A Orquídea da Colina
2 Capítulo II : Honra e Virtude
Notas iniciais
O sol já ia alto no céu quando Nicolle e seus pais puderam finalmente montar sua barraca. Nela haviam sacas de trigo em grãos, sacas de farinha e o pão que Nicolle havia feito um dia antes, especialmente para ser vendido.
– Bom dia a todos!
Era Rosella que chegava, amiga de Nicolle desde a infância.
– Quantas sacas vai querer hoje?
– Cinco são o bastante, ainda temos um pouco na despensa.
Rosella era filha do padeiro, tinha os cabelos ruivos e muito crespos. Era gorducha e tinha um aspecto atarracado, seus olhos eram de um verde profundo.
Nicolle disse:
– Deixe-me que ajude Rosella com as sacas de trigo, meu pai. Sou forte o suficiente para isso.
De fato, ela era. Só que isso era mais uma desculpa para poder conversar a sós com a amiga, do que a vontade de realmente ajudar.
Enquanto carregavam as sacas de trigo, as duas moças se entretinham em conversar seus assuntos, Nicolle perguntava:
– E então, vais mesmo te acostar com René?
– Ainda não tenho bem certeza, mas acho que sim!
Respondeu Rosella com ares de malícia.
– Tu és doida, Rosella! Ter a coragem de perder a virtude com um moço qualquer. Se ao menos ele desejasse firmar casamento, mas só te quer para diversões. E depois! Depois quando teu pai arranjar um noivo pra ti, o que vai ser?
– Mas deixa de ser ingênua, Nicolle! A maioria das moças de nossa idade já não são mais virgens há um bom tempo.
Nicolle repreendeu a amiga:
– Até onde eu sei, as prostitutas de nossa idade já não são mais virgens há um bom tempo! E as moças casadas.
– Sim, as prostitutas, as esposas e as palermas!
– Pois se manter a virtude é questão de "ser palerma", eu sou uma delas. Francamente, Rosella! Se atirar a um homem com o qual mal conheces como se fosse um pedaço de carne degustável! E se alguém descobre?! Imagina só o que teus pais não te fariam se descobrirem esse absurdo! É arriscado de mais, minha amiga!
– Pois eles só vão descobrir se tu contares! E eu te mato se fizerdes uma coisa dessa comigo!
– Podes te tranquilizar que não contarei nada. Mas lembra-te: A honra não é uma bagatela, Rosella!
O assunto se seguiu longo, pois Nicolle carregava nos ombros uma saca de cada vez. Esse "René" era filho do açougueiro, um tipo ordinário que só quer a diversão para com as mulheres. Ele era alto e forte, de cabelos avermelhados e um nariz tão esquisito que parecia muito mais com as fuças de um porco do que com um nariz humano, faziam alguns meses que ele e Rosella se sumiam sempre que possível para o bosque que havia atrás da aldeia, passavam horas a fio a beijar-se e a fazerem juras de amor.
Antes de dar tchau para a amiga, Nicolle a advertiu mais uma vez:
– Pense no que te digo, Rosella: A honra não é uma bagatela!
Mas Rosella, apenas sorriu e quando a amiga já ia longe, gritou acenando num tom de deboche:
– Nicolle! Pensas em mim hoje de noite, quando estiver na tua cela, em teu convento!
Nossa Nicolle apenas olhou para trás, séria e deu as costas novamente. Sem dizer uma só palavra, sem mover um só músculo para dar atenção à Rosella.
Fale com o autor