A Origem da Ordem
3 Miloslav
Depois de muitos dias de uma longa viagem. Os Sete Irmãos retornaram ao coração do reino de Ergálios, Locusa. Uma cidade imensa, toda feita de pedras meio amarelas, que lembravam ouro, e com suas ruas de paralelepípedos. Nela viviam o rei e os membros da corte. Tinha mais de trezentos mil habitantes, com comerciantes por toda parte, que vendiam suas mercadorias que variavam de diferentes tipos iguarias a roupas, bebidas e até mesmo remédios milagrosos para Castigo de Deus.
A Guarda Real patrulhava a maioria das ruas. O castelo do rei se encontrava na parte mais alta e central. As muralhas da cidade eram altíssimas, e cercavam-na por todos os lados. Arqueiros e besteiros ficavam de guarda sobre elas tanto de dia como de noite, sempre haviam homens de vigia por toda sua extensão.
Após atravessarem os pesados portões para entrar na cidade, Alexandru dispensou os outros cinco irmãos que o acompanhavam, para que fossem descansar. Ele achou que fosse melhor ele ir primeiro ver o rei antes de também ir descansar. Milivoj decidiu ir com ele e ambos saíram caminhando na direção do castelo. Os outros trinta e dois cavaleiros que acompanharam os Sete Irmãos na missão também foram se apresentar ao rei.
— Antes de ir para o casarão irei a procura de Lyuben. – Disse Ratko aos demais.
— Como sabe que ele não estará lá? – Pergutou Borislav.
— O sinto naquela direção – apontou para indicar o lado. – Além do mais, bem sei que ele não ficaria nos esperando em casa nesse belo dia de sol. – Enquanto Milos, Boris e Josse caminhavam na direção que dava para o casarão, Ratko foi na outra direção.
Milos, Josse e Borislav caminhavam pelas ruas tranquilamente, os sentinelas da guarda real os encaravam com caras pouco amistosas, mas nada faziam. Tinham ordens de dar aos Sete Irmãos livre acesso na cidade, já que eles serviam a coroa. Pelo menos por hora. Pensou Milos.
— Onde será que Lyuben foi? – Perguntou Borislav.
— Provavelmente está em um prostibulo. – Respondeu Josse.
— Bom então a questão é, se ele estaria com uma prostituta ou se prostituindo. – Completou Borislav. Todos os três riram.
Um homem corvo passou pelos três. Vestia panos negros dos pés a cabeça e usava sua máscara de corvo.
— Você não tem uma máscara dessas Milos? – Perguntou Josse após passarem pelo corvo.
— Sim. – Respondeu.
— Por que você sempre a deixa guardada? – Agora quem perguntou fora Borislav.
— Ela só serve para meter medo em crianças, não protege de peste nenhuma. – Estava desconfortável com aquele assunto.
— Como você sabe disso?
— O antigo dono da máscara que hoje é minha a usava sempre. E, no entanto, morreu. – Pausou a fala por um instante. – Não quero mais falar sobre isso.
Depois de uma longa caminhada chegaram a casa. Era um casarão feito de madeira, de dois andares, com capacidade para suportar bastante gente. Tinha uma grande porta de madeira escura na entrada. O casarão ficava em uma parte mais isolada da cidade, com pouco movimento e sem comércio. Quando se aproximaram da porta Milos deu três batidas nela. A porta foi aberta momentos depois – Milos! – Ellen de súbito saltou para cima dele e o abraçou. Após ela solta-lo ele deu um leve puxãozinho em uma mecha de seus cabelos negros.
— Como estão todos? – Perguntou ele.
— Bem, estávamos todos com saudades e preocupados com vocês. – Ela respondeu.
— Não há com o que se preocupar, estamos todos bem... – Foi interrompido.
— Com quem está falando aí? – Annie surgiu de dentro da casa. Estava com catorze anos e tinha uma pequena cicatriz em sua testa. Logo Kaleb também surgira. Ele já estava com oito anos, tinha cabelos e olhos castanhos, como a mãe.
— Meus pirralhos! – Gritou Borislav. As crianças adoravam sua grande barba.
— Tio Boris! – Annie e Kaleb gritaram e correram para abraça-lo. Enquanto isso, uma velhinha surgia de dentro do casarão.
— Meus filhos, finalmente estão de volta. – Dona Catherine estava surpresa. Era uma senhora de setenta anos, de pele enrugada e cabelos brancos que cuidava da casa e das crianças enquanto os irmãos saiam para as missões. – Aonde estão os outros? – Perguntou.
— Olá dona Catherine. Alexandru e Milivoj foram ao Rei, e Ratko foi atrás do nosso querido Lyuben. – Respondeu Josse. – Sabia que não estaria aqui.
— Esse Lyuben, sempre arrumando trabalho para os outros. Como é que Ratko aguenta ir atrás dele toda vez – ela disse. – Quando chegou sozinho aqui pensei que tinha fugido da batalha e voltado para casa.
— Lyuben não é covarde para fugir. – Annie bateu o pé no chão para dar força as suas palavras, mas foi ignorada.
— Vamos entrar, preciso dormir um pouco. Estou cansado por causa da viagem. – Disse Boris. E todos entraram na casa.
Miloslav foi direto para a banheira do segundo andar. Tinham três banheiras ao todo na casa, um luxo que só tinham por servirem bem a coroa. Após terminar seu banho se dirigiu para o seu quarto, nele havia mais duas camas além da sua, uma de Ratko e a outra de Lyuben, colocou uma roupa mais confortável e se sentou na beirada de sua cama. Ficou refletindo por uns instantes, depois olhou para o seu baú encostado na parede do fundo do quarto. Milos mantinha o baú sempre trancado, era um baú antigo de madeira, sem nenhuma beleza. Se levantou, pegou a chave que escondia dentro de uma de suas botas e abriu o baú. Dentro tinha um manto negro, um par de botas e de luvas de couro, um sobretudo com capuz e a máscara de corvo negra. A máscara era de couro e tinha visores de um vidro escuro que impediam que se vissem os olhos de quem a usava. Dentro do baú ainda tinha alguns livros médicos e de magia. Miloslav ficou observando a máscara de corvo por um longo tempo.
— Ainda se lembra dele? – Ellen o surpreendeu. Fitava-o com seus grandes olhos verdes. Ela era tão jovem quanto ele.
— Sim. – Ele respondeu.
— Eu senti sua falta.
— Eu senti a sua também.
Ela entrou no quarto e se sentou ao seu lado.
— E essa coisa, o que vai fazer com ela? – Falava da máscara. – Pelo que eu saiba já faz anos que não quer seguir o caminho de Bogdan.
— Desisti disso depois da morte dele. Nunca o entendi direito. – Estava angustiado.
Miloslav foi criado em um mosteiro, mas devido aos maus tratos que sofria, com dez anos fugiu de lá e ficou sem rumo. Conheceu Ellen, que era só mais uma órfã perdida na cidade de Caligineus, e ficaram juntos desde então. Pouco tempo depois Bogdan os salvou das ruas, graças a ele não morreram de fome. Ele ainda compartilhou com eles seus conhecimentos medicinais e os ensinou um pouco de leitura também.
Bogdan era um corvo que tratava das vítimas de Castigo de Deus. Cuidou deles dois até ele mesmo contrair a doença e falecer.
Depois da morte de Bogdan, sete anos atrás, Miloslav descobriu que tinha um poder que só entenderia quando conhecesse Alex. Descobriu esse poder quando teve que salvar Ellen de alguns homens que a atacaram. Os dois foram encontrados tempos depois por Alexandru e os demais integrantes dos Sete Irmãos, que naquela época, antes de Milos ser um deles, eram apenas seis.
Milos e Ellen não tinham sobrenomes, pois não tiveram família quando crianças.
— Ainda não acredito que a peste o levou. Pelo menos Alexandru nos tirou de Caligineus. – Dizia ela olhando para Milos.
— É. Alex se tornou mais que um irmão para mim.
Depois que ambos ficaram em silêncio ela o abraçou. Milos retribuiu com um beijo em sua testa.
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