?

– O dia em que te acostaste com aqueles homens... O dia em que perdeste tua virtude! Como uma prostituta! Como uma prostituta da pior espécie!

Nicolle gritou, com a voz chorosa:

–Ainda não respondeste a minha pergunta: Por que não me abraça?

– Porque eu não tenho motivos para abraçar a uma desconhecida!

– E meu pai? Que é de meu pai?

– O homem que um dia foi teu pai, não está mais entre nós. Morreu de desgosto!

Nicolle rogou aos céus:

– Deus! Acolhe em teu aconchego a alma de meu pai... Quisera eu não dar desgosto algum para tal insanidade. O Senhor bem o sabes.

– Teu pai foi à forca, Nicolle. E foi por tua causa.

– Não!

–Foi sim! Ele se matou pelo desgosto de ter uma filha desonrada. O nó que o matou não foi o nó da corda, mas sim, o nó do pecado! E tudo é culpa tua...

Nicolle calou a mulher a sua frente com um tapa:

– Cala a boca! Cala a boca!

Nicolle urrava. Jacobienne estava perplexa, jamais em sua vida pensou que pudesse testemunhar tal cena.

Num ímpeto de raiva, a mãe de Nicolle levantou-se do chão:

–Ora, pois eu ainda te mato, puta desgraçada!

E agarrou Nicolle pelo pescoço.

Nicolle começou a gritar, pedindo ajuda para Jacobienne, esta, começou a dar pontapés nas pernas da mulher, mas eram em vão. Não viu outra saída: Pegou uma das lascas de lenha e grudou valente nas costas da mãe de Nicolle, que ao se ver livre, fugiu para a aldeia.

A mãe de Nicolle agarrou Jacobienne e lhe deu um bruto empurrão e saiu correndo atrás da filha, o mais rápido que podia.

Notas finais
Nicolle relembra: “Se amanhã, até o pôr-do-sol não estiver fora dos limites da aldeia, terás tu uma morte altamente dolorosa”, estas foram as palavras do visconde para mim, depois que deixei o rosto de minha mãe lanhado, depois que deixei sangue escorrendo de seu nariz. Fugi para não brigar, fugi, porque sabia que se a raiva me dominasse, ela não seria párea para mim. Fugi, porque não queria bater em minha mãe. Mas foi ela que quis. No meio da festa da colheita, com toda a aldeia nos observando. Ou melhor, com toda a aldeia me vendo dar uma surra nela. Em momento algum me orgulhei disso. E por causa dela, fui expulsa pelo próprio visconde a quem todos nós servíamos. Por causa dela, tive de deixar para trás minhas duas grandes amigas. No outro dia, antes do sol se por, lá estava eu novamente... Sem destino. Do autor: Comentem o que estão achando, por favor!