A Origem das Marmotas
1 Capítulo 1 - A Ilha Tamarindo
Notas iniciais
Antes de contarmos como se deu a revolução das marmotas, é importante que saibamos de suas origens. De onde vieram, seus costumes e suas atividades quando ainda viviam em paz na terra das marmotas, também conhecida como Ilha Tamarindo. As marmotas não possuíam uma hierarquia, mas eram guiadas por um líder, que era sempre a marmota mais antiga, a marmota-mor. Elas viviam abaixo do solo, em tuneis subterrâneos, e viviam à base de batatas e outros alimentos que elas trocavam com os outros animais da ilha. Elas cultivavam suas próprias batatas, que eram divididas igualmente entre os membros da comunidade.
Elas viviam em relativa paz consigo e com os outros animais até que num certo dia, elas avistaram estranhas madeiras que flutuavam na água se aproximando da ilha. Era a chegada dos índios papanamericanos. Eles se estabeleceram na ilha e construíram aldeias e casas. Eles trocavam alguns materiais com as marmotas, em troca de suas batatas. Mas certo dia, ao acordarem, as marmotas viram que todas as suas batatas haviam sido roubadas. Elas foram até a aldeia dos índios e descobriram que eles haviam roubado seu precioso alimento. Revoltadas com essa afronta, elas se voltaram contra os índios e os exterminaram, queimando suas casas, destruindo sua prole e saqueando suas aldeias. No entanto, durante a feroz batalha entre as marmotas e os índios papanamericanos (que ficou conhecida como Guerra das Batatas), uma das casas entrou em chamas, pela tocha dos índios, e o incêndio se estendeu até a floresta. Metade da ilha foi consumida pelo fogo, e a outra metade ficou coberta de fuligem, tornando a terra estéril e ameaçando a vida dos animais pela inalação de gases nocivos. As marmotas não tinham mais para onde ir. A batalha para recuperar suas batatas e para manter seu território acarretou a destruição de toda a ilha, e a morte de muitos animais, inclusive marmotas. As marmotas foram até o litoral da ilha, onde tinha menos fuligem e as chamas não alcançavam. Lá, elas sentaram e olharam para o horizonte. A marmota-mor sentou-se na areia áspera e molhada com lágrimas nos olhos, enquanto segurava um saco de batatas, o único prêmio que haviam conquistado com a Guerra.
Ao do pôr do sol as marmotas avistaram algo ao longe. Com o passar dos minutos a silhueta aumentava de tamanho e se tornava mais nítida. Era alguma coisa muito grande e que flutuava na água. Conforme mais se aproximava, mais detalhes elas obtinham. A coisa era enorme, flutuava na água e parecia ser feita de madeira. No centro daquela coisa haviam enormes arvores com folhas brancas esquisitas, que eram amarradas por cipós. Haviam muitos cipós naquela coisa, estranhos cipós brancos e marrons.
- O que é aquilo? Perguntou a marmota-curiosa para a marmota-mor
- É uma arvore gigante que flutua! — Disse a marmota-lenhadora
- Vejam, tem alguma coisa em cima da arvore! — Observou a marmota-observadora
- Acalmem-se, acalmem-se — Pediu a marmota-mor — Esperemos o objeto se aproximar mais para sabermos do que se trata.
Quando aquele estranho objeto chegou mais perto, as marmotas viram que estranhos animais estavam em cima dessa arvore. Eram animais que possuíam uma espécie de pelagem branca, com flores em uma das mãos e estranhos objetos na outra. Seu rosto era muito esquisito, elas tinham narizes pequenos, e alguma coisa vermelha na boca, provavelmente proveniente de algum fruto que haviam comido. Uma delas, que ficava mais à frente, dava ordens às outras, que se apressavam em fazer o que lhes era dito.
“Aquela deve ser a criatura-mor” — Pensou a marmota-mor.
A grande arvore chegou perto à costa e parou. Longos cipós marrons foram descidos de ambos os lados da arvore e as estranhas criaturas desceram por eles.
A criatura que parecia liderar as outras se aproximou das marmotas, que recuaram ante a sua presença, preparadas para lutar ou fugir. A criatura falou algo para as marmotas que não a compreenderam. A marmota-mor se aproximou e disse “Quem são vocês e de onde vieram?” mas a criatura recém-chegada também não entendera o que a marmota disse. Ficaram assim, durante um quarto de dia tentando se comunicar sem sucesso. Foi quando a marmota-mor teve uma ideia. Pegando um graveto, ela desenhou na areia da praia a história delas. Desenhou a vila das marmotas, onde as marmotas viviam felizes e alegres. Desenhou a canoa da qual os índios haviam chegado. E fez uma ilustração da batalha feroz entre as marmotas e os índios papanamericanos. Ela fez um desenho final, ilustrando o seu lar com um grande “x” sobreposto, mostrando que seu lar havia sido destruído. A criatura-mor observou a grande ilha e viu fumaças que ainda subiam altas para o céu e compreendeu a história da marmota-mor e se compadeceu delas. Ela, gesticulando, ofereceu às marmotas que entrassem em seu navio. As marmotas ficaram desconfiadas, mas depois de refletir por alguns momentos a marmota-mor disse para suas companheiras.
“Melhor será se confiarmos nessas criaturas que vieram de além-mar do que permanecer nessa ilha que agora está infrutífera e morta. Se por acaso elas nos traírem, nós sabemos nos virar e conseguiremos lidar com elas. Mas essas criaturas me parecem boas, não penso que nos machucarão. Vamos entrar em seu grande tronco de madeira e procurar um novo lar!”
“Sim, sim, em busca de um novo lar!” — Disse a marmota-aventureira.
“Será que essa árvore é tão segura assim?” — Perguntou a marmota-covarde.
“Vamos fazer uma votação!” — Propôs a marmota-conselheira.
Foi feita uma votação e houve mais votos a favor de ir com as criaturas do que para ficar na ilha, de maneira que resolveram que deveriam sim confiar nessas novas criaturas. A marmota-mor se aproximou da criatura-mor, que lhe estendeu a mão. Se fosse há alguns anos atrás, a marmota-mor poderia ter achado esse gesto ofensivo, mas aprendeu o costume de cumprimentar as outras criaturas com um aperto de mão para firmar um acordo com os índios. Dessa maneira a marmota-mor estendeu sua mão e apertou firmemente a mão da criatura-mor, dando inicio a uma aliança que se estenderia por anos a fio.
Fale com o autor