A Orquídea da Colina
4 Capítulo IV : Repulsa
Notas iniciais

E então Nicolle acordou. Quanto tempo teria passado? Um minuto ou uma hora? Olhou para o céu e a julgar pela posição da fina lua nova, não deveria ter passado mais que uma hora. Teria sido tudo aquilo um pesadelo? Uma insanidade criada pela sua mente? Era o que ela mais desejava. Mas não. Tudo aquilo acontecera e fora real. Estava deitada no chão. Com os braços estendidos acima da sua cabeça. Sentia o gélido capim nas suas costas, isso lhe dava uma sensação ruim. Mas nenhuma outra sensação fora e seria tão ruim para ela. Então, Nicolle sentou-se e tentou amarrar os trapos que restaram do vestido no pescoço, mas não conseguiu. Fazia tudo isso com lágrimas nos olhos e logo ela começaram a escorrer pelas maçãs de seu rosto embaçando a visão. Foi-se levantar e então, sentiu uma ardência muito forte entre as pernas. Procurou pela anágua, mas não a encontrou. Procurou pela lamparina. Foi em vão. Numa última esperança, procurou pela cesta de pães. Havia sumido. A única coisa que restara era o pano com que haviam lhe amordaçado. Tentou gritar por socorro, mas a voz não lhe saía. Não conseguia falar. Apenas chorar. De seu lado esquerdo, ela conseguiu ver o contraste do tecido. Sentiu sangue quente escorrer-lhe por entre as pernas, tentou secar o sangue com o pano que cobrira a cesta, mas a dor a fez desistir. Todo o seu corpo doía. Sua face estava quente, um lado mais que o outro (o lado que ela havia levado o tapa). Seu corpo inteiro arquejava, as pernas doíam muito, dado o grande esforço que ela fizera para mantê-las fechadas. Devido ao breu da noite, ainda não notara, mas sua pele alva estava toda avermelhada e não percebera, mas havia uma grande mancha de sangue na parte traseira da saia do seu vestido, ou do que restara dele. Com os restos da blusa do vestido, ela cobriu os seios e ficou segurando para que não caíssem, seus ombros e suas costas permaneceram nus e a aragem da noite fazia com que ela sentisse frio. Saiu caminhando, mas ao invés de ir para a estrada, foi indo cada vez mais para o lado da árvore, jogou-se contra ela e ali chorou copiosamente. Praguejou aqueles homens, praguejou sua má sorte, praguejou sua vida. Ou a vida que tivera antes. Chorou até sentir sua cabeça doer. Ela tinha que ir pra casa, lá, certamente encontraria o acalanto dos pais.
Subindo a colina para chegar em casa, ela sentiu que as lágrimas vinham novamente para seus olhos. As lágrimas. Sempre foram suas inimigas. Sempre chegavam em qualquer hora e lugar e sem pedir licença ia fugindo de seus olhos. Nunca conseguira controlá-las e não seria agora que conseguiria.
A pequena cabana estava iluminada. Seus pais a esperavam debruçados sobre a rústica mesa de madeira. Quando a porta cheia de frestas se abriu, seus olhos se iluminaram de esperança que fosse a filha. E era. Nicolle adentrou, com os braços em cruz sobre o peito para não lhe cair o vestido e aparecer seus seios. Andara na escuridão, guiada pelas sombras dos montes e das árvores que conhecia e pela poeira da estrada de terra. Tinha cabeça baixa. Seus pais, num gesto precipitado levantaram rápido da cadeira para irem de encontro à filha, mas ao verem-na naquele estado deplorável... As coisas mudaram de sentido. Quem primeiro falou foi sua mãe com uma expressão de quem não estava entendo a situação:
– Nicolle?
Da bela boca da moça, saiu uma voz fina e rouca:
–Mãe.
Nicolle pigarreou para que a voz melhorasse. A mãe continuou:
– Eu não estou entendendo, o que fazes com a roupa nesse estado?
– Eu explico tudo, minha mãe. Apenas permita que eu vá me lavar...
– Não. Não, se há uma explicação para o que estou vendo, tu vais me dar essa explicação agora! Já não era para teres chegado há pelo menos duas horas atrás?
– Mãe... — Nicolle tentou falar, mas a garganta lhe doía. — Mãe... Eu...
A voz da mãe da moça tornou-se mais imperativa, a expressão de dúvida desaparecera e ela olhava para a filha com olhos revoltosos:
– Explica-me o que está acontecendo. Diz que o que estou vendo não é verdade! Diz que o que eu estou vendo é um pesadelo e que vou acordar, e tu vais estar deitada na tua cama, com esse vestido intacto!
Nicolle falou novamente, a voz se falhava e estava um pouco rouca, provavelmente devido aos gritos que ela dera quando tentara se salvar.
– É tão difícil explicar isto para os senhores...
– É... Deve de ser! Aliás, isso não tem explicação!
Lágrimas vieram aos olhos de Nicolle:
– Eu fui desonrada!
A voz explodiu num misto de lágrimas, rouquidão e desespero. A mãe, como quem não acreditasse, passou as palmas das mãos pelo rosto pálido e duro. Sua respiração se tornou ofegante em minutos e ela cruzou os braços. A expressão que tinha nos olhos amedrontava Nicolle, não era a mesma expressão de uma mãe zangada com sua cria; era a expressão de uma psicopata prestes a realizar seu maior desejo: o de causar morte. Num ímpeto de fúria, a mãe de Nicolle cravou as unhas no próprio rosto e começou a falar bem baixinho, aos poucos o tom da voz foi aumentando e em pouco tempo ela gritava:
– Isso não é verdade! Isso não é... Verdade! Isso não é verdade, isso não é verdade...
O pai da moça, permanecia perplexo, sem esboçar no rosto a mínima reação. Nicolle permanecia na mesma posição, frente à porta com os braços cruzados sob o peito:
– Minha mãe... Meu pai... Permitem que eu fale...
Só que sua mãe interrompeu:
– Falar o que... Falar o que, Nicolle... Falar o que!? Que te acostaste com o primeiro homem que apareceu pelo caminho, sem pensar nas consequências que sto viria a te trazer!
– Não! Isso não! — Nicolle gritou, reunindo todas as suas forças. — A senhora queria que eu fizesse o que, minha mãe! Era só um aleijado pedindo esmola, eu trazia alguns pães da padaria e compadecida fui ajudar, mas quando eu vi... Quando eu vi me taparam a boca e três homens abusaram de mim! — A voz chorosa tornava-se quase incompreensível em alguns pontos. — Eu não fiz isso porque eu quis, minha mãe!
Lágrimas escorriam dos olhos do pai de Nicolle, continuava inanimado como uma estátua. Sua mãe prosseguia:
– Eu falava contigo sobre o assunto e tu me dizias: "Podes ficar tranquila minha mãe! Não tenho os olhos sobre homem algum... Vou me manter casta até o casamento." Porque tu sabes bem que para casar uma mulher deve se manter pura! Deve se manter intocada para o marido! O que vai ser de ti! O que vai ser de ti, Nicolle!
Nossa Nicolle reuniu coragem e caminhou até onde estava seu pai. ocou-lhe a face com as pontas dos dedos, uma lágrima escorreu pelo rosto enrijecido. Nicolle murmurou:
– Pai... Meu pai... O único homem que amei e amo...
A mão dela foi jogada para baixo por ele, que disse secamente:
– Tu não és mais minha filha!
Aquilo foi um choque para Nicolle. Seu coração agitou-se ainda mais no peito. Seu pai saiu pela porta e bateu-a com força. As lágrimas rolavam pelo rosto belo de Nicolle, ela observou a mãe por um tempo que tinha as duas mãos no rosto, certamente para conter as lágrimas. "As lágrimas demonstram toda a nossa fraqueza" era o que sempre ouvira a mãe dizer.
– Mãe... Eu sei que acaba sendo uma decepção para a senhora, uma decepção maior ainda para meu pai... Eu sei que decepcionei os senhores. Perdão, mãe... Perdão, minha mãe!
E Nicolle levou a mão ao ombro da mãe. A mulher deu um brusco movimento e empurrou Nicolle contra a mesa, esta deu um urro de dor. A mulher avançou contra a filha aos gritos, Nicolle também gritava. Aos tapas, podia ouvir da boca da própria mãe:
– Sai! Sai! Sai da minha frente! Sai daqui! Eu não quero mais olhar para o teu rosto!
Nicolle esquivou-se e agarrou uma banqueta para que pudesse se proteger. Nicolle chorava, de dor, de vergonha, de desespero e de desilusão pelo amor de seus pais:
– Sai daqui! Que eu sou capaz de te matar!
–Mãe... Por favor, mãe...
– Cala-te! Não tem "mãe"! Não tem "mãe"! Eu não sou mais a tua mãe! Não me importa se deu porque quis ou se foi porque não quis! Não me interessa! Tudo o que sei, é que eu não tenho uma filha desonrada! Eu não tenho uma filha suja!
Nicolle tentou falar, mas da sua boca saiu apenas um fiapo de voz:
–Mãe...
Com todo o vigor, a mulher urrou:
–Eu não sou mais a tua mãe! Não tem... Não tem explicação isso que aconteceu! Devias chegar aqui, intacta. Com teu vestido intacto, tua virtude intacta! Tanto cuidado... Tanto zelo para absolutamente nada! Agora... Terei meu nome na boca do mercado... Como uma mulher que não soube ensinar a filha! Não soube ensinar a filha a ter dignidade! Quantas vezes eu me sacrifiquei por ti. Noas anos de seca, quantas vezes deixei de comer para dar minha comida pra ti.
Nicolle apenas chorava.
– Eu devia ter te deixado morrer de fome! Agora eu sei, aonde foi tanto zelo e carinho. Se tivessem te estuprado e matado depois, seria melhor!
– Aconteceu! Aconteceu, e eu não pude livrar-me. Achas que pra mim foi bom? Achas que senti alguma coisa de bom sendo usada por três homens! Cada qual mais selvagem e sedento por carne fresca! Achas mesmo que se eu pudesse, eu não teria evitado? Achas que eu não tentei!?
– Eu não acho nada! Eu acho é a porta pra ti!
– O que?
– A rua. A rua vais ser a tua casa a partir de agora. A rua é o lugar onde tu vai ficar. Pegas tuas coisas e te manda daqui, antes que eu me arrependa de te deixar viver para envergonhar o nome da família. Rua! Não escutou!? Fora!
– Mãe, deixa-me falar, mãe! Perd...
– Não! Eu não quero! Eu não quero mais ouvir tua voz, eu não quero mais ver sair uma só palavra da tua boca pecaminosa! Eu não quero saber de mais nada, Nicolle! Aqui, tu nãos vais mais dormir. Aqui, tu não vives mais!
E então, Nicolle abriu a sua arca, de lá tirou seus poucos vestidos, vestiu um azul celeste e como estava sentindo as costas geladas, amarrou no pescoço sua capa de lã vermelha. Agarrou uma das varas que estavam perto do fogão para serem queimadas e rasgou a saia de seu vestido cor-de-rosa. Envolveu todos os seus pertences naquele pedaço de trapo ensanguentado — o sangue da inocência — e amarrou no pedaço de pau, o pôs no ombro e assim saiu pela porta. Tudo isto aos prantos.
Do lado de fora estava o seu pai, com a mesma expressão dura. Tentou aproximar-se, queria abracá-lo mas sua mãe lhe deu um bruto empurrão nas costas doloridas e ela gemeu. Seu pai não lhe dirigiu o olhar. Sua mãe gritava:
– Fora! Fora! Vai-te embora!
E foi desse jeito que Nicolle de Freo deixou de viver. Deixou de acreditar na vida. Deixou de acreditar no amor. Caminhava sem rumo.
Sem ter para onde ir, foi caminhando... Iria para onde a estrada a levasse.
Como estava muito escura a noite, e ela saíra sem nada para alumiar o caminho. Resolveu deitar numa relva macia que encontrou pela beira da estrada. Precisava dormir. Ou tentar. Naquela noite, Nicolle demorou muito para dormir. Só o fez quando foi vencida pelo sono. Antes, ela ficara relembrando os anos alegres e as situações marcantes que vivera ao lado dos amados pais. Agora, eram mesmo, apenas lembranças. Precisava descansar, pois uma nova jornada iniciaria no dia que se preparava para nascer.
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