Notas iniciais
Outro capítulo meio esquisito. Pelo menos só foi até esse mesmo que ficou nesse estilo... Enfim, aproveitem!

O dia seguinte foi agitado: Daniel e Jane estavam numa barraca de galhos e folhas próxima à praia. John, Lúcio e Claire estavam bem próximos à Ilha dos Assassinos, mantendo o acampamento numa falésia. Com todo o grupo reunido, foram se dirigir, dessa vez juntos, para a praia onde seus barcos estavam parados e curiosamente intactos. Embarcando Madeleine primeiro e levando um pedaço da roupa de Kain, o furioso, eles voltaram em silêncio para Uranos.

Atravessando as ruas concêntricas, todo o grupo de 11 pessoas adentrou o Comitê e reportou o acontecimento na ilha. Os superiores ficaram em polvorosa quando escutaram sobre as Reflexões Vazias e o desaparecimento do curandeiro. Eles os dispensaram, mas deixaram claro que os iriam contatar para a conclusão do contrato.

– Então isso é um adeus... – disse Vergil quando ficaram frente a frente na praça central. O monumento Toque do Céu ainda fornecia bastante vento, mas não havia raios de sol. Poucas pessoas estavam no local, com predominância de crianças.

– É apenas momentâneo. – disse Lillian. John, Lúcio, Daniel e Madeleine estavam logo atrás dela. – Vão nos convocar se houver alguma notícia. Até lá, tchau.

Eles apertaram as mãos e se separaram. Com os 800 Stips para cada um, os garotos conseguiram comprar armas e vestes novas. Resolveram passar mais um dia apenas, para irem embora assim que amanhecer o seguinte. À noite, na área comum da hospedaria, eles estavam sentados e conversando.

– Não acho prudente irmos logo no dia seguinte – disse Vergil.

– Só firmamos o contrato para a expedição na ilha. Foi o combinado no Comitê. – respondeu Claire.

– Mas--

– Lembra que só viemos por aqui para nos recuperarmos? – disse Cole.

– Sim, mas--

– Aconteceu algo quando estavam por lá, Vergil? – inquiriu Suzan, com certa hostilidade.

– Não aconteceu nada – respondeu quase imediatamente – O que eu acho errado é irmos sem dar nenhuma explicação. – e continuou, vendo que Kenneth e Claire iriam lhe interromper – Eu sei que queremos fazer algo maluco, mas eu não acho justo ter que envolver os outros nisso.

– Mas só temos essa opção – disse Jane, desconfortável.

– Certo. Eu só espero que tudo acabe bem. – e subiu para seu quarto. Os outros foram pouco tempo depois.

As paredes ainda tinham o cheiro de tinta, o chão um resquício de poeira. O quarto havia sido reformado a pouco tempo, mas o fluxo intenso de pessoas na hospedaria não permitia uma limpeza mais profunda. Vergil deixou ao lado de sua cama de solteiro, em cima do criado-mudo, sua roupa comprada.

O tecido era mais leve que sua anterior, mas era maior. A camisa de cor branca possuía seis listras finas azuis cruzando em diagonal toda a extensão do peito, circulando até as costas. As mangas eram mais longas, cobrindo até metade da mão, deixando apenas os dedos de fora. A calça, de cor azul, era mais folgada, sendo segura na cintura por uma faixa de tecido verde, com o nó para trás. Um bastão de um metro e meio e de metal estava apoiado na cabeceira da cama, juntamente com uma adaga de lâmina reta embainhada e pendurada.

Ele se deitou, olhando para o teto e pensando sobre tudo o que havia acontecido, e tão rápido: seus amigos perdidos na Lua Crescente, criaturas nunca antes vistas por ele e um novo time que havia aprendido a confiar. Nunca havia se sentido tão angustiado ou impotente quanto lá. Haviam coisas que seus pés não podiam atacar. Foi dormir determinado a cobrir essa deficiência.

No dia seguinte, os garotos saíram da cidade quando ainda era escuro. Bem ao longe se via o sol começando a iluminar o dia. Rumo à floresta, Vergil teve um mal pressentimento, mas nada aconteceu enquanto eles viam as paredes elevadas ficando tão pequenas a ponto de sumirem com a entrada na floresta. Resolveram seguir uma rota comum para chegar mais rápido ao castelo de Alucard. Com o passar da hora, o clima foi ficando nublado, chovendo logo em seguida. Eles correram até encontrar uma copa mais fechada, esperando diminuir a intensidade. Algumas pessoas na estrada fizeram parecido.

– Tem certeza que não há nada a frente, Jane? – perguntou Kenneth.

– Deixe-me ver... – e puxou a grande folha, com cuidado para evitar molhar. Usando a nova capa de Cole sobre sua cabeça, ela estimou a distância que andaram junto com onde estavam a pouco tempo, localizando-os em poucos segundos no mapa. Seguindo a rota, ela disse – Logo à frente tem os montes de Mithral e o Pico das Almas. Há uma pequena vila marcada pouco antes de Alucard.

– Quanto tempo até chegarmos lá? – indagou Suzan.

– Acho que um dia se formos rápidos.

– Então partiremos agora. – disse Claire — Vamos ficar todos juntos o máximo de tempo possível.

A trilha ficou lamacenta quando andaram mais cinquenta metros. A chuva não diminuiu sua força, castigando as costas dos garotos, que já estavam encharcados e prejudicando os que usavam armadura. O forte cheiro do solo povoava suas narinas quando pisavam forte para vencer a elevação cujas árvores acompanhavam. Um relâmpago rasgou o céu e soou poderoso, tremendo alguns galhos. Não sabia por que, mas o lutador deu um sorriso. Apenas para ele, pareceu um bom presságio, apagando a dúvida que sentia desde que saiu da cidade dos mercenários.

Apesar disso, a noite não foi tranquila. A chuva diminuiu um pouco, mas as ondas de intensidade variante não mostravam que iam parar. Uma tenda de galhos e lona serviu para passarem a noite mais ou menos secos, apesar de o vento não permitir. Quando conseguiram dormir, o dia já estava clareando, mas a água parara de cair. Mesmo com quatro horas de sono, a flora do local e o ambiente de Ryokun permitiram a recuperação do cansaço. Após a subida do monte, ao longe, se via boa parte da extensão que teriam que percorrer: os montes pareciam espinhas projetando da pele lisa que eram as planícies Mithral. Faixas variantes de solo cinza elevavam o terreno, com nuvens altamente brancas circundando o cume da montanha mais alta. De longe, aparentava ser um véu que cobria uma dama incomum, mas eles sabiam que se tratava do Pico das Almas, a segunda maior elevação de Ryokun. O local era repleto de rumores e até fatos confirmados de que a Energia não fazia nenhum sentido por lá, provocando os efeitos bizarros que variavam desde uma pessoa que fora pendurada em pleno ar e foi forçada tanta Energia nela que a mesma se transformou na própria até de uma delas que simplesmente desapareceu enquanto dormia, como se nunca houvesse estado lá.

Desceram a passos largos o monte, deixando a floresta para trás em poucos segundos. No vale central, algumas poucas árvores de galhos secos e retorcidos completavam a paisagem de escassez de Mithral. Mais ao norte avistaram um assentamento marcado no mapa. Com ajuda de Claire, confirmaram que mais à frente não havia sequer uma pessoa ou animal. A estrada quase que tomada pelo solo demarcava um caminho que, mais adiante, se via uma placa tosca de madeira podre e furada. Em letras desbotadas lia-se “Menorad” ou “Mamornl”, não tinham certeza. A comunidade que se estendia à frente, num caminho ondulado, estavam em ruínas. Um lago de água escura era visto mais ao alto, escorrendo num estreito filete de um dos montes e descendo e alargando numa pequena lagoa ao lado de duas grandes residências mais ou menos inteiras. Na parte sul do assentamento estava o Pico das Almas, com uma entrada um pouco escondida pelo alto mato presente. Pelos lados, só a planície de Mithral se estendia.

– Que lugar convidativo... – comentou Jane.

– Estranho é que ainda é de manhã, mas está escuro como se fosse de noite. – disse Claire. O céu parecia estar com raiva desse local em especial, pois uma nuvem bem escura pairava sobre o assentamento, mesmo com o vento forte e constante mandando as outras para longe. Nas imediações, permanecia claro e com poucas nuvens.

– Vamos apenas passar direto. Não gosto daqui – disse Vergil, um pouco histérico.

– Qualé Vergil? Tá com medo? – disse Cole, com claro deboche.

– Estou com um mal pressentimento...

– Kenneth, venha comigo: preciso confirmar se não tem nada por aqui.

– Não confia na minha Percepção, é? – disse Claire, levantando uma sobrancelha.

– Não é isso. Você disse que não havia pessoas ou animais, mas não falou nada sobre monstros.

– Hm... Verdade. Eu não consigo detectar mentes de monstros quando estou muito longe. Mas por que Kenneth?

Jane hesitou por um segundo, o rosto ficando rosado, quando disse:

– Ele pode segurar algum inimigo se eu tiver que mandar uma mensagem.

Não convencida, mas sabendo do que se tratava, Claire assentiu, deixando a especialista e o acólito se esgueirando por trás de uma das ruínas de residência, sumindo logo depois. Os quatro restantes esperaram, com a guerreira sondando os movimentos dos amigos.

Jane e Kenneth caminhavam lentamente, com armas em mãos e atentos aos arredores. Eles pararam na metade da rua quando ela sinalizou para ficarem imóveis. Havia percebido algo. Sua visão não mostrava nada, mas sua Energia havia captado sinais fracos dos rastros ali deixados. Ela engoliu em seco, mas caminhou o mais silenciosamente possível, apertando com tanta força a adaga de lâmina curva e preta que seus dedos ficaram brancos. Kenneth estava preparado com uma maça redonda de metal maciço na mão, pronta pra ser jogada no que ela tivesse detectado. Ela soltou um suspiro de alívio e voltou a caminhar mais rápido, chamando o acólito. Cerca de 15 minutos depois, os dois voltaram.

– Mamornl ou Menorad, não sei, provavelmente está abandonada desde a Viagem.

– Tanto tempo assim?! – exclamou Suzan.

– As construções datam de 100 anos, então sim. As trilhas mostraram que essa vila é usada como rota de passagem para mercadores, então não tem perigos imediatos.

– Imediatos? – disse Vergil.

– A menos que uma escolta ou ronda venha por aqui, está tudo bem.

– O que iremos fazer, afinal? – perguntou Cole – Temos que ter uma estratégia para avançar até Alucard. E duvido que conseguiremos se não descansarmos bem. Ainda tô cansado por causa daquela chuva.

– Acho melhor ficarmos até ter noção da distância que nos separa de Alucard, e como Cole sugeriu, montar uma estratégia para avançar. Jane, se não se importa... – disse Claire.

– Tudo bem.

– Eu vou com você – disse Kenneth, e acrescentou imediatamente – P-pra cuidar da proteção.

A especialista deu um sorriso ligeiro e assentiu com a cabeça. Ambos sumiram no mato elevado, seus passos emudecendo subitamente. Os quatro pararam por alguns segundos até que Vergil disse:

– Vou treinar. Preciso ter a certeza que ainda sei lutar com armas.

– Vai sozinho mesmo? – disse Claire.

– Hm... É.

– Vou me juntar a você – disse Suzan, dando um passo à frente. Vergil recuou um pouco em instinto.

– M-mas--

– Posso ajudar. Tenho bastante experiência com isso.

– Certo – respirou um pouco e continuou – Vi um local mais aberto pra lá. Err... Vamos?

Suzan começou a caminhar, e Vergil se adiantou para o local. Nisso Cole e Claire deram risadinhas escondidos e resolveram seguir o lutador e a espadachim. As vielas do assentamento eram sinuosas, feitas de blocos graníticos depositados. Mais adiante, acharam a área maior que Vergil mencionou, com ruínas pequenas de uma casa, próximo ao paredão que dava acesso ao Pico das Almas. No que pararam de se mover, Suzan foi sacando a espada lentamente.

– Mas você não ia ver se eu estava fazendo correto?

– Sim, eu vou ver. Mas na prática.

– Ai, ai, ai... – reclamou Vergil, coçando a cabeça e bagunçando os cabelos mais ainda – Já que é assim, venha com tudo. – Suzan deu uma risada curta.

– Eu já pretendia.

E correu, não dando brecha para o lutador puxar a arma. Ela esticou o braço numa perfuração, e Vergil só pode defletir o ataque sacando rapidamente a adaga com a mão esquerda, dispersando faíscas. O ataque fora tão pesado que ele foi desviado.

– Caramba! Você tem braços de titânio por acaso? – disse Vergil, massageando o pulso. Ela continuou sorrindo, se divertindo com a situação. Dessa vez, o lutador partiu para o ataque, guardando a adaga enquanto sacava o bastão das costas, girando o corpo para obter o máximo de força com o golpe. Suzan levantou a parte plana da espada para bloquear, mas seu bloqueio não se firmou a tempo: ela foi jogada para o lado, caindo de costas. Ele sabia que era apenas uma pequena vitória, por isso manteve o bastão seguro como uma lança, esperando ela se levantar. A espadachim bateu a poeira das costas e pernas e se engajou no combate. Sendo claramente mais lenta, levava golpes de bastão com certo ritmo, porém não mais devido à força que cada corte, estocada ou pancada de sua espada dava no lutador, retardando sua rajada. Num dado momento, ela prendeu o bastão dele no chão com um pé e chutou com o outro. Ficou impressionada com o desvio que ele fez, girando os calcanhares na mesma direção do ataque e atacando com as costas da mão. Ele parou o ataque e recuou, puxando a adaga com a mão esquerda novamente, esperando.

– Por que parou o ataque?

– Pelo mesmo motivo que você atacava só com a parte plana da lâmina.

– Humpf, engraçadinho – disse Suzan bufando, mas deu um sorriso depois. Eles se sentaram juntos no chão, olhando bobos um para o outro.

– Odeio interromper o clima de vocês, mas temos uma ronda vindo para cá. Melhor nos escondermos – disse Claire, saindo da cobertura.

Vergil olhou feio para ela, mas assentiu. Ficou próximo à entrada da montanha, enquanto Suzan ficou nas ruínas da casa. O grupo olhou mais adiante e viu um grupo de cinco pessoas montados em cavalos. Um deles era bem familiar, com cabelos pretos curtos e oleosos, um jaleco manchado de terra e um olhar distante. Tinha porte físico normal e parecia estar liderando. O que trafegava por sua direita usava uma armadura de metal grande e reluzente, com um capacete fechado cilíndrico. Uma grande espada de lâmina larga estava em suas costas. Seu parceiro da esquerda tinha um escudo em forma de pipa nas costas, com uma maça redonda na cintura. Trajava um peitoral de aço. Os dois que andavam mais atrás estavam em cavalos um pouco menores. Usavam arcos curtos presos ao peito, uma aljava no cavalo e nada mais que uma roupa comum e uma capa camuflada.

O lutador tentou falar com a Sensitiva mental, mas sem sucesso. Ela estava concentrada lendo as intenções do grupo que resolveu parar no meio do caminho. Ele olhou para os lados, preocupado com a possibilidade de Jane e Kenneth surgirem do mato e ocasionar um ataque. Por fim, sussurrou para Suzan.

– Eu vou atrair a atenção deles para longe.

– É perigoso demais. Espere Claire terminar.

– Não dá. Se os dois voltarem agora...

Nesse momento, o mato espesso se moveu. Imediatamente, os dois arqueiros sacaram as armas e apontaram para o local. O cavaleiro da maça pegou o escudo e ficou olhando. O coração de Vergil deu um pulo quando as flechas voaram e atingiram o que estava se mexendo. O movimento parou. Nesse momento, Claire falou algo em sua mente.

– Não se preocupe; não eram eles.

– Ainda bem.

– Tenha paciência. Eles vão embora daqui a pouco.

De fato, o grupo à cavalo resolveu continuar o caminho. Quando já estavam passando pela rota lateral do Pico, eles pararam.

– Essa não... – disse Claire.

– O que aconteceu? – sussurrou Suzan.

– Eles nos sentiram.

– Como assim?

– Nós temos Energia demais para não ser percebida.

Os cavalos galoparam de volta à vila, encontrando primeiro Cole. O mago não recuou perante aos olhares inquisitórios dos viajantes.

– O que faz aqui, soldado? – perguntou o de espada larga.

– Sabe como é, andando até a cidade.

– Uranos é muito longe daqui... O que veio fazer neste cemitério? – disse o homem de jaleco.

– Como disse, andando até a cidade de Alucard.

Eles comentaram entre si, onde Claire e Suzan (que não tinham sido descobertas ainda) escutaram. Vergil andava furtivamente atrás dos arqueiros, esperando o comando. O sucesso do plano de Cole dependia da reação deles.

– Não temos nenhuma informação de transferência de contingente, ainda mais de só um soldado. – disse um dos arqueiros.

– Eu fui transferido para Alucard recentemente. Talvez não tenha chegado ainda.

– Hmpf. Insolente: você só pode estar mentindo. Se lorde Alucard chamasse uma pessoa só, ele teria ido pessoalmente buscá-lo.

– Curioso... – e baixou a cabeça. O gesto foi o gatilho que precisavam: o lutador golpeou no queixo de um arqueiro e deu um choque no outro. Os dois cavaleiros puxaram as armas, e em volta do usuário de maça sua Energia fluía através das aberturas da armadura. Suzan saltou gritando da cobertura, a espada envolta em chamas violentas, e Claire fez com que os arqueiros nocauteados não acordassem tão cedo.

– Flamma Ensis! – a espada dispersou chamas quando colidiu com o escudo de um dos cavaleiros. Este retaliou, golpeando com força nas costelas da espadachim. Ela foi jogada para o lado, parando pouco antes de acertar a montanha. Pôs a mão no flanco esquerdo em reflexo, mas não quebrou nada. Ela reajustou a postura e avançou novamente. Correu numa estocada, sabendo que o inimigo iria bloquear com o escudo. Pouco antes do impacto, ela mudou o ângulo da lâmina para que descesse. Porém, o guerreiro bateu no ataque, desarmando-a. Quando a maça estava pouco antes de lhe acertar, defletiu com a mão envolta em chamas, explodindo de volta no impacto. Correu e recuperou sua arma, segurando com uma mão e por trás das costas. O fogo na lâmina estava mais intenso, e ela sorriu. Uma coluna de chamas se formou quando ela fincou a arma no chão.

O guerreiro deu um passo para o lado, mas outra coluna emergiu logo abaixo dele, atingindo seu braço do escudo. Largando a defesa, ele correu em direção a Suzan, agora desviando com facilidade dos túneis de chamas que apareciam no chão. Sua maça zuniu ao cortar o ar violentamente, quase deixando uma imagem atrasada. Ciente do perigo, Suzan procurou desviar enquanto bloqueava. Faíscas voaram ao colidirem os metais.

– Retardari Motus! – a voz feminina reverberou por toda a armadura. Uma guerreira igual começou a aparecer em seus movimentos, logo depois que se movia. A espadachim estava tendo dificuldades para defender dos ataques. Sua inimiga era bastante rápida, e com dois ataques batendo a cada vez que movia o braço estava começando a esquentar sua testa, primeiro sinal de esgotamento de Energia. Sua tentativa com Alteração não deu certo, e sua Percepção era ruim. Não conseguia prever os ataques nem uma forma de contra-atacar. Só conseguiu ter uma ideia perto de ser acertada com força. A maça desceu imponente, e ela foi forçada a se ajoelhar. A guerreira preparou um ataque parecido como rebatedores de baseball fazem quando Suzan viu a oportunidade.

Ela rolou para o lado e desferiu um corte letal em arco, arrancando uma parte da armadura da perna fora. Girando o corpo enquanto levantava, aplicou um corte ascendente em espiral, desarmando-a. Por fim, correu para estocar. Nesse momento, a guerreira se recompôs e buscou o escudo no chão, desviando no processo. Em sua mão direita livre, Energia amarelada começou a fluir. Uma esfera amarela voou rapidamente e atingiu Suzan no peitoral. Ela foi lançada alguns metros atrás, batendo as costas na parede da montanha. Pedras começaram a rolar pela descida, mas pararam logo depois. A espadachim desviou de mais duas esferas e sacou o arco, disparando duas flechas contra um dos ataques. Eles explodiram no ar, e por trás da fumaça formada, Suzan havia saltado e girado o corpo num golpe descendente com o peso do corpo, a espada totalmente vermelha. O ataque partiu todo o peitoral de aço em dois e incendiou a roupa por baixo, com uma onda de calor que dizimou a ruína de uma casa próxima. A inimiga corria para os lados, tentando se livrar das chamas, desaparecendo na mata logo depois. A arma de Suzan ficou ligeiramente deformada, o que a preocupou, mas voltou sua atenção para a disputa que Vergil e o guerreiro de armadura completa estavam tendo.

O lutador parecia estar se divertindo. As balançadas violentas da espada larga de duas mãos do inimigo faziam uma forte ventania, mas eram lentos. Vergil desviava sem problema algum, se aproximando assim que ele atacou de um jeito que o desequilibrou. Encostou a mão no peitoral do oponente quando este disse:

– Peguei...

Uma forte cotovelada lançou o lutador a muitos metros acima. Se recuperando no ar, Vergil viu, incrédulo, o homem saltar quase na sua altitude e girar a espada cortando para cobrir os metros restantes. Com o bastão, ele tentou defletir o ataque, mas era muito pesado. O impacto o jogou com violência para o chão.

– Fulgur Continuum! – um relâmpago vermelho se conectou ao chão por sua mão, diminuindo a velocidade de queda com uma emissão constante e violenta. O guerreiro desceu num golpe perfurante. O menino desviou com um giro corporal e avançou instantaneamente, golpeando várias vezes. Seu inimigo bloqueava com dificuldade alguns e levava outros, porém não tomando grandes danos devido a sua armadura completa e a falta de peso nos ataques do lutador. Este parou a rajada para recuperar o fôlego.

– Acabou o gás, mosquito. – e avançou preparando um corte circular. Sem tempo para respirar, Vergil tentou desviar, mas foi acertado com o cabo da arma, caindo ao chão. Rolou e recuperou a postura, apesar de ainda estar cansado. Odiava isso, mas não sabia porque sua resistência nesses 2 anos de treino não havia aumentado. Prestou atenção em si. Ainda tinha Energia, mas teria que fazer o inimigo usar a dele para ter uma chance. Provocou-o com o golpe de bastão na nuca, onde ele se desequilibrou e rodou a grande espada. O lutador continuou agora atacando no joelho dele, abaixando para evitar mais um ataque. Puxou o corpo para o lado quando atingiu o cotovelo, fazendo-o soltar uma das mãos. Ele começava a respirar mais fundo, mas seus golpes indicavam que não ia acontecer tão cedo.

– Fortituto Augere!

Vergil recuou até a montanha, onde seu inimigo atingiu o chão com tamanha força que pedaços de pedra voaram para os lados. Seus braços estavam com uma aura vermelha, circulando como um tornado. Segurava a larga espada gigante em uma mão só e deixava a outra em forma de punho. Cobriu a distância entre ele e o lutador tão rápido que ele se surpreendeu, mas conseguiu desviar a tempo. O corte gerou uma lufada de vento que o aturdiu tempo suficiente para ser acertado com violência no flanco direito. Vergil sentiu muita dor, enquanto voava através das construções de Menorad e parava com o atrito do chão. Com o gosto de sangue na boca, o abdômen em chamas e doído, o lutador foi se levantando quando seu inimigo veio correndo em sua direção, a espada em riste, pronta para empalá-lo. Seus reflexos estavam lentos, não conseguia pensar em nada que fosse tirá-lo da situação. Sua visão estava embaçada, sua respiração estava pesada, mas sua Energia não estava afetada nem um pouco. Na verdade, ela parecia estar mais forte do que no começo da luta.

Ele agora estava a menos de um metro, a lâmina afiada com Energia amarela a cobrindo, apontada diretamente para seu abdômen. De repente, um pico em sua Energia o fez se mover. Conseguiu se virar para o lado enquanto se lembrava de uma dos contra-ataques que seu instrutor preparou justamente para ele de Alteração. Sua voz soou rápida e forte como um trovão.

– Fulgetra Ascendo! – jogando o braço de baixo para cima, uma coluna de raios se elevou do solo e acompanhou o movimento, acertando a espada e eletrocutando o inimigo, que a largou. Girou o corpo pelos calcanhares para se alinhar e juntou as mãos na frente do rosto, uma à frente da outra.

– Fulgetrum Crinitae!!! — o guerreiro tentou resistir ao projétil relampejante do tamanho de um carro segurando-o com as mãos nuas. Seu corpo tremia, mas ele foi capaz de defleti-lo. A esfera de raios acertou a montanha, e pedras começaram a cair.

O guerreiro olhou surpreso. Vergil aproveitou a brecha para correr e terminar o que começou. Vendo que no corpo-a-corpo não teria chance, concentrou o máximo de Energia que conseguia controlar na perna e disparou o Fulgetra Ensis Duo. As lâminas elétricas voaram e cortaram onde atingiram, provocando uma hesitação frente ao sangue perdido. Aproveitando, ele continuou pressionando com as pequenas esferas do Fulgur Sera enquanto que na outra mão estava concentrando bastante Energia. O guerreiro bloqueava com as mãos à frente do rosto, mas ainda avançava. Por sorte, as esferas estavam surtindo o efeito que desejava, assim dando tempo para ele gritar:

– Fulgur Iaculat!!! – um relâmpago brotou do meio da palma da mão de Vergil e instantaneamente traçou um arco até o capacete do inimigo, provocando um impacto violento que o arremessou para a montanha, fazendo cair mais pedras.

O mago mantinha uma batalha estratégica após ser atingido por alguns frascos de efeito pelo homem de jaleco sujo e marcado. O campo estava marcado de gelo, fogo e cinzas. Cortes profundos estavam nas cercanias, além de arbustos arrancados com a força dos golpes de Cole. Ele respirava mais rápido, preocupado com o que tivesse respirado estar lhe afetando. Decidiu por finalizar o mais rápido possível:

– Aer Impetus! – um volume de ar brotou da varinha e impactou no homem. Este, por sua vez, jogou um frasco na direção do ataque, e com um estalar de dedos, criou um grande escudo de gelo flutuante, bloqueando a investida de ar. O barulho de estilhaçar precedeu uma garrafa que explodiu em chamas grudentas, fazendo o mago ter que cortar às pressas sua capa.

Cole estava com raiva, mas sua consciência estava tendo dificuldades em permanecer ativa. O que quer que ele tenha jogado estava ficando mais forte. Respirou pesadamente enquanto o inimigo avançava para golpeá-lo com um frasco de líquido amarelado, atingindo em cheio seu peitoral. Ele foi arremessado ao chão, enquanto o ácido consumia sua camisa e parte da pele. O alquimista segurou-o pelo colarinho e disse:

– Salve, Jason.

Ele não entendeu do que se tratava, mas usou de toda a força para se soltar. Percebeu que seu inimigo era fraco fisicamente, lhe dando uma ideia: posicionou os punhos próximos ao rosto e foi avançando a passos ritmados. O inimigo foi recuando, percebendo a ideia. Jogou um frasco que estalava no ar e um tubo de ensaio o impactando, formando uma nuvem de tempestade. Atirou dois frascos azuis-claros na direção do mago e da nuvem, criando uma geada. Cole desviou com dificuldade, mas o chão virou gelo instantaneamente, prendendo-o no local. O alquimista soltou um sorriso, enquanto a nuvem disparava blocos de gelo do tamanho de bolas de futebol pelo campo, alguns prestes a atingir o mago. Este desviava dos projéteis com relativa facilidade, apesar de não o estar fazendo sem cansaço. Até que um relativamente maior não seria possível. Ele então apontou para cima e sussurrou:

– Lamna Clausus...

Um disco quase invisível de ar altamente pressurizado girava com muita velocidade, cortando o granizo e impedindo de acertar o mago. Nisso, Cole juntou novamente os punhos à frente do rosto e socou no ar com força, vendo que o alquimista já estava com frascos voando no ar. Uma lufada de vento explodiu o conjunto. Irritado, o homem de cabelo oleoso sacou um chicote do jaleco: este possuía espinhos por toda sua extensão, e na ponta uma pirâmide de pedra verde-escura. Com um estalo, o chicote zuniu em sua direção. Cole socou em direção ao ataque, mas a lufada não foi suficiente para deter a estocada. Desviou por pouco do ataque, golpeando logo em seguida. Ele repeliu girando a arma ao seu redor. O mago correu em zigue-zague, avançando e socando várias vezes no caminho. A arma de espinhos estalava, destruindo as lufadas com movimentos precisos.

– Navitas Flagello! – o chicote ganhou uma aura amarelada enquanto fazia um arco na trajetória até seu alvo.

– Arcus Virga! – o corte lateral com a varinha impediu dos espinhos lhe atingir. Cole repetiu o ataque logo depois, forçando-o a recuar. Continuou o pressionando com os golpes em arco da varinha, até que o alquimista parou de recuar e conseguir segurar os ataques. Ambos pareciam concentrados, equilibrando a luta.

O mago começou a acumular Energia na mão livre assim que percebeu movimentos sutis, porém rápidos de seu inimigo meio à troca de ataques. O deslizar de pedras cessou a rajada, forçando o mago a mover-se quando viu esferas de couro voando no ar. O zunido de chicote foi a única coisa que ouviu quando o conteúdo caiu no chão, começando a vibrar e emitir uma leve fumaça laranja. O alquimista projetou um feixe de Energia de sua mão, atingindo o líquido viscoso e transparente. Cole nada podia fazer a não ser juntar ainda mais Energia na mão para que sua estratégia desse certo, mesmo que na sua frente se formava uma criatura de uns 5 metros de altura, de cor meio esverdeada, repleto de bolhas e destroços. Possuía uma grande cabeça de algum felino, asas de morcego do tamanho dele, chifres curvados de bode e metade da parte de trás de cavalo. Duas lentes côncavas e pretas eram os olhos, e duas vigas de madeira se projetavam do cotovelo das patas dianteiras.

Poeira subiu logo que a criatura atacou, atingindo algumas ruínas momentos antes de onde Cole estava. Seu fluido de Energia cinza se movia nervosamente, quase que expressando a perplexidade no rosto de seu usuário. Sem tempo de descanso, o monstro saltou para lhe pegar com as mandíbulas. O homem de jaleco ria enquanto brandia o chicote, atiçando sua criação. O garoto desviava quando percebia claramente o ataque e defletia quando sabia que não iria conseguir a tempo, até que sua mão livre estava com a quantidade certa de Energia. Respirou fundo e gritou:

– Turbo Tempestas!!! – e bateu com a palma no chão. O efeito foi imediato: correntes de ar começaram a circulá-lo, se estendendo até o céu. O vento ganhava intensidade quando ele retornava à posição ereta. Como no começo, o inimigo não esboçava nenhuma reação, nem mesmo quando Cole apontou a varinha em direção à sua criação, retardando seu movimento e cortando com grandes pressões. Ela tentava se reformar, porém a violência da tempestade de ar e poeira giratória a mantinha em apuros.

Toda a Menorad tremia, com pedras, poeira e madeira levitando e orbitando em torno do furacão. Suzan e Claire se seguravam numa das colunas, os cabelos chicoteando o ar, os olhos semicerrados e a armadura estalando. O lutador já não tinha a mesma sorte: logo após atordoar seu inimigo, a ventania o jogou para o alto, em meio ao forte tornado cujo centro era o mago. Seu ataque continuou até que o monstro foi se desfazendo, mesmo com o alquimista fornecendo mais Energia para ele manter-se coeso. E então, Cole apontou a outra mão na direção do inimigo. As correntes de ar pararam de girar a seu redor e voaram cruzadas em direção ao homem do chicote, que tentou bloquear, mas sua arma não foi suficiente para impedir que ele fosse atingido, abrindo cortes em vários lugares e o arremessar três casas e duas árvores atrás.

Vergil ainda estava no ar, mas com a parada do furacão, ele conseguiu estabilizar a queda esticando os braços e pernas. Ao chegar próximo do chão, Cole o parou com um colchão de ar assim que se acalmou.

– Precisava ter me jogado?!

– Bem — tentou esconder o riso, mas estava difícil – Você tá inteiro, não está?

– Arg! – andou a passos pesados até a base da montanha e ficou lá parado, de braços cruzados, olhando para o topo. Suzan chegou perto dele logo depois e perguntou, com ar preocupado.

– Você está bem?

– Estou, só... – bateu com o punho na pedra e expirou – Droga...

– Vamos, precisamos continuar. – disse Claire, um pouco mais ao longe. – Jane e Kenneth já estão lá.

– Como assim? Estamos tão perto? – indagou Cole.

– Nem tanto. Tem mais ou menos 10 quilômetros.

– Eles avançaram muito rápido – comentou Suzan.

– Não podemos ficar para trás. Claire, guie o caminho – disse Vergil.

– Com prazer.

Notas finais
Putz, ficou enorme O.o Eu não esperava 5 mil palavras; uma conquista e tanto ^_^ O próximo capítulo deu um certo trabalho, mas pelo menos eu voltei a pegar embalo para escrever. O décimo ainda não saiu, mas depois dessa semana eu devo postá-lo.